Neste dia de Páscoa, em que celebramos a ressurreição de Jesus Cristo, talvez, se vos perguntasse qual é o acontecimento mais significativo deste dia, muitos responderiam: o compasso pascal. E, de facto, nas nossas paróquias e comunidades, homens e mulheres percorrem casas, ruas e prédios a anunciar esta boa nova: Cristo ressuscitou. Fazem, de algum modo, o mesmo que Maria Madalena: vão dizer que a pedra foi retirada. E, quando ela o diz ao discípulo amado e a Simão Pedro, acontece aquilo que o Evangelho nos mostrou: os dois correm ao sepulcro.
O discípulo amado chega primeiro, vê, mas não entra. Depois chega Simão Pedro, entra, vê o sudário no chão e as ligaduras enroladas à parte. Entra, depois, o outro discípulo: vê e acredita. E, no entanto, o texto acrescenta que ainda não tinham entendido a Escritura, segundo a qual Jesus devia ressuscitar dos mortos. Eles não entendiam. E eu não sei se nós, hoje, continuamos a entender.
Não podemos ignorar que muitos dos que convivem connosco não acreditam que Cristo ressuscitou. E há até pessoas que cresceram em ambientes religiosos como o nosso, pertencem às nossas paróquias, vivem a Páscoa como um belo feriado de primavera, mas não conseguem dizer, com verdade, que Cristo ressuscitou. Consideram-se descrentes. E a sua dificuldade é importante, porque nos ajuda a perceber que realizar ritos, fazer celebrações e manter tradições sem saber porquê gera vazio, gera erosão interior, e acaba por nos levar a deixar tudo isso para trás.
Por isso, a grande pergunta, hoje, é esta: eu acredito que Cristo ressuscitou? Não vale dizer: “Se eu tivesse vivido no tempo de Jesus, teria visto e acreditado”. Os primeiros discípulos também tiveram dificuldade. E o que viram? Viram o vazio, o sudário, as ligaduras. Não viram uma prova; viram indícios. O corpo podia ter sido roubado. Mas aquelas ligaduras enroladas já não eram precisas, porque aquele cadáver já não estava preso à morte. Esta é a leitura da fé.
A primeira leitura dá-nos uma chave decisiva: Jesus de Nazaré passou fazendo o bem. Se quisermos procurar uma razão para Deus o ter ressuscitado, talvez a encontremos aí: ele passou fazendo o bem. Por isso, o lugar onde hoje podemos ver indícios da ressurreição é precisamente este: repetir o estilo de vida de Jesus.
Cristo ressuscitado não é uma verdade que entra na cabeça apenas por lógica. Não é por uma acumulação de argumentos que alguém chega à fé pascal. Por cada argumento a favor, haverá sempre outro contra. Nós acreditamos verdadeiramente na ressurreição quando a tocamos, quando a experimentamos.
Pensemos, por exemplo, em quando estamos zangados com alguém e optamos por retomar o diálogo, em vez de alimentar o silêncio e a distância. Ou quando damos do nosso tempo, da nossa atenção, dos nossos recursos, para acompanhar alguém que está só, alguém que precisa apenas de ser ouvido, mesmo que repita sempre as mesmas histórias. Quando fazemos isso, não precisamos que nos expliquem que fizemos bem. Sentimos por dentro uma paz, uma alegria, uma confirmação interior. Aí há um indício de vida nova.
Eles correram ao sepulcro e encontraram-no vazio. Nós corremos, no nosso dia a dia, a lugares marcados pela morte, e, pela graça de Deus, podemos encontrar aí sinais de vida. Quando vivemos como Jesus, que passou fazendo o bem, percebemos que a morte já não tem a última palavra. E então a ressurreição deixa de ser uma fórmula abstrata: torna-se uma experiência concreta.
Hoje temos o mesmo problema de Maria Madalena, de Pedro e do discípulo amado: alguma coisa aconteceu, e nós não sabemos explicar tudo. Procuramos provas e encontramos indícios. Mas esses indícios são suficientes para que, guiados pela graça, cresça em nós a convicção de que Cristo ressuscitou. E afirmar isso não é repetir uma doutrina de cor; é reconhecer, no concreto da vida, que onde parecia haver morte, Deus faz nascer a vida. E, ao levarmos vida aos outros, encontramos a vida em plenitude que vem de Cristo ressuscitado.