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Boa leitura.
O Saara, hoje o maior deserto quente do mundo (afinal, a Antártida é, de fato, o maior deserto do planeta), já foi uma floresta cheia de vida (e, a título de curiosidade, a Antártida também).
Assim, numa hipótese fantástica, você, leitor ou leitora destas mágicas palavras, tem o poder de, num estalar de dedos, devolver toda a vida para o Saara. As florestas e savanas que cobriam a região irão ressurgir; os inúmeros animais que viveram ali poderão voltar e viver toda a plenitude verde daquele lugar que pulsava vida e, quem sabe, a África teria um novo futuro para sua fauna, flora e seus habitantes?
E então? Você tem esse poder. E assim eu pergunto: você reflorestaria o Saara?
Se você respondeu “sim”, você acaba de destruir a Amazônia e causar uma catástrofe climática em cadeia pelo mundo.
A Floresta Amazônica é completamente dependente do deserto do Saara. Por ser pobre em minerais, principalmente o fósforo, ela não se manteria sozinha. É aí que entra o deserto do Saara: anualmente, milhões de toneladas de poeira de lá são levadas para a Amazônia através dos ventos alísios. Essa poeira contém diversos minerais que funcionam como um fertilizante. Só de fósforo, são 22 mil toneladas por ano.
Sim, a Amazônia é mais antiga que o Saara, porém, antes ela vivia de recursos “não renováveis” e diversas mudanças na região a deixaram à mercê dessas reservas que iriam acabar. A formação do Saara foi a salvação.
Assim, a ação benevolente de fazer com que o deserto se torne novamente um ecossistema com uma rica fauna e flora seria condenar à morte a maior floresta tropical do mundo.
Muitos já devem ter esse conhecimento prévio sobre a importância do Saara para a Amazônia e, certamente, tomaram a decisão de não reflorestar o deserto. Já aqueles que viram que teriam o poder de fazer um ato benevolente, ignorando as consequências desse ato, e optaram por reflorestar o deserto, realizaram um ato de Benevolência Cega.
Ações bondosas que parecem estar ajudando o mundo ou a humanidade — ou até mesmo num microcosmo, como um problema familiar ou entre amigos —, quando tomadas sem uma análise aprofundada, podem ter consequências devastadoras por fazerem parte de um sistema complexo, ou seja, uma rede composta por vários componentes, sejam eles pessoais, materiais, naturais ou até mesmo infômatos1, que reagiriam à ação benevolente inicial de forma descontrolada, causando um mal geral.
Esse tipo de ação pode ser visto diariamente em diversos níveis: motoristas no trânsito parando o carro numa via preferencial movimentada para dar passagem para um único outro carro no cruzamento, causando, assim, um engarrafamento na via; ou a criação de filhos dentro de uma bolha que os blinda de toda dor, frustração ou fracasso, o que os tornará adultos com baixa tolerância à frustração e sem a menor aptidão para resolver conflitos.
Algumas simples ações individuais, como doação de roupas e alimentos, podem, também, destruir uma outra nação em crise. Parece absurdo, sim, mas quando se enviam carregamentos em excesso para nações que estão passando por momentos de grande necessidade, pode-se estar destruindo o que resta da economia daquele país. Os agricultores, indústria têxtil e comerciantes locais perdem para a concorrência de “preço zero”, perpetuando a dependência do país de ajuda externa.
Tudo em exagero faz mal, até a empatia. Até “fazer o bem”, principalmente quando feito sem uma análise das possíveis consequências.
Crítica à Benevolência Cega dentro de Sistemas ComplexosO excesso de empatia humana somado à ignorância individual e/ou à imbecilidade das massas é a receita que motiva as ações benevolentes impensadas ou que geram um tabu à sua volta, blindando-a da análise estratégica e até da negação de uma boa ação ou decisão governamental.
Enquanto isso, a demagogia, a crítica, a atual cultura do cancelamento e o populismo político transformam esse fenômeno em um mecanismo sistêmico.
Em suas obras Além do Bem e do Mal e A Genealogia da Moral, Friedrich Nietzsche ataca o utilitarismo e o sentimento de piedade, o Mitleid.
O utilitarismo é, bem resumidamente, um modelo prático-filosófico do britânico Jeremy Bentham e expandido por John Stuart Mill, no qual as melhores ações são aquelas que trazem a felicidade ao maior número possível de pessoas. Por isso Nietzsche ataca:
"O homem não busca a felicidade; apenas o inglês faz isso.”2
A crítica dele está na conclusão de que os utilitaristas transformaram a ética naquilo que ele chama de moral do “Último Homem”: um ser domesticado e cuja única meta é evitar o atrito, o desconforto e o perigo.
"O bem-estar, tal como o compreendeis — isso não é para nós uma meta, isso nos parece um fim! Um estado que torna o homem imediatamente ridículo e desprezível (...). Quereis, se possível — e não há 'se possível' mais insensato —, abolir o sofrimento; e nós? Parece que preferimos tê-lo ainda mais alto e pior do que jamais foi! A disciplina do sofrimento, do grande sofrimento — não sabeis que foi apenas essa disciplina que produziu todas as elevações do homem até hoje?"3
Ele ataca a piedade (Mitleid) com a mesma base. Mas uma observação: ele separa a força geradora de generosidade da mera piedade passiva.
Ele correlaciona a compaixão moderna como uma herança cristã, a qual paralisa o ímpeto vital. É a “moral de escravos”. A piedade nega a vida e multiplica o sofrimento do mundo. Ter pena do outro impede que ele enfrente suas próprias dores para superar limites e se fortalecer.
Além disso, a mera sensação de piedade não cura o sofredor; ela simplesmente contamina o observador com a mesma fraqueza (e estamos chegando lá, na conclusão a que eu mesmo há muito tempo espalho por aí, mas sigamos o pensamento de Nietzsche).
"A compaixão obstrui a lei do desenvolvimento, que é a lei da seleção. Ela conserva o que está maduro para perecer, defende em favor dos deserdados e dos condenados pela vida (...). A compaixão é a práxis do niilismo. Repetindo: esse instinto depressivo e contagioso cruza aqueles instintos que visam à conservação da vida e à elevação do seu valor: ele é tanto um multiplicador de miséria quanto um conservador de tudo o que é miserável."4
A piedade é frequentemente uma forma disfarçada de vaidade e autoindulgência, na qual o compassivo se sente moralmente superior sem construir nada de nobre.
Sim, é próximo ao que sempre chamei de “Egoísmo Primordial”. Tudo, absolutamente tudo que fazemos é egoísta, até mesmo a caridade e a piedade. É uma forma de tentar curar em nós a dor que sentimos ao observar o sofrimento alheio. Isso talvez tenha sido a programação que ganhamos para auxiliar na preservação da espécie.
Parar o sofrimento a qualquer custo, porém, é o grande mal disfarçado de bem que temos carregado. A benevolência cega está destruindo o Ocidente: veja as grandes massas imigratórias, a tolerância — e até ações públicas — de fortalecimento daquilo que devia estar sendo tratado como problema (e que, infelizmente, em alguns casos pode ser considerado “crime” e, por isso, me mantenho sem citar nomes).
“Salvar o mundo” das suas partes duras é o erro trágico da benevolência cega. Sem aridez, não há motivo para florescer; sem o deserto, a floresta perde a própria razão metabólica de existir.
"O que quer que pertença ao 'eu' de uma pessoa, as suas tempestades, os seus infortúnios e as suas privações, tudo isso é visto pelos homens da compaixão como um mal a ser extirpado (...). Nossa religião é a religião da criação: e criar significa transformar o que é árido e doloroso em forma e beleza."5
Mas por fim, a benevolência é vista e é isso que importa para governos que tem ovelhas atentas ao superficial e cegas ao profundo. Pastoreados que simplesmente ignoram que há uma profundeza. Uma profundeza repleta de perigos, sofrimento mas, também, de superação e fortalecimento.
1Termo cunhado pelo filósofo Byung-Chul Han no livro Não-coisas, para definir um objeto ou dispositivo digital inteligente e conectado, como — e principalmente — os smartphones, que medeiam nossa relação com o mundo, transformando coisas físicas em pura informação.
2Presente na obra Crepúsculo dos ídolos.
3Aforismo 225 da obra Além do Bem e do Mal
4Presente em O Anticristo
5Em A Gaia Ciência
Neste encontro da Sociedade Literária do Escriba Cafe, mergulhamos no clássico “Um Conto de Duas Cidades”, de Charles Dickens. Entre guilhotinas, contextos históricos e analogias poéticas, o grupo debateu como Dickens retratou o “Período do Terror” da Revolução Francesa e por que essa história, publicada originalmente em fascículos, ainda ecoa tanto em …
A chuva havia passado. Ele abriu um dos olhos e viu, pela mesma janela de todos os dias, que o rei celeste se esgueirava pelo vidro. Era o aviso de que já tinha passado da hora e que, se ele não levantasse da cama, muito em breve seria estapeado pelos raios quentes daquele deus de outrora.
Era o único deus que realmente se mostrava fisicamente. Era o único de quem até mesmo a ciência já provara o poder de criar vida, de nos alimentar, de nos aquecer do frio, de nos iluminar o caminho e de ter influência direta em tudo o que acontece no mundo.
Assim como os outros deuses, ele também tem o poder de nos castigar e nos destruir. Mas não o faz e nunca o fará deliberadamente. Um dia, ele vai simplesmente morrer e, como uma prova de que era onipresente e onipotente em nossas vidas, morreremos juntos.
Ainda assim, já não há nenhum templo em sua homenagem. Não há orações celebrando mais um dia, não há preces antes das refeições agradecendo-lhe pela comida e nem mesmo um mero reconhecimento de seu poder divino. Ao contrário, temos hippies aplaudindo quando ele se vai depois de mais um dia.
Os antigos egípcios tinham um lugar especial para ele. Era o rei dos deuses, o criador do universo e a fonte da vida.
E ali, naquele quarto ainda com cheiro de chuva, ele não se sentia merecedor daquele deus. Não ainda. Fez seu café, sentou-se com o teclado à sua frente e começou a trabalhar no evangelho de todo sábado. Estava atrasado e seus companheiros esperavam aquelas palavras.
Um estudo matemático em que o comportamento interpessoal pode ser previsto e, portanto, usado como estratégia. Essa é a Teoria dos Jogos e como ela influenciou a história.
Nessa gravação ao vivo, a e eu conversamos brevemente sobre o assunto. Ela, inclusive, nos mostrou a aplicação da Teoria dos Jogos no meio jurídico.
Ouça essa conversa descontraída e d…
Numa ínfima prece silenciosa, a primeira gota de sereno que se formara na janela começa sua procissão para seu próprio fim. A manhã, carrasco de toda forma noturna de solidão, resplandece em cada fresta, violando barreiras de cortinas e portas para entregar o recado a todos que ainda dormiam que ela chegara.
Para uns, aquela invasão era triste. Com a embriaguez anterior extinta, o vazio fica claro como a luz que entrava. A tristeza estaria de volta; para outros, um alegre recomeço. Após a dissipação da névoa, o vazio havia sido preenchido. Talvez com alguém, talvez com algo, mas, por algum motivo, não estava mais ali.
Mas para ela, não. Era um novo dia, sem névoas, sem embriaguez noturna, sem vazio. Em sua janela não havia barreiras, o vidro claro convidava a manhã a tirá-la da cama, assim como havia feito com os pássaros antes dela. E assim como os pássaros, aquele era simplesmente um novo dia. As preocupações de ontem, a irritação, o cansaço, tudo aquilo havia partido — e sido esquecido.
Tudo o que precisava agora era o perfume do café que desde sempre lhe trazia as mais belas lembranças subjetivas de uma vida feliz. E uma torrada com ovos, talvez. Mas primeiro, o café e só o café, pois esta manhã estava fresca, tranquila e bonita.
Nesse episódio trago uma bebida e um livro, ambos peculiares. Trata-se de uma mistura sul americana com dedos holandeses.
Ouça o episódio à noite com seu drink favorito e relaxando.
Links para os produtos citados:Agwa de Bolivia (a bebida)
A Invenção de Morel (o livro)
Era uma manhã do ano de 59 a.C. em Roma Antiga. O café da manhã — que em nada se parecia com esse nome, afinal o café ainda era uma tecnologia que viria no futuro — fora servido. O nome dessa refeição consumida logo após o despertar era ientaculum. E lá estava, na mesa do romano médio, pão seco com azeite, figos secos, alho, mingau de cereais e qualquer outra sobra da noite anterior. Para beber, vinho misturado com água (não se tomava vinho puro logo cedo). Os mais abastados ainda tinham ovos, leite, queijo e mel, e o pão e as frutas deles eram frescos.
Após a refeição, era hora de acompanhar as notícias. E lá ia o romano médio para a frente do fórum onde, diariamente, se pregavam placas contendo as notícias do governo, acontecimentos civis (como casamentos, nascimentos e mortes de notáveis), escândalos no governo, relatos de batalhas, execuções e, claro, um pouco de fofoca.
Aquele era o Acta Diurna, o primeiro “jornal” da história. Foi idealizado por Júlio César e, desde então, se desenvolveu até chegar ao Acta Saturnalia, seu boletim de todo sábado.
Assim, explicado de onde veio o nome do texto mais esperado da semana, sigamos.
I.
A escravidão não é negra.
A que esteve mais próxima de nós, geográfica e temporalmente, foi a dos escravos africanos, que eram vendidos por tribos africanas inimigas para os europeus para serem importados para as Américas e isso — mas não só isso, é importante destacar — explica parte do racismo e das diferenças socioeconômicas nos dias de hoje no Novo Mundo.
Antes de serem importadas como meros produtos da África, as pessoas já eram escravizadas por lá. Negros escravizavam negros. Antes disso, negros escravizavam brancos lá pelo norte — houve, inclusive, um grande mercado de escravas sexuais brancas.
Le Marché d’esclaves (mercado de escravos), óleo sobre tela de Jean-Léon Gérôme, 1866.Brancos escravizaram brancos, árabes escravizaram cristãos e, na Idade Média, foram tantos os eslavos escravizados que deram nome à palavra que usamos hoje: “escravo” vem de “esclavus”, que se referia a esse povo.
Mas a escravidão já acompanha a humanidade desde muito antes. Estima-se que, no Império Romano, 30% da população de Roma era escravizada.
Durante toda a história, a escravidão acompanhou o ser humano, não diferenciando etnia, crença ou origem. Normalmente, os escravos eram pessoas que não pagaram dívidas, capturadas em derrotas de guerras ou até mesmo caçadas por seus iguais, como na história mais recente.
Alguns sistemas maltratavam os escravos, outros os assimilavam como acessórios ou pets, objetos sexuais ou artigos valiosos. No entanto, com o desenvolvimento das sociedades e a necessidade crescente de mão de obra, a cultura escravagista também se desenvolveu como oportunidade de negócio até chegar ali por volta do século XVI, em que o comércio de escravos entre os próprios africanos se deparou com os europeus, que se interessaram pelo “produto”.
Assim, a onda de captura de membros de tribos inimigas foi grande para suprir a lucrativa demanda das Américas.
Chegando às Américas, o que se viu foi uma desumanização dos escravos para poderem ser tratados puramente como produtos. E o comércio era tão lucrativo que até mesmo os escravos libertos almejavam ter seus próprios escravos como forma de prosperidade. E alguns foram muito bem-sucedidos nisso, como a famosa Chica da Silva.
Zumbi, o famoso “herói” dos escravos libertos, tinha escravos. De uma forma velada, claro, mas os tinha (pergunte aos que tentaram sair de seus quilombos).
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Historicamente, a escravidão não foi negra. A bem da verdade, a escravidão, na humanidade, sempre foi o negócio menos racista de todos: visava, unicamente, ao lucro. No entanto, o estigma mais moderno, pelo comércio macabro, caiu sobre os negros.
Em algumas regiões da Eurásia e da África, sentem-se até hoje os reflexos de terem tido boa parte de sua população escravizada e estigmatizada como tal. E nas Américas isso foi notável.
Com o fim da escravidão, os negros libertos passaram por fases de adaptação sem nenhum programa ou planejamento, o que os levou a ficar do outro lado do abismo. Alguns prosperaram, claro, mas a maioria não tinha para onde ir. Assim, seus descendentes acabaram por sofrer com o preconceito e a falta de oportunidades.
No entanto, essa não é só a história dos descendentes de escravos. Do outro lado do abismo, hoje temos diversas etnias vindas de regiões falidas que caíram no poço de uma nação que nunca tenta sanar o problema, mas somente tratar porcamente de forma paliativa.
É o caso das cotas. Apesar de algumas pesquisas mostrarem algum sucesso entre os cotistas, esse programa ignora aqueles que se encontram do mesmo lado do abismo, mas com uma cor de pele não adequada ao “benefício reparatório”. Não seria esse o conceito de racismo? Sim ou não, é um motor que gera mais racismo.
A partir do momento em que aqueles antigos estigmatizados começam a ser assimilados pela sociedade, o estigma — leia-se o racismo — vagarosamente tende a diminuir. É óbvio que o círculo vicioso da pobreza com o crime acaba por dificultar isso, mas a tendência é diminuir naturalmente e com a parcimônia das leis.
Quando o governo, de forma ideológica e oportunista, começa a agrupar minorias e dar-lhes benefícios que outros grupos não têm por causa da cor da pele ou orientação sexual, temos exatamente aquilo que ele diz combater: racismo e preconceito.
Ações e planos de reintegração de pessoas em situação desvantajosa devem ser universais e não discriminatórios. Ações assistenciais devem ser um meio, e não um fim.
Mas hoje tudo é tabu. Tudo é política, demagogia e populismo. Protegeram de forma ideológica e tirânica certos assuntos para que esse tipo de solução não seja adaptada. Aquilo que estava naturalmente — mas muito vagarosamente, sim — sendo tratado, como o racismo e o preconceito, acabou por ser reforçado numa sociedade que foi separada em grupos antagônicos.
Qualquer pessoa com dois neurônios entende que essa receita é perfeita para um governo se manter livre da vigilância do povo.
Lá fora parecia estar frio. Não muito, mas na medida certa para que a manhã se prolongasse como um grande lençol sobre as colinas.
Ela olha distraída pela janela em seus pensamentos que nunca eram desvendados. Que mundo acontecia ali? Por onde ela viajava, que caminhos percorria e maravilhas criava em sua nau etérea?
Os ovos que ela acabara de colocar na panela estalaram. O cheiro de café tomava conta da cozinha e as torradas traziam as notas maltadas que harmonizavam com os grãos que viajaram por muitas e muitas léguas até bailarem com as borbulhas da água que também percorrera um longo caminho em busca do mar. O café foi só uma breve interrupção. Muito em breve a viagem continuará, mas não do mesmo ponto - e talvez nem a mesma viagem, afinal, dizem que nunca se pisa duas vezes no mesmo rio. Ou melhor, "Nenhum homem pode banhar-se no mesmo rio duas vezes, pois nem o rio é o mesmo, nem o homem é o mesmo."
Quem disse isso foi o pré-socrático Heráclito de Éfeso, que já havia percebido a fluidez constante do tempo e do homem há mais de 2500 anos.
O cheiro do café, o frio do inverno, o escuro das cortinas fechadas para não acordar quem ainda dorme, enquanto as palavras deslizam como as gotas do orvalho nas flores dos lírios no raiar do dia.
Ao contrário das cortinas, o caderno está plenamente aberto e os riscos acompanham uma sinfonia de Pachelbel e, logo depois, de Edvard Grieg1.
Assim como ensinado silenciosamente e aprendido involuntariamente, o ritual mágico, então, foi cumprido e, de repente, ele está isolado. O mundo se resume somente naquilo que surgia em seu caderno. A conexão com a sublime realidade subjetiva de sua alma estava feita e o mundo aqui fora, o tal que chamam de real, deixava de ser real. Real era agora o que ele estava vivendo. Ele. Ninguém mais. Era senhor de seu mundo, deus e criador do céu e da terra.
E a terra tem campos verdes e o frescor de uma manhã perfumada que entrava pela janela de madeira — essa, de cortinas abertas — em que se viam as montanhas ao longe.
A chama da vida estava acesa. A sombra da morte, encantada pelo mundo, dançava entre lírios, esquecendo-se de sua colheita.
Tudo estava em paz. Por um breve momento, tudo estava.
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