Em entrevista ao Mais Ribatejo, Filipe Castro fala-nos do projeto de salvar a nau S. Jorge, da armada de Vasco da Gama que naufragou na terceira viagem a caminho da Índia.
O nosso entrevistado, Filipe Castro, de 63 anos, regressou em 2021 a Santarém, onde viveu a infância e juventude, após se ter jubilado da Texas A&M University (EUA), onde lecionou durante 20 anos, desde 2001. Ali foi também diretor do J. Richard Steffy Ship Reconstructing Laboratory (ShipLAB).
"Estar nesta Universidade deu-me oportunidade de fazer trabalho de campo na América do Sul - Brasil, Panamá, Porto Rico, Uruguai, e em Espanha, Itália, Croácia, Emirados Árabes Unidos e Portugal", afirma.
Os seus principais interesses de investigação agrupam-se em torno da história da construção naval e da navegação no período moderno no ocidente.
Como arqueólogo náutico trabalhou na identificação, escavação e estudo de uma nau da Índia que transportava pimenta e que naufragou na torna-viagem, em 1605. Trata-se da nau de Nossa Senhora dos Mártires, descoberta em São Julião da Barra, em Oeiras, e que foi a primeira a ser estudada por arqueólogos. Iniciado no contexto da Expo98, parte de um projeto mais vasto sobre a carreira da Índia exposto no Pavilhão de Portugal em 1998.
Com base nos dados arqueológicos da nau de São Julião da Barra, o arqueólogo construiu vários modelos desta nau para testes.
Filipe Castro está a preparar-se para partir para a costa oriental de África, onde um amigo arqueólogo encontrou uma nau naufragada em Melinde, na costa do Quénia.
"Ainda não sabemos se é a nau São Jorge, naufragada na terceira viagem à Índia de Vasco da Gama, em 1524. Temos registo de dois naufrágios nessa zona no século XVI, um deles na terceira viagem de Vasco da Gama", afirma-nos.
"Em março tenciono ir ao Quénia, mergulhar nesse sítio onde um amigo arqueólogo Caeser Bita, dos Museus do Quénia, encontrou os restos desse navio. Se for, de facto, o que nós pensamos ser muito provável, atendendo a que as cerâmicas encontradas são portuguesas do primeiro quartel do século XVI. Por isso, há fortes probabilidades de ser a nau ou galeão de S. Jorge, perdido por Vasco da Gama na viagem de ida para a Índia, na zona de Melinde", declara. O objetivo de Filipe Castro é fazer a escavação do sítio arqueológico, estudo e conservação dos artefactos, registo e estudo dos restos do casco, que são uma pequena parte do fundo do navio, mas que nos podem fornecer informações preciosas sobre a sua construção". Depois, pretende fazer "a cobertura dos restos do casco com uma camada protetora e elaborar um plano de monitorização e conservação in situ. Finalmente, será feita a publicação e musealização deste navio, que nos conta uma história extraordinária".
"Acho que um projeto destes serve também para sublinhar a importância do passado nas nossas vidas e o valor social da História e da Arqueologia, que muitas vezes não são devidamente valorizadas. Ninguém deita fora os álbuns de família. No tempo de Vasco da Gama não existiam fotografias, mas os nossos antepassados estavam e permanecem vivos, a construir a cultura portuguesa, para o bem e para o mal", afirma.
Jubilado da Texas A&M University, Filipe Castro colabora presentemente com a Universidade Nova de Lisboa e com a Universidade de Coimbra.
Na Universidade de Coimbra está a trabalhar com uma bolsa para fazer a Carta Arqueológica de Portugal. "Estou a verificar todas as entradas nas bases de dados dos organismos do Estado, que estão muito desorganizadas. Por isso, estou a refazer todo o trabalho da base de dados, com mais de 1600 sítios arqueológicos".