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LEIO episodes

  • Aquilo tudo que eu não enviei — Teaser

    O que é um áudio se não um texto não escrito?

    Eu gosto de gravar áudios para as pessoas e não enviar. Meio que um exercício livre de escrita de redatora. Se aqui eu leio textos que existem, por que não ler aqueles que não existem? Aquele pensamento em voz alta, botar pra fora, mesmo que o fora seja dentro do celular.

    Tudo Aquilo Que Não Enviei é sobre isso: falar aquilo tudo que eu decorei, digo, pensei na hora de gravar. Sem guia, sem roteiros, deixa o coração falar.

    1 min
  • "Ligia", de Antônio Carlos Jobim.

    Um erro, um poema, um desejo proibido.

    A grandeza do poeta. O amor é o que tudo dimensiona.

    Na canção de Tom Jobim, os olhos verdes da carioca Lygia Marina de Moraes são morenos. Um disfarce da identidade e da atração de Tom Jobim pela musa que, nos anos 1960, foi professora de ensino primário da filha mais velha do compositor.


    Nunca sonhei com você

    Nunca fui ao cinema
    Não gosto de samba
    Não vou a Ipanema
    Não gosto de chuva
    Nem gosto de sol

    Eu nunca te telefonei

    Para que se eu sabia
    Eu jamais tentei
    E jamais ousaria
    As bobagens de amor
    Que outro vai te dizer

    Sair com você de mãos dadas

    Na tarde serena
    Um chopp gelado
    Num bar de Ipanema
    Andar pela praia até o Leblon

    Eu nunca me apaixonei

    Eu jamais poderia
    Casar com você
    Fatalmente eu iria
    Sofrer tanta dor
    Pra no fim te perder

    1 min
  • "Daqui, eu não preciso de nada.", de László Krasznahorkai.

    Para ouvir na pressa.


    Eu deixaria aqui tudo, os vales, as colinas, as trilhas e as pegas do jardim, eu aqui deixaria o vinho e a fé, o céu e a terra, a primavera e o outono, aqui deixaria os caminhos que partem, as noites na cozinha, o derradeiro olhar de amor e todos os imperativos terríveis que conduzem às cidades, aqui deixaria o crepúsculo denso, que se assenta sobre a paisagem, o peso, a esperança, o encantamento e a serenidade, aqui deixaria o que é amado e o que é próximo, tudo que me emocionou, tudo que me abalou, que me fascinou e me ergueu, aqui deixaria o nobre, o bem-intencionado, o agradável, o diabolicamente belo, aqui deixaria os brotos fenecentes, todo nascimento e existência, aqui deixaria a magia, o mistério, a distância, o inextinguível e a narcose das verdades eternas: porque aqui deixaria essa Terra e essas estrelas, porque não levaria nada daqui comigo, porque espreitei o que virá, e daqui não preciso de nada.

    2 min
  • "A vida na hora", de Wislawa Szymborska.

    A vida na hora.

    Cena sem ensaio.
    Corpo sem medida.
    Cabeça sem reflexão.

    Não sei o papel que desempenho.

    Só sei que é meu, impermutável.

    De que trata a peça

    devo adivinhar já em cena.

    Despreparada para a honra de viver,

    mal posso manter o ritmo que a peça impõe.
    Improviso embora merepugne a improvisação.
    Tropeço a cada passo no desconhecimento das coisas.
    Meu jeito de ser cheira a província.
    Meus instintos são amadorismo.
    O pavor do palco, me explicando, é tanto mais humilhante.
    As circunstâncias atenuantes me parecem cruéis.

    Não dá para retirar as palavras e os reflexos,

    inacabada a contagem das estrelas,
    o caráter como o casaco às pressas abotoado
    eis os efeitos deploráveis desta urgência.

    Se eu pudesse ao menos praticar uma quarta-feira antes

    ou ao menos repetir uma quinta-feira outra vez!
    Mas já se avizinfia a sexta com um roteiro que não
    conheço.
    Isso é justo — pergunto
    (com a voz rouca
    porque nem sequer me foi dado pigarrear nos bastidores).

    É ilusório pensar que esta é só uma prova rápida

    feita em acomodações provisórias. Não.
    De pé em meio à cena vejo como é sólida.
    Me impressiona a precisão de cada acessório.
    Opalco giratório já opera há muito tempo.
    Acenderam-se até as mais longínquas nebulosas.
    Ah, não tenho dúvida de que é uma estreia.
    E o que quer que eu faça,
    vai se transformar para sempre naquilo que fiz.


    ***

    Olá, 2022.

    2 min
  • "Agora sou uma estrela", de Fernando Faro.

    Poema de Fernando Faro no encarte do álbum O Trem Azul, de Elis Regina. 

    Agora, o braço não é mais o braço erguido num grito de gol.

    Agora, o braço é uma linha, um traço, um rastro espelhado e brilhante.
    E todas as figuras são assim: desenhos de luz, agrupamentos de pontos,
    de partículas, um quadro de impulsos, um processamento de sinais.
    E assim — dizem — recontam a vida.

    Agora, retiram de mim a cobertura da carne, escorrem todo o sangue,
    afinam os ossos em fios luminosos,
    e aí estou, pelo salão, pelas casas, pelas cidades, parecida comigo.
    Um rascunho. Uma forma nebulosa, feita de luz e sombra.
    Como uma estrela.
    Agora, eu sou uma estrela.

    2 min
  • "Tudo o que leva consigo um nome", de Francisco Mallmann.

    I

    trago-lhe boas notícias

    finalmente será demolida

    a parede e instalarão

    para mim uma janela

    nem posso acreditar

    depois do tanto

    que insisti

    agora verei a ponte

    agora verei o caminho

    que fizeste ao fugir

    fernando a vida é terrível

    mas disseram-me que

    às vezes se descansa eu

    daqui mal posso esperar

    II

    fernando chegou até mim a informação

    de que você está decepcionado com minha

    excursão pela poesia pois segundo consta

    você considera meus materiais muito ruins

    e segundo consta pela manuela você disse

    que eu destinaria pouco ou nada ao mistério

    e que segundo consta por quem não digo

    você considera minha poesia imprestável pois

    fernando me poupe foi você quem não soube

    me reconhecer quando eu era o puro mistério

    inteira misteriosa foi tu sim foi você não me

    venha com esses arrependimentos serei

    poeta acostume-se

    III

    não te esquece hora alguma

    fernando que estamos

    em terra invadida

    pisas em ossos e sangue

    de gente minha fernando

    não te esquece hora

    alguma que foram os

    teus quem te trouxeram

    aqui eu nada tenho a

    ver com isso só estou

    fernando pegando o

    que é meu e o desejo

    de te ver morto

    fernando é só

    o início de uma

    nova ordem

    da visão

    IV

    era então isso o que querias

    me dizer ao ouvido fernando

    a cantiga de morrer como um homem

    viver como um homem querer amá-lo

    num mesmo gesto desejar e desconfiar

    de tudo o que leva consigo um nome

    sei que me enxergas fernando

    no entanto sei que não me vês

    V

    esse é um exercício de morte

    e vida esse é um exercício de

    nascimento dentro e fora

    do encerramento um

    exercício de furar o tempo

    esse é um exercício

    de imaginar-me sem o

    desgaste de ter que

    me explicar porque eu

    fernando na verdade

    como já sabes sou essa

    crueza tanto de perto

    como de longe

    VI

    não serei bonita

    há tantas coisas por fazer

    3 min
  • "O império da burrice", de Domingos de Oliveira.
    Em todo grupo, comunidade, ou agrupamento, patota a maioria é burra. (exceção feita aos espectadores deste texto, todos inteligentes).
    Urgente afirmar que não vai aqui nenhum julgamento moral. Os inteligentes não são melhores que os burros. Nem merecem mais. Os BURROS também são merecedores de paixão. Todo homem é esplêndido, BURROS ou inteligente, todo ele contêm o universo. Umas das primeiras obrigações da inteligência é, exatamente, reconhecer este fato simples. Excusado igualmente observar que a inteligência nada tem a ver com a cultura ou o nível de informação de cada um. Pelo contrário, entre homens cultos de modo geral é encontrado um índice de burrice estonteante. Em contrapartida verifica-se que a ignorância e a pobreza tem constituído campo fértil para o aparecimento das grandes almas. A propósito, alma é sinônimo de inteligência.
    Difícil conceituar a inteligência, porém fácil reconhecer-lhe atributos a primeira delas é, sem dúvida, a humildade. Humildade é sinônimo de inteligência. O homem sábio sabe que não sabe. Ao passo que o BURRO é arrogante. Considera-se possuidor de algum saber e, conseqüentemente, superior aos outros BURROS que sabem menos. Atenção: o BURRO compete, julga, condena e, muitas vezes, mata. No entanto com a inteligência acontece justo o contrato. A despeito de si mesmo, ela ama. Mozart disse que para ser um gênio não basta talento. Nem inteligência. É preciso também um grande amor. A propósito, amor é também, sinônimo de inteligência. Quem é inteligente sabe que é. Já o BURRO desconhece sua burrice. Isto seria um drama, se não fosse uma tragédia. Posto que o BURRO, no fundo do seu ignorado esplendor, sente que lhe falta algo, algo que o inteligente possui. Neste momento advém, soberana, a inveja. A inveja dos burros. Como se não bastasse ser diferente, o BURRO passa a odiar o inteligente. No entanto com a inteligência acontece justo o contrário. Ela sempre se reconhece! O homem inteligente não inveja e sim compraz-se, exulta quando vê brilhar uma inteligência igual ou maior que a dele. Os inteligentes, além de terem entre si grande amor e admiração, plageiam-se constantemente, sem o menor pudor. Não tentam ser originais. Sabem que são... Um só. Um só acidente da natureza. Ou terá sido seu recurso de emergência? Do qual a natureza lançou mão para cuidar da sobrevivência da espécie, antes que os burros a destruam?
    Concluindo: a imprensa é burra, a tv é burra, o esporte é BURRO, a política é burra. Quase tudo que é considerado importante na sociedade atual não apenas é desimportante - como também é BURRO. Trata-se do império da burrice, como outrora foi o império romano.
    4 min
  • "Io che amo solo te", de Sergio Endrigo.

    C'è gente che ha avuto mille cose

    Tutto il bene, tutto il male del mondo


    Io ho avuto solo te

    E non ti perderò, non ti lascerò

    Per cercare nuove avventure


    C'è gente che ama mille cose

    E si perde per le strade del mondo


    Io che amo solo te

    Io mi fermerò e ti regalerò

    Quel che resta della mia gioventù


    Io ho avuto solo te

    E non ti perderò, non ti lascerò

    Per cercare nuove illusioni


    C'è gente che ama mille cose

    E si perde per le strade del mondo


    Io che amo solo te

    Io mi fermerò e ti regalerò

    Quel che resta della mia gioventù

    2 min

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