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LEGADO EMOCIONAL - PARTE 2


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Olá! Tudo bem?

Como está você? Espero que bem!

Hoje, vamos entrar na 2ª parte da entrega sobre Legado Emocional. Como ja informei aqui, este é um livro que escrevi especialmente para o Clube Orekare e que aborda a importância desse tipo de legado familiar.

Afinal, quero te lembrar que:

Somos uma expressão de tudo que aprendemos de forma consciente ou inconsciente, geração após geração. E isso vale para princípios, valores, comportamentos e todas as áreas da vida; por toda a nossa vida.

Assim, partindo do princípio de que relações familiares saudáveis são a resposta mais eficiente para prevenir transtornos mentais e promover uma sociedade equilibrada, este é um convite a reconhecermos onde nos tornamos vulneráveis devido a tudo que vivemos e experimentamos em família.

Consciente ou inconscientemente, para cada dor vivenciada em nossos lares, ao compreendermos o legado emocional que recebemos - acredite! - podemos curar feridas antigas, algumas até esquecidas, e nos tornarmos emocionalmente mais fortes, saudáveis e seguros, capazes de multiplicar saúde emocional para nossos filhos, entorno, e, inclusive, para as próximas gerações.

Vamos agora para os Capítulos 3 e 4 do livro “NÓS - Um breve resumo dos nós que nos unem”.

CAPÍTULO 3

Não sei você, mas quando me pego em rodas de conversas sobre problemas familiares, comumente, ouço mais sobre os erros de pais, irmãos, tios e avós do que os de quem está me contando a sua versão dos fatos.

Geralmente, são histórias que expressam tipos de comportamentos e que, quando negativos, ouvimos do narrador:

“Ah, eu nunca farei, ou faria isso assim”.

“Ele (a) isso ou aquilo”.

“Eu quero distância disso ou daquilo”.

“Vou criar meus filhos assim, assado”.

“Deus me livre disso!”.

Essas são frases que também já me peguei repetindo porque é mais fácil olhar para o que está quebrado, torto ou errado, no outro.

O núcleo familiar é o nosso ponto base para o despertar dos nossos valores, princípios e identidade.

A primeira briga? Em casa.

O primeiro perdão? Em casa.

Hierarquia? Aprendemos em casa.

Habilidades de relacionamento? Tudo começa em casa, na sua família!

Agora, pensa comigo: se tudo que vivenciamos e aprendemos no nosso ambiente familiar é parte de quem somos, qual é o legado que recebemos?

Para identificá-lo precisamos nos voltar para a observância. Mas, muita calma! Para olhar em volta desarmados e em busca de respostas, sugiro que comecemos nos olhando por dentro, de forma honesta. Depois, diante do que encontrarmos em nós, poderemos começar a olhar para trás com mais saber e percepção.

Procure lembrar histórias que você conhece da sua família.

Pense um pouco sobre valores e crenças herdados.

Como você avalia que traumas ou dificuldades vivenciadas por seus pais ou avós impactam na sua visão de mundo.

Rememore suas experiências familiares mais marcantes.

Encontrou dores? Nomine-as.

Sentimentos ou percepções sobre si negativos ou distorcidos? Identifique-os.

Dar nome nos ajuda a compreender contra o que estamos lutando.

Há rejeição? Insegurança? Medos?

Quais?

Culpa? Vergonha? Ansiedade?

Consegue identificar alguma conexão entre seus achados e seus familiares?

Vou dar um exemplo.

Comecei a perceber como repetidas vezes, nas minhas relações afetivas, tive enorme dificuldade em confiar. Não estou falando do medo de ser traída, mas de confiar no outro. Sem confiança, você pisa em ovos o tempo todo. Quando acreditamos que a qualquer momento algo vai quebrar… quebra!

No meu caso, comecei a me perguntar de onde vinha isso. Que quebra poderia ter sido a raiz dessa incredulidade na confiança de quem alega me amar?

Hoje sei exatamente o momento em que minha relação de confiança com minha mãe foi quebrada. Eu devia ter uns 4, 5 anos, estava sentadinha no vaso sanitário, lendo revistinha em quadrinho no banheiro, quando minha mãe entrou brigando comigo e pela 1ª vez me bateu.

Minha mãe nunca havia me batido antes e nem tenho memória dela ter me batido depois. Ela nunca fora adepta de palmadas ou surras, os castigos eram seus maiores aliados. Naquele dia, apanhei porque a babá me acusou de algo que eu não fiz, minha mãe acreditou na babá e não em mim.

Lembro dela me contando essa mesma história, como se justificasse o ato e se isentasse da culpa. O vitimismo a cegava para muita coisa. E, inconscientemente, somando isso as questões com meu pai, ao perder nela esse porto seguro, o que se rompeu causou danos silenciosos que encorparam com o tempo. Resultado: por mais que a amasse, nunca consegui ter nela uma amiga, compartilhar sentimentos profundos ou sonhos de vida. Mas o impacto dessa quebra não se limitou apenas a nossa relação, transbordou para um sentimento de desconfiança e de culpa por coisas que eu sabia que não tinha feito, que esteve comigo por muito tempo e contra o qual até hoje tenho que me manter alerta.

Adulta, comecei a entender as camadas presentes nas histórias que ouvia dos meus pais, e eram lá que estavam escondidas muitas das dores e frustrações deles. Comecei a identificar padrões de comportamento e reações emocionais. Só que, para me libertar das dores deles fixadas em mim, seja por seus atos ou palavras, o 1º passo era perdoá-los.

E olha que interessante: existem estudos que comprovam que o perdão está associado a uma melhor saúde mental, incluindo menores níveis de depressão, ansiedade e estresse.

Precisamos assimilar que o perdão é um agente transformador, capaz de nos levar a reinterpretar eventos dolorosos e a filtrar o aprendizado adquirido em meio a dor. Ele começa na decisão de perdoar e à medida que vamos entrando nele, vamos reconhecendo sentimentos de paz, alívio e liberdade emocional.

O perdão é elemento crucial para a redenção porque promove novas perspectivas e transforma experiências negativas em fontes de aprendizado e crescimento. Some a isso o fantástico bônus de reparação de relacionamentos. É isso aí! Você entendeu bem!!

Perdoar gera superação, nos liberando do ressentimento e, até mesmo, do risco de vitimização.

Só que...

Esse é um processo individual, introspectivo, que requer reflexão e, para manter-se saudável, é preciso aprender a gerir seus sentimentos.

O que precisamos ter em mente é que compreender nossas influências é o primeiro passo para aprendermos a lidar com nossos pontos negativos e fortalecer os positivos. Isso nos levará para um maior bem-estar emocional e nos fará crescer em resiliência.

Hoje, quando te conto histórias como estas, isso não me causa desconforto ou gera gatilhos. Acredito mesmo que tudo isso, de alguma forma, soma a meu favor. Gosto do processo de descoberta.

A vida é processual. Às vezes, quando uma memória surge, preciso percebê-la melhor, compreender seu significado. Estou aberta a isso. Se for algo bom, valorizo, guardo com afeto. Se for algo que machuca, quero entender o que isso esconde e arrancar essa raiz danosa. Alguns desses entendimentos demoram mais, outros menos.

Nossa imperfeição também tem seu valor. Afinal, são nossas vulnerabilidades que nos abrem o coração para a empatia quando as reconhecemos nos outros. Algumas pessoas se resolverão sozinhas, outras precisarão de ajuda. E sempre é importante ressaltar que para aquele que têm maiores dificuldades em revisitar ou lidar com memórias danosas, ajuda profissional será fundamental.

A meu ver, de uma forma ou de outra, todos nós, precisamos de ajuda.

Só não esqueça: para receber ajuda, também é preciso querer ajudar-se.

CAPÍTULO 4

Dentre os maiores estudiosos sobre intergeracionalidade está Dan P. McAdams, PhD em psicologia e relações sociais por Havard, professor de psicologia Henry Wade Rogers e professor de desenvolvimento humano e política social na prestigiada Northwestern University.

Sendo um dos principais pesquisadores americanos no campo da psicologia narrativa, McAdams defende que a forma como contamos as histórias das nossas vidas é capaz de moldar nossa identidade e impactar nossa saúde emocional.

Segundo ele, quando traumas são narrados de maneira a incluir um tema de redenção (transformando algo negativo em algo positivo), isso pode promover a resiliência e o senso de crescimento pessoal.

Em contraste, narrativas que enfatizam a contaminação (onde algo positivo é transformado em negativo) podem estar associadas a uma maior vulnerabilidade emocional e dificuldades de enfrentamento.

E isso também se aplica a forma como os pais narram suas experiências traumáticas para os filhos. Por exemplo, pais que utilizam narrativas de redenção, apresentando os traumas a partir de uma perspectiva de superação e crescimento, ajudam a promover resiliência e bem-estar emocional em seus filhos e netos.

E vai mais longe: ele alega que essa transmissão de valores positivos leva a uma modelagem de comportamentos resilientes, e isso é considerado mecanismo chave para explicar como essas narrativas impactam as gerações seguintes.

Mas, como transformar algo negativo em positivo?

Um vitimista ou alguém egoísta, não distorceria algo a seu favor?

Sim, distorceria.

Enquanto o vitimista tende a culpar os outros e dar um maior enfoque na adversidade, o egoísta minimiza suas responsabilidades e exagera em suas qualidades e conquistas, ignorando ou minimizando os aspectos negativos de suas atitudes.

Tanto um quanto o outro tendem a distorcer a realidade como base para suas justificativas. Por isso, não dá para ser saudável emocionalmente sem uma honesta disposição para o autoconhecimento. É ele quem nos mostra como a autoanálise e o equilíbrio andam de mãos dadas.

Parece muito palavreado para pouca solução?

Então, pare um instante e pense naquela história pessoal ou profissional incrível que te inspira. Ela traz uma jornada onde a pessoa enfrenta adversidades, supera desafios e se adapta positivamente, lidando de forma inspiradora com situações difíceis ou traumáticas? Podemos dizer que ela foi contada de forma a nos fazer ver o que era negativo transformar-se em algo positivo? A resposta, geralmente, é sim!

No campo do desenvolvimento humano, todos aqueles que consideramos inspiradores lidaram com desafios pessoais e, é exatamente pela forma como lidaram com isso que nos inspiram. Seu legado emocional vai além dos seus filhos e alcança todos aqueles que olham para suas histórias e aprendem com elas.

Por isso amamos filmes como “À Procura da Felicidade”, com Will Smith, que nos conta a história de Chris Gardner, que enfrentou a falta de dinheiro e até de moradia enquanto criava seu filho sozinho, para desse lugar de desespero se tornar um empresário bem-sucedido. Ou, ‘’Uma Mente Brilhante”, onde Russell Crowe dá vida ao matemático John Nash, mostrando sua luta com a esquizofrenia e sua jornada para ganhar o Prêmio Nobel de Economia.

Há opostos também, homens e mulheres que tiveram grande valor em suas áreas de conhecimento mas que pagaram um alto preço ao colocarem em segundo plano a necessidade de lidar com seus traumas e situações pessoais danosas. Estrelas como Elvis Presley, Ernest Hemingway e Robin Williams são alguns exemplos como dinheiro, fama ou reconhecimento público não amenizam dores emocionais latentes.

Precisamos entender que não há como alguém ser feliz, satisfeito ou, verdadeiramente realizado se estiver quebrado por dentro. Sem restauração não há sustentação, pelo contrário.

A SEGUIR

Você acabou de receber mais dois capítulos do livro “NÓS, um breve resumo dos nós que nos unem”. No nosso próximo encontro, vamos entrar nos capítulos finais desta edição e entender melhor a influência dos nossos sentimentos de poder pessoal na nossa autopercepção e validação. Não perca!

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Nos vemos na próxima semana,

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