© Mark Wallinger. Courtesy the artist and Hauser & Wirth.
Se calhar, ainda estou muito marcado pela solenidade do Sagrado Coração de Jesus, que celebrámos na passada sexta-feira. Mas, ao escutar as leituras de hoje, não consigo deixar de ver nelas a mesma verdade fundamental: a paixão de Deus por cada um de nós, o amor gratuito, excessivo e misericordioso com que Ele nos ama.
Muitas vezes, porém, crescemos com uma imagem deturpada de Deus: “porta-te bem para Jesus gostar de ti”, “faz isto para Deus gostar de ti”, “não faças aquilo, senão Deus deixa de gostar de ti”. São frases que parecem piedosas, mas estragam a nossa relação com Deus, porque nos fazem pensar que o seu amor tem de ser comprado, merecido ou conquistado.
A primeira leitura mostra exatamente o contrário. Deus diz a Israel: “Vistes o que Eu fiz ao Egito, como vos transportei sobre asas de águia e vos trouxe até Mim.” Primeiro, Deus liberta. Primeiro, Deus chama. Primeiro, Deus faz o bem. Só depois propõe a aliança e convida o povo a viver de acordo com essa experiência de libertação. A obediência não é o preço do amor de Deus; é a resposta agradecida de quem já foi amado.
São Paulo diz o mesmo de forma ainda mais forte: “Quando ainda éramos fracos, Cristo morreu pelos ímpios.” Cristo não morreu por nós quando já éramos santos, perfeitos ou merecedores. Morreu por nós quando éramos fracos, pecadores, incapazes de nos salvar a nós mesmos. É esta a loucura de Deus: Ele ama-nos antes de qualquer mérito nosso. Podemos ser frágeis, incoerentes, uns pequenos diabinhos; mesmo assim, Deus não deixa de nos amar.
O Evangelho concretiza esta verdade. Jesus vê as multidões e enche-se de compaixão, porque andavam fatigadas e abatidas, como ovelhas sem pastor. Jesus não começa por julgar, criticar ou condenar. Começa por se comover. Começa por sofrer com o sofrimento dos outros. E depois envia os discípulos. Isto é decisivo: ser cristão não é, antes de tudo, saber muitas coisas ou fazer muitas atividades. Ser cristão é participar na compaixão de Deus.
A pastoral, a oração, a Eucaristia, a vida cristã inteira deveriam nascer desta certeza: Deus ama-nos. Se rezamos, celebramos e servimos, não é para comprar Deus, nem para o convencer a olhar para nós. É porque já fomos olhados, amados e alcançados pela sua misericórdia. A conversão começa aqui: deixar os nossos esquemas humanos, marcados pelo cálculo, pelo medo e pela recompensa, e aprender a mentalidade de Jesus Cristo.
Por isso, Jesus diz: “Não sigais o caminho dos gentios.” Isto quer dizer: não entreis na lógica do mundo, na lógica do interesse, da troca, do prestígio ou da recompensa. Ide aos que estão perdidos, anunciai que o Reino dos Céus está próximo, curai, levantai, libertai. O amor recebido de Deus torna-se amor oferecido aos outros.
Podemos chamar a isto um estilo samaritano, uma espiritualidade hospitaleira. Ser hospitaleiro é acolher o outro na sua diferença, sem o julgar nem o reduzir ao que eu penso dele. É dar-lhe não apenas aquilo que eu acho que ele precisa, mas aquilo de que ele efetivamente precisa. E isto vale também para Deus. Acolher Deus é acolher o diferente, Aquele que não cabe nos nossos esquemas. Não há ninguém mais diferente de nós do que Deus.
Por isso, deixar-se amar por Deus é fácil e difícil. É fácil, porque a nossa vida está cheia de sinais do seu amor. Mas é difícil, porque temos orgulho, feridas, medos e histórias que nos tornam desconfiados diante de uma bondade tão grande.
O Evangelho termina com uma frase luminosa: “Recebestes de graça; dai de graça.” Recebeste como dom; oferece como dom. Dar de graça é dar sem esperar aplauso, resultado ou reconhecimento. É cumprir a vontade de Deus sem esperar recompensa que não seja fazer a sua vontade.
Humanamente, isto é difícil. Precisamos de reconhecimento e cuidado, também connosco próprios. Mas a raiz da vida cristã permanece esta: antes de tudo, fomos amados gratuitamente por Deus. E é dessa gratuidade recebida que nasce a gratuidade oferecida.