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O método científico de Leonardo Da Vinci é composto pelo uso da experiência para comprovar uma ideia. Essa é a base da ciência até hoje.
“Muito do que se faz atualmente é também com base experimental. Os estudiosos, como eu, têm tido a convicção de que você só faz uma experiência — seja em laboratório, seja no campo — se já tem algo em mente. Ou seja, primeiro vem a ideia e, depois, a execução ou diversas execuções. O Leonardo é um bom exemplo disso. Ele tinha a intuição do que ele queria demonstrar e aí partia para a experiência. Então, ciências experimentais acabam usando esse método”, define o professor titular de história da ciência da Universidade de São Paulo (USP), Gildo Magalhães.
Da Vinci (1452 – 1519) é tido como o gênio do Renascimento por ter se destacado em estudos de diversas áreas. Além do artista que ficou conhecido por um dos quadros mais famosos do mundo, a pintura de Monalisa, foi também engenheiro, arquiteto, músico e, entre outras atividades, um dos grandes idealizadores de máquinas modernas. Tudo isso, apesar de não ser propriamente um matemático.
“Ele mesmo não tinha essa formação matemática, ele tinha muito mais era uma intuição geométrica dos estudos que fazia envolvendo a parte de dinâmica aérea e as pesquisas dele sobre o voo”, exemplifica Magalhães.
No áudio, você acompanha também a participação do professor do Laboratório de Criação Visual da Universidade Estadual de Maringá (UEM), Marcos Danhoni. Ele traz uma proposta de abordagem interdisciplinar dos muitos mundos de Leonardo Da Vinci e dá exemplos de como trabalhar as diferentes facetas do artista e cientista na escola.
“A gente desenvolve trabalhos como a construção de asas, tudo em pequena escala; a construção de máquinas e, também, o estudo anatômico, envolvendo aí os alunos seja de biologia, seja de artes visuais”, explica.
Atividades aliando o raciocínio de Leonardo da Vinci a partir de desenhos e pinturas permitem a estudantes a percepção de uma ciência empírica, englobando observação da natureza, raciocínio lógico e intuição matemática, características dos principais métodos científicos até hoje.
O ano de 1964, em Moçambique, marca o início do movimento anticolonialista contra a opressão portuguesa. É este o contexto que está na origem do livro “Nós Matamos o Cão Tinhoso!”, do escritor moçambicano Luís Bernardo Honwana. A obra, que entrou para a lista da Fuvest 2024, reúne contos sobre a luta do povo moçambicano pela independência do país.
“Luís Bernardo Honwana fez parte de um movimento de libertação de Moçambique e, então, vai militar dentro desse esforço de libertação de Portugal, que enfim será conseguido nos anos de 1970. O livro dele é publicado em 1964, no fervor da batalha anticolonialista, pelo menos no início desse movimento que dez anos depois resultaria na independência de Moçambique”, relata o professor de literatura do Sistema Anglo de Ensino e mestre em teoria literária pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Fernando Marcílio.
A obra é considerada um marco da literatura africana por conclamar o povo moçambicano a lutar pela liberdade e autonomia do país. Os contos de Honwana expressam a realidade vivida durante a colonização portuguesa, como forma de denúncia.
“O livro tem uma dimensão simbólica muito importante e, embora seja composto de várias narrativas, essa linha simbólica é a mesma: é o chamamento para luta, convocação para luta de resistência contra a presença estrangeira”, diz Marcílio.
No áudio, o professor traz possíveis indicações do que a Fuvest deve valorizar em seu vestibular em relação a “Nós Matamos o Cão Tinhoso!”. Uma das possibilidades é a relação entre a narrativa dos contos de Honwana e de outros livros da lista, como o “Romanceiro da Inconfidência”, de Cecília Meireles.
“Essencialmente, esse livro fala da luta pela liberdade e luta pela liberdade não tem data, não tem hora, não tem lugar. Ela sempre existe. A mesma coisa acontece com o “Romanceiro da Inconfidência”. Também é um livro que trata de um episódio específico, mas que trata, na verdade, da ambição e da luta pela liberdade”, explica.
Neste episódio do Livro Aberto, Marcílio lê o trecho de um dos contos da obra que demonstra a valorização da cultura oral por meio de uma linguagem coloquial e repleta de regionalismo, como forma de resgate da identidade do povo moçambicano.
O Brasil lidera o ranking dos países que mais matam pessoas LGBTQIA+ no mundo. Em 2022, 256 foram vítimas de morte violenta. No país, ocorre um falecimento dessa população a cada 34 horas.
Tais dados se baseiam em notícias publicadas nos meios de comunicação, coletados e analisados pela organização não governamental Grupo Gay da Bahia (GGB) há 43 anos. É a partir desse quadro que o grupo cobra por políticas públicas que erradiquem a violência extrema.
Um dos pontos capazes de avançar — ainda que com muita dificuldade — em pautas importantes como essa é obter uma maior representação política, ainda falha quando o assunto é diversidade.
Em setembro de 2022, a “Pesquisa do Orgulho”, realizada pelo Datafolha, apontou que 9,3% da população brasileira se autodeclaram LGBTQIA+, correspondendo a 15 milhões e meio de pessoas. Por outro lado, o Vote LGBT, organização que atua desde 2014 para aumentar a representatividade do grupo em todos os espaços da sociedade, principalmente na política, indica que a comunidade LGBTQIA+ representa apenas 0,16% da classe política do Brasil.
“Quando pensamos em sub-representatividade, associamos isso ao fato de sermos o país que mais mata LGBTQIA+ no mundo, sermos sub-representados na indústria, no entretenimento, no audiovisual; e que, inevitavelmente, refletem num ambiente que já é hostil a todo corpo dissidente, né? A política hoje ainda é dominada por homens brancos, cisgêneros, heterossexuais e privilegiados, que não representam o Brasil em sua essência”, analisa o roteirista e diretor do documentário “Corpolítica”, Pedro Henrique França.
No áudio, além de entrevista com França, você acompanha trechos de depoimentos do filme com a primeira deputada trans eleita no Brasil (em 2028), Erica Malunguinho, e com a jovem poeta que foi candidata à vereadora pelo Rio de Janeiro, Andréa Bak. Elas se posicionam sobre a importância de que mais espaços sejam ocupados por representantes LGBTQIA+. “Nós estamos lutando por direitos civis ainda, principalmente a população T: construção de cidadania básica, direito ao nome, acessar banheiro”, constata Malunguinho.
Para a transpóloga (antropóloga trans) Renata Carvalho, quando o espaço político é preenchido coletivamente, a violência é melhor enfrentada. “Sempre trago um exemplo de um armazém com mil pessoas. Se entrar uma pessoa trans, ela continuará sendo apontada, ninguém vai querer falar com ela. Se ocuparmos esse mesmo armazém com mil pessoas, mas com duzentas pessoas trans, é mais fácil de naturalizarmos a nossa presença e não ser exotificada”, explica.
Dois de julho marca um dos capítulos mais importantes da luta contra o domínio de Portugal sobre o Brasil. A data é lembrada pela expulsão dos colonizadores que se mantinham em Salvador, ocorrida de fevereiro de 1822 a julho de 1823. Por isso, tradicionalmente, festas populares em diferentes regiões do estado comemoram o Dia da Independência da Bahia.
Segundo o professor de história da Universidade Federal do Recôncavo Baiano (UFRB), Sérgio Guerra Filho, o mais correto é chamar de Independência do Brasil na Bahia. “Primeiro, a Bahia não ficou independente, não formou um estado autônomo a partir da guerra. Segundo, […] desde os primeiros momentos dessa guerra, as autoridades dessa Bahia que se rebelou contra a presença portuguesa na capital — que chamamos hoje de Salvador — já se articulou com D. Pedro, com o Rio de Janeiro, com outras províncias, para constituir a unidade territorial da América portuguesa”, elucida.
No áudio, ele conta detalhes dos conflitos e como essas lutas entre dois grupos políticos, durante mais de um ano, resultaram na vitória dos defensores da independência.
“No começo de julho, é organizada uma retirada de grande escala: todo o exército português evadiu em embarcações, mas também muitos civis — portugueses e suas famílias. Portanto, essa retirada militar no dia dois de julho, de Salvador, tem uma grande proporção: acabou com a libertação da cidade, que poderá voltar a ser a capital da Província da Bahia, província essa plenamente integrada ao Império do Brasil a partir daí”.
Guerra Filho defende que a data deve ter uma dimensão para além do seu aspecto regional. “É possível que essa guerra tenha definido a integridade do território da América portuguesa como um império do Brasil, coisa que não aconteceu em outras independências”, afirma. Para ele, estudar esse e outros conflitos que acontecem após o episódio que ficou registrado como “Grito da Independência”, em sete de setembro de 1822, é importante para que se entenda que a independência não foi um ato pacífico e só se efetivou algum tempo depois.
Participação popular
Sérgio Guerra Filho ressalta como foi fundamental a participação intensa da população comum. Para ele, sem o envolvimento de populares, o dois de julho não seria possível. “Há registros de que inclusive escravizados fugiram para se inscrever (no exército) e supostamente ganhar sua liberdade; libertos, pobres livres, mulheres como Maria Felipa e Maria Quitéria, pessoas das classes populares que lutaram nessa guerra”.
Apesar da grande participação popular, o professor relata que, ao fim da guerra no solo baiano, o país permanece escravocrata e mantém os privilégios aos grandes proprietários e aos oficiais que lideraram o movimento. No entanto, destaca o fato de festas populares que marcam o feriado na região valorizarem figuras do povo. “Hoje você tem grandes festas — a principal delas é em Salvador, mas não é a única — onde se desfila com caboclos e caboclas, imagens reverenciadas, que representam a participação popular e a vitória desse povo contra a tirania. Ali tem uma lição de que a gente só conquista direitos, liberdades e avanços sociais com a mobilização e com a luta”, conclui.
A Política Nacional de Resíduos, aprovada em 2010, estabelece como deve ser feita a coleta e destinação de todos os resíduos gerados no país, reduzindo o impacto ambiental e incentivando a economia circular, ou seja, a retomada daquele produto ou embalagem como matéria-prima para diversas indústrias.
“A reciclagem é importante porque vai desviar os resíduos de um possível descarte irregular. São resíduos que têm um significado pelo seu volume gerado, principalmente os plásticos, que a gente tem aí entre os dez principais geradores, o Brasil entre o quarto e quinto lugar no mundo”, explica o consultor na área ambiental, doutor em saúde global e sustentabilidade pela Faculdade de Saúde Pública (FSP) e pós-doutorando do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (IEA-USP), Pedro Lombardi Filho.
Descartado inadequadamente, os plásticos se tornaram um dos principais poluentes do meio ambiente. Segundo o “Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil 2022”, elaborado pela Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe), o resíduo plástico é o tipo de poluente mais encontrado nos oceanos e corresponde a 48,5% dos materiais que vazam para os mares.
Lombardi Filho aponta que quando o descarte acontece corretamente, além de evitar maiores danos ao meio ambiente, também há ganhos para a saúde das pessoas. “Você está diminuindo o descarte irregular. Por exemplo, um plástico, quando vai para um local inadequado, dependendo do formato dele, pode gerar pontos de acúmulo de água, proliferação de vetores e o problema da dengue”.
O descarte correto de resíduos eletrônicos contribui ainda para evitar o surgimento de doenças ligadas ao consumo de metais pesados presentes na água e alimentos contaminados.
Entre as ações recentes da Claro para diminuir o impacto do plástico no ambiente está a “Controle remoto reciclável”. A ideia vem do processo de logística reversa, em que resíduos coletados são destinados a diversos segmentos de mercado. Neste caso, a inovação está no fato de o plástico passar por um processo de reciclagem que permite que seja aproveitado em um novo produto da própria empresa. No áudio, o responsável da área de Logística — Descarte Sustentável da Claro, Alan Gonçalves Santos, fala como teve a ideia de reciclar itens e gerar um novo produto para a marca. “Isso me dá um conceito de economia circular: utilizo um equipamento que não tem mais utilidade na minha operação como aquele produto específico e gero um subproduto dele. Utilizei um decoder, por exemplo, e a partir desse momento que não tinha mais utilização na minha operação, gero um controle remoto”.
O material utilizado para a produção do controle com plástico 100% reciclado vem do tradicional programa Claro Recicla. Por meio dele, desde 2008, a operadora disponibiliza pontos de coleta de resíduos eletrônicos e faz com que esses materiais possam ser reciclados.
A ideia é conscientizar o máximo de pessoas possíveis sobre o descarte correto de itens eletrônicos. “A gente incentiva o descarte adequado em coletores disponíveis em nossas lojas de shopping, rua e agentes autorizados. Nos coletores, você pode descartar aparelhos celulares de qualquer operadora de telefonia, bateria, chips e acessórios que não têm mais uso. Após a coleta, o material é separado, pesado, contado e encaminhado para as indústrias de reciclagem”, resume o analista de sustentabilidade da Claro, Antonio Antunes.
“Desde 2008 já foram recicladas 72 toneladas e meia de resíduos eletrônicos e arrecadados 295 mil itens nas urnas do Claro Recicla em todo o Brasil”, relata a coordenadora de Responsabilidade Social da Claro, Patrícia Sanches.
Se você tem algum celular, carregador, ou acessório eletrônico sem uso, basta levar em alguma loja da Claro para o item ser descartado de maneira adequada e encaminhado para a reciclagem.
A Organização Meteorológica Mundial, agência ligada à Organização das Nações Unidas (ONU), prevê haver 60% de possibilidades de que o fenômeno El Niño se desenvolva até o final de julho. Essa probabilidade sobe para 80% no período que se estende até setembro deste ano. O comunicado foi divulgado após se verificar que as águas do oceano pacífico estão mais quentes do que a média histórica. A expectativa é de um aumento global da temperatura, o que pode gerar seca em algumas regiões e chuvas muito intensas em outras.
Segundo o professor do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (USP), Alexander Turra, os efeitos deste aumento da temperatura dos oceanos têm origem na emissão de gases do efeito estufa e impactam primeiro e mais veemente, na maior parte das vezes, pessoas que moram nas periferias e precariamente, caracterizando o racismo oceânico.
“É um tema muito importante porque ele revela o efeito das crises ambientais sobre parcelas da população mais vulneráveis, que normalmente são as mais pobres e são normalmente compostas por pessoas pardas e pretas. É por isso que a gente usa o termo racismo. Isso vem, também, da ideia de um racismo estruturado, que cria esses bolsões de pobreza, de marginalização social, historicamente”, afirma.
Com o aquecimento, os fenômenos climáticos sofrem alterações, aumentando o risco de eventos extremos, como tempestades intensas. O que resulta em perdas de propriedades e de vidas, como as que se verificaram em fevereiro deste ano no litoral norte de São Paulo.
Uma das consequências desse distanciamento entre grupos sociais mais vulneráveis e o mar é a não possibilidade de se ampliar a cultura oceânica, que permitiria às pessoas entenderem a importância do oceano na vida delas, mesmo morando longe do mar, e a necessidade da sua preservação.
Publicado entre janeiro de 1885 e fevereiro de 1886 na revista “A Estação”, o romance “Casa Velha”, de Machado de Assis, é uma das novidades da lista de livros da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) para o vestibular 2024. A obra está completando 90 anos de seu lançamento em livro, o que só aconteceu em 1943.
A história se passa durante o Primeiro Reinado no Brasil (1822 a 1831) e tem como protagonista um padre que aspira escrever sobre esse período da história. Para isso, solicita à viúva de uma espécie de ex-ministro que o deixe pesquisar documentos na biblioteca da casa. Durante a investigação, o padre acaba se aproximando de uma agregada chamada Lalau.
“A gente começa a perceber essa interferência da Igreja e uma certa promiscuidade na divulgação das informações a respeito dessa família: quem gosta de quem? Quem deseja o quê? Quem veio de onde? Quem é filho de quem? Acho muito interessante, porque ele está discutindo o Brasil — conta uma história humana, desenha personagens intensos, verdadeiros, profundos com as suas questões. E por trás disso tudo, metaforicamente, há um Brasil sendo revelado”, analisa o professor do Sistema Anglo de Ensino e mestre em literatura brasileira pela Universidade de São Paulo (USP), Mauricio Soares Filho.
Entre o romantismo e o realismo
O pesquisador ressalta que, assim como acontece com outros textos do escritor, neste também há elementos tanto do romantismo como do realismo. “Esse tipo de trama que envolve uma família, o casamento do protagonista, herança, a moça indesejada como uma espécie de agregada, é romântica”.
No entanto, as convenções sociais que estão por trás dessas ações remetem a características do realismo.
“A interferência, por exemplo, da Igreja nessa estrutura familiar, a preocupação incrível da dona da casa com a manutenção do nome da família, de alguma representatividade social que ela não queria de jeito nenhum perder... Essas questões batem com a caracterização dos personagens realistas preocupados com a aparência, com a manutenção de um status social”, conclui.
Durante uma década, a ativista e escritora Nana Queiroz focou nas mulheres para tentar combater o machismo. Entretanto, desde que se tornou mãe de seu primeiro filho, passou a acreditar que os meninos também podem ser a cura contra a sociedade patriarcal.
“As pessoas que eu mais amo no mundo são homens: tenho dois filhos homens, meu marido, meu pai, meus irmãos. É importante que a gente possa conciliar esses afetos com uma crítica social, política e educacional contundente.”
Inspirada pela obra da autora, professora, teórica feminista e antirracista estadunidense Bell Hooks, Queiroz defende a educação feminista amorosa como vacina contra o machismo.
“A gente quer resgatar as crianças antes que elas se tornem abusadoras, né? Ninguém nasce abusador, ninguém nasce estuprador, ninguém nasce feminicida. As pessoas vão desenvolvendo essas características, conforme a criação em que elas são colocadas.”
No áudio, Queiroz comenta dois exemplos dessa educação para meninos: o dia em que o filho mais velho pediu uma boneca e o porquê é bom que o filho chore — e chore muito. “Isso começa no ‘menino não chora’, mas vai muito além. Fico sempre observando o meu filho de quatro anos, quando ele sai com a prima dele que tem seis aninhos… Todo mundo, quando vai falar com a prima dele, que é até um pouco mais velha, fala assim: ‘oi, Heleninha nã nã nã nã’. Mas com ele é assim: ‘e aí, cara?!’, ‘e aí, mano?!’. Você vê que a ele, mesmo sendo menor, não é dado o mesmo afeto”, analisa.
O tema central das obras de Milton Hatoum é o drama familiar. Em “Dois Irmãos”, que passa a integrar a lista de livros do vestibular da Fuvest 2024, as relações entre dois irmãos gêmeos dão o tom. Na casa da infância, em Manaus, eles convivem com a mãe, o pai, a irmã e com a empregada Domingas e o filho dela, Nael. É pelo ponto de vista desse menino que leitores acompanham a saga vivida e testemunhada por ele.
“Eu queria, em ‘Dois Irmãos’, um narrador que fosse um agregado, o filho de uma mulher levada para trabalhar, conduzida sem salário na casa de uma família de imigrantes. E ele é o porta-voz da memória dessa família”, explica o escritor Milton Hatoum.
A dúvida sobre a paternidade faz com que Nael remonte seu passado. Ele narra os fatos como testemunha da ascensão e queda tanto da família da qual faz parte como da região em que vive.
Para o professor e autor do Sistema Anglo de Ensino e mestre em literatura brasileira pela Universidade de São Paulo (USP), Maurício Soares Filho, o fato de o drama familiar do livro acontecer em torno do porto de Manaus, à margem do rio Negro, enriquece a narrativa. Da mesma forma, “oferece elementos que acrescentam nas imagens que o leitor é capaz de fazer tanto da ambientação física quanto da temperatura, da relação com o rio, do movimento do comércio, da venda do peixeiro e o contato dele com a empregada negociando o valor do peixe”, diz.
Por meio de um paralelo entre a Manaus retratada no livro e a atual, torna-se possível discernir tanto o esplendor quanto a decadência que permeiam a cidade. Em uma escala maior, os dois irmãos gêmeos da trama — Yakub e Omar — representam, também, duas faces de um mesmo país. “Nós, irmãos, não sabemos ver o outro, conversar com o outro que é o mesmo também, falar a mesma língua. Então acho que aí tem uma metáfora sobre esses Brasis inconciliáveis, vamos dizer assim, a partir da história de cada um, da trajetória de cada irmão e de seus destinos”, conclui Hatoum.
Nos últimos vinte anos, houve 24 ataques a escolas com violência extrema, que resultaram na morte de mais de trinta pessoas. O número está na pesquisa “Ataques de violência extrema em escolas no Brasil”, lançada no final de março deste ano e realizada pela professora Telma Vinha e pela mestranda Cleo Garcia, para o grupo “Ética, diversidade e democracia na escola pública”, do Instituto de Estudos Avançados da Faculdade de Educação da Universidade de Campinas (Unicamp).
O levantamento indica ainda que os agressores tinham entre 10 e 25 anos. Doze deles usaram armas de fogo e seis tinham arma em casa. As motivações, na maioria dos casos, envolveram vingança e raiva. No entanto, os casos mais recentes têm apresentado algumas peculiaridades que indicam o extremismo como principal componente.
“Já existia e permanece aquela característica de sofrimento na vida escolar por episódios de bullying ou por exclusão, mas essa nova característica diz respeito exatamente ao que esses adolescentes consomem. Em comunidades mórbidas, eles buscam aquilo que não encontram em outros espaços sociais, que é o sentimento de pertencimento. Então eles acabam odiando, vamos dizer assim, as mesmas coisas, os mesmos grupos sociais. E idolatram, também, as mesmas pautas: as armas, as violências”, analisa a pesquisadora do Instituto de Estudos Avançados da Unicamp (IdEA), Flávia Vivaldi.
Diante desse quadro, a cultura de paz na convivência escolar envolve a participação de todos os segmentos da sociedade. Para a professora, acolhimento e escuta devem ser estimulados na gestão democrática da instituição de ensino.
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