Escriba Cafe

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By Christian GurtnerEducation
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Escriba Cafe episodes

  • A Imprensa é Livre?

    Nessa gravação ao vivo do Hall, trago um pouquinho dos primórdios das notícias para, então, entregar uma reflexão e um questionamento para debatermos nos comentários.

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    0 min
  • O palhaço que se fez levar a sério

    “Reconheci Sócrates e Platão como sintomas de declínio, como instrumentos da dissolução grega, como pseudogregos, antigregos.”
    — Friedrich Nietzsche (Crepúsculo dos Ídolos, 1888)

    Ao ler Crepúsculo dos Ídolos, de Nietzsche, o leitor recebe um choque inicial que o faz refletir sobre toda a base, não só da filosofia como campo de estudo, mas sobre suas próprias convicções.

    “Sócrates foi o palhaço que se fez levar a sério: o que realmente aconteceu aí?”

    Esse é o primeiro — e talvez mais ferrenho — capítulo do livro: O Problema de Sócrates. Nietzsche ataca e desmonta, de forma violenta, tudo o que Sócrates ergueu, tratando-o como um tirano da racionalidade que tenta apagar o instinto humano através da dialética e impondo a razão como único caminho para a virtude e a felicidade.

    Essa é a crítica principal ao pensamento de Sócrates, filósofo o qual Nietzsche já apresenta com um ataque peculiar: ele era feio.

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  • A Burrice Natural

    Eu já ouvi, você já ouviu e, quem não ouviu, ainda vai ouvir: “A inteligência artificial vai acabar com a inteligência natural”.

    Errado! A inteligência artificial vai revelar a burrice natural.

    Alguém, me contando um caso recentemente, me disse que recebeu uma mensagem que continha um travessão — coisa que eu pensava ser comum — e que, por isso, desconfiava que a pessoa tinha usado um ChatGPT da vida para criar aquele texto. Outra reclamação que começou a ganhar força em redes sociais era bem parecida: textos bem escritos passam a ser vistos como criações artificiais e, assim, surgem protestos como “quero ler textos com erros, textos humanos”.

    Senhoras e senhores, como assim?

    Em toda a minha vida escrevendo, busco constantemente aprimorar meu vocabulário, ortografia e gramática. Escrevo, reviso, escrevo novamente, peço para outro revisar… tudo para que erros não cheguem até o leitor. Editoras gastam fortunas com revisores. Se o erro é banalizado, quem lê vai repetir o erro.

    É de uma irresponsabilidade tremenda — por desleixo ou “humanização” — não fazer de tudo para que o erro não chegue ao leitor. Inclusive, usar ferramentas avançadas para revisar gramática, ortografia e erros tipográficos dos textos.

    Estamos mergulhados em mediocridade e, ao invés de utilizarmos ferramentas incríveis como a IA para nos aprimorar, estamos nos rebelando em ondas sociais simplesmente para reforçar nossa burrice e esculpir nossa mediocridade.

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  • Entre o papel e o digital

    Não comece a ler esse texto com o preconceito de que aparelhos eletrônicos são menos “saudáveis” que o papel para a leitura. Não necessariamente.

    É muito provável que você esteja lendo essas palavras da tela de seu smartphone. É disparado o meio mais usado para ler emails e acessar a internet hoje em dia.

    Há pouco tempo, nos primórdios no Escriba Cafe, tínhamos que nos preocupar com a estética e a usabilidade do site para uma tela grande, de computador, hoje é preciso estar adequado às pequenas telas verticais (foi triste, pois, o site do Escriba Cafe era uma obra de arte à parte).

    Mas aqui está você, agora, lendo - e talvez já se cansando - através de sua pequena coleira que chamamos de celular.

    Não é novidade que as pessoas têm preguiça de ler. No Brasil essa situação consegue ser muito grave, em que 53% de toda a população brasileira é de não-leitores, ou seja, não leem livros (e, dos que leem, a grande maioria lê muito pouco).

    Na internet, a coisa é pior: somente 16% das pessoas leem os textos de forma linear: a grande maioria simplesmente “escaneia” o texto, ou seja, lê o título e subtítulo e passa o olho pelo restante do texto.

    Um estudo listou o que chama a atenção da pessoa em textos na internet ou redes sociais quando se trata desse “scan” visual:

    • Palavras em negrito;

    • Títulos e subtítulos;

    • Parágrafos curtos;

    • Listas como essa;

    • E, claro, imagens.

    Dessa forma, temos um problema quando é preciso - ou desejado - passar informações para as pessoas: elas não vão ler o texto. O resultado? Os criadores de conteúdo preferem não mais escrever e criam, assim, vídeos curtos, que hoje é o principal tipo de conteúdo consumido online.

    O texto está morrendo.

    E isso é um enorme problema pois, é através do texto que várias partes de nosso cérebro se desenvolvem, principalmente quando falamos de livros.

    — Uma pequena pausa para ressaltar que você que está lendo até aqui, já faz parte de uma seleta e persistente minoria) —

    Os livros

    Temos hoje, além do papel, vários meios de leitura digital, como celular, tablets e os e-inks, sendo o Kindle o mais famoso deles. Inúmeras pesquisas já foram feitas sobre os efeitos em nosso cérebro que esses aparelhos promovem e, algo que poucos sabem, é que não é a radiação desses aparelhos o que mais nos atrapalha e, sim, a distração e o esforço para resistir ao impulso de ler notificações.

    É claro que a luz irradiante desses aparelhos também são prejudiciais: atrapalham o sono e causam fadiga visual.

    Mas é aí que entra o Kindle: esse tipo de aparelho não irradia luz. Os modelos que possuem iluminação não são como os tablets, eles projetam a luz no “papel digital”, como faria seu abajur.

    O Kindle também possui outras grandes vantagens: não tem distrações, pois é um aparelho com só uma função (ler), é leve e compacto para levar milhares de livros no bolso, causa menos impacto na higiene do sono e possui funções interessantes, como marcar texto, dicionário e tradutor (ótimo para aprimorar o vocabulário e a compreensão).

    Se o parágrafo anterior te convenceu a comprar um Kindle, compre pelo link que me dá comissão: https://amzn.to/489JgiZ

    Mas ainda assim, quando falamos de uma melhor resposta cognitiva para estudo e compreensão de longos textos, o papel é o vencedor - não só pela leitura, mas também pela escrita: estudos já comprovaram a maior eficácia de anotações feitas a mão no papel para melhor absorção.

    O papel também cria a memória espacial e as sensações táteis - e até olfativas - que facilitam a criação de mapas mentais e a recordação da cronologia. Ou seja, aquela sensação boa que muitos leitores têm de passar as mãos na capa e nas páginas, e dar aquela boa cheirada no meio do livro, é também benéfica quando falamos de cognição.

    E textos como este? Aqui vem outra vantagem do Kindle: existe uma extensão nos browsers e apps de celular que, num clique, é possível mandar textos diretamente para seu Kindle, onde você conseguirá ler com maior conforto.

    Texto do Escriba Cafe enviado para um Kindle

    São inúmeros obstáculos que transformam a leitura num mercado cada vez mais nichado no mundo - mas de forma mais gritante em países como o Brasil. E encontrar uma forma de facilitar e incentivar a leitura (digital ou impressa) é primordial para a saúde mental e desenvolvimento intelectual de uma população.

    E você que chegou até aqui, estimulando seu cérebro com essa leitura relativamente longa, é hora de exercitar outra parte do cérebro com uma atividade-irmã da leitura: a escrita. Deixe seu comentário com sua opinião sobre esse assunto.

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  • As Lemúrias e a Grande Fome

    Nesse episódio no Hall, é detalhado um pouco mais o Ritual das Lemúrias, uma celebração romana que visava afastar espíritos malignos, e discuto a Grande Fome Irlandesa, que levou muitos a migrar para os Estados Unidos, trazendo consigo tradições que se tornariam parte do Halloween. O episódio, gravado ao vivo, também inclui uma interação com os ouvintes,

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    1 min
  • A História do Halloween

    A história de uma das celebrações mais icônicas do ocidente e, consequentemente, a história de diversas culturas antigas que culminaram no Halloween.

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    Bibliografia

    SOSACI. The origins of Halloween. [Cambridge School]. 2 out. 2017.

    BUSTAMANTE, Regina Maria da Cunha. Festa das Lemuria: os mortos e a religiosidade na Roma Antiga. [S.l.: s.n.], 2011.

    HISTORY. The Frightening Pagan History of Halloween | Full Special. [S.l.: s.n.], [s.d.].

    MARK, Joshua J.. History of Halloween. In: World History Encyclopedia, 21 out. 2019. Disponível em: https://www.worldhistory.org/article/1456/history-of-halloween/. Acesso em: [20/10/2025].

    MARTINEZ, Conia G.. LEMURIA: FESTIVIDAD RELlGlOSA O ANTROPÓNIMO, SEGÚN LA INSCRIPCIÓN ROMANA DE S. JUSTO DE LA VEGA (LEÓN). León: Departamento de Estudios Clásicos, Universidad de León, [s.d.].

    THOMAS, Heather. The Origins of Halloween Traditions. In: Headlines & Heroes, Library of Congress, 26 out. 2021.

    VIEIRA, Maressa de Freitas. O Saci da Tradição Local no Contexto da Mundialização e da Diversidade Cultural. 2009. Tese (Doutorado em Língua Portuguesa) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2009.

    32 min
  • Divide et impera

    Em sua obra De Bello Gallico, escrita por volta de 52 a.C., Júlio César conta toda sua campanha na Gália. Suas conquistas nessa campanha levaram a fama do então general romano por todos os cantos do império.

    O uso do medo foi uma das táticas de César para desestabilizar o moral dos gauleses. Num evento que se tornou um símbolo do avanço e poderio romanos, os gauleses talvez se sentiam protegidos das legiões pelo largo e profundo rio Reno. César, ao chegar às margens do rio, num dos grandes momentos da engenharia romana, construiu uma sólida ponte para atravessar os aproximadamente 250 metros1 do rio com seus 9 metros de profundidade. Tudo isso em apenas dez dias. Aquilo certamente desestabilizou toda a crença dos gauleses. E para acabar de vez com o moral, dizem que Júlio César, quando aquela obra que, para o olhar gaulês, era quase sobrenatural, ficou pronta, ele simplesmente atravessou, pisou no solo do terreno gaulês e voltou, mandando desmontar a ponte2. O recado estava dado: “eu atravesso a hora que eu quiser”.

    O cérebro humano pode ser o melhor alvo quando um conquistador o compreende e sabe manipulá-lo. Principalmente quando tratamos de um pensamento coletivo, ou, como se costuma dizer: “a manada”.

    Assim, César, ainda em sua campanha na Gália, continuou utilizando de táticas psicológicas para manter suas conquistas. Dentre elas está a mais famosa: Divide et impera (dividir para conquistar). Ele não usou essa expressão diretamente em seus escritos, mas a estratégia foi exatamente essa. Ele se aproveitou das rivalidades e divisões internas que existiam entre as diversas tribos gaulesas para manter o povo em constante conflito entre si, às vezes apoiando um lado e, às vezes, outro. E estimulando a rivalidade. Isso ele deixou bem claro em sua obra:

    Ipse Diviciacum Haeduum magnopere cohortatus docet quanto opere rei publicae communisque salutis intersit manus hostium distineri, ne cum tanta multitudine uno tempore confligendum sit

    Ou seja, “[…] era importante para a república e para a salvação de todos que as forças inimigas fossem mantidas separadas, para que não fosse preciso lutar contra uma multidão tão grande de uma só vez”.

    Um milênio e meio depois, foi a vez de Maquiavel, em sua obra “O Príncipe”, detalhar a importância política de certas táticas:

    “Costumavam alguns príncipes, para conservar com segurança o Estado, desarmar seus súditos; alguns outros, manter divididas as terras submissas; alguns, nutrir inimizades contra si mesmos; (...)”

    Talvez você reconheça bem essa tática maquiavélica. Porém, essa é a visão pobre de políticos que não se atentam para ameaças externas, pois o próprio Maquiavel afirma que essa tática só funciona em tempo de paz. Em caso de conflito externo, ela se mostraria como fraqueza e seria prejudicial para a nação, já que estaria dividida em caso de investida estrangeira (e hoje em dia a investida não precisa ser, necessariamente, militar para os mesmos efeitos). Bem-vindos ao Brasil.

    Na esperança de tempos eternos de paz, temos políticos com técnicas arcaicas de controle e manipulação para a perpetuação no poder e fortalecimento do Estado.

    E como voltar a unir uma nação? Talvez seja tarde demais, uma vez que as divisões criadas andam refletindo um cenário global: direita vs esquerda, preto vs branco, pobre vs rico e as religiões. E como golpe fatal para o autofortalecimento das divisões, temos o algoritmo.

    Uma curta pausa no texto para dizer que o Escriba Cafe é mantido com o apoio dos leitores e ouvintes. Se ainda não o fez, considere assinar gratuitamente ou mudar para assinatura premium.

    A maior fonte de informação e opiniões hoje é a internet: mecanismos de buscas e redes sociais tornam-se a nova realidade. E o que elas entregam ao usuário? Aquilo que o usuário quer ouvir/ler.

    As redes filtram de forma direta (pela própria ação da pessoa) ou de forma indireta (identificando as preferências) o conteúdo que é exibido. Se você é de direita, só o conteúdo favorável à direita lhe será entregue. O mesmo para a esquerda. O mesmo para tudo o que você ama e tudo o que você odeia. E é muito interessante olhar por essa ótica do ódio. Se você odeia algo, muitas vezes a rede não só vai filtrar aquilo a favor do que você odeia, como vai te entregar o conteúdo contra aquilo que você odeia.

    Dessa forma, estamos vendo o mundo real de forma irreal. As notícias e conteúdos filtrados nos apresentam uma realidade que, apesar de não ser necessariamente falsa, é incompleta, tornando-a irreal. A verdade é relativa - sempre foi - mas nos está sendo entregue como absoluta.

    O acesso ao contraditório está cada vez mais difícil e exigindo a busca pelo próprio usuário e, mesmo assim, com certa dificuldade. O debate está se acabando. Hoje ele é exclusividade de certos nichos.

    O grito, a violência e a síndrome dos três macacos regem o pensamento contrário. Um exemplo claro são as fortes iniciativas para calar aquilo que chamam de “discurso de ódio”. Ora, é preciso permitir o livre discurso, seja ele qual for. É preciso que ideias absurdas sejam expostas para serem combatidas pelo próprio discurso e, assim, invalidadas. Ao se calar o discurso público, ele não cessará de existir, mas acontecerá entre quatro paredes, exclusivo a grupos que não enfrentarão oposição intelectual e crescerão com cada vez mais força e novos adeptos. Não haverá o contraditório e esse é o maior erro de todos.

    A necessidade do pensamento crítico é hoje fundamental para tentar sanar esse problema exponencial. A capacidade para identificar e questionar visões de mundo, principalmente a própria, é a única saída para uma sociedade que está dividida e calada aos berros. Mas, enquanto houver uso político da ignorância (e não vejo um motivo prático para que isso acabe), a sociedade estará caminhando para o colapso.

    1

    Estima-se algo entre 140 e 400m de comprimento.

    2

    O fato é que ele atravessou com suas legiões, permaneceu por pouco tempo e voltou, desmontando a ponte para mostrar do que era capaz e causar medo no inimigo.

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  • Sergei Rachmaninoff

    Nesse episódio do Escriba Classics, vamos com mais um Russo. Um dos maiores compositores, pianistas e regentes russos do final do período romântico (talvez o último grande romântico russo) conhecido por suas melodias exuberantes, harmonias ricas e virtuosismo técnico que elevaram o piano a novos patamares.

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  • Por que você não entende os filósofos?

    A questão estética envolvida na ausência da complexidade — por vezes confundida como intrínseca ou necessária — torna-se o candelabro no empreendimento metafísico no qual expedições mentais buscam sanar as questões primordiais de um argumento hipertranscendente. Encontra-se presente na indagação, sem qualquer espaço para uma argumentação contrária à premissa, a conclusão.

    Sim. A beleza encontra-se na simplicidade.

    Mas por que escrever assim (como o parágrafo de abertura)? Por que deixar confuso o leitor ou o aprendiz com neologismos, expressões com definições particulares, linguajar completamente alheio ao leitor comum e um exagerado detalhismo?

    Esse é todo o problema: não estamos na mesma época dos grandes pensadores. Não somos o público original dos grandes pensadores e não fomos preparados para os grandes pensadores.

    É por isso que hoje é muito difícil acompanhar as obras de filósofos como Kant. Sim, sei de pessoas que, ao ingressar em estudos acadêmicos sobre ele, tiveram insônia, agonia e uma chegou a acordar de madrugada aos prantos.

    Se é o seu caso, saiba: você não está só.

    I Kant understand

    Procure no Google, ou onde quiser, “não entendo Kant”. Você encontrará incontáveis textos sobre a complexidade de Kant (e de outros filósofos que tentam nos trazer a filosofia prática, mas que viveram em outra época).

    É lugar-comum passar maus bocados com Immanuel Kant.

    A questão é criar uma metodologia para começar a entendê-lo (e a qualquer outro filósofo).

    1. Eles são a continuação

    Todo filósofo parte de uma premissa. Seja para acatá-la ou para contrariá-la. Usando essas premissas, eles constroem o seu próprio pensamento, tornando-se a premissa para os próximos pensadores. O próprio Kant é uma das premissas para o Idealismo Alemão e o existencialismo. Portanto, para entender um filósofo, é preciso, primeiro, entender quem ele critica, reforça e, até mesmo, despreza. Ele não começou do zero, e você, se começar diretamente com suas obras, vai pegar o bonde andando.

    2. Eles criam expressões

    Idealismo transcendental, fenômeno, númeno, juízo analítico, juízo sintético, imperativo categórico, autonomia da vontade, juízo estético desinteressado…

    Todas essas expressões e palavras foram criadas ou ressignificadas por Kant, o que exige um “dicionário” para entender o que ele quer dizer. Não é porque você lê uma palavra conhecida que entenderá o que ele quis dizer com ela. É preciso se preparar para essa confusão.

    3. Eles usam a linguagem do mundo deles

    Cada filósofo viveu numa época e lugar completamente diferente dos que vivemos hoje. Enquanto hoje temos os escritores que tentam atingir o máximo de pessoas possível, os pensadores precisavam abraçar toda a complexidade linguística para expor seu pensamento (e, muitas vezes, ir além, como disse na questão anterior). Some isso ao mundo em que viviam, com um possível grande analfabetismo e um foco acadêmico de uma época onde se lia e escrevia de forma mais formal (podemos ver isso até mesmo naqueles irônicos e sarcásticos como Voltaire, cuja linguagem, por vezes mais “popular”, ainda é mais complexa do que a usada popularmente hoje), e é possível entender a leitura mais “pesada”. A questão do detalhismo também é importante para mostrar o caminho do pensamento, expor as possíveis contradições que já foram superadas e as bifurcações e escolhas que levaram à — aparentemente simples — conclusão de “A beleza está na simplicidade” (como o pobre exemplo ilustrativo que abriu este texto).

    4. Você está à mercê dos tradutores

    Naquela época pré-internet, todos os grandes pensadores, estudiosos, escritores e pesquisadores aprendiam um determinado idioma para ter acesso às obras de suas premissas (note que já me apossei da palavra “premissa” com meu próprio ressignificado). Se quero estudar Goethe, aprenderei alemão. Se quero ter acesso a Sócrates, aprenderei grego. Hoje o mundo parece não nos dar a paz e tempo para aprendermos um idioma unicamente para estudarmos os pensadores em cujos ombros estamos subindo (nanos gigantum humeris insidentes) e, assim, ficamos com os tradutores profissionais ou os acadêmicos que puderam dedicar sua vida a isso, e eles erram ou simplesmente diferem. É aí que o debate e a vida acadêmica entram com sua importância comparativa e experimental. E você vai se perder aí também.

    5. Você não está só

    Eu não entendo Kant; seu vizinho não entende Kant; os seus colegas não entendem Kant; seus mestres, por mais que já tenham adentrado nesse mundo, também não entendem Kant. Ninguém jamais entenderá Kant por completo, mas, enquanto a pesquisa pelas ideias dele estiver trazendo riquezas intelectuais (independentemente da interpretação), ele será uma mina a ser explorada.

    É por isso que o debate, os estudos, os seminários, os congressos e os novos pensadores sobre a premissa (de novo) continuam existindo e, cada vez mais, enriquecendo o conhecimento sobre nós mesmos e sobre aqueles que estamos tentando compreender para que nós — ou os que vierem depois de nós — cheguemos mais próximos da verdade.

    Seja Kant, seja o cosmos, não pare de estudar.

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  • Blumenau e a Oktoberfest

    Blumenau, aqui estou!

    A cerveja, a beleza, o calor, a chuva e a cultura germânica — que, mesmo com os horrores trazidos pelo nacionalismo de Vargas para impedir que os imigrantes mantivessem sua identidade, continua presente em cada esquina — nos recebem nessa época de Oktoberfest.

    Se não entendeu nada do que mencionei acima, talvez seja hora de ouvir a minissérie que produzi sobre a imigração alemã no Brasil: é o podcast Auslander, que você pode ouvir aqui.

    Mas, voltando ao cerne, Blumenau, fundada em 1850 pelo farmacêutico e filósofo Dr. Hermann Bruno Otto Blumenau, surgiu como um projeto de colonização particular às margens do rio Itajaí. Sim, particular: o Dr. Blumenau arrumou alguns outros malucos para essa empreitada de se enfiar nas matas e erguer uma colônia. A colônia prosperou e muitos outros imigrantes vieram, transformando a região num polo de desenvolvimento, inicialmente focado na agricultura e, mais tarde, na indústria têxtil e cervejeira (ainda bem), moldando a identidade que a cidade tem hoje.

    Enquanto a colônia do Dr. Blumenau ainda era um monte de mato, na Baviera alemã, acontecia uma festa que viria a se tornar uma das mais conhecidas do mundo. Quase meio século antes de Blumenau, o Rei Ludwig I realizou seu casamento, organizando uma grande festa que durou dias. Nessa festa, toda a população pôde encher a cara e assistir a atrações como corrida de cavalos e muita música.

    Sim. A Oktoberfest foi uma festa de casamento.

    Representação original da corrida de cavalos no casamento do Rei Ludwig

    Imagine fazer uma festa de casamento tão boa que o povo decide continuar comemorando seu casamento todo ano para sempre?

    Já no Brasil, junto com os imigrantes, veio também a festa. A primeira Oktoberfest do Brasil aconteceu em Itapiranga, SC. E a de Blumenau, que se tornaria a maior Oktoberfest fora da Alemanha, só começaria em 1984. O motivo era tão grandioso quanto a própria celebração: reerguer o ânimo da cidade após a devastadora enchente de 1983, que atingiu o Vale do Itajaí de forma avassaladora e deixou grande parte do município debaixo d’água por semanas, desalojando milhares de famílias e causando prejuízos incalculáveis. A cidade estava literalmente no fundo do poço, e a iniciativa de criar a Oktoberfest em 1984 foi um audacioso e necessário plano, uma forma de trazer de volta a alegria, a união e o ânimo para os moradores.

    Parece que deu certo.

    Hoje, a Oktoberfest de Blumenau é a segunda maior do mundo, atrás apenas da de Munique, na Alemanha (e a nossa acontece em outubro, fazendo jus ao nome, viu Munique?). Anualmente, o evento atrai mais de meio milhão de visitantes de diversas partes do Brasil e do mundo, que se reúnem nos pavilhões do Parque Vila Germânica (que é um lugar incrível) para celebrar a cultura germânica com muita música, danças folclóricas, gastronomia típica e, obviamente, cerveja. A festa que era pra alegrar o povo depois de uma tragédia é, hoje, ironicamente, um dos pilares da economia local.

    A cultura germânica, tão combatida por Getúlio nos anos de guerra, continua viva e forte, sendo reafirmada todos os anos na Oktoberfest.

    Venham. Prost!

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