O Evangelho de hoje causa-nos alguma impressão. Impressiona-nos, antes de mais, o milagre: um homem que era cego começa a ver. Mas impressiona-nos também o diálogo entre esse homem, agora curado, e os judeus. Há aqui uma tensão muito forte. Por um lado, vemos a dinâmica interior que acontece na vida daquele homem: tocado pela misericórdia de Deus, chega ao ponto de dizer: «Eu creio, Senhor.» Por outro lado, vemos a resistência dos judeus, tão presos aos seus esquemas mentais, aos seus preconceitos e à sua forma fechada de olhar a realidade, que se tornam incapazes de reconhecer a novidade de Deus no meio deles.
Por isso, esta página do Evangelho é também um apelo para nós: termos um coração aberto e desperto para acolher Deus. E acolher Deus implica deixar que o Senhor ilumine a nossa vida. Aqui estamos a falar da luz. A luz é um fenómeno muito interessante: não faz barulho, não tem peso, não tem volume, e contudo tem uma característica única: permite ver, identificar e conhecer. Jesus apresenta-Se, assim, como Aquele que nos abre os olhos, Aquele que nos dá luz. E, iluminados pela sua graça, pelos seus ensinamentos e pela sua sabedoria, somos convidados a ver o mundo de maneira nova.
É precisamente isso que a segunda leitura nos desafia a viver. Ser iluminado por Deus e viver como batizado é, no fundo, a mesma coisa, porque o batismo é iluminação. Não se trata apenas de procurar a luz, mas de reconhecer que, em Cristo, já não somos trevas: agora somos luz. E isto é decisivo. Não basta uma atitude passiva de quem se deixa iluminar. Isso é importante, mas não chega. É necessário também ser luz no mundo. Somos chamados a ser como candeeiros, como faróis, que ajudam a iluminar a realidade e a compreendê-la de forma esperançosa.
Mas como é que se é luz? São Paulo dá-nos critérios muito concretos: «o fruto da luz está em toda a bondade, justiça e verdade.» Viver como filhos da luz é viver na bondade, na justiça e na verdade. É olhar o mundo com os olhos de Deus. E isso não de modo superficial, como quem apenas cumpre um ritual ou executa uma prática exterior, mas como alguém que foi iluminado por dentro e, por isso, já não consegue viver de outra maneira.
Ora, isto é belo, mas também exigente. Porque, diante da injustiça, do erro e da falsidade, nós, que somos batizados e iluminados por Cristo, não podemos ficar indiferentes. Somos chamados a olhar o mundo com atenção e a pensá-lo segundo os critérios de Deus. Não apenas segundo o que eu acho, o que eu sinto ou o que me parece, mas segundo aquilo que, pela graça de Deus, foi purificado, moldado e convertido em nós.
A primeira leitura, com a eleição de David, mostra-nos bem a diferença entre os critérios do mundo e os critérios de Deus. Samuel, ao ver um dos filhos de Jessé, pensa imediatamente: «Certamente é este o ungido do Senhor.» Mas Deus responde: «Não te deixes impressionar pela aparência nem pela elevada estatura.» Deus não olha as aparências; Deus olha o coração. E é por isso que o escolhido acaba por ser aquele que nem sequer estava entre os primeiros nomes da lista, o mais novo, aquele em quem ninguém pensava.
Isto acontece muitas vezes também connosco. Quantas vezes a pessoa de quem menos esperamos é aquela que traz mais luz, mais paz, mais solução, mais harmonia para a nossa vida? Para Deus, não há pessoas de primeira nem de segunda. Há pessoas. E cada pessoa é um filho amado, digno do maior cuidado, da maior estima e da maior consideração.
Talvez este seja, para nós, o grande desafio desta semana: olhar a vida, o mundo e as pessoas que estão à nossa volta como homens e mulheres iluminados por Cristo, e agir com todos segundo a bondade, a justiça e a verdade. Na medida em que tivermos com cada pessoa atitudes de bondade, justiça e verdade, seremos verdadeiramente luzeiros que iluminam a vida, a história e o mundo com a luz de Deus.