Tem uma história que eu nunca esqueci. Dois homens dividiam o mesmo quarto do hospital. Os dois estavam muito doentes. Um ficava deitado do lado da única janela do quarto e o outro precisava permanecer deitado o tempo todo. Ele não conseguiu olhar para fora. Mas todos os dias, por alguns minutos, o homem da janela podia se sentar. E era sempre nesse momento que ele começava a descrever o que ele via. Hoje, o céu está completamente azul. Tem uma senhora passeando com dois cachorros. Tem árvores balançando. Tem um casal caminhando de mãos dadas. Enquanto ele contava tudo aquilo, o outro homem fechava os olhos, como se por alguns instantes ele também estivesse lá fora. E aquele pequeno momento se tornou o melhor momento do dia. Era parte da rotina dos dois. E aí no amanhã os enfermeiros entraram ao quarto e o homem da janela havia morrido durante a noite. O outro paciente, muito triste, depois de alguns dias pediu para trocar de cama. Ele queria ficar perto da janela. Queria finalmente ver aquela paisagem linda com os próprios olhos. Então, com dificuldade, ele se apoiou na cama, respirou fundo e olhou para fora. Do outro lado da janela havia apenas um muro. Confuso. Me chamou a enfermeira e perguntou, mas como que isso é possível? O homem que estava aqui me contava sobre as árvores, sobre as crianças, sobre os cachorros, o casal caminhando. A enfermeira sorriu com tristeza e respondeu. Aquele senhor era cego. Ele nunca viu nada disso. O quarto ficou em completo silêncio. E foi então que aquele homem entendeu, durante todo aquele tempo, quem não podia enxergar era justamente quem tinha escolhido mostrar o mundo mais bonito pro outro. A vida não é sobre as janelas que a gente encontra, mas sobre a luz que, mesmo com as nossas próprias dificuldades, a gente escolhe oferecer pra alguém.