No Evangelho de hoje, Jesus confia a Pedro o «poder das chaves»: «Tudo o que ligares na terra será ligado no Céu, e tudo o que desligares na terra será desligado no Céu». Esta expressão fundamentou, justamente, a compreensão da autoridade e do serviço de governo na Igreja. Mas gostaria de a ler hoje de modo mais existencial: que portas abre a fé na nossa vida? E que portas nos ajuda a fechar?
Tudo começa com a pergunta de Jesus: «Quem dizem os homens que é o Filho do Homem?» Surgem várias respostas: João Batista, Elias, Jeremias, algum dos profetas. São opiniões. E nós também temos opiniões sobre quase tudo. Podemos preferir o azul ou o verde, o mar ou a montanha. A opinião é legítima, mas não compromete profundamente a vida.
Há depois as crenças. «Este ano o meu clube vai ser campeão»; «um dia hei de ganhar a lotaria». A crença já nos move um pouco mais, mas nem sempre dispõe de razões suficientemente sólidas.
E há aquilo que sabemos com tal convicção que orienta as nossas decisões. Se sabemos qual é o caminho mais curto, seguimos por ele. A certeza gera ação.
Onde fica, então, a fé? A fé cristã não é uma simples opinião sobre Deus. Também não é apenas uma crença herdada da família, da catequese ou do grupo a que pertencemos. Mas também não é uma certeza matemática, como saber que dois e dois são quatro. A fé é uma certeza de outra ordem: uma convicção que nasce da relação, do encontro, da experiência de Deus.
Por isso, quando Pedro responde: «Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo», Jesus diz-lhe: «Não foi a carne nem o sangue que to revelaram, mas o meu Pai que está nos Céus». Pedro não chegou ali apenas porque pensou muito. Reconheceu Jesus porque se deixou tocar por Deus.
Também nós somos chamados a passar de uma fé recebida para uma fé assumida. Podemos ter sido educados cristãmente, ter ido à catequese, gostar da Missa; tudo isso é valioso. Mas, se não houver algum encontro pessoal com o Senhor, corremos o risco de chegar à idade adulta com uma fé que permaneceu infantil. Somos adultos na fé quando aquilo em que acreditamos se transforma em convicção e gera uma maneira cristã de viver.
E é aqui que regressam as chaves. O Evangelho é uma chave. Abre-nos para aquilo que é vida, verdade, reconciliação, serviço, perdão, esperança. E ajuda-nos a fechar a porta ao que nos diminui, ao que fere a dignidade, ao egoísmo, ao ressentimento, àquilo que não conduz à vida plena.
A fé, porém, precisa de ser cultivada. Como? Estando em relação com Jesus, ouvindo a sua Palavra e procurando-O nos lugares onde Ele prometeu estar: na Eucaristia, na liturgia, no serviço aos outros, na caridade, no perdão. A fé aprende-se também vivendo.
Os mais velhos compreendem bem isto quando dizem: «Agora percebo aquilo que o meu pai me dizia e que, naquele tempo, eu não entendia». Há coisas que só se compreendem depois de atravessadas. Também compreendemos melhor Jesus quando passamos por experiências semelhantes às suas: amar, servir, perdoar, sofrer, permanecer fiéis, recomeçar.
Por isso, hoje não gostaria de aumentar a nossa lista de obrigações. Gostaria antes que cada um reconhecesse as experiências que já alimentaram a sua fé: uma oração, uma Eucaristia, uma reconciliação difícil, a visita a alguém que estava sozinho, o nascimento de um filho, uma doença atravessada com esperança, um compromisso mantido quando seria mais fácil desistir.
Talvez seja aí que Deus nos tenha dito, como a Pedro: «Feliz de ti». Não porque tenhamos entendido tudo, mas porque nos deixámos encontrar.
A pergunta de Jesus continua dirigida a cada um de nós: «E vós, quem dizeis que Eu sou?» Que possamos responder não apenas pelo que ouvimos dizer, mas pelo que vivemos: «Tu és o Filho de Deus vivo». Então compreenderemos que a Palavra de Deus é verdadeiramente luz e chave: chave para abrir a vida àquilo que a torna boa, fecunda e plena.