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Nesse breve episódio do Hall das Curiosidades, conversamos um pouco sobre filosofia contemporânea e a relação do Mito da Caverna de Platão com os dias de hoje.
Ouça e participe com sua opinião e comentários.
Obras mencionadas nesse episódio e indicadas:
Infocracia
No Enxame
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O “quarto poder”. Assim foi apelidada a imprensa. Com toda a ética pregada nos cursos de formação e com toda a regulação, o jornalismo sempre teve o poder de manipular, justamente por causa da confiança que o afegão médio — povo, esse, que predomina entre os povos — depositava no que era dito na TV.
Ah, a TV. Sempre um templo de seriedade e única detentora da verdade. Era também responsável por atingir todos: ricos, pobres, letrados e analfabetos. Todos tinham ali sua principal — e, para a maioria, única — fonte de informação. Assim, o que diziam os jornais era a verdade. E, a partir do momento que você controla a informação, você controla tudo e todos.
Era muito poder nas mãos de poucos.
Mas, no cosmos, tudo tende a se balancear. É o que percebo. A internet e as redes sociais se tornaram, então, a principal fonte de informação, tirando o poder das mãos de um grupo e tornando a informação pública.
Hoje, a “verdade” não é mais exclusiva da imprensa. Nem a mentira.
Com toda a informação, verdadeira e falsa, perambulando livremente pelos aparelhos celulares, foi possível perceber mais facilmente como a mídia sempre trabalhou e como é usada como arma.
Hoje não existe mais um “jornal de confiança”. Existe o jornal ou o canal que defende o adversário e tem o canal que defende o meu lado político. E eu não posso confiar em nenhum dos dois, afinal, se ambos têm uma agenda política, não estão comprometidos com a verdade, e sim com seus objetivos e acordos.
Isso porque a imprensa é um negócio. Um negócio visa ao lucro, e não à virtude. Se um jornalista de boa alma consegue unir os dois — coisa rara —, irá, de certa forma, entregar conteúdo de qualidade para seus consumidores. Mas isso já não importa — e não faz diferença —, pois a imprensa em geral já deixou de ser vista como fonte de informação.
Note como, até mesmo nas guerras nos dias de hoje, os lados dependem e investem em manipulação da opinião pública para seus fins. Perceba como Israel x Hamas e Rússia x Ucrânia são usados como símbolos mundiais para dividir as famigeradas “direita” e “esquerda”.
O resultado: a imprensa perdeu seu poder a partir do momento em que perdeu a confiança do povo.
De acordo com o Digital News Report de 2025 da Reuters1, somente 4 em cada 10 brasileiros confiam em notícias. E, ainda de acordo com a pesquisa, o conteúdo online e as mídias sociais são hoje a principal fonte de informação dos brasileiros, com uma notória queda da TV e dos jornais. Esses dados, principalmente o da confiança, se repetem por todo o globo.
Hoje, a busca pela verdade, pela informação, apesar de extremamente difícil, permite ao homem comum encontrá-la, se assim o quiser. É um trabalho de garimpo em que, dentro do vasto rio de informações, aquele que garimpar acaba encontrando pedaços da verdade.
E assim vemos hoje uma frustrada tentativa de “regular as redes”. É a suposta vontade dos governos de poupar o povo de ter que “garimpar” a verdade e fazer esse trabalho por ele, o que, em hipótese alguma, tem como terminar bem, mesmo que seja feito com a melhor das intenções (o que desconfio muito). Aquele que regular as redes tomará de volta a exclusividade da informação e o poder de manipulação. E é preciso nos atentarmos a que não é preciso mentir para manipular. Escolhendo qual verdade será entregue ao povo, é possível controlar uma população sem falar uma mentira sequer.
O jornalismo morreu. E agora estão brigando por sua herança.
1Digital News Report 2025, Reuters. Acesse em: https://reutersinstitute.politics.ox.ac.uk/digital-news-report/2025
Nesse episódio do Hall, falo um pouco sobre o Expresso do Oriente e o calendário Gregoriano.
Esse foi mais um episódio gravado ao vivo, com participação dos ouvintes. Não perca a próxima gravação que acontece por aqui (Substack) e também Instagram e Youtube.
Não faz muito tempo — ou faz, não sei dizer, já que ainda me pego no erro de que os anos 80 foram há 20 anos, mas, pasmem, foi há 45. Enfim, foi ali, nos anos 90, que eu, um adolescente, tinha na biblioteca de casa algo que poderia ser considerado a internet analógica: uma coleção da Barsa.
A Barsa foi a mais conhecida enciclopédia do Brasil. Idealizada por Dorita Barret e seu marido, Alfredo de Almeida Sá.
Barret + Sá. BarSa.
Dorita era uma das herdeiras da família responsável pela Encyclopaedia Britannica, a enciclopédia mais famosa do mundo, que supervisionou a criação da Barsa. Isso porque a Barsa era composta, em grande parte, por traduções dos verbetes da Encyclopaedia Britannica, mas também continha conteúdo 100% brasileiro.
Eu passava horas, muitas horas, "navegando" pelas páginas desses livros. Passei a conhecer boa parte do mundo através de verbetes até então desconhecidos. Muitas vezes eu abria uma página aleatória e descobria algo novo sobre o mundo, outras eu folheava rapidamente até algo me chamar a atenção e, novamente, descobrir algo.
Mas também havia os trabalhos escolares, nos quais eu tinha que procurar algo específico (e não havia campo de busca): era necessário pegar o livro que abrangia a letra inicial do tema, por exemplo, "Livro 3, verbetes de E a F", e lá procurar, também por ordem alfabética, a história de Florença.
Naquela época, o mundo parecia muito maior, e as enciclopédias nos permitiam explorar muitas partes desconhecidas.
A Enciclopédia
As enciclopédias eram o ápice do conhecimento nos lares, a principal e, na maioria das vezes, a única fonte de referências sobre tudo.
E foi exatamente com esse pensamento que a enciclopédia foi criada. Esse tipo de obra existe há mais de dois mil anos, ou seja, obras nas quais as pessoas tentavam reunir o cada vez mais vasto conhecimento humano.
O termo "enciclopédia" vem do grego "enkyklios paideia", algo como "educação geral" ou "conhecimento geral". As enciclopédias tiveram várias facetas ao longo da história, popularizando-se da forma que conhecemos hoje por meio do francês Dennis Diderot, com seu Encyclopédie ou Dictionnaire raisonné des sciences, des arts et des métiers, de 1751.
"A finalidade de uma enciclopédia é reunir o conhecimento espalhado pelo globo; expor seu sistema geral aos homens com quem vivemos e transmiti-lo àqueles que virão depois de nós, para que o trabalho dos séculos anteriores não se torne inútil para os séculos futuros; e para que nossos descendentes, tornando-se mais instruídos, se tornem ao mesmo tempo mais virtuosos e felizes, e para que não morramos sem ter prestado um serviço à raça humana nos anos futuros." - Diderot
Mas o mundo girou. Lembro quando, junto com meu primeiro PC, veio um CD da Encarta, a enciclopédia digital. Aquilo foi uma revolução, já que, além dos textos, era possível ver fotos coloridas e vídeos dos verbetes.
Mal sabia eu que a revolução ainda estava por vir.
A internet começou a se tornar a principal fonte de conhecimento. Em 2001, surge a Wikipedia, e o fim das enciclopédias impressas, que já estavam sumindo há muito tempo, era iminente.
Hoje, como não canso de repetir, temos absolutamente todo o conhecimento humano na palma de nossas mãos (literalmente). E, ainda sim, as pessoas estão cada vez mais ignorantes, pois na palma de nossas mãos também está o infinito fornecimento de entretenimento fácil e passivo. Um verbete hoje não tem chance contra um vídeo rápido, feito de forma porca, com conteúdo imoral ou estúpido.
Tanto a Barsa quanto a Encyclopaedia Britannica tentaram se adaptar aos novos tempos, com versões online de conteúdo verificado e sistemas de assinatura, mas nunca mais serão um totem erguido como ídolo do conhecimento nas salas e bibliotecas dos lares.
(Sim, hipsters, ainda é possível comprar versões impressas sob demanda.)
Em Atenas, encontra-se a mais famosa Acrópole da Grécia Antiga. Lá, estão as ruínas do Propileu, do Partenon e de outros templos, sendo um dos pontos mais visitados do planeta por amantes da história.
Atenas foi o centro do berço da nossa civilização. Os gregos moldaram e influenciaram o mundo ocidental de forma tão poderosa que até mesmo seus conquistadores, os romanos, absorveram sua cultura.
A filosofia ocidental também se desenvolveu lá. Grandes nomes que se eternizaram e fundaram o pensamento dessa parte do mundo estão ligados a Atenas, como Sócrates, Platão e Aristóteles. A majestosa Acrópole já estava lá antes deles.
Apesar de ser a mais famosa, a Acrópole de Atenas não era a única. O nome vem do grego Akros (alto) e Polis (cidade). E era exatamente isso: uma cidadela construída em uma parte elevada da região, funcionando como centro administrativo, religioso e, ao mesmo tempo, fortificada contra invasões.
A Acrópole de Atenas foi — e é — o símbolo da grandiosidade cultural e filosófica de uma civilização.
Talvez por isso, o nome tenha sido escolhido para uma organização internacional de “educação filosófica” (o motivo das aspas exponho mais à frente): Nova Acrópole.
I.
Fundada em 1957 por Jorge Ángel Livraga Rizzi (argentino naturalizado italiano), a organização tinha como intuito promover e ensinar a filosofia e se firmou na crença de uma filosofia universal, que seria a base para todas as outras filosofias e religiões.
Aqui no Brasil, a Nova Acrópole se tornou famosa com a publicidade gerada por sua “garota senhora-propaganda”, conhecida como Prof. Lúcia Helena Galvão.
A “professora” nunca me cativou, até porque ela me remete às minhas antigas professoras de escola, desde o tom de voz até o jeito de dar “aula”. Mas essa foi minha primeira — e única — impressão, portanto, não tenho nenhuma outra opinião sobre ela. No entanto, como ela aparece constantemente em resultados de busca, feeds etc., o nome da organização estava sempre junto e, esse sim, me “cativou”. O nome Nova Acrópole me remeteu a todo o misto de sensações que a Acrópole de Atenas traz como símbolo. Então, como era a época da pandemia e as programações estavam escassas, “fui dar uma olhada”, e lá estava o anúncio do “Curso de Filosofia” por um preço praticamente simbólico. Me matriculei.
O curso era basicamente uma introdução à filosofia e, também, à Nova Acrópole. A grade era bem interessante, mas o curso em si, não.
Os instrutores do curso não me pareceram professores de filosofia e/ou história, mas sim membros da organização que foram treinados para isso. Menções constantes à “Prof. Lúcia Helena”, tanto pelos instrutores quanto pelos outros alunos, me causaram estranhamento, já que ela não é uma filósofa, propriamente dita, mas, mesmo assim, era chamada por adjetivos que me causaram um segundo estranhamento, como se eu estivesse em uma espécie de seita.
O terceiro sinal de alerta veio da veneração constante a Elena Petrovna Blavatsky (não exatamente no curso, mas pela organização, que estava constantemente promovendo palestras e até uma peça de teatro biográfica sobre ela).
Blavatsky foi a principal sintetizadora da Teosofia, que são doutrinas, em poucas palavras, esotéricas. A própria Elena era um ser quase “místico”. Tinha supostos poderes paranormais e logo se formou um círculo ao seu redor.
Não continuei o curso e, desapontado pela falsa fachada, e perdi o interesse pela organização depois da terceira aula. O nome que facilmente atrai aqueles em busca de conhecimento e filosofia era, a meu ver, apenas um chamariz para mais uma seita esotérica.
II.
Anos depois, me chega, aqui no Substack, um link para o , com textos que explicitam um suposto “por trás dos bastidores” da Nova Acrópole e a mostram como uma pesada seita esotérica. Fiquei surpreso? Não. Só não imaginava que o buraco fosse tão fundo.
No entanto, vale ressaltar que não há um autor identificado nessas publicações e que cabe ao leitor tirar as próprias conclusões. Algumas postagens, mais concretas, são facilmente identificadas como fato, como a que explica por que a Nova Acrópole não é uma escola filosófica. Mas há também os textos assustadores, como o que conta Como realmente funciona a Nova Acrópole, que possui, além do texto principal, comentários de quem viveu um pouco por ali (esses, sim, com seus devidos autores).
Assim como explicado em um desses textos, uma escola filosófica se caracteriza pelo pensamento crítico e livre, pela investigação e diversidade. O oposto do que podemos sentir já no primeiro contato com a organização.
Apesar dos pesares, a Nova Acrópole promove muitos eventos e voluntariado de caridade, o que me faz ressaltar que sempre devemos estar prevenidos contra golpes e falsas fachadas, mas também não nos deixar levar facilmente por possíveis teorias da conspiração ou exageros. Se tiver interesse, vá lá e tire suas próprias conclusões, mas esteja avisado da possibilidade de estar ingressando em uma seita.
Já eu, volto aos meus bastiões da velha Acrópole, lendo as obras e a sabedoria deixadas pelos filósofos do passado e também dos contemporâneos, como Byung-Chul Han, citado em um episódio do Hall.
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Assim como a filosofia clássica, em seus primórdios, tratava também a vida cotidiana e os anseios humanos mais básicos, hoje temos um filósofo que traz algo parecido. Conheçamos Byung-Chul Han.
Nesse episódio falamos brevemente sobre a filosofia contemporânea de Byung-Chul Han, abordando temas como a sociedade do cansaço, a autocobrança na era digital e a importância dos rituais na vida moderna. A conversa explora como Han analisa a sobrecarga emocional e as exigências da sociedade atual, além de refletir sobre a falta de celebrações significativas em nossas vidas.
Participou desse episódio a , autora do .
Livros citadosSociedade do Cansaço
Não-Coisas
No Enxame
Nesse episódio do Escriba Classics você vai conhecer uma breve biografia do Italiano que manteve um estilo elegante em suas composições imortais.
Nos acostumamos a tudo. Essa antiga afirmação, mais do que empiricamente comprovada, é praticamente um complemento a “tudo passa”.
E tudo passa.
O conhecimento subjetivo de nossos antepassados parece nos trazer verdades universais, porém, muitas vezes, inconvenientes — e, ao mesmo tempo, confortantes.
Tudo passa. Mas essa é exatamente a beleza e a desgraça do tempo. Tudo passa: a dor, a decepção, a tristeza. Mas, na mesma velocidade, passam também a alegria, as boas lembranças, o bem-estar e a prosperidade. E, então, nos acostumamos a tudo.
Nos acostumamos à dor, à doença, ao sofrimento, à pobreza e ao abandono. No entanto, nos acostumamos ao amor, à bonança, à companhia, ao abraço…
Mas, tudo passa.
Essa verdade nos traz uma certeza: é preciso aproveitar tudo, antes que passe. Deixar para trás o que passou, aproveitar as boas lembranças enquanto ainda estiverem ali e pavimentar o caminho para o que está por vir e, certamente, também vai passar.
Estamos de carona nessa cósmica pedra perambulante. E ela, também, um dia vai passar. Vivemos numa longa, mas implacável, contagem regressiva. Desde que começamos a bisbilhotar o universo e entender um pouquinho seu funcionamento, começamos a modificar a história: não buscamos entender só o passado, mas também o futuro.
Desde cada uma de suas minúsculas células até todo o universo: tudo possui uma contagem regressiva. E, nessa escala, alguns itens passarão muito mais rápido que outros.
Você vai passar, eu vou passar, nós todos passaremos. Menos Mário Quintana: ele, passarinho.
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É muito interessante compartilhar dados sobre a leitura no Brasil em uma rede pública aberta a comentários. As críticas aos números — que são feitas como se aquilo fosse mera opinião do mensageiro — simplesmente confirmam o que foi exposto: as pessoas não leem e, as que leem, não conseguem interpretar um simples texto.
Certamente que não são todos, mas, veja, tenho que dizer isso, pois essas pessoas leriam o primeiro parágrafo acima (as que conseguem ler) e de imediato já apontariam o dedo: “mas não são todas”.
Claro que não são todas. Mas, justamente por vivermos numa sociedade em que as pessoas não leem, estamos diante de um público incapaz de compreender o subentendido e a inferência, muito menos figuras de linguagem.
Num texto, há informações que não são ditas, pois elas, em tese, são automaticamente deduzidas a partir do enunciado do contexto. Você, interlocutor que me lê, com seu conhecimento de mundo, entende o exagero retórico de uma expressão como “as pessoas não leem”, pois sabe que é óbvio que muitas pessoas leem e gostam.
Mas isso depende da inferência, que é o processo cognitivo que usamos para chegar ao subentendido. E quem não lê (e também os idiotas) tem grandes chances de não ter desenvolvido esse processo.
E assim, retorno ao argumento que sempre uso: vivemos em uma sociedade de manchetes. É o máximo que as pessoas leem, quando leem. Por isso, numa época em que a mídia é o quarto poder, cometer certos “deslizes” nas manchetes nem sempre é acidental.
“Idosa armada invade banco e mata segurança”
É uma manchete que diz tudo, não é? Claro que não. O artigo, quando lido, explicará que a idosa, ao passar pela porta do banco, foi rendida pelos bandidos que estavam assaltando a agência, e um deles era o próprio segurança do banco. Ela, milagrosamente, conseguiu tomar a arma de um deles, enquanto o segurança, em surto, entrava na agência com a intenção de matar todos. Ela “invade” o banco tomado e atira no segurança.
A manchete mentiu? Não. Mas levou você a crer em algo muito diferente. E antes de ler o texto, você já espalhou a notícia da velha assassina pelos grupos de WhatsApp.
O mesmo é feito com a política e a economia.
Por isso, nenhum argumento contrário à crítica à população que não lê é válido. Independentemente dos motivos e da história que levaram o povo à ignorância, o problema ainda existe: as pessoas não leem.
“Ah, as pessoas são pobres e não conseguem comprar livros”; “a pessoa chega cansada do trabalho, não consegue ler, pois tem que descansar”; “os governos nunca incentivaram o povo à leitura”; etc., etc. Esses são argumentos reais usados nos comentários e, mesmo que facilmente rebatidos, mesmo que representassem a verdade, ainda não contradizem o problema final:
O povo não lê e, por não ler, não consegue compreender o mundo em que vive e as informações que recebe. E essas pessoas são obrigadas a votar.
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Hoje, eu inventei a fotografia. É claro que não inventei na forma de “pela primeira vez na história alguém desenhar com a luz” (afinal, essa é a etimologia da palavra: do grego Phos, luz, e graphé, desenho), mas tive um vislumbre de como essa ideia surgiu na cabeça dos humanos.
Minha cortina blackout está velha e acabou ficando com um pequeno furo bem no meio. Ainda na cama, nessa manhã, a luz penetrou esse furo e projetou em minha parede aquilo que poderia ser somente um facho de luz falho. Não era um facho falho, era uma foto.
Obviamente, eu rotacionei e inverti a foto para que ela mostrasse a vista real. Para quem não passou pela escola e, por algum milagre, consegue ler e entender este texto, a foto é uma projeção de luz que, ao atingir a superfície por trás do orifício por onde entrou, está invertida. Vamos fazer melhor, tome este desenho:
Acho que assim está mais claro. Então, veja agora a projeção sem edição que eu estava vendo na parede:
A seguir, novamente, a imagem depois de eu rotacioná-la e invertê-la:
E, por fim, uma foto direta do que essa minha arcaica “câmera fotográfica” estava captando:
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Não é à toa que, por muito tempo em nossa história, a filosofia e a ciência eram a mesma instituição de conhecimento e pesquisa: observar, experimentar, repetir e teorizar. Ter um simples vislumbre como o que tive nos ajuda a ver a história e o avanço humano com os olhos dos pioneiros.
Alguém, um dia, diante de uma projeção dessas, pensou que, talvez, seria possível registrá-la numa superfície sem o uso de pincéis, lápis ou carvão. Quem sabe numa placa de estanho embebida no betume? E assim temos a mais antiga foto tirada pelo homem. É de autoria de Joseph Nicéphore Niépce, em Saint-Loup-de-Varennes, e mostra a vista da janela de sua propriedade:
Há também algumas invenções que tenho muita curiosidade de saber o que se passava na cabeça da primeira pessoa, como a que achou uma boa ideia chuchar comida num ganso até o fígado dele aumentar dez vezes e, então, retirá-lo como uma iguaria (li uma vez que, apesar do nome francês, o foie gras tem suas origens no Egito Antigo).
Mas, independentemente do quão estranha possa parecer a origem de algo, tudo que chegou até nós foi observado, experimentado e repetido. O que não deu certo teve seu caminho interrompido e, para todo o resto, temos o fruto da nossa sensibilidade de observar os detalhes.
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