Uma palavra no seu caminho

I Domingo da Quaresma - Homilia


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A Quaresma pode soar “dura”, mas é, na verdade, um tempo fantástico: bonito, fecundo, de crescimento espiritual e de maior autoconhecimento. Inicialmente foi o tempo de preparação dos catecúmenos para o Batismo na Vigília Pascal; depois, toda a Igreja o assumiu como tempo em que nós, já batizados, recordamos o nosso Batismo e reassumimos os seus compromissos. É um tempo privilegiado para olhar quem somos — não apenas a partir da nossa perspetiva, mas sobretudo a partir da perspetiva de Deus.

A primeira leitura diz algo decisivo: “O Senhor formou o homem do pó da terra e insuflou em suas narinas um sopro de vida”. Não é um texto escrito para responder à pergunta moderna “foi mesmo assim?”, mas para nos fazer perguntar: “o que é que isto significa?”. E significa isto: somos pó — frágeis, limitados, quebráveis —, mas trazemos em nós o sopro de Deus. A vida vem porque Deus sopra em nós e nos concede o Seu Espírito. Por isso, apesar da nossa fragilidade, existe em nós uma semente, um desejo de eternidade e de felicidade.

O problema é quando tentamos responder a esse desejo apenas com os nossos critérios, “com a nossa cabecinha”, sem escutar Deus. Aí está, em última instância, o mecanismo do pecado: em vez de escolher Deus, escolho-me a mim mesmo como medida de tudo, como se sozinho pudesse alcançar a plenitude. E depois descubro que só Deus pode dar aquilo que eu procurava. Do pecado nasce limitação, sofrimento e dor. Mas São Paulo lembra-nos: se por um homem entrou o pecado no mundo, por um só Homem entrou a graça e a salvação — Jesus Cristo.


O Evangelho mostra Jesus no deserto: “foi conduzido pelo Espírito para ser tentado”. Parece estranho, mas as tentações podem ser um lugar importante, porque revelam os nossos desejos mais profundos. Quando caímos, procuramos satisfazê-los com os nossos critérios; quando resistimos, aprendemos a respondê-los com os critérios de Deus. Por isso, no Pai-Nosso não pedimos para não haver tentações; pedimos: “não nos deixeis cair em tentação”. O exame de consciência ajuda-nos precisamente a reconhecer o que desejamos, o que nos falta, e a decidir: sigo a minha cabeça ou deixo-me guiar por Deus?

Aqui ajuda a imagem do Bom Jesus do Monte. Ao subir, há um “terreiro” onde se faz uma escolha: ficar voltado para a cidade (de costas para Deus) ou voltar-se para o santuário (de costas para a cidade). É o lugar da decisão. Se escolho Deus, entro num caminho que revela beleza e sentido — até nos momentos de dor e sofrimento, onde Deus caminha connosco.

As três tentações mostram isso com clareza: transformar pedras em pão (“nem só de pão vive o homem”); atirar-se do alto para “forçar” Deus (“não tentarás o Senhor teu Deus”); escolher a glória humana (“só a Deus adorarás”). E o que vence a tentação? Jesus responde sempre com a Escritura. Isto ensina-nos que o “mapa”, o GPS no meio das tentações, é a Palavra de Deus: alimento que dá critérios para conhecer Deus e para nos conhecermos a nós mesmos.

No início desta Quaresma, assumimos a verdade da nossa vida: somos homens e mulheres formados do pó da terra, frágeis; mas chamados a uma vida de comunhão com Deus, vida divina, porque Ele soprou em nós. Essa vida perde-se quando voltamos as costas ao Senhor; aprofunda-se quando nos voltamos para Ele.

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Uma palavra no seu caminhoBy Luís M. Figueiredo Rodrigues