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com esses chinelos viajei pelo mundo em 2012. à toa, ou seja, à deriva, levada pelas correntes do acaso, da sorte, do destino. ainda me cabem. ainda têm terra de 20 países misturadas nas ranhuras da borracha milhares de vezes pisada amassada raspada.
há 10 anos, eu estava no Laos, onde não se entra de sapatos em casas, lojas, muito menos templos. dá pra saber se um lugar está cheio pela quantidade de sapatos na porta.
muitas vezes fiquei com receio de sair e não encontrar meus ipanema giselle bundchen onde havia deixado, mas estavam sempre lá me esperando.
estão aqui comigo e me lembram que fiz essa viagem com os dedos ao vento
no Laos, se deslocar de um lugar para outro é sempre uma missão com muitas etapas e uma dose de incerteza.
o jeito mais barato de viajar em qualquer lugar é como os locais pobres viajam
e no Laos isso significa ter que fazer baldeação entre songthaews, minivans, ônibus velhos e tuktuks, esperar nas estradas poeirentas sem saber se o transporte certo vai passar, comer lanchinhos como arroz grudento, palitos de carne seca e biscoito industrializado importado da Tailândia, Vietnã ou China, se apertar pra caber mais gente e mais mercadoria.
por mais cansativo que seja, me sinto uma verdadeira desbravadora, dividindo espaços com pessoas tão diferentes de mim, simpáticas e interessadas em trocar algumas palavras, comidas e sorrisos.
estou aqui vivendo todas essas coisas em lugares que nunca tinha ouvido falar antes de partir, fazendo algo por mim que ninguém pode tirar.
6 de março, Souchai Travel Hostel, Vientiane
a estrada de Vang Vieng até Vientiane, a capital do Laos, é horrível. não sei se o asfalto, de tão esburacado, piora ou melhora a situação (sei sim, piora).
chegando na rodoviária, conseguimos encaixar 10 mochileiros e suas mochilas em 1 (um) tuktuk grande. não precisava ser assim, mas tanto o motorista quis ganhar mais colocando mais gente a bordo quanto nós queríamos pagar menos.
foi bom pra fazer amigos,
conheci a Ingrid, uma norueguesa muito gentil. ela é professora de teatro em uma escola infantil, um ano mais velha que eu, e também está viajando com o coração partido. não está fácil nem pras lindas, loiras e magras…
9 de março, homestay, Ban Na
pra chegar a Ban Na, foram 2 songthaews, a caminhonete coberta com bancos dentro, transporte regular entre vilarejos no Laos. os dois estavam bem cheios.
no primeiro, um professor de inglês ficou de papo comigo e com a Ingrid, enquanto mais passageiros vinham chegando. uma senhora com as costas completamente curvadas percebeu a oportunidade e entabulou uma conversa animada com a gente, pelo intermédio do professor, até chegarmos no vilarejo dela. ganhamos um pacote de carne seca em palitos que eu jamais compraria, mas era até gostosinha.
83 anos, 25 netos e saltando pra dentro e pra fora do songthaew sem ajuda!
11 de março, Hotel Sylomyam, Ban Kong Lo
3 songthaews e 6 horas de estrada poeirenta até Tham Kong Lo, uma caverna imensa atravessada pelo Nam Hinboun.
o Ban Kong Lo é minúsculo e só tem uma rua asfaltada: a estrada por onde chegamos, que acaba logo antes da caverna. o caminho continua pelo rio que entra nela e alcança povoados do outro lado.
passamos o dia seguinte inteiro no Nam Hinboun e na caverna que ele atravessa. entramos quatro por canoa, incluindo o canoeiro, pela entrada da caverna, que começa baixa e vai se abrindo no oco da montanha.
em um certo momento, os guias pediram que todos apontassem suas lanternas para cima - nossa luz não conseguiu alcançar o teto da caverna, dezenas de metros acima de nós.
percorremos o quilômetro de rio subterrâneo entre margens de pedras largas. como estamos na estação seca, em dois pontos a canoa não passou de tão raso que estava e tivemos que descer pra carregá-la. em outros pontos, em que os salões de pedra se alargam, a diretoria do parque instalou luzes amarelas e azuis para mostrar aos turistas as estalactites, estalagmites e grossas colunas de calcário, formadas lentamente, gota a gota, pelo suor da caverna.
essas formações rochosas não são novidade pra mim, que cresci fazendo excursões de escola nas grutas de Minas Gerais, mas não deixaram de impressionar pelo tamanho. pensei na guerra da indochina, quando milhares de laosianos se esconderam nas cavernas para fugir das bombas americanas, russas, chinesas e francesas. Kong Lo tinha o potencial para esconder muita gente, e isso provavelmente aconteceu.
sair da Tham pelo outro lado foi como entrar num reino encantado: a vegetação é mais verde, os pássaros cantam mais alto, as cores são mais vivas e o Nam Hinboun corre mais limpo. há um vilarejo cujas estradas são o rio e trilhas na mata sobre a montanha. ali, algumas pessoas estavam empacotando folhas de tabaco em grandes pacotes de lona.
fizemos um piquenique numa área feita pra isso, com mesas e cadeiras. nadamos um pouco no rio e pulamos nas canoas pro caminho de volta. demorou mais por causa da contra-corrente, o que foi ótimo porque prolongou o passeio.
eu poderia ficar mais por aqui, mas tenho muita estrada pela frente e preciso chegar no Camboja ainda em março pra conseguir reencontrar Javi e Clau, catalães queridos que conheci em Bangkok.
11 de março, Hotel Leena, Savannakhet
não fiz nada de mais em Savannakhet. tenho me sentido triste. talvez porque terminei de ler On The Road, que se encerra com muito peso e pesar. talvez porque voltei a me sentir solitária. quero carinho e intimidade com alguém, mas não com quem acha que toda brasileira é puta.
pareço recuperada, mas ainda estou vivendo o luto do fim do namoro com o holandês que impulsionou essa viagem. conhecer lugares e pessoas incríveis não tem sido suficiente. me sinto frágil, quebrada, me faltam partes que eu amava em mim, que agora não consigo acessar. além do mais, estou com três aftas na boca (e talvez TPM).
fui com Ingrid e outros viajantes a um restaurante flutuante sobre o Mekong, vendo o entardecer na Tailândia, que estava logo na outra margem. muito bonito, até que o sol se escondeu atrás de uma camada de poluição, lembrando a gente que estávamos no meio da estação seca e suas queimadas.
15 de março, rodoviária sul de Pakse
acordei às 5h30, comprei um pão com ovo mexido e fui pra rodoviária de Savannakhet. rumo a Pakse numa lata velha com assentos que não reclinam e um altar na parte da frente com flores, esculturas feitas de folha de palmeira, incenso e um copo de cerveja quase cheio, que não derramou nem uma gota, apesar dos buracos e curvas da estrada. reza forte! o motorista usa um bigode fino bem canastrão e fuma dentro do ônibus, mas as janelas estavam todas abertas, então tudo bem.
uma tevê na frente dos assentos mostrava videoclipes de música laosiana, um mix de ladainhas tristes com beats e sintetizadores pop e imagens rurais. em um deles, uma menina sofre por amor montada em um búfalo que se banha no rio. não entendi nada, mas assisti fascinada.
o ônibus começou a viagem com 10 passageiros, mas logo ficou lotado de gente e mercadorias. ofereci pra dividir meu assento com uma senhora pequena, deve ter mais de 80 anos, que se sentou sobre sacos de arroz que ocupavam todo o corredor. uma moto das grandes foi a última a embarcar e bloqueou a entrada de mais pessoas e itens.
6h depois de sair de Savannakhet, chegamos à rodoviária norte de Pakse. quero ir pra Si Phan Don direto, então precisava chegar na rodoviária sul. o tuk tuk pra lá custa 40 mil kip, o mesmo preço do ônibus que fez mais de 200 quilômetros! resolvi ir até o centro por 20 mil, achando que conseguiria barganhar o preço do segundo trecho, mas não consegui.
acabou que fui a única passageira do songthaew do Khwan, que parou na farmácia, no bar e na casa da sogra antes de me levar onde queria. mas ele é gente boa e fala um inglês razoável, batemos muito papo. ele é de Si Phan Don e disse pra eu ficar em Don Det, a ilha dos mochileiros.
cheguei na rodoviária sul a tempo de pegar um songthaew que parece estar levando todos os legumes do mundo. 40 mil kip. espero não morrer nessa estrada, esmagada por uma melancia.
escrevo enquanto o motorista e dois ajudantes amarram grandes sacos de legumes no teto.
17 de março, Bangalô 6 do Mr. Oung, Rua do Nascer do Sol, Don Det, Si Phan Don
continuando a falar do último songthaew: dividi espaço com muitas mulheres bonitas e, na falta de língua em comum para conversarmos, inventei as vidas delas: uma princesa disfarçada de plebeia, delicada e geniosa, uma cozinheira voluptuosa e alegre, uma agricultora altiva que carrega a velhice com dignidade, uma jovem mãe de cinco filhos, os peitos caídos, que viaja também com a mãe e a sogra.
essa família leva um saco de raízes brancas, que descascam e comem em lascas, sem mais nada. quis provar, mas não me ofereceram, nem depois que dei alguns dos meus biscoitos pras crianças.
cheguei em Nakong logo após o pôr do sol, com a bunda doendo de tantas horas de sacolejo. não havia mais turistas querendo cruzar pra Don Det, logo em frente. paguei 50 e não 15 mil kip pelo trajeto, numa canoa (piragua) só pra mim.
quem estava na beira da praia? Ojee, Jenny, Josh e Chris! parecem uma miragem, porque tinham me falado que de Vang Vieng voltariam pro norte, pra tentar ver orangotangos na província de Bokeo. mas mudaram de ideia e aqui estão há dois dias.
todos os bangalôs da ilha ficam em suas margens, nas ruas do Nascer do Sol e do Pôr do Sol. todos têm varanda e rede, pra gente ficar de pernas pro ar.
meu plano é ficar 4 dias nadando, lendo, andando de bicicleta e escrevendo. então vou atravessar para o Camboja. Angkor Wat me espera.
beijinhos e até lá,
Lívia
By Livia Aguiarcom esses chinelos viajei pelo mundo em 2012. à toa, ou seja, à deriva, levada pelas correntes do acaso, da sorte, do destino. ainda me cabem. ainda têm terra de 20 países misturadas nas ranhuras da borracha milhares de vezes pisada amassada raspada.
há 10 anos, eu estava no Laos, onde não se entra de sapatos em casas, lojas, muito menos templos. dá pra saber se um lugar está cheio pela quantidade de sapatos na porta.
muitas vezes fiquei com receio de sair e não encontrar meus ipanema giselle bundchen onde havia deixado, mas estavam sempre lá me esperando.
estão aqui comigo e me lembram que fiz essa viagem com os dedos ao vento
no Laos, se deslocar de um lugar para outro é sempre uma missão com muitas etapas e uma dose de incerteza.
o jeito mais barato de viajar em qualquer lugar é como os locais pobres viajam
e no Laos isso significa ter que fazer baldeação entre songthaews, minivans, ônibus velhos e tuktuks, esperar nas estradas poeirentas sem saber se o transporte certo vai passar, comer lanchinhos como arroz grudento, palitos de carne seca e biscoito industrializado importado da Tailândia, Vietnã ou China, se apertar pra caber mais gente e mais mercadoria.
por mais cansativo que seja, me sinto uma verdadeira desbravadora, dividindo espaços com pessoas tão diferentes de mim, simpáticas e interessadas em trocar algumas palavras, comidas e sorrisos.
estou aqui vivendo todas essas coisas em lugares que nunca tinha ouvido falar antes de partir, fazendo algo por mim que ninguém pode tirar.
6 de março, Souchai Travel Hostel, Vientiane
a estrada de Vang Vieng até Vientiane, a capital do Laos, é horrível. não sei se o asfalto, de tão esburacado, piora ou melhora a situação (sei sim, piora).
chegando na rodoviária, conseguimos encaixar 10 mochileiros e suas mochilas em 1 (um) tuktuk grande. não precisava ser assim, mas tanto o motorista quis ganhar mais colocando mais gente a bordo quanto nós queríamos pagar menos.
foi bom pra fazer amigos,
conheci a Ingrid, uma norueguesa muito gentil. ela é professora de teatro em uma escola infantil, um ano mais velha que eu, e também está viajando com o coração partido. não está fácil nem pras lindas, loiras e magras…
9 de março, homestay, Ban Na
pra chegar a Ban Na, foram 2 songthaews, a caminhonete coberta com bancos dentro, transporte regular entre vilarejos no Laos. os dois estavam bem cheios.
no primeiro, um professor de inglês ficou de papo comigo e com a Ingrid, enquanto mais passageiros vinham chegando. uma senhora com as costas completamente curvadas percebeu a oportunidade e entabulou uma conversa animada com a gente, pelo intermédio do professor, até chegarmos no vilarejo dela. ganhamos um pacote de carne seca em palitos que eu jamais compraria, mas era até gostosinha.
83 anos, 25 netos e saltando pra dentro e pra fora do songthaew sem ajuda!
11 de março, Hotel Sylomyam, Ban Kong Lo
3 songthaews e 6 horas de estrada poeirenta até Tham Kong Lo, uma caverna imensa atravessada pelo Nam Hinboun.
o Ban Kong Lo é minúsculo e só tem uma rua asfaltada: a estrada por onde chegamos, que acaba logo antes da caverna. o caminho continua pelo rio que entra nela e alcança povoados do outro lado.
passamos o dia seguinte inteiro no Nam Hinboun e na caverna que ele atravessa. entramos quatro por canoa, incluindo o canoeiro, pela entrada da caverna, que começa baixa e vai se abrindo no oco da montanha.
em um certo momento, os guias pediram que todos apontassem suas lanternas para cima - nossa luz não conseguiu alcançar o teto da caverna, dezenas de metros acima de nós.
percorremos o quilômetro de rio subterrâneo entre margens de pedras largas. como estamos na estação seca, em dois pontos a canoa não passou de tão raso que estava e tivemos que descer pra carregá-la. em outros pontos, em que os salões de pedra se alargam, a diretoria do parque instalou luzes amarelas e azuis para mostrar aos turistas as estalactites, estalagmites e grossas colunas de calcário, formadas lentamente, gota a gota, pelo suor da caverna.
essas formações rochosas não são novidade pra mim, que cresci fazendo excursões de escola nas grutas de Minas Gerais, mas não deixaram de impressionar pelo tamanho. pensei na guerra da indochina, quando milhares de laosianos se esconderam nas cavernas para fugir das bombas americanas, russas, chinesas e francesas. Kong Lo tinha o potencial para esconder muita gente, e isso provavelmente aconteceu.
sair da Tham pelo outro lado foi como entrar num reino encantado: a vegetação é mais verde, os pássaros cantam mais alto, as cores são mais vivas e o Nam Hinboun corre mais limpo. há um vilarejo cujas estradas são o rio e trilhas na mata sobre a montanha. ali, algumas pessoas estavam empacotando folhas de tabaco em grandes pacotes de lona.
fizemos um piquenique numa área feita pra isso, com mesas e cadeiras. nadamos um pouco no rio e pulamos nas canoas pro caminho de volta. demorou mais por causa da contra-corrente, o que foi ótimo porque prolongou o passeio.
eu poderia ficar mais por aqui, mas tenho muita estrada pela frente e preciso chegar no Camboja ainda em março pra conseguir reencontrar Javi e Clau, catalães queridos que conheci em Bangkok.
11 de março, Hotel Leena, Savannakhet
não fiz nada de mais em Savannakhet. tenho me sentido triste. talvez porque terminei de ler On The Road, que se encerra com muito peso e pesar. talvez porque voltei a me sentir solitária. quero carinho e intimidade com alguém, mas não com quem acha que toda brasileira é puta.
pareço recuperada, mas ainda estou vivendo o luto do fim do namoro com o holandês que impulsionou essa viagem. conhecer lugares e pessoas incríveis não tem sido suficiente. me sinto frágil, quebrada, me faltam partes que eu amava em mim, que agora não consigo acessar. além do mais, estou com três aftas na boca (e talvez TPM).
fui com Ingrid e outros viajantes a um restaurante flutuante sobre o Mekong, vendo o entardecer na Tailândia, que estava logo na outra margem. muito bonito, até que o sol se escondeu atrás de uma camada de poluição, lembrando a gente que estávamos no meio da estação seca e suas queimadas.
15 de março, rodoviária sul de Pakse
acordei às 5h30, comprei um pão com ovo mexido e fui pra rodoviária de Savannakhet. rumo a Pakse numa lata velha com assentos que não reclinam e um altar na parte da frente com flores, esculturas feitas de folha de palmeira, incenso e um copo de cerveja quase cheio, que não derramou nem uma gota, apesar dos buracos e curvas da estrada. reza forte! o motorista usa um bigode fino bem canastrão e fuma dentro do ônibus, mas as janelas estavam todas abertas, então tudo bem.
uma tevê na frente dos assentos mostrava videoclipes de música laosiana, um mix de ladainhas tristes com beats e sintetizadores pop e imagens rurais. em um deles, uma menina sofre por amor montada em um búfalo que se banha no rio. não entendi nada, mas assisti fascinada.
o ônibus começou a viagem com 10 passageiros, mas logo ficou lotado de gente e mercadorias. ofereci pra dividir meu assento com uma senhora pequena, deve ter mais de 80 anos, que se sentou sobre sacos de arroz que ocupavam todo o corredor. uma moto das grandes foi a última a embarcar e bloqueou a entrada de mais pessoas e itens.
6h depois de sair de Savannakhet, chegamos à rodoviária norte de Pakse. quero ir pra Si Phan Don direto, então precisava chegar na rodoviária sul. o tuk tuk pra lá custa 40 mil kip, o mesmo preço do ônibus que fez mais de 200 quilômetros! resolvi ir até o centro por 20 mil, achando que conseguiria barganhar o preço do segundo trecho, mas não consegui.
acabou que fui a única passageira do songthaew do Khwan, que parou na farmácia, no bar e na casa da sogra antes de me levar onde queria. mas ele é gente boa e fala um inglês razoável, batemos muito papo. ele é de Si Phan Don e disse pra eu ficar em Don Det, a ilha dos mochileiros.
cheguei na rodoviária sul a tempo de pegar um songthaew que parece estar levando todos os legumes do mundo. 40 mil kip. espero não morrer nessa estrada, esmagada por uma melancia.
escrevo enquanto o motorista e dois ajudantes amarram grandes sacos de legumes no teto.
17 de março, Bangalô 6 do Mr. Oung, Rua do Nascer do Sol, Don Det, Si Phan Don
continuando a falar do último songthaew: dividi espaço com muitas mulheres bonitas e, na falta de língua em comum para conversarmos, inventei as vidas delas: uma princesa disfarçada de plebeia, delicada e geniosa, uma cozinheira voluptuosa e alegre, uma agricultora altiva que carrega a velhice com dignidade, uma jovem mãe de cinco filhos, os peitos caídos, que viaja também com a mãe e a sogra.
essa família leva um saco de raízes brancas, que descascam e comem em lascas, sem mais nada. quis provar, mas não me ofereceram, nem depois que dei alguns dos meus biscoitos pras crianças.
cheguei em Nakong logo após o pôr do sol, com a bunda doendo de tantas horas de sacolejo. não havia mais turistas querendo cruzar pra Don Det, logo em frente. paguei 50 e não 15 mil kip pelo trajeto, numa canoa (piragua) só pra mim.
quem estava na beira da praia? Ojee, Jenny, Josh e Chris! parecem uma miragem, porque tinham me falado que de Vang Vieng voltariam pro norte, pra tentar ver orangotangos na província de Bokeo. mas mudaram de ideia e aqui estão há dois dias.
todos os bangalôs da ilha ficam em suas margens, nas ruas do Nascer do Sol e do Pôr do Sol. todos têm varanda e rede, pra gente ficar de pernas pro ar.
meu plano é ficar 4 dias nadando, lendo, andando de bicicleta e escrevendo. então vou atravessar para o Camboja. Angkor Wat me espera.
beijinhos e até lá,
Lívia