A LENDA DO VELHO HOMEM INABALÁVEL E UM PEQUENO GALHO
A liberdade não reside na pureza, mas na aceitação completa de qualquer vento, qualquer galho e qualquer caos sem resistência interna ou preferência pessoal.
Ouvi essa parábola pela primeira vez há alguns anos e, desde então, gosto de contá-la para amigos e entes queridos.
Ela é frequentemente atribuída a Bodhidharma (Damo), o primeiro Patriarca da Escola Chan, que trouxe da Índia para a China o ensinamento da visão direta da essência do ser, no século VI.
Quando, recentemente, ela me veio à mente mais uma vez, decidi trazê-la para o conhecimento de mais pessoas. Seu tema é a provação final e a mais difícil em nosso caminho.
PARTE UM
Ladrões - O Primeiro Teste
Em um dos vales montanhosos da China vivia um homem idoso. Dizia-se que sua mente era tão calma quanto a superfície de um lago de montanha. Nenhuma tempestade conseguia perturbar o reflexo do céu em suas profundezas.
Ele não era mestre, não tinha discípulos e não buscava fama. Simplesmente vivia, como fazem aqueles que não têm pressa para chegar a lugar nenhum.
Certa noite, ladrões invadiram sua casa. O homem, sentado em meditação, observou-os calmamente enquanto levavam seus parcos pertences.
“Levem tudo”, disse ele em voz calma e tranquila. “Só não façam muito barulho.”
Impressionados e confusos com seu distanciamento, os ladrões partiram.
Traição - O Segundo Teste
Um dia, ao voltar para casa, o idoso encontrou a esposa com seu vizinho. Ele apenas acenou levemente com a cabeça, sem alterar sua expressão.
“Perdoe-me por perturbar sua paz”, disse e saiu, como se tivesse entrado pela porta errada.
Exílio - O Terceiro Teste
Seus filhos, para quem honra e status significavam tudo, declararam:
“Você é fraco, envergonha nossa família. Vá embora.”
“Como quiserem, meus filhos”, respondeu o senhor calmamente.
Fazendo uma reverência, pegou seu cajado e sua tigela de esmolas e partiu para as montanhas.
No Mosteiro
Quando chegou no destino ao mosteiro, o homem foi recebido, abrigado e incumbido da tarefa de varrer o pátio.
Ele passava os dias varrendo o quintal, limpando folhas e poeira, com movimentos medidos e familiares. A varrição tornou-se uma meditação em ação. Ele não varria pedras, mas a própria mente, e a cada movimento ela se tornava mais vazia e luminosa. Em seu tempo livre, ele se retirava para o fundo do pátio, sentava-se sob uma árvore e meditava, observando a respiração e os movimentos da mente.
E nessa calma, nesse silêncio que parecia durar para sempre, o velho homem começou a perceber leves sussurros e movimentos sutis ao seu redor. Sombras se acumulavam onde jamais houvera qualquer pensamento de ansiedade. Imagens surgiam, quase imperceptíveis na luz bruxuleante. Eram os primeiros presságios dos Maras. No budismo, assim como na mitologia europeia e eslava, Maras são demônios que se alimentam dos apegos humanos.
O Ataque dos Maras
Os Maras começaram a se manifestar com mais clareza, tentando distrair o velho senhor de seu trabalho e meditação. Assumiam formas aterrorizantes e sussurravam sobre o passado. O homem apenas suspirava baixinho, como de costume, a cada varrida da vassoura.
Então, mudaram de aparência, surgindo em esplendor radiante e proclamando que estavam diante do maior santo de todos os tempos. Queriam despertar nele o orgulho e a sede de reconhecimento. Mas ele apenas sorriu interiormente e continuou varrendo.
Certo dia, quando tinha acabado de limpar o pátio, ele sentou-se sob um antigo pinheiro. Uma brisa suave agitou um galho e um pequeno graveto seco caiu sobre uma pedra próxima a seus pés. Uma sombra cruzou o rosto do velho: uma leve irritação, uma preferência quase imperceptível por ordem e limpeza.
Os Maras uivaram em triunfo: não encontraram nele paixão nem medo, mas identificaram uma preferência sutil, seu apego secreto. Naquele exato momento, desencadearam uma tempestade furiosa sobre o pátio, levantando agulhas de pinheiro, poeira e detritos em um vórtice violento, profanando em questão de segundos a obra impecável de limpeza que ele fizera.
O homem, então, deu um passo à frente, erguendo as mãos em silencioso desespero.
A harmonia interior se quebrou – não maior que um pequeno galho caído! O homem identificou o que estava acontecendo.
Ele havia perdido.
PARTE DOIS - Significado
Esta história não trata da derrota de Bodhidharma pois, segundo a tradição, o Patriarca alcançou seu objetivo. Ela revela as armadilhas finais no caminho para a liberdade. É precisamente essa derrota que expõe as correntes mais frágeis que prendem o nosso "eu" e é por isso que ela importa. Vamos examinar isso mais de perto.
1. Filhos e esposa são o apego ao Mundo das Formas
Os filhos personificam o ego social: reputação, status, família, honra, opinião pública. O velho se desapega disso facilmente pois vê esses valores como meros rótulos, não como essência. Seu exílio é um ato de completa renúncia aos contratos sociais.
A esposa e o vizinho simbolizam o apego sensual, a posse e o ciúme. O idoso não se identifica com o corpo nem com os relacionamentos em seu sentido comum e mundano.
2. Os demônios (Maras) são a Personificação da Mente Ego
Estes não são entidades externas, mas representam forças da própria ignorância, tais como:
· Medo, repulsa e raiva (demônios inferiores), que são os primeiros obstáculos que um buscador supera.
· Orgulho, desejo de reconhecimento e arrogância espiritual, que são inimigos mais sutis. O velho passa nesse teste, mostrando que até mesmo a ideia da própria santidade é uma ilusão.
· Hábitos da mente, que são preferências mecânicas, quase inconscientes – são o demônio final e mais esquivo.
3. “O Pequeno Galho” é a âncora final do Eu
O último apego é quase imperceptível. É uma minúscula armadilha da consciência. Mesmo depois de abandonar família, riqueza, medo e orgulho, a mente se contrai em um ponto microscópico de identificação. Pode assumir a forma de:
● Apego à limpeza e à ordem.
● O prazer secreto por seu próprio desapego.
● Uma leve irritação causada com um som, uma entonação ou o clima.
● Uma preferência imperceptível pelo conforto, como o silêncio, sabores e rituais.
Este "galho" é perigoso porque aparenta inocência ou até mesmo virtude. Nele se esconde a faísca final do dualismo: "Eu existo aqui, e isto – este galho, esta desordem – não deveria existir no meu mundo".
4. Furacão — a vida como ela é
A vida é imprevisível, incontrolável e constantemente causa estragos em nossos mundos interior e exterior.
O teste final não é manter a paz e a calma em condições ideais, mas permanecer sereno quando a realidade interfere na ordem e, assim, ser verdadeiramente livre.
Conclusão
A história termina não em vitória, mas em derrota. Contudo, essa derrota é a maior mestra, e clama:
“Permaneçam vigilantes até o fim. Não olhem para as tempestades, mas escutem o sussurro quase inaudível dentro de suas próprias almas. A liberdade não reside na pureza, mas na aceitação completa de qualquer vento, qualquer galho, qualquer caos – sem resistência interna ou preferência pessoal.”
Você já sabe onde está escondido o seu pequeno galho?
Photo:Kamo Bagdasaryan (Rússia)