O Evangelho de hoje convida-nos a olhar com atenção para uma das dimensões mais belas e, ao mesmo tempo, mais exigentes da nossa vida: as relações interpessoais.
Nós fomos feitos para a relação. Só nos realizamos verdadeiramente quando estamos com os outros, quando partilhamos a vida e nos deixamos tocar pela presença de alguém. Mas precisamente porque precisamos uns dos outros, as relações geram também tensões. Quanto mais próximos estamos, mais facilmente «damos com os cotovelos» uns nos outros. Onde há proximidade, há diferenças, incompreensões, erros e, por vezes, ofensas.
Talvez, por isso, tenhamos de abandonar a ideia de uma Igreja ideal, formada por pessoas perfeitas, onde todos se entendem e nunca há conflitos. Essa Igreja não existe. O Evangelho de hoje não nos apresenta uma comunidade sem problemas; apresenta-nos uma comunidade que sabe o que fazer quando os problemas aparecem.
E deixa-nos um princípio decisivo: a Igreja não é uma comunidade onde todos são perfeitos; é uma comunidade onde ninguém é deixado sozinho.
Jesus diz: «Se o teu irmão te ofender, vai ter com ele e repreende-o a sós». Se te escutar, ganhaste o teu irmão. Se não escutar, leva contigo mais uma ou duas pessoas. E, se ainda assim não for possível, leva a questão à comunidade. Há aqui uma insistência extraordinária: aquele que errou não é imediatamente posto de lado. Há um esforço para o procurar, para dialogar com ele, para o ajudar a reencontrar o seu lugar.
Mas isto exige coragem. A coragem de falar.
São Paulo, na segunda leitura, oferece-nos a chave: «Não devais a ninguém coisa alguma, a não ser o amor uns para com os outros». Parece simples, mas é muito exigente. Se a nossa única dívida é o amor, então essa dívida nunca fica inteiramente paga. Estamos sempre a dever amor ao outro.
E amar não significa apenas ser simpático, evitar conflitos ou permanecer calado. Há momentos em que amar implica falar. Dizer ao outro aquilo que talvez ele não queira ouvir. Corrigir, advertir, chamar a atenção — não para mostrar que temos razão, mas porque nos preocupamos verdadeiramente com a sua vida.
É aqui que a primeira leitura, do profeta Ezequiel, se torna particularmente exigente: «Se ouvires uma palavra da minha boca, deves avisá-los da minha parte». Deus responsabiliza o profeta pelo irmão. Não lhe permite dizer: «A vida é dele, ele é que sabe». De certo modo, somos responsáveis uns pelos outros.
Mas há uma pergunta essencial: quando falamos, porque falamos? Falamos para vencer uma discussão? Para mostrar ao outro que está errado? Ou falamos porque desejamos verdadeiramente o seu bem?
A correção cristã só é cristã quando nasce do amor. Caso contrário, transforma-se facilmente em julgamento, superioridade ou violência disfarçada de verdade.
E há ainda o outro lado. Se é difícil falar, também é difícil ouvir. Ninguém gosta de ser chamado à atenção. Por isso, o salmo oferece-nos outra atitude fundamental: «Se hoje ouvirdes a voz do Senhor, não fecheis os vossos corações».
Talvez, por vezes, a voz do Senhor nos chegue precisamente através de alguém que nos diz aquilo que não gostaríamos de ouvir. Em vez de fecharmos imediatamente o coração, talvez devamos perguntar: haverá aqui alguma verdade que preciso de escutar?
Não existem comunidades perfeitas. Mas as nossas comunidades seriam certamente mais humanas, mais eclesiais e mais santas se aprendêssemos duas coisas simples e difíceis: falar por amor e escutar com humildade.
Usar as palavras não para ferir, mas para construir pontes; não para excluir, mas para recuperar; não para vencer o outro, mas para o ganhar como irmão.
Porque uma comunidade cristã não é aquela onde ninguém erra. É aquela onde, apesar dos erros, ninguém fica para trás.