A tese de doutorado Dostoiévsky e a Dialética: Fetichismo da forma, Utopia como conteúdo foi apresentada em 2015 por Flávio Ricardo Vassoler ao Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. Posteriormente publicada em livro com o mesmo título, a obra reflete sobre o escritor russo considerado por muitos o maior romancista de todos os tempos.
Para explicar os pontos centrais da análise e suas conexões com a contemporaneidade, José Luiz Portella, doutorando em Histórica Econômica na FFLCH, trouxe o tema para o Momento Sociedade desta semana.
Ele explica que a tese é uma análise de interpretação “no sentido histórico, estético, político e literário das tensões dialéticas – ou seja, das contraposições – expostas na obra de Dostoiévsky”. Dividida em duas partes, Portella comenta que a primeira é predominantemente focada no conceito da polifonia dos personagens proposta em 1829 por Mikhail Bakhtin em seu estudo crítico Problemas da poética de Dostoiévsky, aprofundando a discussão ainda através de autores como Adorno e Hegel.
“Bakhtin acredita que Dostoiévsky criou um novo romance polifônico integral. Onde as diferentes vozes dos personagens se expressam reforçando contradições, e não são conduzidas pelo autor. Elas falam por si, pelas personalidades que cada uma possui, e se contrapõem formando o que se chama concerto polifônico”, aponta Portella.
Já a segunda parte do estudo procura, como o próprio Vassoler diz, “estruturar a filosofia da história que transpassa a obra do escritor russo”. Portella chama a atenção para as reflexões sobre a relação entre o cristianismo e o socialismo, pontuando que a utopia socialista cristã estaria na base de toda a obra. Ele retoma o conceito da “cicatrização do espírito” ao mostrar que para os personagens o mundo só faria sentido como ele é, se houvesse uma vida além-mundo onde ocorreria uma recuperação transcendental, uma solução ética para os pecados cometidos.
“Toda essa discussão de Dostoiévsky sempre acaba se baseando no aforismo – atribuído ao personagem Ivan Karamázov, do livro Os Irmãos Karamázov – que é: “Se Deus não existe, tudo é permitido”, comenta.
Portella destaca a possibilidade de existência do inverso ao aforismo citado, “se Deus pode existir, assim nem tudo é permitido, a morte de Deus seria a inexistência da eternidade e isso levaria a um vácuo ético”. Ele explica que não funciona buscarmos uma saída única para o entendimento dos problemas do mundo, através de vertentes exclusivas. “Seja a vertente do ego, a pessoa cuidando só de si. Ou a vertente política de alguma ideologia que no fundo vai redimir a sociedade como o socialismo se propôs. Ou através da religião”, complementa.
Saídas embasadas em apenas um ponto da dimensão humana podem levar a problemas atuais como o fundamentalismo religioso. A tese de doutorado expõe como não sairemos das dificuldades, aforias e incertezas que nos encontramos se não praticarmos uma visão mais ampla. “A busca de uma dimensão maior e completa é fundamental”, conclui.
Momento SociedadeO Momento Sociedade vai ao ar na Rádio USP todas as segundas-feiras, às 8h30 – São Paulo 93,7 MHz e Ribeirão Preto 107,9 MHz e também nos principais agregadores de podcast
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