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  • No que pensamos quando o avião está caindo

    O avião, no fim das contas, não estava caindo. Mas pareceu — e não foi pouco. Ela, que viaja sempre pra lá e pra cá, nunca tinha perdido o ar com nenhuma turbulência. Nunca tinha ficado pálida e sem conseguir dizer absolutamente nada enquanto agarrava os braços da cadeira como quem agarra a própria vida. E seu marido, que nunca esboça grandes medos, ficou com as mãos automaticamente geladas e suadas, enquanto dizia “olha pra mim, respira, olha pra mim, fala comigo”, sem grande retorno por parte dela.

    Não, o avião não caiu. Mas quando parece que ele vai cair, flashes pulsam dentro das nossas cabeças. Nem sei se dá para dizer que passa um filme na nossa mente, porque entre o medo, a pressa e o próximo baque da turbulência, não dá tempo nem para um curta metragem. O que dá tempo é de ver rostos, pensar em pessoas e de sentir um medo absolutamente inédito.

    Quando o avião está caindo, não pensamos na fatura do cartão de crédito, nem nos pagamentos atrasados, nem na parcela do financiamento. Nenhum deles — normalmente tão presentes e valorizados no dia a dia — ousa dar as caras nesse momento tão delicado. Pelo contrário: eles nunca estiverem tão distantes assim, eles praticamente nem existem.

    Não pensamos também nos quilos a mais que carregamos nos quadris, na cintura e nos braços. Não se pensa no quão gordo supostamente se está, quando você acha que talvez aqueles sejam os seus últimos minutos. Ninguém amaldiçoa seu tamanho de calça, nem suas celulites, nem o seu culote quando o avião vai despencando do alto. Isso torna-se absolutamente irrelevante.

    Nesse momento não nos lembramos de dívidas de dinheiro, de relatórios atrasados, nem de planilhas de excel. Não pensamos nos riscos e nos amassados na lataria do carro, nem nos tributos que nos serão cobrados no mês que vem, nem no trânsito no fim da tarde. Tudo isso parece simplesmente nem existir.

    Quando o avião parece estar caindo, pensamos desesperadamente em pessoas. Nos nossos pais e nos nossos filhos. Pensamos naqueles que amamos. Vemos o rosto dos nossos irmãos e sobrinhos. Dos amigos. Dos nossos avós ou netos, consoante a fase da vida. Pensamos, acima de tudo, em Deus. Os que acreditaram nele a vida toda, os que tinham dúvidas a seu respeito e aqueles que têm toda certeza da sua inexistência. Todo mundo pensa em Deus quando o avião parece cair.

    Quando a aeronave ameaça despencar, ninguém consegue pensar em números: seja ele um preço, uma fatura, uma dívida, um peso na balança. Só pensamos em pessoas, e nada mais. Pensamos, neuroticamente e de forma apressada e confusa, em quem iríamos deixar, no que a nossa falta representaria e na dor mútua da ausência. No fundo, a gente só quer pedir aos céus o direito de permanecer para seguir amando e sendo amado.

    É curioso: as coisas que mais nos preocupam e nos tomam tempo no dia a dia são automaticamente esquecidas no momento mais grave da angústia. E as pessoas, que frequentemente são esquecidas durante os nossos dias, são as que aparecem, únicas e em destaque, perante a angústia da morte. Devemos mesmo estar fazendo tudo errado, não é? Na hora em que o avião cai, não dá pra avisar ninguém sobre seu valor, sua importância, seu protagonismo. E também não dá pra trabalhar em planilhas de excel. Façamos as nossas escolhas em vida.

    Autora: Ruth Manus

    5 min
  • Só a educação transforma: uma resposta à MC Pipokinha

    Um vídeo da MC Pipokinha criticando os professores e ironizando a diferença salarial entre ela e o magistério viralizou na última semana. Depois disso, profissionais da educação de todo o Brasil se uniram para rebater a funkeira.

    Nós vamos reproduzir hoje na Mensagem do Dia a resposta da professora Juliana Costa, de Guarapuava, Paraná.

    Guarapuava, 11 de março de 2023

    Querida, Mc Pipokinha

    Eu não te conhecia, jamais havia ouvido falar em você e não te conto isso com orgulho ou soberba é que, como professora, eu ando muito ocupada. Aliás, você não imagina o trabalhão que dá educar crianças e jovens! Menina, leva muito mais que meia horinha ensinar, além dos conteúdos básicos da educação, noções como respeito, dignidade, empatia… leva-se horas, aliás, dias para mostrar a meninas que seus corpos lhes pertencem e que não podem ser objetificados, usados. Que elas não podem ser diminuídas, expostas…

    Ensinar para meninos noções sobre consentimento, tratamento igualitário, respeito. Sabemos que uma sexualização precoce e banalizada pode trazer consequências a nossos alunos, aliás, você que foi mãe aos 16 anos conhece os desafios de uma gravidez na adolescência principalmente para as meninas e adivinha quem tá lá tirando dúvidas, dando informações confiáveis,  acolhendo? Mais uma vez, nós!


    6 min
  • Vai valer a pena

    Todo dia, de manhã, eu fico em dúvida se faço o leite com Nescau ou deixo os meus filhos fazerem por eles mesmos. É que eles adoram fazer, mas eu detesto ter que limpar.

    O que você tem a ver com essa história?

    Bom, pode ser que o Dudu derrube o chocolate e o leite no primeiro dia, no segundo, volte a derrubar no quarto e no quinto. Uma hora, porém, ele aprende e o acidente passa a ser só acidente mesmo. Nesse momento, terá aprendido algo para a vida inteira. Vale o trabalho de ter que limpar a sujeira dele?

    Quase tudo que aprendemos na vida e que repetiremos por muitas vezes não acertamos de primeira. Você bateu aprendendo a fazer baliza na autoescola e, mesmo com a carteira, deixou o carro morrer infinitas vezes - hoje, tudo isso é só acidente, é raro.

    No início, parece muito complexo e que nunca nos habituaremos. Acontece que nos acostumamos até com a falta de um parente querido. Somos feitos para aprender, agregar e nos acostumar.

    As conquistas demandam pagar o pedágio para ficar a lição.

    Apesar dessa realidade da vida, de tanto em tanto, preferimos acreditar que os próximos prêmios virão sem trabalho, sem renúncia, sem sacrifício.

    Loucura! Nunca funcionou assim. É tudo questão de matemática.

    Valem a pena três dias limpando leite para anos de independência. Vale a pena meia dúzia de meses de estudo por um cargo para a vida toda. Não podemos perder o senso de proporcionalidade.

    Aquilo que muito vale nessa vida, exigirá sempre dedicação e sacrifício de nossa parte. Mas vai valer a pena!

    3 min

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