Filotecnia

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By Fernando Miguel SantosSociety & CultureArtsBooks
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Filotecnia episodes

  • Episódio 1

    Bem-vindos ao Filotecnia.

    Faz hoje 20 anos que começou uma aventura.

    Falemos de literatura.

    Há uma frase que se repete, tão arrepiante quanto natural em algumas vozes: não gosto de ler. Categórica e demasiado definitiva, não me parece que tenha equivalente em nenhuma outra forma de manifestação artística. “Não gosto de música”. Não gosto de pintura. Não gosto de cinema. Estas frases, igualmente possíveis e igualmentes secas, não são seguramente tantas vezes pronunciadas.

    Qual género de música, qual canção? Que estilo de quadro, de que época? Cinema de que origem? Longas metragens ou séries? Estas seriam as perguntas que, respondidas, caracterizariam de forma mais fiel o gosto de alguém. Quanto à literatura não há esta especificidade entre aqueles que se declaram não-leitores.

    Mas isso não existe. Desde que alfabetizados, sabemos ler. E cada vez se lê mais, embora não necessariamente livros.

    Cada vez há maiores quantidades de texto a serem consumidas. Perante isto, é curioso que não haja uma gradativa forma de aproximação ao texto literário, uma progressiva elaboração do gosto. Há quem aponte culpas à escola e à forma como se abordam os textos canónicos. Muito se poderá dizer, também, sobre o próprio cânone.

    Há quem diga que a leitura é demasiado solitária ou que exige um esforço maior do que ouvir música no carro. A questão é que só se pode ler com olhos de ler. Com a prática, um leitor entusiasmado consegue ler caminhando e passando entre as pessoas, mas a leitura tem esta particularidade de querer ser exclusiva. Não se compadece da partilha de atenção.

    Ainda bem! Não é a única. O teatro também nos exige exclusividade. No que toca à actividade do espectador ou do leitor aí reside uma grande diferença. O teatro tem espectadores, que esperam, como indica o nome, que assistem. Há potencial para se ser mais ou menos activo. Já a leitura dificilmente é passiva. Exige uma acção do leitor.

    O fenómeno dos audiolivros resolve ligeiramente a questão, ocupando um espaço vazio que existia entre a literatura e a arte sonora, que nos remete para os primóridos da poesia em que a performance era parte integrante da, agora denominada, experiência literária. Mas também levanta outras questões. Disso falaremos noutro episódio.

    Ler é um fenómeno que sempre foi marginal na sociedade. Foi exclusivo dos que tinham poder económico e possibilidade de se instruir, depois passou a ser daqueles que tinham tempo para o fazer e agora é uma exigência para a maioria das actividades profissionais, o que não significa que se leia. Chamemos à conversa Roland Barthes.

    “Entendo por literatura não um corpo ou uma série de obras, nem mesmo um sector do comércio ou do ensino, mas o grafar complexo dos traços de uma prática: a prática de escrever.

    Eu viso com ela essencialmente o texto, quer dizer, o tecido de significantes que constitui a obra, porque o texto é a própria nivelação da língua e é no interior da língua que a língua deve ser combatida, transviada: não pela mensagem de que ela é o instrumento, mas pelo jogo de palavras de que é palco. Posso pois dizer indiferentemente: literatura, escrita ou texto.”

    E continua adiante:

    “Entre as forças da literatura quero indicar três, que ordenarei sobre a forma de três conceitos gregos: Matesis, Mimesis, Semiosis.“

    Dessas forças, a primeira, Matesis, responde em parte à nossa pergunta. Por isso, Barthes continua:

    “Se por um qualquer excesso de socialismo ou de barbárie todas as nossas disciplinas fossem retiradas do ensino, exceptuando uma, a literatura deveria ser a disciplina salvaguardada, porque todas as ciências se encontram disseminadas no monumento literário.”

    E ainda:

    “O paradigma que aqui proponho não obedece a uma divisão de funções; não visa colocar de um lado os sábios e os investigadores, e do outro os escritores e os ensaístas; considera, pelo contrário, que a escrita acontece sempre que as palavras tenham sabor (saber e sabor têm a mesma etimologia em latim).”

    Saber. Sabor. Até a palavra sabor nos fica a saber a qualquer coisa na língua. Estamos habituados a ouvir o campo lexical da gastronomia aplicado aos livros. Diz-se que se degustam as frases, que os livros são devorados, que as passagens são deliciosas, os parágrafos sumarentos e que, no fim de um grande texto ficamos saciados.

    Há quem fale em termos de viagem. O texto é um périplo e, ao lê-lo alargamos os nossos horizontes, chegando mesmo a rasgar fronteiras do pensamento.

    A aventura não vive longe. Ficamos taquicárdicos com o suspense, sentimos a força do mar homérico, sabemos que não se pode agradar a gregos e troianos e temos um tendão que é tão nosso quanto de Aquiles.

    Vivemos um tempo em que o problema da relação com o texto é o analfabetismo secundário. Sabemos ler, mas não lemos. Sabemos ler, mas não sabemos realmente ler. Claro que esta é uma grande generalização e, como todas as generaliações, nas suas fronteiras, é injusta.

    O importante é fazermos a viagem que nos faça sentir o sabor da literatura. Aquela viagem que tem sabor doce, mas que, ao rasgar horizontes, tem amargos de boca que nos mostram os lados da vida que são tão ou mais sangrentos que a espada de Aquiles. Temos de viver essa odisseia que nos acelera, nos localiza, nos diminui perante o insondável e nos confronta com o sublime.

    Porque o texto está em todo o lado. No cinema, nos guiões, no teatro, nas memórias descritivas das artes gráficas, nas letras das canções, nas vozes dos improvisadores. Temos de provar os textos.

    “ No domínio do saber, para que as coisas se tornem no que são, no que foram, é necessário um ingrediente, o sal das palavras. É esse gosto das palavras que torna o saber apetecível, fecundo”, diz Barthes.

    Alargue-se esta noção. Há textos que são insossos, outros bem temperados - e bem comportados -, e outros que nos rebentam com o palato. A aproximação ao texto é como apresentar um novo ingrediente a um bebé. Ele toca, prova, talvez não goste deste primeiro contacto e depois as papilas gustativas começam a identificar aquele sabor. Instala-se uma familiaridade. Tudo o que for semelhante vai ser reconhecido e apreciado positivamente.

    Funciona como um músculo. O prazer aumenta quando se ultrapassa a linha do sofrimento, daquela dor, até que ela mesma se torna prazerosa, porque nos recorda essa adaptação que nos melhora e nos fortalece. Há viagens, ou corridas, mais longas, ou mais curtas, outras que nos lesionam e reclamam um tempo de recuperação, outras que nos empurram adiante, que nos fazem aproveitar o dia solarengo e outras que nos fazem ter vontade de viver numa gruta em Ogígia ou numa ilha do Mississipi em que todos somos fugitivos.

    O fenómeno que dá lugar ao texto moldou a natureza humana. Há textos sagrados que marcam a fé e a crença, como a Bíblia, o Corão e a Torá, outros com implicações políticas como o Manifesto Comunista, as Constituições, as leis, os decretos.

    Há livros que dão vida e livros que matam. Cada livro destes vive dos textos anteriores e esses de outros, numa rede imensa, um sistema que se altera a cada nova inclusão, que por sua vez será modificada pela reorganização sistemática, dialogando permanentemente com a correnteza desde discurso textual.

    Somos produto, quer leiamos muito ou pouco, quer sejamos bons ou maus leitores, deste fenómeno. Se lhe dermos atenção e para ele contribuirmos talvez a vida se possa decorar de cores novas. Diziam alguns avós de algures, agarra-te aos livros para seres alguém. Somos alguém só por existirmos, mas a nossa dimensão biológica trouxe-nos até à capacidade de pensar e de criar. A ficção tem a verosimilhança que se lhe pede, que nos mostra não o que é, mas o que poderia ser, o que poderia ter sido e o que pode vir a ser. Assim dizia Aristóteles. Que não se exija da literatura a verdade platónica. Se Platão deixou os poetas fora da cidade, chamemo-los. Que entrem, através destas nossas leituras, na urbe que temos de construir, desconstruir e recriar.

    É pensando que a vida ganha sentido para além daquilo que é a redundância aparente do dia-a-dia. Não vai ser apenas por ouvir um podcast que isso muda, mas a melhor forma de interpretar a realidade, abraçá-la e, se necessário for, fugir dela, seja para a ela regressar diferente ou para a enfrentar de frente, é pensando. Os livros ajudam-nos a pensar. Primeiro, talvez tenhamos a tentação de falar sozinhos. Como eu aqui, com certeza, começarei por ter apenas um primeiro ouvinte, eu, e depois, se isto correr bem, talvez possa vir a ter mais ouvintes e a estabelecer um diálogo entre quem me ouve, o que eu li, o que o ouvinte leu e o que ambos lemos em conjunto.

    Uma vez, numa aula, um professor de quem provavelmente vos falarei noutro episódio disse que é preciso frequentar as obras. As Letras, com maiúscula, evidentemente, servem para nos conhecermos e para conhecermos o outro, para nos mudarmos e mudarmos o outro, para estabeleer uma relação de respeitosa compreensão e para questionar. Questionar tudo. Questionar as ideias e até a própria necessidade de questionar. Brincar com as palavras, como acabei de fazer. Estabelecer pontes, através dos textos, entre cabeças pensantes do agora e aquelas que já pereceram.

    Este primeiro episódio serve como convite. Convido-vos a explorarem comigo aquilo que Roman Jakobson chamou de função poética da linguagem.

    Pensem neste podcast como uma conversa ou uma sequência de pensamentos em voz alta sobre o discurso conotativo e não sobre aquele, o denotativo, que usamos todos os dias. Se quiserem, interpelem-nos, participem. Se tudo correr bem, depois de degustarmos juntos algumas deliciosas passagens de grandes chefs da literatura, os seus parágrafos sumarentos, ficaremos saciados, prontos para a viagem seguinte, esmagando clichés, alargando horizontes e rasgando fronteiras. Repararam no que eu fiz? De nada.

    Perguntar-se-ão se eu não tenho mais o que fazer. Tenho, mas agora também tenho este podcast, tão adequadamente chamado Filotecnia.

    Porquê? Por amor à arte.

    Muito obrigado por ouvirem e me ajudarem a ler e a pensar na vossa companhia.

    O meu nome é Fernando Miguel Santos e hoje, no episódio de estreia, dia 29 de Outubro de 2026, celebro 20 anos de lançamento do meu primeiro livro, “Aldeia de Luz”.

    Podem saber mais sobre este episódio e este podcast em www.fernandomiguelsantos.com.

    Até já.



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    11 min

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Por amor à arte. Pelo prazer do texto.