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5 de abril, 10h da manhã, Hotel Espelunca em Yangon
aconteceu comigo. as histórias de gente que leva golpe são sempre de um amigo, um conhecido, me contaram. no caso, sou eu mesma a burra que trocou dinheiro com cambista no meio da rua e já começou a viagem se fudendo.
meu orçamento para viajar pelo Mianmar por 15 dias era 450 dólares, 9 notas de 50 novinhas que saquei na Tailândia exatamente pra isso. lembra que eu falei que no Mianmar não tem caixa eletrônico? trouxe o dinheiro todo em espécie.
30 dólares por dia são 20 a mais que a minha média de gastos nos países vizinhos, mas eu sei que aqui é um cadinho mais caro e trouxe a mais por segurança. a ideia era trocar 350 por kyat e continuar com 100 em dólar mesmo, pra emergências.
eu já aterrissei mal, porque cheguei em Yangon, a maior cidade do país e ex-capital, sem reserva de hotel. normal pra mim que tô viajando bem livre, mas pense que todos os turistas chegam no Mianmar às 17h35 no voo diário da Air Asia, e não existem tantos hotéis assim, muito menos hostels pra mochileiros. eu não pensei nisso.
quando cheguei no bairro onde fica a maioria dos hotéis baratos de Yangon, as melhores opções estavam lotadas. procurei em um, outro e mais outro, até achar um quarto livre, 10 dólares a noite, o mais caro da viagem até agora. chamar de quarto é bondade minha. o espaço é da largura da cama e um pouco mais comprido que ela, três das quatro paredes são de plástico, sem janelas.
enquanto eu fazia check-in, uma francesa chegou procurando acomodação e, como o meu era o último quarto vago na espelunca, ofereci pra dividirmos a cama de casal. pelo menos ficou 5 dólares pra cada. a Anne Catherine está no meio da viagem pelo Mianmar e, como eu ainda não tinha dinheiro local, se ofereceu pra pagar o jantar e ainda me deu 2 mil kyat (2 dólares e pouco) pro café da manhã.
achamos uma barraca de rua lotada de clientes (ótimo sinal) e comemos mexido de arroz com frango e lahpet, uma pasta de folha de chá fermentada, ácida e gostosa. depois fomos atrás da sobremesa num lugar indicado por outra hóspede francesa.
Nilar Win é uma iogurteria raiz. lugar simples todo azulejado por dentro que só vende iogurte caseiro, puro ou com salada de frutas, maduras e suculentas. estava bem cheio quando chegamos. o dono é um ex-lutador de kung fu e na TV só passam filmes do Bruce Lee. o próprio iogurteiro atuou como coadjuvante nas cenas de luta de alguns, o que ele nos contou com muito orgulho quando fomos ao balcão. cara muito simpático, magro de ombros largos, que puxou conversa e abriu um sorrisão ao saber que eu sou brasileira.
a luz do bairro inteiro acabou enquanto voltávamos pro hotel. um grupo de homens seguiu jogando futebol mesmo sem ver a bola direito. cortes de energia são bem comuns por aqui, o hotel até tem um gerador, barulhento. tão barulhento quanto o ar condicionado do quarto. dormimos de porta aberta e um zumbido a menos no ouvido.
no dia seguinte, acordei cedo. fui ao mercado ver o movimento. comi uma panqueca branca recheada de legumes e outra marrom, meio doce. gostei mais da salgada.
depois, fui visitar o templo que fica em frente a uma agência do banco nacional pra esperar a hora de trocar meus dólares.
antes de viajar, me falaram várias vezes “não faça”, mas quando uma menina de uns 13 anos se aproximou enquanto eu saía do templo, timidamente oferecendo trocar cada dólar por 850 kyat, eu achei que a cotação estava muito boa e que seria seguro.
assim que concordei, ela chamou o pessoal dela. 6 homens me rodearam e ficavam falando o tempo todo, apressados e aparentemente caóticos enquanto contavam dezenas de notas de mil. 170 notas, pra ser mais exata, pelos 200 dólares que eu tinha na mão. fiquei de olho neles durante todo o tempo que contavam e recontavam o dinheiro, passando os maços de mão em mão.
assim que o turbilhão foi embora, um senhor que assistiu a cena de longe se aproximou e disse:
conte seu dinheiro, aqueles homens te roubaram.
agradeci e fui pro hotel tentando manter a calma, mas já me xingando burra burra burra burra burra burra burra burra burra burra burra burra burra burra burra burra. contei as notas. ao invés dos 170 mil kyat, eu tinha 100 mil. me roubaram 80 dólares.
e agora?!
escrevo e choro e o nariz escorre e limpo com a barra da blusa e olho pros maços de dinheiro amassado em cima da cama e choro mais e me sinto desamparada longe de casa no pior quarto de hotel do mundo. choro e escrevo e molho o diário de lágrimas e meleca, choro, choro, choro até esgotar o pânico.
pronto.
respira fundo, Lívia. o banco está aberto, vai lá e troca mais 200 dólares ao invés de 150. vão ficar 50 pra reserva. vai dar certo. cê nem vai usar esse dinheiro. nada de ruim vai acontecer daqui pra frente. o pior já foi.
5 de abril, 5h30 da tarde, rodoviária em Aung Mingalar
o pior já foi.
o pior já foi. repito. mas viajar nesse país não tá sendo nada fácil.
fui trocar o dinheiro no banco. 810 kyat por dólar. pelo menos recebi em notas de 5 mil, menos papel pra carregar na doleira. depois, me encontrei com a Anne Catherine e andamos até o lugar que vende passagens de ônibus pra várias cidades do Mianmar.
o trajeto é longo e seria muito melhor se pudéssemos ir de bicicleta, mas veículos de duas rodas são proibidos em Yangon. a justificativa oficial é que as motos estavam causando muitos acidentes e eram muito barulhentas, então foram banidas. e sei lá como as bicicletas entraram no bolo. a verdade é que ninguém sabe direito o porquê dessa proibição arbitrária.
no caminho, um senhor nos abordou e disse que estava indo na mesma direção que a gente. como a grande maioria dos homens, ele não usa calças e sim o longyi. uma saia masculina tradicional feita de um tecido tubular, presa na cintura por uma dobra que precisa ser reamarrada constantemente. as mulheres também usam uma saia tradicional, longa, sem zíper nem elástico, feita com um tecido retangular com uma amarração diferente do longyi.
o senhor insistiu não era guia de viagens e sim entalhador de madeira, mas passou o caminho todo falando sobre os monumentos, templos e praças por onde passávamos. apesar de intrometido, ele dizia coisas interessantes, então seguiu com a gente.
não fomos pra rodoviária e sim pra uma área ao lado da estação central de trens. terra batida coberta por um toldo onde representantes das agências de ônibus fazem negócios. é um mercado, mas ao invés de frutas, legumes e carne, os vendedores têm grandes cadernos espiral com tabelas e listas de passageiros escritas à mão, e se comunicam por sms. Anne queria ir pra praia, no sul, e eu ia pra Mandalay, no norte.
ia. porque… lembra que eu falei que daqui uns dias vai rolar o Festival da Água, o ano novo budista? então. todo mundo tem folga nessa época, é um dos poucos feriados longos do ano. por isso, os ônibus pra Mandalay, a segunda maior cidade do Mianmar, estão todos, todos lotados.
na verdade, não tem passagem pra vários destinos, tive que mudar completamente o meu roteiro. decidi ir pra Hsipaw, uma cidade nas montanhas perto da Tailândia, um dos poucos destinos a norte disponíveis. o ônibus sai hoje às 18h. meu passeio por Yangon ficou pra volta.
acabou que o guia-não-guia que nos acompanhou foi muito útil na intermediação entre os agentes de viagem, que não falam inglês, e nós, que tentávamos achar rotas alternativas pra sair de Yangon antes do Festival da Água. depois que compramos as passagens, ele pediu um presente. preocupada com grana, só dei os thai bahts que eu ainda tinha comigo e a Anne deu vinte mil kyat. ele seguiu seu rumo, sei lá pra onde.
a rodoviária fica longe, em Aung Mingalar, outra cidade. são 2h de ônibus pra chegar aqui. encarei como um city tour não guiado. só deu tempo de caminhar rapidinho de volta pro hotel, empacotar o mochilão, almoçar na mesma barraca de ontem, então rumar pra cá.
escrevo enquanto espero a chegada do noturnão que vai me levar pra Hsipaw, a cidade mais a norte que turistas podem visitar. ela fica perto da zona que ainda tem guerra civil. não dá pra viajar pra qualquer lugar no Mianmar. o governo controla as idas e vindas dos estrangeiros de perto, pra que não vejam as atrocidades que estão cometendo. desafiando essa restrição, o passeio mais popular pra quem vai pra Hsipaw é uma caminhada pelos vilarejos ao redor, onde pessoas ainda vivem seus modos tradicionais das montanhas e resistem ao governo fascista desde o golpe militar de 1988.
divido espaço na rodoviária com várias crianças, freiras budistas de uns 8 anos de idade. todas de cabeça raspada e vestidas de túnica rosa. muito silenciosas e comportadas pra idade. duas freiras adultas estão com elas. vão pro norte também.
eu nem sabia que existia freira no budismo. me olham com a mesma curiosidade que tenho por elas. transformei um panfleto em um tsuru que bate asas. elas ficaram fascinadas!
sob o olhar de aprovação das tutoras, recolhi mais papéis soltos pela rodoviária e, usando gestos, dei uma oficina de origami pras mais atrevidas. estão brincando com os pássaros agora.
6 de abril, 10h da noite, pousada do Mr. Kid em Hsipaw
ônibus lotado, ar condicionado gelado e televisão no volume altíssimo passando filmes de ação em birmanês. 16 horas de sacolejo desconfortável sentada na última fileira.
no meio da noite, todo mundo teve que descer e apresentar as autorizações de viagem. saí sonolenta e desorientada e, ao me ver, mandaram de volta pra dentro. era um checkpoint apenas para birmaneses.
quando o pessoal voltou pro ônibus, a senhorinha simpática que estava do meu lado trocou de lugar com o moleque que trabalha ajudando o motorista.
ele parecia gentil. dividiu o cobertor comigo, ao que agradeci com um sorriso e aceno de cabeça. alguns minutos de viagem depois, senti a mão dele pousar suavemente na minha perna. chacoalhei ela pra longe, talvez fosse um mal entendido. um tempo depois, de novo. tirei a mão dele com a minha e fuzilei aquela cara de bobo com olhar de raio-laser. na terceira investida dele, arrastei bruscamente o cobertor pra que ficasse entre nós, e ainda coloquei meu saco de dormir em cima, fazendo uma barricada. se já estava difícil dormir com todas as adversidades anteriores, ficou impossível com o medo de assédio e o frio.
tinham me falado maravilhas do Mianmar, mas até agora me sinto estressada, insegura e sozinha. devo estar exalando mau humor por todos os poros.
chegando, fui direto pra hospedaria do Mr. Kid, recomendada pela Clau, e dormi a manhã toda, mas não consegui dissipar o mal estar. pra piorar, em cada hotel, tenho que preencher um formulário do departamento de imigração sobre meus planos de viagem e os empregos que já tive no Brasil. toda vez tiram uma cópia do meu passaporte e escrevo as mesmas mentiras: sou tradutora de livros infantis, meus dois últimos empregadores foram as editoras Santillana e FTD. jornalistas não são bem-vindos, inventei essa profissão para tirar o visto e tenho que manter a farsa, com medo de ser descoberta.
Hsipaw é uma cidadezinha plana com montanhas roliças e verdejantes ao redor. saí pra almoçar e encontrei uma livraria minúscula que funciona na garagem de uma casa. o dono é muito simpático. não dá pra entrar na livraria, ela é pequena demais pra isso. os livros ficam empilhados na frente, em cima e atrás do balcão.
tentei comprar um, mas o dono negou e explicou que ela não é bem uma livraria e sim uma espécie de biblioteca. as pessoas pagam para ler os livros e depois devolvem. são todos feitos com o mesmo design simples, impressos em papel branco, capa colorida, miolo costurado e lombada quadrada. todos escritos em birmanês, com o misterioso e simpático alfabeto de caracteres arredondados. os títulos estão escritos à mão, em caneta azul, nas três laterais das páginas.
durante meu breve passeio, comprei o bilhete de ida pra Mandalay. parto amanhã bem cedo. foi o único horário que ainda tinha vaga, tudo lotado por causa do feriado. mais uma vez, tive a sorte de conseguir uma passagem.
começou a chover, então voltei pro hotel e desisti da caminhada pelos vilarejos vizinhos. a hospedaria fica numa casa grande, com um pequeno quintal e redes penduradas na sala. passei boa parte da tarde em uma delas, dormindo e lendo “The Snowman”, um romance policial norueguês. engraçado ler sobre inverno e neve enquanto aqui está extremamente calor e seco. a chuva de hoje foi uma ótima surpresa, e ainda me deu a desculpa perfeita pra ficar quieta, no meu canto. este foi meu único dia aqui e eu deveria estar lá fora, aproveitando, mas não quero.
acabei a leitura quando anoiteceu. saí pra escovar os dentes e no corredor conheci Gabriela, da República Tcheca. ela tem um namorado indiano que também é simpático, esqueci o nome dele. fomos jantar num lugar aqui perto e foi gostoso conversar pra além do inglês básico. eles fizeram a caminhada e não acharam nada de mais, o que me deixou menos culpada por não ter ido.
porque o namorado da Gabriela é indiano, eles conseguiram alugar uma moto e estão viajando mais livres do que eu. fora de Yangon, estrangeiros até podem alugar bicicletas, mas cicloviagens são proibidas e o uso de motocicletas é restrito a cidadãos asiáticos. é muito estranho estar num lugar com tantas restrições ao turismo e exceções que não fazem sentido pra mim.
6 de abril, 10h da manhã, Hotel Nylon em Mandalay
às 5h da manhã, a mãe do Mr. Kid abriu a porta da hospedaria e ficou esperando o ônibus comigo, muito querida. bateu um arrependimento por estar indo embora tão rápido, mas agora já era. fui.
o ônibus estava cheio, mas não lotado. um homem sorridente, sentado na fileira da frente, me cumprimentou como se me conhecesse. eu sorri de volta.
você é a Lívia, do Brasil, disse sorrindo por trás dos óculos. quando notou meu espanto, explicou que é do departamento de migração. abri um sorriso forçado e fiquei na minha.
boa estada em Mandalay, desejou casualmente enquanto recolhia a mala pra saltar na primeira parada. sim, tem mesmo gente de olho em tudo que eu faço aqui.
chegando em Mandalay, comi uma panqueca de legumes de café da manhã (já virou favorita) e peguei o ônibus urbano que me levou pro centro.
consegui um quarto enorme, com três camas, por 8.000 kyat. é o primeiro quarto “normal” que eu fico na viagem: cama box, TV, frigobar, janelas amplas com cortinas, um banheiro só pra mim, mesa e cadeira onde escrevo este diário. pena que eu não tenho com quem dividir o quarto, sairia mais barato.
foi só deixar a mochila na cama que senti a menstruação descer. ufa, parte do meu incômodo era TPM!
foi embora junto com o primeiro sangue.
o hotel tem bicicletas pra alugar, vou sair pra dar uma volta e sacudir o restinho de tristeza.
um beijinho e até a próxima,
Lívia
By Livia Aguiar5 de abril, 10h da manhã, Hotel Espelunca em Yangon
aconteceu comigo. as histórias de gente que leva golpe são sempre de um amigo, um conhecido, me contaram. no caso, sou eu mesma a burra que trocou dinheiro com cambista no meio da rua e já começou a viagem se fudendo.
meu orçamento para viajar pelo Mianmar por 15 dias era 450 dólares, 9 notas de 50 novinhas que saquei na Tailândia exatamente pra isso. lembra que eu falei que no Mianmar não tem caixa eletrônico? trouxe o dinheiro todo em espécie.
30 dólares por dia são 20 a mais que a minha média de gastos nos países vizinhos, mas eu sei que aqui é um cadinho mais caro e trouxe a mais por segurança. a ideia era trocar 350 por kyat e continuar com 100 em dólar mesmo, pra emergências.
eu já aterrissei mal, porque cheguei em Yangon, a maior cidade do país e ex-capital, sem reserva de hotel. normal pra mim que tô viajando bem livre, mas pense que todos os turistas chegam no Mianmar às 17h35 no voo diário da Air Asia, e não existem tantos hotéis assim, muito menos hostels pra mochileiros. eu não pensei nisso.
quando cheguei no bairro onde fica a maioria dos hotéis baratos de Yangon, as melhores opções estavam lotadas. procurei em um, outro e mais outro, até achar um quarto livre, 10 dólares a noite, o mais caro da viagem até agora. chamar de quarto é bondade minha. o espaço é da largura da cama e um pouco mais comprido que ela, três das quatro paredes são de plástico, sem janelas.
enquanto eu fazia check-in, uma francesa chegou procurando acomodação e, como o meu era o último quarto vago na espelunca, ofereci pra dividirmos a cama de casal. pelo menos ficou 5 dólares pra cada. a Anne Catherine está no meio da viagem pelo Mianmar e, como eu ainda não tinha dinheiro local, se ofereceu pra pagar o jantar e ainda me deu 2 mil kyat (2 dólares e pouco) pro café da manhã.
achamos uma barraca de rua lotada de clientes (ótimo sinal) e comemos mexido de arroz com frango e lahpet, uma pasta de folha de chá fermentada, ácida e gostosa. depois fomos atrás da sobremesa num lugar indicado por outra hóspede francesa.
Nilar Win é uma iogurteria raiz. lugar simples todo azulejado por dentro que só vende iogurte caseiro, puro ou com salada de frutas, maduras e suculentas. estava bem cheio quando chegamos. o dono é um ex-lutador de kung fu e na TV só passam filmes do Bruce Lee. o próprio iogurteiro atuou como coadjuvante nas cenas de luta de alguns, o que ele nos contou com muito orgulho quando fomos ao balcão. cara muito simpático, magro de ombros largos, que puxou conversa e abriu um sorrisão ao saber que eu sou brasileira.
a luz do bairro inteiro acabou enquanto voltávamos pro hotel. um grupo de homens seguiu jogando futebol mesmo sem ver a bola direito. cortes de energia são bem comuns por aqui, o hotel até tem um gerador, barulhento. tão barulhento quanto o ar condicionado do quarto. dormimos de porta aberta e um zumbido a menos no ouvido.
no dia seguinte, acordei cedo. fui ao mercado ver o movimento. comi uma panqueca branca recheada de legumes e outra marrom, meio doce. gostei mais da salgada.
depois, fui visitar o templo que fica em frente a uma agência do banco nacional pra esperar a hora de trocar meus dólares.
antes de viajar, me falaram várias vezes “não faça”, mas quando uma menina de uns 13 anos se aproximou enquanto eu saía do templo, timidamente oferecendo trocar cada dólar por 850 kyat, eu achei que a cotação estava muito boa e que seria seguro.
assim que concordei, ela chamou o pessoal dela. 6 homens me rodearam e ficavam falando o tempo todo, apressados e aparentemente caóticos enquanto contavam dezenas de notas de mil. 170 notas, pra ser mais exata, pelos 200 dólares que eu tinha na mão. fiquei de olho neles durante todo o tempo que contavam e recontavam o dinheiro, passando os maços de mão em mão.
assim que o turbilhão foi embora, um senhor que assistiu a cena de longe se aproximou e disse:
conte seu dinheiro, aqueles homens te roubaram.
agradeci e fui pro hotel tentando manter a calma, mas já me xingando burra burra burra burra burra burra burra burra burra burra burra burra burra burra burra burra. contei as notas. ao invés dos 170 mil kyat, eu tinha 100 mil. me roubaram 80 dólares.
e agora?!
escrevo e choro e o nariz escorre e limpo com a barra da blusa e olho pros maços de dinheiro amassado em cima da cama e choro mais e me sinto desamparada longe de casa no pior quarto de hotel do mundo. choro e escrevo e molho o diário de lágrimas e meleca, choro, choro, choro até esgotar o pânico.
pronto.
respira fundo, Lívia. o banco está aberto, vai lá e troca mais 200 dólares ao invés de 150. vão ficar 50 pra reserva. vai dar certo. cê nem vai usar esse dinheiro. nada de ruim vai acontecer daqui pra frente. o pior já foi.
5 de abril, 5h30 da tarde, rodoviária em Aung Mingalar
o pior já foi.
o pior já foi. repito. mas viajar nesse país não tá sendo nada fácil.
fui trocar o dinheiro no banco. 810 kyat por dólar. pelo menos recebi em notas de 5 mil, menos papel pra carregar na doleira. depois, me encontrei com a Anne Catherine e andamos até o lugar que vende passagens de ônibus pra várias cidades do Mianmar.
o trajeto é longo e seria muito melhor se pudéssemos ir de bicicleta, mas veículos de duas rodas são proibidos em Yangon. a justificativa oficial é que as motos estavam causando muitos acidentes e eram muito barulhentas, então foram banidas. e sei lá como as bicicletas entraram no bolo. a verdade é que ninguém sabe direito o porquê dessa proibição arbitrária.
no caminho, um senhor nos abordou e disse que estava indo na mesma direção que a gente. como a grande maioria dos homens, ele não usa calças e sim o longyi. uma saia masculina tradicional feita de um tecido tubular, presa na cintura por uma dobra que precisa ser reamarrada constantemente. as mulheres também usam uma saia tradicional, longa, sem zíper nem elástico, feita com um tecido retangular com uma amarração diferente do longyi.
o senhor insistiu não era guia de viagens e sim entalhador de madeira, mas passou o caminho todo falando sobre os monumentos, templos e praças por onde passávamos. apesar de intrometido, ele dizia coisas interessantes, então seguiu com a gente.
não fomos pra rodoviária e sim pra uma área ao lado da estação central de trens. terra batida coberta por um toldo onde representantes das agências de ônibus fazem negócios. é um mercado, mas ao invés de frutas, legumes e carne, os vendedores têm grandes cadernos espiral com tabelas e listas de passageiros escritas à mão, e se comunicam por sms. Anne queria ir pra praia, no sul, e eu ia pra Mandalay, no norte.
ia. porque… lembra que eu falei que daqui uns dias vai rolar o Festival da Água, o ano novo budista? então. todo mundo tem folga nessa época, é um dos poucos feriados longos do ano. por isso, os ônibus pra Mandalay, a segunda maior cidade do Mianmar, estão todos, todos lotados.
na verdade, não tem passagem pra vários destinos, tive que mudar completamente o meu roteiro. decidi ir pra Hsipaw, uma cidade nas montanhas perto da Tailândia, um dos poucos destinos a norte disponíveis. o ônibus sai hoje às 18h. meu passeio por Yangon ficou pra volta.
acabou que o guia-não-guia que nos acompanhou foi muito útil na intermediação entre os agentes de viagem, que não falam inglês, e nós, que tentávamos achar rotas alternativas pra sair de Yangon antes do Festival da Água. depois que compramos as passagens, ele pediu um presente. preocupada com grana, só dei os thai bahts que eu ainda tinha comigo e a Anne deu vinte mil kyat. ele seguiu seu rumo, sei lá pra onde.
a rodoviária fica longe, em Aung Mingalar, outra cidade. são 2h de ônibus pra chegar aqui. encarei como um city tour não guiado. só deu tempo de caminhar rapidinho de volta pro hotel, empacotar o mochilão, almoçar na mesma barraca de ontem, então rumar pra cá.
escrevo enquanto espero a chegada do noturnão que vai me levar pra Hsipaw, a cidade mais a norte que turistas podem visitar. ela fica perto da zona que ainda tem guerra civil. não dá pra viajar pra qualquer lugar no Mianmar. o governo controla as idas e vindas dos estrangeiros de perto, pra que não vejam as atrocidades que estão cometendo. desafiando essa restrição, o passeio mais popular pra quem vai pra Hsipaw é uma caminhada pelos vilarejos ao redor, onde pessoas ainda vivem seus modos tradicionais das montanhas e resistem ao governo fascista desde o golpe militar de 1988.
divido espaço na rodoviária com várias crianças, freiras budistas de uns 8 anos de idade. todas de cabeça raspada e vestidas de túnica rosa. muito silenciosas e comportadas pra idade. duas freiras adultas estão com elas. vão pro norte também.
eu nem sabia que existia freira no budismo. me olham com a mesma curiosidade que tenho por elas. transformei um panfleto em um tsuru que bate asas. elas ficaram fascinadas!
sob o olhar de aprovação das tutoras, recolhi mais papéis soltos pela rodoviária e, usando gestos, dei uma oficina de origami pras mais atrevidas. estão brincando com os pássaros agora.
6 de abril, 10h da noite, pousada do Mr. Kid em Hsipaw
ônibus lotado, ar condicionado gelado e televisão no volume altíssimo passando filmes de ação em birmanês. 16 horas de sacolejo desconfortável sentada na última fileira.
no meio da noite, todo mundo teve que descer e apresentar as autorizações de viagem. saí sonolenta e desorientada e, ao me ver, mandaram de volta pra dentro. era um checkpoint apenas para birmaneses.
quando o pessoal voltou pro ônibus, a senhorinha simpática que estava do meu lado trocou de lugar com o moleque que trabalha ajudando o motorista.
ele parecia gentil. dividiu o cobertor comigo, ao que agradeci com um sorriso e aceno de cabeça. alguns minutos de viagem depois, senti a mão dele pousar suavemente na minha perna. chacoalhei ela pra longe, talvez fosse um mal entendido. um tempo depois, de novo. tirei a mão dele com a minha e fuzilei aquela cara de bobo com olhar de raio-laser. na terceira investida dele, arrastei bruscamente o cobertor pra que ficasse entre nós, e ainda coloquei meu saco de dormir em cima, fazendo uma barricada. se já estava difícil dormir com todas as adversidades anteriores, ficou impossível com o medo de assédio e o frio.
tinham me falado maravilhas do Mianmar, mas até agora me sinto estressada, insegura e sozinha. devo estar exalando mau humor por todos os poros.
chegando, fui direto pra hospedaria do Mr. Kid, recomendada pela Clau, e dormi a manhã toda, mas não consegui dissipar o mal estar. pra piorar, em cada hotel, tenho que preencher um formulário do departamento de imigração sobre meus planos de viagem e os empregos que já tive no Brasil. toda vez tiram uma cópia do meu passaporte e escrevo as mesmas mentiras: sou tradutora de livros infantis, meus dois últimos empregadores foram as editoras Santillana e FTD. jornalistas não são bem-vindos, inventei essa profissão para tirar o visto e tenho que manter a farsa, com medo de ser descoberta.
Hsipaw é uma cidadezinha plana com montanhas roliças e verdejantes ao redor. saí pra almoçar e encontrei uma livraria minúscula que funciona na garagem de uma casa. o dono é muito simpático. não dá pra entrar na livraria, ela é pequena demais pra isso. os livros ficam empilhados na frente, em cima e atrás do balcão.
tentei comprar um, mas o dono negou e explicou que ela não é bem uma livraria e sim uma espécie de biblioteca. as pessoas pagam para ler os livros e depois devolvem. são todos feitos com o mesmo design simples, impressos em papel branco, capa colorida, miolo costurado e lombada quadrada. todos escritos em birmanês, com o misterioso e simpático alfabeto de caracteres arredondados. os títulos estão escritos à mão, em caneta azul, nas três laterais das páginas.
durante meu breve passeio, comprei o bilhete de ida pra Mandalay. parto amanhã bem cedo. foi o único horário que ainda tinha vaga, tudo lotado por causa do feriado. mais uma vez, tive a sorte de conseguir uma passagem.
começou a chover, então voltei pro hotel e desisti da caminhada pelos vilarejos vizinhos. a hospedaria fica numa casa grande, com um pequeno quintal e redes penduradas na sala. passei boa parte da tarde em uma delas, dormindo e lendo “The Snowman”, um romance policial norueguês. engraçado ler sobre inverno e neve enquanto aqui está extremamente calor e seco. a chuva de hoje foi uma ótima surpresa, e ainda me deu a desculpa perfeita pra ficar quieta, no meu canto. este foi meu único dia aqui e eu deveria estar lá fora, aproveitando, mas não quero.
acabei a leitura quando anoiteceu. saí pra escovar os dentes e no corredor conheci Gabriela, da República Tcheca. ela tem um namorado indiano que também é simpático, esqueci o nome dele. fomos jantar num lugar aqui perto e foi gostoso conversar pra além do inglês básico. eles fizeram a caminhada e não acharam nada de mais, o que me deixou menos culpada por não ter ido.
porque o namorado da Gabriela é indiano, eles conseguiram alugar uma moto e estão viajando mais livres do que eu. fora de Yangon, estrangeiros até podem alugar bicicletas, mas cicloviagens são proibidas e o uso de motocicletas é restrito a cidadãos asiáticos. é muito estranho estar num lugar com tantas restrições ao turismo e exceções que não fazem sentido pra mim.
6 de abril, 10h da manhã, Hotel Nylon em Mandalay
às 5h da manhã, a mãe do Mr. Kid abriu a porta da hospedaria e ficou esperando o ônibus comigo, muito querida. bateu um arrependimento por estar indo embora tão rápido, mas agora já era. fui.
o ônibus estava cheio, mas não lotado. um homem sorridente, sentado na fileira da frente, me cumprimentou como se me conhecesse. eu sorri de volta.
você é a Lívia, do Brasil, disse sorrindo por trás dos óculos. quando notou meu espanto, explicou que é do departamento de migração. abri um sorriso forçado e fiquei na minha.
boa estada em Mandalay, desejou casualmente enquanto recolhia a mala pra saltar na primeira parada. sim, tem mesmo gente de olho em tudo que eu faço aqui.
chegando em Mandalay, comi uma panqueca de legumes de café da manhã (já virou favorita) e peguei o ônibus urbano que me levou pro centro.
consegui um quarto enorme, com três camas, por 8.000 kyat. é o primeiro quarto “normal” que eu fico na viagem: cama box, TV, frigobar, janelas amplas com cortinas, um banheiro só pra mim, mesa e cadeira onde escrevo este diário. pena que eu não tenho com quem dividir o quarto, sairia mais barato.
foi só deixar a mochila na cama que senti a menstruação descer. ufa, parte do meu incômodo era TPM!
foi embora junto com o primeiro sangue.
o hotel tem bicicletas pra alugar, vou sair pra dar uma volta e sacudir o restinho de tristeza.
um beijinho e até a próxima,
Lívia