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Poesia em menos de 30 segundos.
Literatura para seus ouvidos.
1/10
O que é um áudio se não um texto não escrito?
Eu gosto de gravar áudios para as pessoas e não enviar. Meio que um exercício livre de escrita de redatora. Se aqui eu leio textos que existem, por que não ler aqueles que não existem? Aquele pensamento em voz alta, botar pra fora, mesmo que o fora seja dentro do celular.
Tudo Aquilo Que Não Enviei é sobre isso: falar aquilo tudo que eu decorei, digo, pensei na hora de gravar. Sem guia, sem roteiros, deixa o coração falar.
Um erro, um poema, um desejo proibido.
Na canção de Tom Jobim, os olhos verdes da carioca Lygia Marina de Moraes são morenos. Um disfarce da identidade e da atração de Tom Jobim pela musa que, nos anos 1960, foi professora de ensino primário da filha mais velha do compositor.
Nunca sonhei com você
Eu nunca te telefonei
Sair com você de mãos dadas
Eu nunca me apaixonei
Para ouvir na pressa.
Eu deixaria aqui tudo, os vales, as colinas, as trilhas e as pegas do jardim, eu aqui deixaria o vinho e a fé, o céu e a terra, a primavera e o outono, aqui deixaria os caminhos que partem, as noites na cozinha, o derradeiro olhar de amor e todos os imperativos terríveis que conduzem às cidades, aqui deixaria o crepúsculo denso, que se assenta sobre a paisagem, o peso, a esperança, o encantamento e a serenidade, aqui deixaria o que é amado e o que é próximo, tudo que me emocionou, tudo que me abalou, que me fascinou e me ergueu, aqui deixaria o nobre, o bem-intencionado, o agradável, o diabolicamente belo, aqui deixaria os brotos fenecentes, todo nascimento e existência, aqui deixaria a magia, o mistério, a distância, o inextinguível e a narcose das verdades eternas: porque aqui deixaria essa Terra e essas estrelas, porque não levaria nada daqui comigo, porque espreitei o que virá, e daqui não preciso de nada.
A vida na hora.
Não sei o papel que desempenho.
De que trata a peça
Despreparada para a honra de viver,
Não dá para retirar as palavras e os reflexos,
Se eu pudesse ao menos praticar uma quarta-feira antes
É ilusório pensar que esta é só uma prova rápida
***
Olá, 2022.
Poema de Fernando Faro no encarte do álbum O Trem Azul, de Elis Regina.
Agora, o braço não é mais o braço erguido num grito de gol.
I
trago-lhe boas notícias
finalmente será demolida
a parede e instalarão
para mim uma janela
nem posso acreditar
depois do tanto
que insisti
agora verei a ponte
agora verei o caminho
que fizeste ao fugir
fernando a vida é terrível
mas disseram-me que
às vezes se descansa eu
daqui mal posso esperar
II
fernando chegou até mim a informação
de que você está decepcionado com minha
excursão pela poesia pois segundo consta
você considera meus materiais muito ruins
e segundo consta pela manuela você disse
que eu destinaria pouco ou nada ao mistério
e que segundo consta por quem não digo
você considera minha poesia imprestável pois
fernando me poupe foi você quem não soube
me reconhecer quando eu era o puro mistério
inteira misteriosa foi tu sim foi você não me
venha com esses arrependimentos serei
poeta acostume-se
III
não te esquece hora alguma
fernando que estamos
em terra invadida
pisas em ossos e sangue
de gente minha fernando
não te esquece hora
alguma que foram os
teus quem te trouxeram
aqui eu nada tenho a
ver com isso só estou
fernando pegando o
que é meu e o desejo
de te ver morto
fernando é só
o início de uma
nova ordem
da visão
IV
era então isso o que querias
me dizer ao ouvido fernando
a cantiga de morrer como um homem
viver como um homem querer amá-lo
num mesmo gesto desejar e desconfiar
de tudo o que leva consigo um nome
sei que me enxergas fernando
no entanto sei que não me vês
V
esse é um exercício de morte
e vida esse é um exercício de
nascimento dentro e fora
do encerramento um
exercício de furar o tempo
esse é um exercício
de imaginar-me sem o
desgaste de ter que
me explicar porque eu
fernando na verdade
como já sabes sou essa
crueza tanto de perto
como de longe
VI
não serei bonita
há tantas coisas por fazer
C'è gente che ha avuto mille cose
Tutto il bene, tutto il male del mondo
Io ho avuto solo te
E non ti perderò, non ti lascerò
Per cercare nuove avventure
C'è gente che ama mille cose
E si perde per le strade del mondo
Io che amo solo te
Io mi fermerò e ti regalerò
Quel che resta della mia gioventù
Io ho avuto solo te
E non ti perderò, non ti lascerò
Per cercare nuove illusioni
C'è gente che ama mille cose
E si perde per le strade del mondo
Io che amo solo te
Io mi fermerò e ti regalerò
Quel che resta della mia gioventù
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