Silvia Cesar pediu a planta da residência para estudar. Depois de uns dias, apareceu em casa, toda de preto, linda, simpática. Sentamos na sala de jantar, ela abriu a planta sobre a mesa e começou a me explicar como funcionava o Feng Shui, cada área da casa – trabalho, família, espiritualidade, etc.– e as cores (cada área tem a sua).“Agora, vamos dar uma volta pela casa”, falou. Não quis café, água, nada, estava ansiosa, entusiasmada. Foi caminhando, olhando para as paredes, para todos os lados. Achei interessantíssimo aquilo. Fui ficando curiosa, e ela observando.Primeira coisa: na minha sala de jantar tinha um arranjo de prata, bonito, com umas flores artificiais brancas, que eu trouxe não sei de onde. Ela olhou para mim, com toda delicadeza: “É bom que não tenha flores artificiais em casa,
é importante ter flores vivas”. Eu disse: “Puxa, mas são tão bonitas, tão chiques”. E ela: “Leva para o cemitério, dá pra alguma tia”. Eu caí na risada. Nunca mais tive nada artificial em casa.Ela viu um quadro árabe na parede com uns beduínos, que o meu marido idolatra, que era do tataravô dele. Ela me perguntou: “O que é isso? Quem são eles?”. Respondi: “São beduínos”. E ela: “O que eles fazem?”. Eu lembrei deles no deserto, sentados daquele jeito árabe, fumando. Eu disse: “Nada!”. Ela olhou bem para mim: “Nada? Se não fazem nada, melhor tirar isso daí. Mas se oseu marido gosta...”. Já fiquei encucada. Ela continuou caminhando, entrou no meu quarto, quarto do casal, olhando para todos os cantos. São praticamente dois ambientes, para ficar maior. E eu enchi com fotos dos netos
(tenho quatro). Ela disse assim: “Escuta, de quem é esse quarto?”. Eu falei: “É meu e do meu marido”. E ela: “Que tal a gente deixar o quarto para o casal? Vamos tirar essa ‘netaiada’ toda, arrancar essas fotos daqui”. Achei que tinha sentido. Gostei.Na suíte do casal,também tinha um vasinho. Ela falou: “Você não dorme sozinha. Tudo o que você botar aqui procura colocar em dois”. Achei tão bonitinho. Em vez de um vasinho cor-de-rosa, agora têm dois. Ela pediu que eu colocasse espelhinhos em cima de todos os ralos da casa. Meu marido achou aquilo estranho, mas no fim concordou.Arrumei as fotos de netos, filhos, marido e pai no quarto do meio, que era o das crianças. Tirei as de gente que já tinha morrido, porque ela disse que não podia.Na última suíte, a do meu filho, ela disse que era o quarto da espiritualidade. Gosto de rezar, meditar, de tudo que seja espiritualizado. Antes, sentava na sala de jantar, abria o evangelho ou a Bíblia e achava que tudo bem, apesar de ficar um pouco desconfortável. Ela corrigiu: “Tem que ter um cantinho que você possa colocar todas essas coisas, o santinho, a sua Nossa Senhora, seu evangelho, a sua prece, mas não ali”. Arrumei tudo no lugar da espiritualidade, que já tinha uma foto de uma praia linda, o mar azul. Agora, nessa área, me sinto em paz para meditar, ler, ouvir uns áudios de que gosto.Ela foi para o corredor grande da casa que leva para a área íntima e percebeu que atrás da parede tem o elevador de serviço. “O elevador não faz parte da sua casa, são outras pessoas circulando. Vamos colocar espelhos?”, sugeriu.Enchi a parede de espelhos. Eu amo espelhos.Após essa única visita, durante o processo, nós nos falávamos a distância. Tinha alguma dúvida, perguntava para ela. Fiz tudo o que ela pediu.Eu estava achando aquilo uma brincadeira gostosa, só que não era brincadeira.