Ainda não podemos esquecer os diálogos da Semana Santa. Na Sexta-feira Santa, Pilatos pergunta a Jesus: «Que é a verdade?» E Jesus não responde. Talvez porque há perguntas demasiado importantes para qualquer contexto; precisam de um espaço favorável para serem pensadas e acolhidas.
Hoje, porém, no contexto íntimo da despedida, Jesus diz aos discípulos: «Não se perturbe o vosso coração. Se acreditais em Deus, acreditai também em Mim». Tomé pergunta: «Senhor, não sabemos para onde vais; como podemos conhecer o caminho?» E Jesus responde: «Eu sou o caminho, a verdade e a vida».
Diante de Pilatos, Jesus cala-Se. Diante dos discípulos, revela-Se. A verdade, para nós cristãos, não é uma ideia abstracta, nem apenas um conceito filosófico. A verdade é uma pessoa: Jesus Cristo, o Verbo encarnado. Por isso, conhecê-la não é só aderir a uma doutrina; é entrar numa relação, fazer um caminho, deixar-se conduzir por Cristo. Caminhando com Ele, recebemos vida em plenitude.
Jesus não abandona os seus. Vai para o Pai, mas permanece connosco pela acção do Espírito Santo. E diz-nos: «Quem acredita em Mim fará também as obras que Eu faço, e fará ainda maiores». Pelo baptismo, somos continuadores da sua missão. Somos, como escutámos na carta de São Pedro, «geração eleita, sacerdócio real, nação santa, povo adquirido por Deus».
Pelo baptismo recebemos a salvação e tornamo-nos seus portadores. Receber e anunciar são duas faces da mesma moeda. Quanto mais recebemos, mais somos enviados; quanto mais anunciamos e servimos, mais profundamente acolhemos aquilo que Deus nos dá. A salvação não é um conceito: é uma existência transformada.
A primeira leitura, dos Actos dos Apóstolos, ajuda-nos a compreender a Igreja. Por vezes imaginamos que a comunidade cristã deveria ser perfeita, sem falhas, tensões ou fragilidades. Mas a Igreja nasce constituída por homens e mulheres como nós: santos e pecadores, generosos e egoístas, sinceros e contraditórios.
A primeira comunidade também teve problemas. As viúvas dos cristãos de língua grega não estavam a ser cuidadas. Havia uma ferida real dentro da comunidade. E os discípulos não esconderam o problema. Não o abafaram em nome de uma falsa paz, de uma falsa unidade ou de uma falsa verdade. Assumiram-no, discerniram-no e procuraram uma solução.
Este é um ensinamento decisivo. Reconhecer um problema numa comunidade cristã não significa criar divisão. Pelo contrário: se for tratado ao estilo cristão, pode tornar-se ocasião de conversão e crescimento. Foi isso que aconteceu. Os Doze reconheceram que não podiam abandonar o anúncio da Palavra para servir às mesas; mas perceberam que o cuidado das pessoas não podia ser negligenciado. Escolheram homens cheios do Espírito e de sabedoria, e assim nasceu o ministério dos diáconos.
Um problema, acolhido com fé e discernimento, tornou-se ocasião para a Igreja compreender melhor a sua missão. Se o tivessem escondido, todos teriam perdido. Mas, porque o enfrentaram em comunidade, a Igreja percebeu que anunciar a Palavra e cuidar da vida pertencem à sua identidade.
Ser cristão não é apenas acreditar em verdades. É fazer aquilo que Jesus fez. É anunciar, sim; mas é igualmente cuidar, servir, levantar quem está esquecido, dar atenção a quem ficou à margem. São João é claro: quem diz que ama a Deus, que não vê, e despreza o irmão, que vê, é mentiroso.
Por isso, ser membro da Igreja é viver de modo activo e sincero. Quando há problemas, devemos identificá-los e procurar juntos soluções. Quando há bem, devemos reconhecê-lo e fazê-lo crescer. Não somos uma comunidade perfeita. Somos uma comunidade chamada por Cristo, feita de pessoas frágeis, mas convidadas à conversão.
Nunca podemos perder de vista o essencial: Jesus Cristo é o caminho, a verdade e a vida. A fé é união com Ele. E a comunidade cristã só é verdadeiramente discípula quando conhece a palavra de Jesus, mas sobretudo quando vive e pratica aquilo que Ele nos ensinou.