Grupo Arauto

No tempo do troco errado


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Na minha infância, nos finais de semana, íamos à casa de nossos avós para uma visita. Enquanto o pai ouvia as histórias do vô e a mãe ajudava a vó a passar o café, meu irmão e eu nos deliciávamos com o bolo mais saboroso do mundo. Mas a nossa grande expectativa era o que vinha depois do lanche: as moedinhas que o vô nos dava para comprar doces no mercadinho da esquina.


Uma vez, voltei radiante após uma compra em que as moedas, misteriosamente, se multiplicaram: as balas não cabiam na mão. Mas meu avô, muito sério, me levou de volta ao bar para saber o que tinha acontecido.


Trinta anos depois, estava eu, há vinte minutos, procurando uma vaga em um estacionamento lotado. Entrei para um local distante e fui caminhando até a entrada do shopping. Vi uma moça manobrar seu carro em uma vaga reservada para idosos. Ela estava junto com uma criança, e fiquei pensando no futuro adulto que aquela mãe está criando (talvez alguém que não dará valor para o que é certo e o que é errado).


A moça passou por mim, em seu mundinho pequeno, enquanto um enorme desânimo me abateu. Se eu tivesse parado em uma das vagas reservadas para idosos (muitas estavam vazias), provavelmente já teria pago a minha conta e teria tido tempo de almoçar antes de voltar para o trabalho. Senti raiva. Também me senti uma tolo. Por fim, senti vergonha de mim mesmo e senti falta do meu avô.


Certa vez, li uma citação do filósofo e escritor Mário Sergio Cortella que diz: “Falar sobre ética não é falar sobre alguém. É falar sobre nós”. Por isso, é preciso prestar mais atenção aos exemplos que estamos passando aos nossos filhos, amigos e até desconhecidos. Caso contrário, nos perderemos na sensação de que a falta de ética é normal.


Ao me ensinar a devolver as balas que vieram a mais pelo erro do vendedor, meu avô me deu uma lição que nunca mais esqueci. Nas minhas lembranças de neto, além do seu jeito engraçado de fumar o cigarro de palha e do seu perfume exagerado após o banho, também carrego a saudade do velhinho que me ensinou a fazer o que é certo – mesmo quando parece difícil (e amargo) ter que me desfazer de vantagens (e doces) que a mim não pertencem.

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