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No discurso da vitória das eleições presidenciais de 2026, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, reeleito com 51,79% dos votos neste domingo (25), disse que aprendeu "muitas lições" e vai ‘mudar o jeito de governar’ no seu quarto mandato. O petista salientou que será o presidente de 215 milhões de brasileiros. Seu adversário, Flávio Bolsonaro, não reconheceu o resultado da eleição.
Lúcia Müzell, enviada especial da RFI a São Paulo
"Eu não vou falar a palavra unidade nacional porque essa palavra nem sempre cabe nesse país, mas eu quero que vocês saibam: se depender de mim, esse país só tem que ser civilizado. Esse país tem uma Constituição”, afirmou Lula, ao celebrar a reeleição, depois de uma virada histórica nas urnas.
Contrariando todas as pesquisas de intenções de voto, ele reverteu os resultados negativos do segundo turno, vencendo com uma vantagem de 4,3 milhões de votos em relação a Flávio Bolsonaro. No primeiro turno, o candidato bolsonarista teve 2,1 milhões a mais.
Foi a primeira vez na história da democracia brasileira que um candidato perdedor da primeira votação promove uma virada desta amplitude. Em um hotel em São Paulo, ele agradeceu à participação massiva dos eleitores no pleito, dos jovens aos idosos, e à mobilização nas ruas e na internet.
“Eu nunca ganhei eleição no meu primeiro turno, mas nunca perdi nenhuma no segundo turno”, brincou o presidente, ao lado de caciques do PT e aliados.
Flávio diz ser ‘impossível’ reconhecer derrotaFlávio Bolsonaro acompanhou a apuração em Brasília, onde sua campanha havia preparado uma festa da vitória. Após a divulgação dos números finais da votação, ele disse que “é impossível” atestar a lisura do pleito, alegando que a decisão do ministro do STF Cristiano Zanin de determinar a prorrogação do horário de votação por duas horas, devido a transtornos nos transportes de eleitores, significava “mudar as regras” do pleito.
"Nós vamos usar o nosso jurídico, vamos pedir a anulação dessas eleições. Não vou aceitar que a regra do jogo tenha sido mudada em cima do jogo, mais uma vez, pelos amigos do Lula no Supremo Tribunal Federal”, disse o candidato derrotado.
O presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, que durante a campanha foi acusado de favorecer Flávio, garantiu ter “absoluta segurança” de todo o processo eleitoral e parabenizou Lula pela "expressiva vitória nas urnas”. Ele sublinhou que a extensão da votação até às 19h não interferiu no resultado final do pleito.
Lula diz estar pronto para lidar com Congresso mais conservadorEm São Paulo, Lula salientou que “ninguém é obrigado a gostar do presidente eleito, mas ele foi eleito para governar para todos, com base no respeito à Constituição". "Já tem gente falando: 'o Lula vai ter muita dificuldade para governar porque o Congresso está mais conservador'. Eu não escolhi o Congresso, foi o povo que escolheu, e é com ele que eu vou votar, vou trabalhar e vou aprovar as coisas”, apontou o presidente.
A partir de janeiro, o petista vai encontrar um Congresso ainda mais hostil do que no atual mandato: o PL conquistou a maior bancada da Câmara e do Senado, com 121 deputados e 21 senadores.
"Essa eleição foi uma derrota do negacionismo, foi uma derrota da mentira”, destacou o petista. "Eu nunca pensei em me deparar com um representante genuíno do milicianismo”, reiterou, em referência ao candidato do PL.
Regulação de plataformas digitais e acenos à direitaEm seu discurso, o petista sinalizou que haverá mudanças na comunicação digital do governo e ressaltou o papel das plataformas durante o pleito. Ele prometeu regular a atuação das redes sociais.
"A gente teve que vencer a intromissão vinda de fora para dentro, através de plataformas digitais”, frisou. “Nós não podemos ter empresas monstruosas de grandes, ganhando bilhões e bilhões, não pagando nenhum imposto para esse país e tentando direcionar o resultado eleitoral desse país.”
No pronunciamento e na comemoração da vitória na sequência, na Avenida Paulista lotada, Lula deu destaque ao papel do vice-presidente, Geraldo Alckmin, que, segundo ele, “salvou a democracia duas vezes”. Depois, mencionou as "muitas lições que aprendeu na campanha".
"Eu posso garantir para vocês que nós vamos mudar o jeito de governar esse país”, indicou.
O presidente também agradeceu a novos nomes da nova geração do partido: o deputado federal mineiro André Janones, que liderou a iniciativa nas redes Exército de Lula, e o governador eleito do Piauí, Rafael Fonteles. Fez, ainda, um aceno para o eleitorado da direita, ao prometer políticas de segurança pública.
"Nós vamos devolver às mulheres, aos homens, aos trabalhadores, a tranquilidade e a paz que eles precisam. Para o povo trabalhador, a gente vai dar proteção. Para o bandido, a gente vai dar prisão”, disse.
Depois de participar da festa da vitória na Avenida Paulista, onde voltou a discursar e cantou o hino da Independência e o hino nacional junto com a multidão, Lula anunciou que voltaria a Brasília durante a madrugada.
A campanha eleitoral chega à reta final afunilada, com empate numérico entre Flávio Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva, deixando eleitores com emoção à flor da pele num resultado em que a única certeza é que será apertado.
Raquel Miura, correspondente da RFI em Brasília
A apuração dos votos no Brasil terá clima de apreensão, como uma final de Copa do Mundo em que os dois times têm chances iguais de vitória e torcedores apaixonados, mas apresentam projetos de país diferentes.
Apoiadores de Lula, que passaram as últimas semanas apreensivos, mostram-se um pouco mais esperançosos e tentam explorar temas que repercutem desde o primeiro debate entre Lula e Flávio Bolsonaro.
“O presidente Lula foi acusado das piores coisas. E hoje acabou de ser entregue, está à disposição da Justiça eleitoral e de todo o público, o sigilo do cartão corporativo do presidente, das visitas ao Palácio do Alvorada, as entradas no Palácio do Planalto, os voos da FAB, as contas pessoais do presidente, a autorização de quebra de sigilo de todos os parentes, filhos do presidente, netos, da esposa e primeira-dama. Está tudo aqui”, afirmou o secretário-geral da presidência, Guilherme Boulos.
Flávio Bolsonaro que no começou não consentiu, depois sentiu o peso, fez ponderações e entregou à justiça eleitoral procuração que permite as quebras de seus sigilos fiscal, bancário e telefônico.
“Nós queremos saber o sigilo da compra da mansão de R$ 10 milhões do Flávio no acordo do BRB aqui em Brasília. Queremos saber o que tem na conta conjunta dele no banco Santander com o bandido Willer Tomaz na Iha da Madeira. Queremos saber todos os ganhos e entradas de Flávio nesse período”, instigou Boulos.
A campanha do PL tem se mostrado um tanto perdida desde as críticas que o candidato recebeu no debate da Band, a ponto de o empresário Fábio Marçal, que até há alguns dias era parte importante da campanha de Flávio, sugerir a influenciadores ligados à direita que não critiquem Lula.
“Falar mal de um cara que passou a vida tirando pessoas da miséria, ajudando pessoas a se formarem numa universidade? Não precisa falar mal dele. Mas a gente precisa admitir. Lula é como uma laranja. A laranja depois que dá todo o suco, vira um bagaço.”
Para o cientista político Cláudio Couto (FGV-SP), muita coisa está em jogo, inclusive pela composição do Congresso Nacional.
“Se Flávio Bolsonaro ganhar, ele vai ter uma facilidade significativa de compor uma maioria ali. O Lula, por sua vez, se ganhar terá mais dificuldade. O que, por outro lado, dá uma importância maior a uma eventual vitória dele no que se refere a freios e contrapesos, algo importante para o funcionamento da democracia.”
Concentração de poder“Um presidente com um perfil populista como Flávio Bolsonaro, com maioria na Câmara, maioria no Senado, um bom número de governadores e ainda com chance de obter uma maioria na composição do Supremo Tribunal Federal, pode gerar muita concentração de poder e tendo em vista o caráter autoritário do bolsonarismo, a meu ver isso representa um perigo para a democracia brasileira”, destaca Couto.
Um conjunto de fatores acendeu o sinal amarelo na campanha de Flávio Bolsonaro às vésperas do segundo turno.
Uma das fontes de preocupação são as apurações da Polícia Federal que apontam proximidade e possíveis negócios entre Flávio e o empresário Willer Tomaz, que além das suspeitas no caso do INSS, movimentou R$ 5 bilhões em Bets. Até uma sala secreta para armazenar dinheiro, atribuída a Willer, foi descoberta no aeroporto de Brasília. Ele e Flávio são alvo de inquérito por lavagem de dinheiro.
Outro destaque foi o engajamento de eleitores de Lula após o primeiro turno com atuações orquestradas nas redes sociais. Em transmissão ao vivo na internet, com participação de artistas, Lula pediu gás na reta final.
“Nós temos uma grande batalha para fazer. E nosso exército é movido por uma causa. A causa chama-se Brasil, chama-se democracia, chama-se a luta contra o feminicídio, a luta pelo fim da jornada 6x1, a luta para garantir às mulheres que sejam tratadas com respeito nesse país.”
Já para recalcular a rota da campanha, Flávio cancelou uma transmissão ao vivo que também faria nessa quinta-feira. Um dia antes, em vídeo ao lado do cantor Gustavo Lima, o candidato prometeu manter programas sociais.
“Eu estou aqui de coração aberto para colocar minha vida dedicada a quem precisa, ajudar as pessoas que precisam, consertar esse país de verdade. Está garantido o Bolsa Família, está garantido a aposentadoria, estão garantidos servidores.”
Flávio e Lula se encontram na noite desta sexta-feira no debate da TV Globo.
No início desta semana, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou que apoiará o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, durante as eleições gerais do país no próximo dia 27.
Henry Galsky, correspondente da RFI em Israel
Apesar disso, do ponto de vista das pesquisas eleitorais, o cenário não mudou. O eleitorado segue dividido e nenhum dos blocos, nem o de Netanyahu e dos partidos que formam seu atual governo, nem o bloco de oposição consegue atingir o número mágico. Ou seja, os pelo menos 61 mandatos necessários para formar uma coalizão majoritária mínima no Knesset, o parlamento.
Mas houve reações. Gadi Eisenkot, líder do partido de centro-direita Yashar e que está em primeiro lugar na maioria das pesquisas, respondeu algumas horas depois ao anúncio de Trump durante entrevista ao vivo no telejornal mais assistido do país.
O ex-general e ex-chefe do Exército declarou que respeita o presidente norte-americano, mas afirmou que tem capacidade para substituir Netanyahu que, segundo ele, “lidera o pior governo da história de Israel”.
A imagem de Donald Trump em IsraelO apoio a Trump já foi maior em Israel. Pesquisa do Índice de Democracia de Israel (IDI) divulgada em junho mostrava que 44% dos israelenses diziam acreditar que a segurança do país era uma preocupação central do presidente dos Estados Unidos. Mas este percentual já foi de 60% em março deste ano.
Há uma diferença de percepção entre as populações árabe e judaica de Israel. Entre os árabes-israelenses, houve crescimento diante da mesma pergunta: eram 43% em março, mas 59% em junho.
Já entre os judeus israelenses houve a queda que acabou por influenciar no resultado final da pesquisa: 41% disseram acreditar, durante o levantamento de junho, que a segurança do país era um tema central para Trump; mas em março, este dado chegou a 64%.
Em maio deste ano, em conversa com jornalistas nos Estados Unidos, Donald Trump chegou a brincar ao dizer que tinha “99% de aprovação em Israel” e que poderia se candidatar ao cargo de primeiro-ministro.
Uma pesquisa do Pew Research Center divulgada em junho mostrou que 81% dos israelenses têm opinião favorável sobre os Estados Unidos, o índice mais alto entre os 36 países onde a pesquisa foi realizada.
A campanha a quatro dias das eleiçõesUm elemento que tem influenciado a campanha é a possibilidade de uma nova guerra com o Irã.
Segundo informação obtida pela RFI com fontes de segurança, os israelenses não acreditam que Estados Unidos e Irã vão chegar a um acordo. Na avaliação técnica dessas fontes – que não são políticos –, um novo confronto com o regime iraniano é apenas uma questão de tempo.
Mas também há o uso político deste tema. Especialmente por parte do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, que declarou que o Irã voltou a desenvolver armamento nuclear. Em discurso durante cerimônia de graduação de oficiais do exército, Netanyahu acusou o líder supremo iraniano, Mojtaba Khamenei, de retomar as ambições nucleares do país.
“Só há uma forma de eliminar esta ameaça de uma vez por todas: derrubar o regime iraniano. Esta é a minha diretriz para as Forças de Defesa de Israel, o Mossad (o serviço de inteligência), e as agências de segurança”, declarou em discurso.
O que pode ocorrer em caso de guerra?Nunca houve o cancelamento de eleições em Israel, mas o adiamento ocorreu uma única vez, em 1973, devido à Guerra do Yom Kippur, quando uma coalizão de países árabes liderada por Síria e Egito invadiu Israel durante o dia do perdão, uma das datas mais solenes do calendário judaico.
As eleições estavam marcadas para acontecer em 30 de outubro, mas por causa da guerra foram realizadas em dezembro do mesmo ano.
Em entrevista ao Canal 12 israelense, o ex-primeiro-ministro Ehud Barak acusou Netanyahu de “se preparar para entrar em guerra de forma a adiar as eleições”.
No entanto, nos bastidores, o próprio Likud, partido liderado por Netanyahu, teme que um novo confronto antes das eleições possa ter efeito exatamente oposto no público israelense.
Segundo uma fonte de alto escalão do partido revelou ao Jerusalem Post, uma guerra contra o Irã e a possibilidade de haver prédios destruídos, ataques com mísseis, feridos e mortos em Israel “poderia dar a vitória (eleitoral) a Eisenkot e seus aliados”.
O chefe do Estado-Maior do Exército de Israel, Eyal Zamir, também manifestou preocupação com a realização das eleições no caso de um novo confronto.
Segundo a imprensa israelense, Zamir têm repetido em reuniões que uma nova guerra poderá levar ao adiamento do processo eleitoral. Em declarações públicas, tem deixado claro que neste período “a missão primária do exército é garantir que as eleições democráticas ocorram de forma segura e no cronograma estabelecido”.
O governo italiano aprovou um decreto com novas medidas de segurança dois dias após protestos estudantis se tornarem violentos em Milão, com saques a lojas e depredação de espaços públicos. O pacote inclui medidas voltadas a menores de idade, que representam a maioria dos detidos nos atos, segundo as autoridades.
Júlia Valente, correspondente da RFI em Milão
O novo pacote foi anunciado na noite de terça-feira (20), após uma reunião do Conselho de Ministros. Uma das principais medidas é a criação do crime de participação violenta em manifestações. Quem participar de um grupo de cinco ou mais pessoas e, por exemplo, lançar pedras ou bombas, poderá pegar até cinco anos de prisão e pagar multa de até 20 mil euros. A pena aumenta se a pessoa estiver com o rosto coberto ou se alguém for ferido.
O decreto também prevê que pais ou responsáveis paguem pelos danos causados por menores, tanto a bens públicos quanto privados. Outra mudança afeta a responsabilização penal de jovens de 14 a 18 anos. Agora, presume-se que pessoas dessa faixa etária são capazes de entender seus atos, a menos que provem o contrário. A maioridade penal na Itália continua aos 18 anos, mas, por lei, a partir dos 14, o adolescente já pode responder na Justiça juvenil.
A detenção preventiva, que antes valia apenas para adultos, agora também poderá ser aplicada por até 24 horas a menores considerados um risco. Além disso, o governo decidiu enviar 500 militares a mais para Milão, que permanecerão até o fim do ano.
Manifestações vêm sendo realizadas em várias cidades italianas, como Turim, Bolonha e Roma. Milão, porém, concentrou os episódios de violência mais graves, com saques e danos a lojas e ao espaço público, no último fim de semana. Segundo a Confederação do Comércio (Confcommercio), os prejuízos devem chegar a 1 milhão de euros.
Ao anunciar o decreto, a primeira-ministra Giorgia Meloni afirmou que a violência vista em Milão é injustificável: “Não há nada de revolucionário em destruir e roubar. Destruir e roubar não é protesto: é crime. E a resposta do Estado precisa ser firme”, afirmou. A premiê disse ainda que entende a dificuldade dos jovens e trabalha para enfrentar estes problemas. “O sofrimento social nunca pode servir de desculpa para a violência. Em primeiro lugar, porque a violência aumenta esse sofrimento, não o resolve”, completou.
Segundo Meloni, 330 pessoas foram detidas no país entre sábado e domingo. Ela, que lidera um governo de extrema direita com uma agenda anti-imigração, ainda fez questão de destacar que metade dos detidos é de origem estrangeira. De acordo com dados da polícia de Milão, dos 271 jovens levados à delegacia, 220 são menores de idade.
As pautas dos protestosOs atos na Itália começaram, de certa forma, inspirados pelas manifestações estudantis na França, mas também têm pautas próprias. Na sexta-feira (16), estudantes protestaram por mais recursos e melhores condições nas escolas. Também se manifestaram contra a decisão do governo, no mês passado, de limitar o número de estudantes estrangeiros em cada sala de aula.
Já o ato de sábado (17), em Milão, foi convocado, principalmente, com foco no alto custo de vida e para expressar a preocupação dos jovens com o futuro. A Itália está entre os países europeus com os salários mais estagnados. Segundo a OCDE, nos últimos 30 anos, os salários médios no país subiram apenas 2,3%, já descontada a inflação. Nesse contexto, aumenta a fuga de jovens, que buscam emprego em países vizinhos, com condições mais atrativas.
Além dessas reivindicações, o governo Meloni também sofre pressão de outros setores. No sul do país, caminhoneiros bloqueiam estradas em protestos contra o alto custo dos combustíveis. Os bloqueios têm prejudicado o abastecimento de supermercados.
Movimento estudantil marca novo protesto para sábadoDepois dos últimos protestos, surgiu nas redes sociais um grupo que se apresenta como “Movimento 17 de Outubro” e que anunciou mobilizações todos os sábados, em oito cidades italianas, até a queda do governo. Nas postagens online, o movimento diz não confiar nas instituições nem no governo e critica a repressão.
Em Milão, as autoridades locais se reúnem nesta quarta-feira (21) para coordenar as ações em atos futuros, em especial para o próximo sábado (24). O prefeito Giuseppe Sala, de centro-esquerda, afirmou que é preciso entender a origem do descontentamento dos jovens. Hoje, ele participa de um protesto convocado por uma central sindical com o lema “Milão não quer violência”.
A duas semanas das eleições legislativas nos Estados Unidos, governo de Donald Trump intensifica ações judiciais contra estados e suspeitas de fraude eleitoral. Especialista ouvido pela RFI afirma que autoridades locais estão preparadas para garantir a votação.
Luciana Rosa, correspondente da RFI em Nova York
A menos de duas semanas das eleições legislativas de 3 de novembro nos Estados Unidos, autoridades eleitorais enfrentam uma nova onda de ameaças, enquanto o governo do presidente Donald Trump intensifica ações judiciais para questionar registros de eleitores e impedir a contagem de determinados votos. Apesar das tensões e das especulações sobre uma possível intervenção federal, o especialista em eleições David Becker afirma estar confiante de que a votação ocorrerá normalmente e que os candidatos eleitos tomarão posse.
Em entrevista à RFI, Becker, diretor-executivo e fundador do Center for Election Innovation & Research (CEIR), organização apartidária dedicada à integridade eleitoral, disse que as autoridades estaduais e locais estão preparadas para enfrentar eventuais tentativas de interferência da Casa Branca.
"Estou absolutamente confiante de que, independentemente de quem vença essas disputas, os eleitos tomarão posse graças ao trabalho das autoridades eleitorais estaduais e locais, republicanos e democratas de todo o país", afirmou.
A avaliação contrasta com o aumento das preocupações sobre as medidas que Trump poderia adotar antes, durante ou depois da votação. Entre os cenários levantados por aliados do presidente e discutidos publicamente estão a declaração de uma emergência nacional, a mobilização de forças federais e até a imposição de lei marcial.
Becker reconhece que não é possível prever todas as iniciativas da administração Trump, mas considera improvável que eventuais tentativas de intervenção consigam impedir a realização das eleições.
"Em nossos 250 anos de história, nunca adiamos ou cancelamos uma eleição federal. Nem durante a Guerra Civil, nem durante duas guerras mundiais, nem durante duas pandemias globais", destacou.
Outro obstáculo seria o próprio calendário constitucional. Os mandatos dos integrantes da Câmara dos Representantes terminam em 3 de janeiro, e não existe previsão de prorrogação automática caso as eleições não sejam realizadas.
"Se deixarmos todo esse barulho de lado e observarmos como o processo de votação está acontecendo, veremos que tudo está transcorrendo de maneira incrivelmente tranquila", disse Becker.
Governo federal e estados travam disputas sobre regras eleitoraisA administração Trump tem buscado ampliar sua atuação sobre o processo eleitoral, cuja organização é atribuída principalmente aos estados pela Constituição americana.
Segundo Becker, nos últimos 21 meses, o governo tentou impor mudanças nas regras eleitorais por meio de duas ordens executivas, apresentou ações judiciais para obter dados de eleitores de dezenas de estados e promoveu investigações sobre eleições anteriores. Diversas iniciativas foram bloqueadas pela Justiça, incluindo decisões de magistrados nomeados pelo próprio Trump.
Para Becker, a relação entre Washington e as autoridades eleitorais estaduais atravessa uma situação sem precedentes recentes. Historicamente, segundo ele, governos federais de ambos os partidos atuaram em cooperação com os estados na organização das eleições. A atual administração, em sua avaliação, tem adotado uma postura de confronto.
O especialista considera que as tentativas de intervenção podem continuar, mesmo diante das derrotas judiciais. Uma das principais preocupações é a possibilidade de Trump voltar a fazer acusações infundadas sobre a integridade do processo eleitoral durante a apuração dos votos.
"Acho que uma coisa podemos afirmar com quase toda a certeza: na noite de 3 de novembro, muito provavelmente ouviremos o presidente dos Estados Unidos, da Casa Branca, espalhando mentiras e desinformação sobre nossas eleições, ameaçando autoridades eleitorais e difamando o trabalho delas", afirmou.
Presença de agentes do ICE nas urnas é considerada improvávelOutra preocupação envolve a possibilidade de mobilização de agentes do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE) ou de militares nos locais de votação.
Becker descarta uma operação federal generalizada desse tipo. Ele cita a seção 592 do Título 18 do Código dos Estados Unidos, que estabelece sanções para determinadas formas de interferência militar em eleições, incluindo penas de até cinco anos de prisão.
"O ICE e as tropas não estarão nos locais de votação. Isso não vai acontecer. Se acontecer em algum lugar, será um caso isolado, acidental", afirmou.
A legislação mencionada pelo especialista trata especificamente do uso de tropas ou homens armados em locais eleitorais. Ela não constitui, por si só, uma proibição geral de toda atividade do ICE nas proximidades das urnas.
Segundo Becker, autoridades eleitorais de diferentes estados já discutem respostas jurídicas para eventuais tentativas de intimidação ou interferência. "Qualquer tribunal do país bloquearia isso imediatamente, e poderia haver uma enorme reação política", disse.
Cartas com pó branco e ameaças são investigadas pelo FBIAs preocupações com a segurança das eleições aumentaram depois que autoridades eleitorais de diferentes estados começaram a receber correspondências suspeitas, algumas contendo ameaças e um pó branco. Uma investigação publicada em 15 de outubro pelo Votebeat, organização jornalística independente especializada em eleições, revelou que mais de 100 cartas suspeitas teriam sido enviadas a autoridades e instituições em diferentes partes do país.
O FBI e o Serviço de Inspeção Postal dos Estados Unidos investigam os episódios. Parte das correspondências foi interceptada antes de chegar aos destinatários, e testes realizados em alguns dos materiais não identificaram substâncias perigosas.
Becker afirmou à RFI que conversou com funcionários eleitorais que receberam as cartas e teve acesso a algumas das mensagens. Segundo ele, o conteúdo reproduz argumentos associados a teorias conspiratórias sobre eleições e busca intimidar os responsáveis pela votação.
"Já vimos isso antes. Vimos outros covardes, teóricos da conspiração e indivíduos que tentam prejudicar nosso processo eleitoral ameaçarem e intimidarem autoridades eleitorais. E todos eles, republicanos e democratas, continuam firmes, fazendo seu trabalho", afirmou.
O especialista considera que os episódios fazem parte de um ambiente de crescente hostilidade contra funcionários públicos envolvidos na administração das eleições, mas ressalta que os profissionais continuam desempenhando suas funções.
Governo Trump intensifica campanha contra voto de não cidadãosParalelamente às preocupações com a segurança eleitoral, o governo Trump intensificou uma campanha para identificar pessoas sem cidadania americana que possam ter se registrado ou votado ilegalmente.
A legislação federal já proíbe que não cidadãos participem das eleições para presidente e Congresso. O governo, porém, argumenta que são necessárias medidas adicionais para impedir fraudes.
Uma das principais propostas defendidas pela Casa Branca é o SAVE America Act, que estabelece novas exigências para comprovação de cidadania no registro eleitoral e identificação com foto na votação. Os republicanos apresentam a iniciativa como uma medida para reforçar a segurança das eleições. Os democratas e organizações de defesa do direito ao voto argumentam que as novas exigências poderiam dificultar a participação de cidadãos americanos que não dispõem imediatamente dos documentos necessários.
Becker questiona a dimensão do problema apontado pelo governo federal."Se observarmos o que o Departamento de Justiça revelou nas últimas semanas, enquanto tenta ampliar as alegações de que não cidadãos estão se registrando ou votando, veremos que, entre literalmente centenas de milhões de votos depositados nas últimas eleições federais, foram identificadas apenas algumas dezenas de pessoas acusadas e presas - não condenadas - por votar sem ter cidadania americana", afirmou.
O Departamento de Justiça anunciou nesta segunda-feira (19) acusações contra 28 residentes permanentes na Califórnia por supostas irregularidades relacionadas ao registro eleitoral e à votação. Segundo as autoridades federais, 21 deles teriam depositado votos ilegalmente. As acusações ainda precisam ser examinadas pela Justiça e não equivalem a condenações.
Becker também critica a confiabilidade dos dados utilizados pelo Departamento de Segurança Interna (DHS) para identificar os eleitores. "O DHS tem um histórico muito ruim na identificação de pessoas sem cidadania americana. Também tem um histórico de divulgar números exagerados e depois admitir que os casos eram muito menos numerosos", afirmou.
Ação contra Califórnia amplia disputa sobre contagem dos votosUm dos episódios mais recentes dessa disputa ocorreu em 15 de outubro, quando o Departamento de Justiça entrou com uma ação contra a Califórnia para impedir a contagem de votos por correspondência de aproximadamente 20 mil eleitores cuja cidadania é questionada pelo governo federal.
A administração Trump afirma ter identificado, por meio de análises conduzidas em conjunto com o DHS, pessoas que provavelmente não possuem cidadania americana, mas que constam dos registros eleitorais do estado. O governo solicitou que a Califórnia verificasse a situação dessas pessoas e separasse seus votos até que a elegibilidade fosse confirmada. A secretária de Estado da Califórnia, Shirley Weber, rejeitou as exigências, afirmando que o governo federal não apresentou evidências suficientes para sustentar as suspeitas.
As autoridades estaduais também questionam a confiabilidade das informações fornecidas por Washington e o momento escolhido para a intervenção, quando a distribuição das cédulas eleitorais pelo correio já havia começado.
Becker considera particularmente problemática a cronologia da iniciativa. Segundo ele, o governo federal conhecia o calendário eleitoral e poderia ter apresentado suas preocupações meses antes.
"Não sei qual é a motivação deles, mas posso dizer qual não é. Porque, se estivessem realmente tentando agir de boa-fé para corrigir problemas que acreditavam existir nas listas eleitorais, teriam feito isso meses atrás e de uma maneira muito diferente", afirmou.
Na avaliação do especialista, a ação judicial também pode criar argumentos para futuras contestações da legitimidade das eleições, especialmente se os republicanos sofrerem derrotas.
"Isso levanta a questão de saber se o único objetivo não seria preparar o terreno para falsas alegações de fraude eleitoral depois de uma eleição na qual o presidente talvez esteja preocupado com um desempenho ruim de seu partido", disse.
Apesar das preocupações, Becker insiste que o sistema eleitoral americano possui mecanismos institucionais capazes de resistir a tentativas de interferência.
Para ele, a principal garantia continua sendo a atuação de milhares de funcionários estaduais e locais, republicanos e democratas, responsáveis pela organização da votação, apuração dos votos e certificação dos resultados.
A expectativa do especialista é que, independentemente das disputas políticas e judiciais, os eleitores possam votar e os candidatos escolhidos assumam seus cargos conforme o calendário constitucional.
O eleitor que ainda não decidiu se votará no candidato do PT ou do PL teve pouca chance de conhecer as propostas no primeiro enfrentamento entre eles na TV. O balanço ficou mais por conta da postura de cada um, inclusive na fuga de respostas.
Raquel Miura, correspondente da RFI em Brasília
O debate entre Flávio Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva, promovido pela TV Band nesse domingo, teve provocações, muita troca de acusações – a maioria ficou sem resposta – e quase nada de propostas substanciais.
Ainda assim, como a eleição está muito apertada, cada voto indeciso, branco ou nulo modificado em frente à tela pode fazer diferença.
“O que vimos, representado pelo Flávio Bolsonaro, foi o extremismo em sua plenitude. Truculento, mal-educado, incivilizado, não responde, mente, inventa fatos e faz isso de cara lavada. E o Flávio Bolsonaro é mais competente no papel de extremista do que o pai dele, então ele vai conseguir fincar o voto de todos os fanáticos do Brasil. Mas o voto moderado eu já não tenho tanta certeza. Eu estou apostando no antibolsonarismo de chegada”, afirmou a economista e pesquisadora Mônica de Bolle, em comentário na internet.
Já para a deputada Bia Kicis (PL/DF), que considerou o debate enfadonho no começo, com os dois jorrando acusações, Flávio teve leve vantagem: “Esse debate não vira voto de ninguém. Quem vota no Lula continua votando no Lula, quem vota no Flávio continua votando no Flávio. Se tiver aí talvez algum indeciso, aí eu acho que o Flávio ganhou o debate porque o Lula estava inseguro e o Flávio foi pra cima dele no caso da lobista Roberta.”
Um dos pontos mais debatidos foi a segurança pública, com o candidato do PL acusando a gestão petista de ineficiência, enquanto Lula tentou mostrar que esse tema é da alçada dos governos estaduais e que um projeto de sua autoria pode unificar as políticas na área. O assunto também gerou um dos principais memes nas redes sociais.
Voto de presidiários“Inclusive, você pode explicar por que 73% dos presidiários votaram em você?”, perguntou Flávio.
“Eu quero que votem 100% em mim. Até teu pai”, respondeu Lula.
Os intermediadores do debate chamaram a atenção do candidato do PL, que se movimentava muito atrás do adversário enquanto este falava, o que críticos atribuíram a uma tentativa de dificultar edições e recortes do material para uso nas redes sociais. Ou seja, imagens de Lula sempre teriam Flávio ao fundo.
Sobre economia, o senador falou que vai criar o Ministério da Prosperidade e prometeu refinanciar a dívida de pessoas físicas e empresas.
“No meu governo, a gente vai comprar a sua dívida dos bancos. E pra você que é pessoa física, seu débito vai ficar seis meses congelado. Você não vai pagar boleto nenhum nesse tempo. Você, ao invés de pagar sua dívida, você vai poder ir ao mercado, você vai poder passear com a sua família de novo. E para você que é pessoa jurídica, esse prazo vai ser de um ano.”
Já Lula pontuou avanços de sua gestão:
“Quando eu peguei o país pela primeira vez, ele estava quebrado. Eu deixei o país com quase 270 bilhões de reserva, crescendo a 7,5%. Agora eu peguei o país quebrado outra vez e somente depois que eu voltei o país começou a crescer acima de 3%. O país está preparado para muito mais agora. Já recuperamos a indústria naval, já recuperamos a indústria de fertilizantes, que eles tinham privatizado. Aliás, eles querem privatizar a Petrobras, querem privatizar 95% das estatais brasileiras. Eu quero empresa estatal forte e produtiva.”
Mostrar contas bancárias e telefônicasNas considerações finais, Lula propôs que ambos os candidatos abram suas contas bancárias e telefônicas, inclusive de seus familiares, para mostrar quem é corrupto. Flávio saiu pela tangente e não respondeu, o que foi uma tônica do debate de ambos os lados.
“Em 2009, como deputado estadual, de 49 votos, você foi o único que votou contra ampliar a licença-maternidade para funcionárias da Assembleia Legislativa. Por que você é contra as mulheres, Flávio?”, indagou Lula.
“Eu não tenho absolutamente nada contra as mulheres, pelo contrário. Eu sou casado com a Fernanda, uma mulher maravilhosa, sou pai de duas meninas lindas, a Luísa e a Carol. E eu vou dar sempre o meu melhor como presidente da República, como homem, para defender a minha família e fazer o melhor para elas. Agora, Lula, você conhece Roberta Luchsinger?”, retrucou Flávio.
“Você não respondeu à pergunta. Você não disse por que não garantir que as mulheres tenham apenas mais dois meses para cuidar de uma criança”, insistiu Lula.
“E Roberta Luchsinger, Lula? Ela fez acusações muito graves contra você. Por que a Polícia Federal está investigando ela?”
“Ela é parceira do seu sócio, o careca do INSS, Flávio. E Roberta é um problema da Polícia Federal, que está investigando”, respondeu Lula, que cobrou explicações sobre o dinheiro repassado por Daniel Vorcaro para Flávio, que, por sua vez, lembrou suspeitas envolvendo o filho de Lula.
O próximo debate será o da TV Globo, na sexta-feira.
Sem acordo sobre o orçamento para 2028-2034, e diante de um calendário apertado, os líderes europeus agendaram uma reunião extraordinária para 26 de novembro. Nesta sexta-feira (16), Volodymyr Zelensky participa das discussões sobre a Ucrânia.
Artur Capuani, correspondente da RFI em Bruxelas
A Cúpula do Conselho Europeu chegou ao segundo dia em Bruxelas, reunindo os 27 chefes de Estado e de Governo do bloco. Desde que assumiu a presidência do Conselho, o ex-primeiro-ministro português António Costa se comprometeu a encerrar esses encontros em apenas um dia. Ele vinha conseguindo cumprir a meta, ainda que algumas reuniões invadissem a madrugada, mas desta vez não foi possível, muito por conta do debate sobre o novo orçamento do bloco. A reunião foi pausada perto da meia-noite para ser retomada nesta sexta-feira, com discussões sobre imigração e Ucrânia, com a presença do presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky.
Um orçamento para sete anosO MFF, sigla em inglês para Multiannual Financial Framework, ou Quadro Financeiro Plurianual, foi debatido no primeiro dia da cúpula. Este é um tema recorrente em Bruxelas porque define o orçamento do bloco de 2028 a 2034, um período considerável.
António Costa não abre mão de que os líderes cheguem a uma conclusão até o fim do ano, para que o Parlamento Europeu possa debater o texto em 2027. Mas alguns países, como a Itália, já deixaram claro que, para eles, o conteúdo importa mais do que o prazo.
Existe um temor de que o atraso se amplie por conta da série de eleições previstas para o ano que vem, com pleitos na França, Itália, Polônia, Finlândia, Estônia, Eslováquia e Grécia.
A situação francesa é a que chama mais atenção. A candidata de extrema direita Marine Le Pen aparece, no momento, como favorita na disputa presidencial e prometeu limitar a contribuição líquida do país a € 5 bilhões por ano. Seria um corte drástico em relação ao patamar atual da segunda maior economia do bloco, que gira em torno de € 8 bilhões.
Como não houve acordo, ficou agendada uma cúpula extraordinária para o dia 26 de novembro.
Cada país com seu interesseSe não há acordo nem sobre o prazo, a discussão sobre o conteúdo é ainda mais complicada. Na prática, cada governo defende seus próprios interesses. Espanha e Itália dão mais importância aos fundos agrícolas, enquanto os Estados Bálticos, vizinhos da Rússia, olham para o investimento em defesa. Há ainda um grupo de seis países que podemos chamar de “time dos austeros”. Liderados pela Alemanha, eles querem cortes no orçamento.
A Irlanda, que ocupa a presidência rotativa do Conselho, apresentou uma proposta com redução de € 141 bilhões, amplamente rejeitada na cúpula. Agora, António Costa toma as rédeas das negociações e deve apresentar, nas próximas semanas, um esboço totalmente diferente, que prevê um novo pacote de impostos em toda a União Europeia para financiar o orçamento, além de uma flexibilidade maior para imprevistos. Depois da pandemia de Covid e das guerras na Ucrânia e no Irã, a cúpula do bloco parece ter aprendido a lição e quer garantir margem de manobra para situações como essas.
Mercado de carbono no centro da discussão sobre energiaA instabilidade no Oriente Médio pesa sobre os preços do petróleo e do gás e atinge diretamente o bolso das famílias e das empresas europeias. Com a chegada do inverno, a pressão deve aumentar.
O principal ponto de discordância, que tomou horas de debate, foi o ETS, o Sistema de Comércio de Emissões, o mercado de carbono europeu. Simplificando bastante, por esse sistema indústrias e usinas pagam para poluir, comprando licenças de emissão. Quanto mais caro o carbono, mais cara fica a energia. Alterar a precificação para que ela fique mais estável e menos suscetível a crises pontuais seria uma forma de reduzir os preços no curto prazo. Um grupo de países, porém, argumenta que a medida pode enfraquecer a política climática da União Europeia.
Nenhuma decisão foi tomada até agora, mas a expectativa é que os líderes adotem alguma medida para diminuir a volatilidade desse mercado.
Proposta que virou bandeira de Lula teve apoio inclusive do PL de Flávio Bolsonaro, embora partido já fale em compensações. Trabalhador celetista terá direito a dois dias de folga por semana, sem redução salarial. Desafio do PT é reverter vitória em votos.
Raquel Miura, correspondente da RFI em Brasília
A disputa acirrada pelo poder num país dividido é capaz de pavimentar as condições para mudanças históricas que dificilmente aconteceriam em outros cenários, já que contrariam quem detém o poder econômico.
E foi assim que, a 11 dias do segundo turno das eleições, o Senado aprovou numa única noite, em dois turnos, a emenda constitucional que reduz a jornada de trabalho no Brasil de 44 para 40 horas semanais, com a garantia de pelo menos dois dias de descanso na semana para contratos regidos pela CLT, sem redução salarial.
Até um mês atrás, a proposta estava parada no Senado e parecia impossível imaginar sua aprovação, ainda mais depois da vitória esmagadora da direita na eleição para o Congresso.
Mas o tema, abraçado pelo governo Lula no último ano de mandato, virou uma espécie de bote salva-vidas para o petista e, com a campanha pegando fogo na disputa voto a voto, até o PL de Flávio Bolsonaro, que abertamente trabalhou contra a mudança, no fim votou a favor.
No meio da disputa nacional, destaca-se ainda a articulação de Davi Alcolumbre (União Brasil/AP) de permanecer no comando do Senado, apesar da força que o PL terá na Casa Legislativa, ainda mais se vencer o segundo turno.
Flávio Bolsonaro não esteve no plenário na votação, mas registrou o voto de forma remota. E seus parceiros que votaram e discursaram não esconderam o desconforto, alguns já falando em compensações, especialmente para o comércio. Uma das propostas levantadas foi a desoneração da folha de pagamento, que tem impacto direto na Previdência Social, e mesmo de votar um caminho alternativo de negociação entre patrão e empregado.
“Eu recebi milhares de pedidos sobre essa votação. E esse pedido é legítimo, sem dúvida nenhuma, eu respeito. Por isso, o meu voto será sim. Mas é preciso falar também, além das vantagens, dos riscos para o trabalhador. Nós não podemos permitir que essa conquista se transforme lá na frente, a médio e longo prazos, em prejuízo para quem queremos proteger”, disse o senador Marcos Pontes (PL/SP).
O texto aprovado foi o mesmo que já tinha sido votado na Câmara e que tem como primeiro signatário o deputado federal Reginaldo Lopes (PT-MG). No Senado, houve apenas um voto contrário, o do senador Hamilton Mourão (Republicanos/RS), que foi vice de Jair Bolsonaro.
Érica Hilton comemora“É vitória dos trabalhadores, é vitória das mulheres, é vitória de quem está nessa escala desumana. Daqui a 60 dias, a escala 6x1 acaba no Brasil. Para todos aqueles que duvidaram, para a extrema-direita e os aliados do Flávio Bolsonaro, que articularam o tempo inteiro para que isso não acontecesse, amarguem essa derrota. A voz do povo venceu”, comemorou a deputada Érika Hilton (PSOL/SP), que levantou a bandeira do tema na Câmara e acompanhou a votação no Senado.
O desafio de Lula é transformar essa vitória em votos, uma vez que já era conhecida sua posição favorável ao tema e a de Flávio Bolsonaro, contrária. E o petista também já havia lançado mão de outras estratégias, como o reajuste do Bolsa Família.
“Nós estamos falando de 170 milhões de brasileiros. Reconverter a cabeça desses eleitores exige algo como fazer uma curva com transatlântico. Então é uma curva devagar num espaço muito curto de tempo. E, no segundo turno, o nível de abstenção e o nível de pessoas que votam nulo costuma ser maior que no primeiro”, destacou o cientista político Alexandre Bandeira.
O analista comentou os pacotes de bondades de Lula no meio da campanha e as promessas sem detalhamento de Flávio de cortar despesas em mais de R$ 200 bilhões. Nos dois casos, a pergunta é como fechar a conta.
“No momento em que estamos vivendo, os dois candidatos prometem demais, mentem demais, se atacam demais e se comprometem demais. E nesta reta final, muito do que está sendo prometido como atos futuros de um governo são medidas inexequíveis. E mais do que isso, são medidas que não estão contidas nos planos de governo dos candidatos, portanto não têm ressonância naquele contrato que o candidato assinou com a sociedade ao registrar a sua candidatura.”
Para Bandeira, “ou o candidato eleito não vai cumprir, ou, se decidir cumprir, nós vamos entrar num outro problema, que é um país de cobertor curto que não tem dinheiro para pagar tudo aquilo que está sendo prometido. A quem vai sobrar essa conta?”, indaga o especialista.
A menos de três semanas das eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, o Partido Republicano enfrenta disputas cada vez mais competitivas, inclusive em estados tradicionalmente conservadores. Para tentar preservar o controle da Câmara dos Representantes e do Senado, o presidente Donald Trump e o vice-presidente JD Vance intensificaram a participação em campanhas eleitorais, enquanto o partido amplia os investimentos em publicidade e mobilização de eleitores.
Patrícia Vasconcellos, de Washington, especial para a RFI
O cenário preocupa os republicanos porque parte dos recursos está sendo direcionada a estados onde Trump venceu com ampla vantagem nas eleições presidenciais de 2024, como Texas, Ohio, Iowa e Alasca. O Cook Political Report acompanha 37 distritos competitivos para a Câmara dos Representantes. Uma pesquisa realizada em setembro nesses distritos mostrou os democratas com 49% das intenções de voto, contra 47% dos republicanos.
A economia ocupa um lugar central na campanha. Inflação, custo de vida, preços dos combustíveis e os efeitos da guerra com o Irã estão entre as preocupações dos eleitores. Os democratas tentam associar essas dificuldades às decisões do governo Trump, enquanto os republicanos destacam suas propostas econômicas, a política migratória e a segurança.
Texas: reduto republicano que exige atenção de TrumpO Texas se tornou um dos exemplos mais significativos das dificuldades enfrentadas pelo Partido Republicano. Trump venceu o estado por quase 14 pontos percentuais em 2024, mas agora precisa participar diretamente da campanha para tentar garantir a vitória de seus aliados.
Na semana passada, o presidente esteve em San Antonio, em sua terceira visita ao Texas em menos de um mês. A principal disputa é por uma cadeira no Senado. O procurador-geral do estado, Ken Paxton, apoiado por Trump nas primárias republicanas, enfrenta o democrata James Talarico.
Paxton derrotou o senador John Cornyn, que ocupava a cadeira havia mais de duas décadas. Sua candidatura, no entanto, provocou divisões entre republicanos, principalmente pelas controvérsias envolvendo sua trajetória política.
Além da disputa pelo Senado, Trump pressionou os republicanos do Texas a redesenhar os distritos eleitorais para tentar ampliar a representação do partido na Câmara. Mesmo com a mudança, algumas dessas disputas continuam competitivas. O Texas não elege um democrata para o Senado americano desde 1988. Uma eventual vitória de Talarico representaria uma mudança histórica no cenário político do estado.
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Ohio, Iowa e Alasca também concentram investimentosA preocupação republicana se estende a outros estados conservadores. Em Ohio, a eleição especial para o Senado entre o republicano Jon Husted e o democrata Sherrod Brown se tornou uma das disputas mais caras do país.
Segundo dados da empresa AddImpact, os gastos com publicidade eleitoral chegaram a aproximadamente US$ 111 milhões em Ohio, US$ 96 milhões no Texas, US$ 48 milhões em Michigan, US$ 44 milhões na Carolina do Norte e US$ 43 milhões em Iowa.
No Iowa, tradicionalmente republicano, o aumento dos custos de produção agrícola, os preços dos combustíveis e as consequências econômicas da guerra com o Irã estão presentes no debate eleitoral. O Alasca também passou a receber atenção nacional. O vice-presidente JD Vance esteve no estado para apoiar a campanha de reeleição do senador republicano Dan Sullivan, que enfrenta a democrata Mary Peltola.
Disputas em estados como Kansas também ganharam visibilidade, ampliando o número de territórios onde os republicanos precisam investir recursos e mobilizar lideranças nacionais.
Candidatos republicanos tentam se distanciar de TrumpOutro desafio para o partido é a relação dos candidatos com o próprio presidente. Uma análise publicada pela agência Reuters identificou que, em 41 das 62 disputas competitivas para a Câmara e o Senado examinadas, candidatos republicanos se distanciaram de Trump em alguma questão específica ou reduziram a associação pública com ele durante a campanha.
Em alguns casos, referências ao presidente foram retiradas de materiais eleitorais. Em outros, candidatos criticaram decisões da administração, principalmente relacionadas à guerra com o Irã. O movimento não representa necessariamente um rompimento com Trump. A maioria dos candidatos continua apoiando as principais propostas do governo, mas tenta conquistar eleitores independentes e moderados sem perder o apoio da base conservadora.
Uma pesquisa Reuters/Ipsos citada no levantamento apontou a aprovação do presidente em 32%, um indicador das dificuldades enfrentadas por candidatos que dependem do apoio de eleitores além da base republicana.
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Pleito pode mudar os últimos anos do governo TrumpAs eleições de 3 de novembro vão definir a composição da Câmara dos Representantes, onde todas as 435 cadeiras estarão em disputa, e de parte do Senado.
Atualmente, os republicanos controlam 53 cadeiras no Senado, contra 47 do bloco democrata, que inclui dois independentes. Para conquistar a maioria, os democratas precisam obter um ganho líquido de quatro cadeiras. Na Câmara, onde a vantagem republicana é menor, uma mudança de maioria permitiria aos democratas bloquear parte da agenda legislativa do presidente, convocar integrantes do governo para prestar depoimentos e abrir investigações parlamentares.
Os republicanos ainda contam com recursos financeiros expressivos, o apoio de organizações conservadoras e uma base eleitoral mobilizada em torno de Trump mas a necessidade de defender estados tradicionalmente republicanos demonstra como a disputa pelo controle do Congresso se ampliou nas últimas semanas.
Para Trump, o resultado será um teste de sua influência política. A principal questão é se o presidente conseguirá transferir sua força eleitoral para os candidatos republicanos numa eleição em que seu próprio nome não estará na cédula.
A mesa de negociação entre o chavismo e o grupo opositor conhecido como Assembleia Nacional de 2015 deve ser retomada nesta semana, para uma terceira rodada de conversas. De acordo com o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, a reunião vai acontecer na próxima quarta-feira (14). As garantias políticas e civis vão estar no centro das discussões, afirmou à RFI uma pessoa envolvida nas conversas, que ocorrem sob a tutela de Washington.
Pedro Pannunzio, correspondente da RFI na Venezuela
A nova rodada de negociações foi confirmada por Marco Rubio na última sexta-feira (9), após uma reunião com Dinorah Figuera, que encabeça o grupo opositor. As delegações já haviam se reunido em Caracas em meados de agosto e no final de setembro.
“Esse processo conta com apoio integral, o mais forte apoio possível, dos mais altos escalões do nosso governo”, afirmou Rubio. O secretário de Estado disse, ainda, que o processo de diálogo “deve resultar em eleições livres e democráticas”. O responsável pela diplomacia da Casa Branca também ressaltou que as negociações devem ir além da realização de novas eleições. O objetivo final, segundo ele, é fortalecer as instituições democráticas do país caribenho.
As negociações entre os dois grupos incluem propostas de reforma dos sistemas judiciário e eleitoral, defendidas pela oposição como medidas necessárias para assegurar eleições justas. Até o momento, não há previsão para a realização de um novo pleito na Venezuela.
“Estamos comprometidos com a reinstitucionalização dos poderes públicos, como o Tribunal Supremo de Justiça e o Conselho Nacional Eleitoral, para apresentar ao país um processo de garantias políticas e civis e estabelecer um espaço para o reencontro e reconciliação. Não é um processo fácil, mas é um processo possível”, afirmou Dinorah Figuera, ao lado de Marco Rubio.
A Assembleia Nacional de 2015, eleita quando a oposição conquistou a maioria do Parlamento venezuelano, foi esvaziada em 2017, após a criação de uma Assembleia Constituinte pelo governo de Nicolás Maduro. Desde então, seus integrantes reivindicam a legitimidade do Poder Legislativo.
Do lado do chavismo, as conversas são lideradas por Jorge Rodríguez, presidente da Assembleia Nacional. Sua irmã, a presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, desembarcou neste domingo (11) em Roma para participar do Fórum Mundial da Alimentação, promovido pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO).
“Trazemos a experiência da Venezuela e o compromisso de ampliar a cooperação internacional em prol da produção agrícola, da segurança e soberania alimentar e do desenvolvimento sustentável”, afirmou a mandatária ao canal estatal VTV após desembarcar na Itália.
Cooperação com os EUANeste domingo (11), o Procurador-Geral dos Estados Unidos, Todd Blanche, afirmou que Washington prendeu o colombiano Álvaro Pulido, ex-sócio de Alex Saab, homem forte do governo de Nicolás Maduro que há cinco meses está detido na Flórida, após ser extraditado pelo governo de Delcy Rodríguez.
Pulido é alvo de duas acusações por lavagem de dinheiro de recursos que teriam sido desviados das Bolsas Clap, um programa de distribuição de alimentos implementado na Venezuela a partir de 2016, durante o início da severa crise econômica enfrentada no país.
“Segundo as acusações, suas ações demonstram desprezo pelo povo venezuelano, ao desviar, em benefício próprio, recursos de programas governamentais destinados a garantir alimentos, medicamentos e moradia, além de utilizar o sistema financeiro americano para viabilizar as operações”, disse Blanche em uma publicação nas redes sociais que ratificou a prisão do colombiano.
O Procurador-Geral não confirmou que a prisão se deu após um novo caso de extradição, mas, de acordo com diversas publicações da imprensa local, Pulido estava detido na Venezuela desde 2023, acusado de corrupção. O governo venezuelano não se pronunciou sobre o caso.
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Bate-papo com os correspondentes da RFI Brasil pelo mundo para analisar, com uma abordagem mais profunda, os principais assuntos da atualidade.

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