Episódio Especial de final de ano, inspirado em uma pregação do Pastor Márcio Melo, da Primeira Igreja Batista de Manhuaçu (Pibaçu)
Chegar ao final de um ano nem sempre é motivo imediato de celebração. Para muitos, é um momento ambíguo: há gratidão, mas também cansaço; há alívio, mas também marcas. Existem anos que não passam por nós — eles passam em nós. Moem por dentro. Pressionam. Revelam limites, fragilidades, dores que preferiríamos não ter enfrentado.
Em momentos assim, o risco maior não é a dor em si, mas a amargura que pode nascer dela. A amargura surge quando o sofrimento parece injusto, sem sentido, sem resposta. Quando perguntamos repetidamente: “Por que comigo?” e não encontramos eco.
Mas a espiritualidade bíblica nos convida a um deslocamento interior profundo: sair do por quê e caminhar em direção ao para quê.
Deus não trabalha com desperdício. Nada do que passa pelas mãos d’Ele é aleatório. Tudo o que é chamado por Deus passa, inevitavelmente, por processo. O trigo não nasce pão. A uva não nasce vinho. A azeitona não nasce azeite. Entre a promessa e o cumprimento existe um caminho — silencioso, muitas vezes doloroso — mas profundamente formador.
Tudo o que se torna pão precisa ser moído.
Tudo o que se torna vinho precisa ser pisado.
Tudo o que se torna azeite precisa ser prensado.
O processo dói, mas ele não vem para destruir a essência. Ele vem para revelar o propósito.
Quando entendemos isso, algo muda em nossa postura diante da vida. Passamos a reconhecer que estar na peneira não significa estar fora do plano. Que ser pressionado não é sinal de rejeição, mas de lapidação. Que o esmagamento não é o fim — é o meio.
A dor não é destino final.
O Evangelho nos ensina que vida nova sempre nasce do processo. Jesus foi moído como pão, teve Seu sangue derramado como vinho da nova aliança e foi esmagado no Getsêmani — a prensa de azeite — para que a unção fluísse sobre nós. A cruz nunca foi o ponto final da história. Ela sempre foi o caminho para a ressurreição.
Por isso, quando compreendemos o processo, nosso coração deixa de endurecer. Permitimos que Deus transforme nossas dores em testemunho. Descobrimos que alegria não é ausência de pressão, mas presença de Deus no meio dela. Aquilo que parecia excessivo, injusto ou insuportável passa a fazer sentido à luz do propósito.
Ao olharmos para o futuro — para um novo ano que se aproxima — somos convidados a algo essencial e muitas vezes negligenciado: o descanso.
O descanso bíblico, simbolizado pelo Shabbat, não é apenas parar. É confiar. É declarar com a própria vida que Deus continua sendo Deus mesmo quando soltamos o controle. Em Cristo, encontramos o verdadeiro descanso: descanso da culpa, da ansiedade, da necessidade constante de provar valor. Descansar não é desistir — é confiar.
Nossa esperança precisa estar sempre em Deus. E essa esperança precisa ser orientada por uma bússola clara. A Palavra nos lembra em Josué 1,6–9: “Seja forte e corajoso… não temas, nem te espantes, porque o Senhor, teu Deus, é contigo por onde quer que andares.”
Essa Palavra é mais do que encorajamento emocional. Ela é direção. É bússola moral. É critério para decisões, escolhas e atitudes. É assim que vivemos com inteireza. É assim que refletimos, de forma concreta, a glória de Deus no mundo.
Ao final deste ano, fica o convite: não desperdice o processo. Não transforme dor em amargura. Permita que Deus transforme pressão em propósito. E entre no novo tempo não apenas com novas metas, mas com um coração descansado em Cristo.
Que 2026 seja um ano de renovação de forças, esperança restaurada e fé amadurecida.
Que você caminhe com foco, com propósito e com descanso verdadeiro.
Porque Deus não está te destruindo.
Ele está te transformando.