
Sign up to save your podcasts
Or


A realidade já não é mais a mesma. A verdade se redefine pelos olhos do receptáculo, expondo grandes falhas em toda a filosofia sobre o tema ao se inserir um novo fator como a IA e as redes.
Os historiadores do futuro terão um trabalho interessante.
A alma morreu. Nem o corpo saiu ileso
Via-se, em cada um, desilusão e desespero
[...]
Há resgate do indivíduo em meio à multidão?
Perguntaram como salvar a alma da condenação
— P. Welter1
O ano era 1913. Em sua fazenda, o engenheiro agrônomo francês Maximilien Ringelmann havia testado algumas ideias para melhorar a produtividade da mão de obra que contratava, o que acabou se tornando um experimento que seria publicado naquele ano.
Ringelmann pediu a voluntários (homens jovens) que puxassem uma corda o mais forte que pudessem, primeiro sozinhos e depois em grupos de dois, três e oito pessoas. Ele utilizou um dinamômetro (instrumento que mede a força física) para registrar a pressão exata exercida em cada tentativa.
Cada homem conseguiu puxar 100 kg individualmente. Por essa lógica, esperava-se que 8 homens puxassem algo em torno de 800 kg. Não foi o que aconteceu. Na verdade, quanto mais homens eram colocados no trabalho, menor era a força exercida por cada um. E não era pouco: oito homens mal conseguiram puxar 400 kg. O esforço diminuiu para menos da metade.
Esse fenômeno ficou conhecido como Efeito Ringelmann, com subtítulos bem propícios, como “preguiça social”. A conclusão é que o indivíduo tende a dar muito mais de si quando está operando sozinho. Já num coletivo, esse esforço é diluído através da lógica inconsciente de que “alguém vai fazer”.
“Em tarefas de natureza coletiva, o indivíduo tende a confiar no esforço do vizinho.” — Maximilien Ringelmann
O déficit da capacidade humana em vários aspectos foi, então, comprovado em vários outros experimentos, como o Smoke-Filled Room Study, em que colocaram uma pessoa para responder a um questionário numa sala, sozinha, quando fumaça começa a sair de uma fenda na parede. 75% dos participantes saíram de imediato da sala para avisar aos pesquisadores de um possível incêndio.
Mas, quando estavam em grupo, apenas 38% relataram a fumaça. Quando, então, um participante era colocado na sala junto com outros dois atores que simplesmente ignoravam a fumaça, a porcentagem chegou quase a zero, num cômodo já impregnado de fumaça. O indivíduo era diluído num coletivo burro ao ponto de morrer por conta disso.
O mesmo aconteceu no Experimento de Conformidade de Asch, em que os participantes eram colocados numa sala e apenas um deles era um participante desavisado, enquanto os demais eram atores. Três linhas eram mostradas no projetor, sendo uma delas nitidamente maior que as outras. Todos tinham que falar em voz alta qual linha era a maior. Depois de todos os atores apontarem uma mesma linha como a maior (e que obviamente não era a maior), confuso, o participante acabava apontando a mesma linha errada como sendo a maior.
Outro estudo preocupante foi o Efeito Espectador, em que os participantes ouviam alguém tendo uma convulsão. Quando percebiam que eram os únicos testemunhando aquilo, ajudavam; mas, se viam que estavam diante de várias outras testemunhas, não faziam nada (difusão de responsabilidade).
“Toda unanimidade é burra. Quem pensa com a unanimidade não precisa pensar” — Nelson Rodrigues
O ser humano, apesar de ser um animal social, tem sua capacidade individual diminuída quando em grupo. Isso se resolveria se a seleção natural não tivesse sido freada pela ciência? Melhor não tentarmos descobrir.
O fato é que, comportamental e intelectualmente, vemos o indivíduo se afogar no esgoto coletivo que hoje é potencializado pelas redes sociais. O coletivo prefere estar errado, mas integrado, do que certo e isolado.
Ser medíocre para poder nadar com os medíocres.
E seguem, cada vez mais tristes, matando suas almas — e seus cérebros — num coletivo que baixa cada vez mais sua régua. Não há fundo do poço intelectual.
1SOUZA, Jaqueline; CUNHA, Junior; WELTER, Pietra (org.). Filosofia com poesia: vol. 2. 1. ed. Toledo, PR: Instituto Quero Saber, 2025.
Nesse episódio do Hall gravado ao vivo, falo um pouco sobre a antiga estratégia de dividir a sociedade em grupos antagônicos para que a elite governante consiga pastorear as pessoas como ovelhas, e como isso é ruim para a sociedade.
Obrigado Fernando Gomes, emm_ e vários outros pela interação na transmissão ao vivo através do chat no substack.
Nesse episódio do Hall, gravado ao vivo, faço a leitura do poema A Tabacaria de Fernando Pessoa (Álvaro de Azevedo) e depois uma pequena reflexão sobre trechos da obra.
Nesse encontro dominical falamos… aliás, permita-me, antes, explicar algo: antes era “live dominical” e esse termo “live” me causa asco. Portanto agora esse nosso encontro esporádico nos domingos se chama Conventus Dominicalis e, apesar de ser o primeiro encontro com esse nome, não é o primeiro encontro no domingo, e, assim, decido por começar com o mesmo número que o podcast Escriba Cafe começou: 7. Mas a partir daqui seguimos a ordem para você se organizar se já ouviu ou não algum.
Está com preguiça de ouvir tudo ou de ler a transcrição? Segue a ata do encontro:
Nina morreu assim como viveu: levando consigo nossos corações.
A mortalidade dos entes queridos, humanos ou não, é uma cruel realidade. Mas a consciência sobre a própria morte é nossa maior maldição como humanos.
Não para a Nina. Ela nunca soube que ia morrer, nunca pensou em morrer; e sua vida era plena de momentos, nunca de planos; cheia de sensações, nunca de preocupações.
É-me estranho seres tão sociais e companheiros serem tão inocentes e livres de ódio e maldade e viverem tão pouco tempo em nossas vidas. Provavelmente não somos nós que cuidamos deles e, sim, o oposto: passam por nós para nos mostrar nossa pequenez sentimental e a insignificância de todas as nossas ambições e preocupações. Eles passam por aqui para nos trazer um pouco da pureza do outro lado, da simplicidade da vida.
Nina sempre foi o perfeito exemplo disso: minha maior e incondicional companheira. Esteve ao meu lado nos melhores e piores momentos e nunca fraquejou diante de nada. Nem mesmo em seus últimos dias — cega, surda, com olfato prejudicado e o corpo já não respondendo —, tentava levantar (e levantaria, se pudesse) e viveria surda e cega, sem se importar com isso, como se a cegueira e a surdez fossem parte natural de sua existência. Tudo isso e muito mais poderia acontecer com esses seres que simplesmente assimilam as novas condições sem se lamentar por estarem “piores” do que antes.
Nina passou os últimos anos aos cuidados das mesmas carinhosas mãos que cuidam de mim desde sempre. E deixou esse mundo dormindo, talvez num sonho, talvez num alívio, e será lembrada pelo que sempre foi: um ser iluminado, companheiro e belo.
Na primeira noite, há muitos anos, quando precisei viajar e a deixei com minha mãe pela primeira vez, ela uivou durante a noite. O uivo dos cães é para reunir a matilha. Deixou-me triste que os uivos dela não foram ouvidos por sua matilha. Mas hoje é ela que não ouvirá meus uivos.
Nina, the Dog (*2011 +2026)Neste episódio do Hall das Curiosidades, gravado ao vivo, falo um pouco sobre a história do hábito da leitura por lazer e como a decadência do mesmo pode significar a decadência da própria sociedade.
Link citado: Sociedade Literária do Escriba Cafe https://escriba.cafe/sociedade
“Fascismo, nazismo, comunismo e socialismo são apenas variações superficiais do mesmo tema monstruoso: o coletivismo.”
— Ayn Rand
Num mundo tão dividido, cheio de ódio, abismos sociais, culturas conflitantes e, algumas, até destrutivas, pensar em uma sociedade unida trabalhando em prol do coletivo e sacrificando suas ambições individuais para focar no bem de todos parece ser a receita para, finalmente, o mundo prosperar como um todo e em paz.
Esse é o ponto central do coletivismo, uma forma de organização social em que o indivíduo é subordinado ao coletivo.
No entanto, tudo que derivou do coletivismo falhou miseravelmente: nazismo, comunismo, socialismo, fascismo e outros “ismos” que tinham o coletivismo como pilar central.
Mas por que uma ideia que pinta um quadro tão “bonito” sempre resulta em catástrofe? E por que ainda tentam criar sociedades coletivistas?
A resposta é a mesma: por causa da natureza humana. A nossa espécie é egoísta por natureza. Mas isso não é ruim, pois é o egoísmo que nos faz prosperar, inventar, construir, evoluir e, pasmem, sermos caridosos.
Você pode estranhar eu dizer que a caridade é consequência do egoísmo, mas pense comigo: quando você vê um outro ser humano sofrendo, passando fome, sendo injustamente tratado, o que você sente? A não ser que você seja um sociopata, você se sente mal. Alguns mais, outros menos, mas a grande maioria se sentirá mal. E se você tiver o poder de facilmente aliviar aquilo, seja dando uma esmola ou uma criando uma instituição de caridade, você o faria. E para quê? Para se sentir melhor. Não tenha medo de enxergar isso: você ajuda uma outra pessoa para se sentir melhor, para tentar aliviar aquela dor ou mal-estar que você sente ao vê-la sofrendo.
Eu chamo isso de egoísmo primordial, outros chamam de “compaixão”. Prefiro o meu termo, ele reflete melhor a verdade. O fato é que fomos programados para nos sentirmos mal ao vermos o outro sofrer e isso nos motiva a tomar ações para evitarmos essa dor ao evitar que o outro sofra injustamente. Até aquilo que fazemos aparentemente com maldade, como não dividir coisas, é um mecanismo antigo que nos ajudou a sobreviver em situações de escassez.
Note que isso não são escolhas; são comportamentos intrínsecos que dividimos com a maioria dos colegas de espécie, assim como o sexo, o medo e a individualidade. Sim, a individualidade. Mesmo sendo seres muito parecidos em nossa essência, carregamos diferenças primordiais que a loteria genética nos dá em seu longo processo de “tentativa e erro” e desenvolvemos outras através de nossas experiências e ambientes. Com isso, tendemos a ficar cada vez melhores, mais ricos, mais atraentes, mais renomados para… comer gente.
Sim, tudo gira em torno do sexo, ou como Oscar Wilde1 bem disse: “Tudo na vida é sobre sexo, menos o sexo, o sexo é sobre poder”. E o poder é o que buscamos. E, como grupo, precisamos de alguém mais poderoso, mais forte, mais inteligente que todos os demais para nos liderar. E assim segue: sempre alguém tentando tomar o poder para ser o líder e, para isso, em tese, tem que ser mais forte e capaz que o líder atual para conseguir vencê-lo numa disputa. A consequência disso? Mais sexo. O poder, o “sucesso”, atrai as fêmeas. O líder vai comer mais gente e, por ser mais forte e capaz, tem grandes chances de gerar uma prole mais forte e capaz que as demais, num ciclo que vai se repetir com “candidatos” cada vez mais fortes e capazes.
E sim, ainda estamos falando de instinto.
Hoje, com nossa racionalidade desenvolvida (pelo menos em teoria) e civilizações cheias de costumes e cultura, as coisas são mais complexas – e até absurdas – mas, ainda assim, seguem um padrão parecido. O problema é que as disputas e as ambições individuais deixam, justa ou injustamente, perdedores pelo caminho. Assim surgem os abismos sociais que ativam aquele nosso outro mecanismo: dói ver as pessoas na pobreza ou, pior ainda, na total miséria e fome.
Vários pensadores colocaram suas cabeças e penas para teorizar aquilo que viam. Rousseau e Hegel trouxeram o coletivismo como a única forma de o indivíduo conquistar a liberdade e a moral. Karl Marx deixou isso de forma mais clara quando escreveu: “Não é a consciência dos homens que determina o seu ser, mas sim o seu ser social que determina a sua consciência”.
Eis os últimos séculos.
E assim buscamos primeiro um inimigo para, então, iludir-nos com a ideia de que, se derrotarmos esse “inimigo”, o problema se resolveria. E o suposto inimigo foi encontrado: eram os indivíduos; os “egoístas”; os que acumularam fortunas; os que eram mais abonados que a massa. Cabeças rolaram (literalmente), monarquias foram derrubadas e famílias ricas, trucidadas em revoluções e golpes para que o poder não fosse mais do indivíduo, mas do coletivo. Que as escolhas fossem unicamente pensadas e tomadas para essa corporação humana de pessoas social e economicamente iguais. O indivíduo agora era somente uma célula de um grande organismo que, para se manter “saudável”, precisava alimentar suas células boas e se livrar das ruins. Era o coletivismo em sua forma mais prática.
A beleza das ideias de Rousseau, Hegel, Marx – e tantos outros – não poderia ser reproduzida na prática porque essas ideias de um coletivo sorridente trabalhando para o bem geral dependiam unicamente daqueles que não foram programados para isso: os humanos. E qual foi a forma de fazer o coletivismo ser aplicado na prática? Violência, opressão e medo.
E como uma cereja para o bolo da ironia, esses regimes coletivistas tinham líderes. Os fortes, poderosos, espertos. E esses líderes estavam sempre sob ameaça de tomada de poder por outros concorrentes. Parece familiar? Não bastasse isso, a massa nivelada num patamar, vendo qualquer conquista ou vitória pessoal ser diluída entre o grupo – “para o bem do grupo” – simplesmente perde a motivação inconsciente de progredir individualmente, tornando-se uma fraca célula de um organismo cada vez mais desnutrido que irá, em algum momento, colapsar ou, numa opção mais otimista, estagnar evolutivamente como civilização.
É interessante concluir que aplicar o coletivismo pode ser o pior golpe para o coletivo.
É a boa e velha natureza humana explicitando a impossibilidade de apagar o indivíduo por um coletivo. Mas uma massa incapaz de compreender esse conceito básico e movida pelo ódio implantado contra os mais ricos, poderosos e afortunados, ainda tenta trazer de volta o monstro de Rand.
E qual é a forma de aplicar o coletivismo mesmo?
Somos uma espécie ultrassocial que sobreviveu graças à colaboração tribal; encontrar um equilíbrio entre a motivação individual e a coesão social é um ponto a ser tratado como civilização, e não tentando impor um ou outro peso ao bel-prazer de um indivíduo (novamente a ironia) ou de um grupo ideológico movido pelo… (vamos respirar para a palavra final) …egoísmo.
Sim, o egoísmo primordial pode ser — e é — uma ferramenta para o bem do grupo. Ao tratar sua cidade como seu lar, você se sentirá “mal” ao ver alguém jogar lixo no chão e sujar o seu espaço. Da mesma forma, ficará com raiva de quem cometer crimes pela cidade ou de políticos que roubarem impostos, querendo eliminar esse “câncer” do seu convívio. Não porque você valoriza o coletivo abstrato, mas porque você quer uma cidade limpa, segura e próspera para que possa, como indivíduo, viver em paz e alegria.
O Escriba Cafe é um projeto apoiado por leitores e ouvintes. Se quer receber mais dos textos e podcasts, considere assinar gratuitamente ou de forma premium.
1Apesar de ser amplamente creditada a Wilde, não há um registro que comprove a autoria.
Nesse especial de Natal, além de contar belas histórias que aconteceram na época de natal, passeamos também pelo Yule, São Nicolau, Krampus, Grýla e diversas outras antigas tradições que culminaram em costumes modernos.
Assine gratuitamente seu email para receber todo o conteúdo público do Escriba Cafe ou considere um upgrade premium para conteúdo exclusivo e apoio ao projeto.
Participação especial de Guilherme e Stephanie Gurtner Soares.
From the publisher's feed