Amaral, Fernanda Mello e Fernanda Noboa apresentam nessa videodança “Receba” uma reflexão corpórea acerca da obra “Fora de Campo” de Valeria Valenzuela e Claudia Müller, que foi fruto do Programa Rumos Itaú Cultural Dança 2006-2007. Na dança performance que inspirou o trio, os artistas partem da experiência de dança contemporânea em diferentes locais para diferentes pessoas em uma missão de entregar emoções e sensações. A artista é acompanhada pela câmera em diferentes momentos da performance, em diferentes enquadramentos, planos e movimentos de câmera e em diferentes cenas, lugares, recortes montados a partir dos fragmentos compondo uma narrativa revelando pouco a pouco a ideia, o projeto, a missão, a performance, a intencionalidade da intervenção artística, por meio da dança, em ambiente urbano.
O filme, de cerca de 7 minutos, vai mostrando várias entregas de dança para diferentes pessoas nos lugares por ela visitados. Algumas vezes, a entrega é esperada, outras não, mas a dança que ela entrega é sempre uma surpresa, pois ela não informa o conteúdo do pacote, no caso a dança, que será entregue. Ela chega, oferece a entrega e dança. Nesses gestos, ela faz um corte na vida cotidiana em cada entrega ao promover experiências em espaços da urbes, em brechas que cria nos cotidianos. Os movimentos de cada entrega são acontecimentos disparados de acontecimentos numa sala de costura, em uma lanchonete, em uma praça, em um conservatório de música, interrompendo uma aula de piano, no meio do bonde, subindo e descendo a ladeira de Santa Teresa, caindo na Lapa em cenas cariocas. Seus passos são recebidos por pessoas comuns nesses tempos registrados pela câmera que a acompanha nesse bailado. O corpo dessas pessoas também se movimentam, acompanhando as pernas e braços da bailarina, e, também, os movimentos de câmera Esses corpos dançam para as lentes, ou se esquivando delas.
A dança que os personagens vêem, não é visível para o espectador do filme. Está fora do campo. O espectador não vê a moça quando ela se põe a dançar aos destinatários de sua entrega na cena fílmica. Os espectadores da performance transmutados em personagens no enredo fílmico se transformam em “espectadores diegéticos”. Fazem parte da trama nesse misto de documentário, dança, performance e intervenção artística. Também nós, que assistimos ao filme, reagimos àquela dança e àquelas emoções sentidas pelos personagens.
A trilha sonora suscita os ruídos dos passos dançantes, as sombras projetadas ritmadas, ou um detalhe de mãos que escapa e… de soslaio se deixa enquadrar pela câmera que, intencionalmente, deixa de fora campo de vista do espectador, ou, quando é focalizada nas cenas que anda, caminha, conversa, entrega ou oferece a “entrega”.
Vamos assistindo as danças espelhadas nas reações das pessoas presentes na tela e nas pistas que vamos captando sobre o espaço que a dança ocupa nessa ausência no quadro, nesse “fora de campo”, presente na cena.
Do lado de cá da tela, acompanhamos uma coreografia imaginada, quase dançada, sentida, percebida. Além disso, os depoimentos, as vozes, os sorrisos, os abraços, nos informam que a ação da moça é algo sensível, que afeta sensibilizando aqueles que recebem a entrega tão inusitada e que nos afeta também.
Cada “entrega” vai sendo recebida/percebida por quem assiste o vídeo na contemporaneidade do lado de fora do ecrã. Reagimos à dança que não vemos em quadro, mas que vai sendo mostrada nas reações dos olhares daqueles que vivenciam em cena tanto as coreografias da moça que dança, quanto nos enquadramentos de quem movimenta a câmera que filma e produz com seus movimentos, sua própria dança no enquadre de todos esses gestos que se sobrepõem.
As camadas sonoras dos depoimentos, das sonoridades presentes em tela ou fora de quadro, em que a composição é bailada, vai sendo presentificada nessas interações do corpo em movimento e as histórias de vida dos personagens acabam por serem revelada