Na Bíblia, o rei Saul consulta a feiticeira de Endor para evocar o espírito do profeta Samuel.
Samuel responde.
Samuel fala.
E Samuel anuncia a derrota de Saul.
Se o espírito falou a verdade, por que o contato com os mortos foi condenado?
Em nenhum momento a Bíblia afirma que os mortos são enganadores ou demônios.
Isso simplesmente não está escrito.
O que a Escritura afirma é outra coisa:
a proibição.
E por que essa proibição?
Porque o acesso ao oráculo precisava ser controlado.
Dentro de Israel, quem detinha esse acesso eram os levitas.
O sistema religioso funcionava assim:
* ofertas
* cominho, endro, hortelã
* sacrifícios
* dízimos
Tudo isso sustentava um monopólio espiritual.
Aqueles que fizeram aliança com Javé foram proibidos de acessar outros sistemas oraculares.
Não porque “os mortos mentem”,
mas por que a consulta precisava passar pelo sistema autorizado.
O oráculo oficial utilizava doze pedras (uma para cada tribo) e sortes lançadas.
Curiosamente, isso se assemelha muito a sistemas oraculares ancestrais que sobreviveram fora do eixo judaico-cristão.
A diferença não está na técnica. Está em quem controla o acesso.
Permitir que qualquer pessoa consultasse oráculos independentes significaria perder poder, influência e sustento material.
Ao longo da história, o medo dos mortos foi uma ferramenta eficaz.
O que nos ensinaram a temer era exatamente aquilo que poderia nos tornar mais conscientes e menos dependentes.
No próprio texto bíblico, o pecado de Saul esta na infidelidade à aliança e no pacto com Javé.
Não é uma condenação metafísica à humanidade inteira.
Israel sempre usou oráculos como Urim e Tumim, sorte, sonhos, profetas ...
Ou seja: buscar respostas nunca foi proibido.
O que foi proibido foi buscar fora do sistema autorizado.
E isso muda completamente a leitura do texto.