A primeira leitura continua o texto do domingo passado. Pedro, no dia de Pentecostes, dá testemunho de Cristo: quem Ele era, o que fizeram com Ele e como Deus O ressuscitou. Perante este anúncio, todos ficaram com o coração trespassado.
Não se trata apenas de um coração ferido, mas de um coração atravessado por uma certeza nova, por uma ternura que envolve e transforma. Diante de Cristo ressuscitado, a pergunta nasce espontaneamente: «Que havemos de fazer?» Que consequência deve ter esta notícia imensa?
Pedro responde: «Convertei-vos e receba cada um de vós o batismo.» Mas nós já fomos batizados. Por isso, a pergunta não é simplesmente o que devemos fazer para receber o batismo, mas como havemos de viver o batismo que recebemos. Ser batizado é tomar consciência de que Deus nos conhece, nos chama e nos ama.
No Batismo, a primeira pergunta feita aos pais é: «Que nome dais ao vosso filho?» Este momento é decisivo. A partir do nome, reconhece-se que aquela pessoa não é uma massa anónima, nem um número, nem apenas parte de um grupo. É alguém único diante de Deus. Cada um de nós é chamado pelo seu nome e é importante para Deus.
A segunda leitura mostra até onde vai esse amor: Cristo, insultado, não respondia com injúrias; maltratado, não ameaçava; entregava-se Àquele que julga com justiça. Em Jesus Cristo, Deus entrega-se totalmente por cada um de nós. Cada um de nós é olhado, amado e cuidado por Ele.
O Evangelho apresenta isto com a imagem do Bom Pastor. O pastor era aquele que conhecia cada ovelha, sabia o que lhe fazia bem e o que lhe fazia mal, protegia-a dos perigos e a conduzia às melhores pastagens. O pastor cuidava do rebanho para que ele vivesse.
Quando Jesus se apresenta como Bom Pastor, diz-nos que Deus não quer dominar-nos, esmagar-nos ou castigar-nos. Quer cuidar de nós, conduzir-nos à vida e fazer de nós pessoas livres, com vida em abundância.
Hoje, celebramos também o Dia Mundial de Oração pelas Vocações. A primeira vocação não é ser padre, diácono, religioso ou religiosa. A primeira vocação é o batismo. Tudo o resto nasce daí. Pelo batismo, somos chamados a participar na vida de Cristo e a tornar presente o cuidado do Bom Pastor.
Talvez a nossa maior dificuldade seja imaginar a fé como um peso ou um sacrifício imposto para agradar a Deus. Há até aquele provérbio popular: «O que é bom ou é pecado ou faz mal.» Mas esta ideia, espiritualmente, é uma barbaridade. A proposta de Jesus não é uma ameaça à nossa humanidade; é a sua plenitude. Somos tanto mais humanos quanto mais seguimos Jesus Cristo.
O cristianismo não nos diminui; dilata-nos. Não nos rouba a vida; devolve-nos a vida verdadeira. Quando sentimos necessidade de sentido, de paz ou de horizonte, procuramos respostas em técnicas de autoajuda, meditações rápidas ou soluções de ocasião. É como se tivéssemos a melhor farmácia diante de nós e procurássemos remédio numa farmácia improvisada.
A proposta de Jesus Cristo não funciona segundo a lógica do mercado: eu dou tempo, dinheiro ou atenção, e recebo uma solução imediata. A lógica de Jesus é a liberdade responsável. Ele não diz apenas: «Faz isto e tudo ficará resolvido.» Ele diz-nos: «Segue-Me. Aprende de Mim. Faz como Eu faço.» E, à medida que O seguimos, a sua salvação começa a instalar-se em nós.
Jesus conhece-nos pelo nome. Olha-nos com atenção total. E pede-nos que façamos o mesmo com os outros. Se somos discípulos do Bom Pastor, somos chamados a ser bons pastores: pessoas capazes de escutar, de cuidar, de tratar os outros pelo nome, de dar tempo, de criar relações verdadeiras, de conduzir para a vida.
Neste Domingo do Bom Pastor, recordemos isto: Cristo é o Pastor que nos conhece e nos ama. Pelo batismo, participamos da sua vida. E participar da sua vida é participar da sua alegria, da sua plenitude e da sua vida em abundância.