O diário de Shantall - a menina que fala pelos cotovelos

O diário de Shantall - a menina que fala pelos cotovelos

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O diário de Shantall - a menina que fala pelos cotovelos episodes

  • Ronnie e Madeleine - Fragmento 01 - Conheço um cara chamado Ronnie - narração

    Aparente um cara normal, ia e vinha, passava despercebido, e não almejava muito além disso.

    Focado em trabalhar e ser funcional. Pois o foco o fazia funcionar ignorando a ferrugem nas engrenagens.

    Ferrugem que tinha nome e sobrenome, mas não mais um endereço. Madeleine havia partido há tanto tempo que nem fazia mais sentido.

    Madeleine era uma ideia encarnada, não se luta contra isso. Ronnie era um rendido. Caminhava contando os passos e vivia seu dia. Mais um dia a menos, mais um dia sem ela.

    Se sentia um bosta com muita frequência, mas tentava não demonstrar, sabia que as pessoas acreditavam no que viam, e isso ninguém precisava enxergar.

    E por dentro ele era um prédio novo desabando, e foi ouvindo Blume, do Einsturzende Neubauten que pela primeira vez ele sentiu que pra ele, ela sempre seria um girassol, uma outra razão pra que ele cortasse uma orelha, a segunda vez não seria tão poética.

    Não se percebia igual aos demais, ele se sentia observando a vida ali do canto enquanto as coisas aconteciam. Embora ele estivesse, profissionalmente, numa posição de destaque, sentia que era apenas o seu avatar que acontecia enquanto ele observada detalhadamente. Numa dissociação quase bonita de se ver, se pudesse ser vista a olhos nus.

    A existência dela havia partido ele em dois. Um que vive no automático, outro… sentado à espera, tentando escrever sobre ela, como escrevia pra ela. Era vazio e cheio de sentimentos contraditórios.

    Tudo nele era contraditório. Porque se contradizer o mantinha vivo. Um se jogando no abismo, o outro com os pés firmes no chão tentando segurar.

    Deixou um bigodinho safado, porque não estava na moda, queria que vissem sua esquisitice, que notassem sua estranheza, cortava o próprio cabelo com qualquer coisa que cumprisse, satisfatoriamente, essa função.

    Fazia a barba e não reconhecia por completo o outro no espelho. Adoçava seu café com um adoçante 100% orgânico, porque Madeleine odiava açúcar, Madeleine odiava tudo que fosse muito doce, menos ela. Que era doce de doer e ao mesmo tempo explosiva, era uma mistura de Nutella com Octanitrocubano, um Pudim muito doce capaz de azedar em 10 minutos.

    Ronnie se sentia um bosta, ele não soube se mostrar inteiro pra ela com medo que o achasse muito sonso, comum, bobo, raso, desinteressante. Ele era uma espécie sem graça de Holden Caufield, mas tudo o que ela queria era mergulhar em suas mazelas, explorar seus fiordes, ela tinha um eu-escafandro que lhe permitia ir fundo nos outros. Mas Ronnie a queria na superfície, achando que ele não daria pé.

    E com isso, ele a manteve na membrana da tensão superficial, e ela se sentiu sufocada, pois era uma criatura que habitava as grandes profundidades. Onde nem a luz chega, ela chamava de lar.

    Ronnie odiava dirigir em meio àquele trânsito maluco, ela adorava. Ele pegou o moderno walkman que ela havia deixado pra trás, colocou os fones retrô sem fio e começou a ouvir a playlist favorita dela. “100 músicas aleatórias para ouvir no aleatório”, e foi trabalhar.

    Assistindo as pessoas desfilarem, como se usassem máscaras iguais as crianças no filme The Wall caminhando em direção a um moedor de carne, vestiu sua máscara de porco e seguiu contando os passos, no seu shoegaze way of life, embalado por Madeleine… just like honey…

    Todavia, mais um dia.

    100 músicas aleatórias para ouvir no aleatório



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    5 min
  • Quer ser meu amigo? - narração

    Aqui mesmo, ele passaria despercebido. Talvez ele estivesse te olhando, bem agora e pensando que, quando criança, bastaria chegar e dizer: "Quer ser meu amigo?".E já era.

    Estaria ali, olhando tudo e todos, com um chope na mão, esperando que algo, além do nada de sempre, acontecesse.

    Talvez alguém o notasse. Há muito tempo só recebia atenção de um desconhecido se estivesse atrapalhando o caminho; um toque seguido de um "Com licença" e talvez um "Obrigado", por desobstruir a passagem.

    No trabalho, trabalho metódico, repetitivo, onde, quando havia uma novidade, pode ter certeza, era uma burocracia a mais.

    O carinha legal da adolescência, cheio de amigos e rodeado de garotas, com as quais nunca conseguiu puxar papo (verdade seja dita), já não existia mais. Era algo entre o introvertido e o silencioso, podia ser confundido com um objeto de decoração, e, no final da noite, sozinho em seu vazio, meio entorpecido pelo álcool, iria lá no fundo questionar por que encheu a cara, sentindo que ia começar a passar mal. Já sentia sede e náuseas. A vodca sempre lhe deu dor de cabeça e uma ressaca moral daquelas. Mas naquele dia, havia apenas tomado chope.

    Acredita que, de tudo que esse cara, agora aos 50, viveu, nada parecia tê-lo tocado de verdade? Ele sentia como se, no fundo, tudo tivesse sido muito raso...

    ..., nada o tinha acertado com a ferocidade de um búfalo em disparada. Talvez a morte recente de sua mãe. Ainda assim, esperada, aceita como a ordem natural das coisas.

    Não tinha grandes histórias pra contar da infância, nada espetacular na adolescência. O casamento, os filhos e a família eram aquilo lá, nada além daquilo, era o bater cartão da vida adulta. Nunca tinha feito ou sido nada fora da curva durante toda a juventude. E agora ele sentia que tinha deixado a vida lhe levar.

    Parava pra pensar e tentar identificar quais haviam sido os nodos temporais onde a vida tomou esse rumo bosta.

    Isso: ele achava a vida uma grande merda. Mas, obviamente, jamais diria isso.

    Sorria um sorriso de dentes tortos, torcia o canto da boca, mordia as cutículas da unha da mão direita e odiava a marca que as borrachinhas que apoiavam o óculos no nariz deixavam. Odiava a pele seca, o cabelo ficando ralo, as marcas de expressão.

    Sentia-se feio, mas achava que não era tão ruim assim. Queria mais, mas não mais do mesmo de sempre.

    No dia seguinte, sempre no dia seguinte a qualquer dia que tivesse sido, ele tomava seu café da manhã pensando em mudar alguma coisa na sua vida naquele dia. Mas, desde que havia adquirido esse costume, sempre aconteciam coisas que o faziam mergulhar na banalidade do "todavia mais um dia"... e os dias iam se repetindo, meio tortos, meio que mordendo o tempo pelas bordas.

    Antes de sair, numa noite de sexta ou sábado, ia se vestir de vontade de ter uma noite boa, dar umas risadas, talvez, curtir um som legal, e usar sua coragem de sempre pra conseguir escolher uma roupa na qual se sentisse bem. Mas todas pareciam as mesmas de sempre, até as novas.

    Seu peito era um guarda-roupa cheio de velhas emoções que ele insistia em vestir, mesmo sabendo que não serviam mais.

    Vez ou outra, se lembrava de como foi estar casado e percebia que aceitaria voltar, não por amor, porque aquele amor nunca tinha servido, nunca fora do seu tamanho e nem do seu estilo.

    Mas tudo bem, servia pra proteger do frio da solidão. Ele não se importava se era uma roupa meio descolorida, uma polo com a borda da gola um pouco puída. Nem dava pra perceber.

    E naquela noite, bem ali no canto do bar, ele percebeu que o tempo passou. Terminou seu chope, se despediu das pessoas.

    E agora está na minha frente, no café da manhã.

    Me olhando entre uma cuca de maçã e a manteigueira com uma araucária desenhada. Me olhando no fundo dos olhos, da parte lateral da caixa de leite.

    Ele me viu e sorriu. Sorriu e partiu. Se ele tivesse chegado e dito: "Quer ser minha amiga?"... Já era.



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    6 min
  • Petrichor - narração

    Coisa mais rica o cheiro de petrichor emanando do calçamento de paralelepípedos de uma rua arborizada, onde as copas das árvores, com folhinhas miúdas e caules que vencem a luta contra a calçada, formam quase um túnel, conversando com as árvores do outro lado da rua. Um ou outro ipê-rosa se exibindo, fora de época, e roseiras miudinhas enfeitando os seus pés.

    Aquele céu azul de doer, de quando venta e faz frio à sombra, mas calor ao sol. O cheiro do café moído na hora, sendo embalado na fábrica local. parece música pairando no ar.

    Na Pharmácia com “Ph”, o poeta, atrás do balcão, escreve um verso no papel grosseiro, áspero e rosado com o qual embrulha os medicamentos, e entrega para uma mulher, dizendo: “Um cura o corpo, o outro a alma.”

    O padre que passa e acha graça na menina, a mesma que todos dizem que é uma diabinha, vestida de anjo, correndo atrás dele para ensaiar a coroação de Nossa Senhora do Patrocínio, no dia da padroeira.

    O padeiro entregando pão de perua nas casas, com as portas de trás da Kombi aberta, amarradas com uma cordinha, para que o garoto da entrega possa descer e entregar os pães sem ter que ficar abrindo e fechando a porta.

    O cachorro na varanda observando tudo, enquanto outro corre latindo, se fazendo de bravo atrás do carteiro que está de folga. Mas… reconhecendo seu inimigo imaginário, mesmo sem o uniforme, sai correndo bravo, abanando o rabo, até que o encontra, e ambos brincam como velhos amigos que são.

    Na porta de sua lojinha, o sapateiro, sempre exibindo seus sapatos perfeitamente lustrados e bonitos, fumava seu cachimbo, enchia a paisagem com pinceladas de um cheiro ocre e adocicado. Pica-fumo era seu apelido.

    As crianças no meio da quadra ainda sabem o que é uma amarelinha, e isso parece um sinal de que nem tudo está perdido. Mas está…

    Foi num piscar de olhos, eu olhei de soslaio e tudo já tinha acontecido. Asfaltaram a minha rua, trocaram as árvores como se elas não tivessem direito à vida, plantaram árvores que exibem vergonhosamente suas copas quadradas, com folhas grandes e galhos engrossados por podas drásticas. As árvores só existem de um lado da calçada, o ar úmido e gostoso, agora é seco e empoeirado.

    Onde havia a fábrica de café, agora existe uma franquia de cafeteria que tem um ou outro item da antiga moenda como decoração, onde servem shakes gordurosos feitos com café solúvel batido com água gelada, creme de leite e gelo, e as pessoas pagam muito mais caro do que pagavam pelo quilo de café torrado e moído na hora.

    O poeta farmacêutico, sem filhos e sem família, reside esquecido (e esquecido) em um asilo da cidade. Alzheimer dizem.

    O padeiro morreu, a padaria fechou, agora se compra pão no mercado: pão leve, cascudo e sem miolo.

    As casas com varanda viraram comércios que poluem a vista com fachadas quadradas e mercadorias penduradas por todos os cantos.

    A fidelidade dos cachorros para com seus amigos continua a mesma, mas, agora, ao invés de carteiros, seguem seus amigos sujos, maltrapilhos, desdentados e cheirando a álcool e urina, que perambulam com delírios persecutórios pela rua, deixando a todos com medo. Eles são os únicos anjos encarnados em pelo e osso por ali.

    Por causa do fumo, o sapateiro desenvolveu problemas sérios de circulação. E agora, o rapaz que consertava o andar de todos por ali, me dando a impressão de ele ser uma espécie de mágico que conseguia colocar as pessoas de volta no caminho delas, sem tropeços, perdeu os pés.

    A menina cresceu e virou escritora, mais ou menos quando foi expulsa do catecismo, bem pequena. A igreja continua quase a mesma. No dia da padroeira, agora, uma festa cheia de barraquinhas arrecada verba para a paróquia, e, apesar de ninguém mais encenar a coroação, o espetáculo cresceu bastante.

    133.497 habitantes, diz o censo. Cidade pequena, deveria ser aconchegante.

    O centro da cidade, com casarões abandonados e ocupados por “nóias”, mantém a arquitetura preservada da época dos barões do café. Nos bairros antes residenciais, toda praça virou ponto de tráfico ou “o corre”, como chamam agora, e a liberdade perdida de se sentar para tomar a fresca na pracinha, hoje contrasta com os muros altos dos condomínios hiper gradeados, protegidos por câmeras e rolos de fitas e serpentinas farpadas. Ali dentro, duas crianças ainda brincam de amarelinha, e talvez, talvez, apenas talvez, ainda exista uma esperança.

    O romantismo bucólico e cheio de pequenas melancolias da cidade do interior ainda deve existir em alguma outra cidade por aí. Se encontrar uma, assim por acaso, como quem não quer nada, uma “Xangrilázinha” qualquer onde eu possa, ao menos, passar férias, me mande um e-mail: [email protected] a minha, já não posso voltar.



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    7 min
  • Amábile - O segredo da Fascinação

    O Segredo da Fascinação.A fascinação residia em sobradinho antigo, já com a pintura sofrida pelo efeito inevitável do tempo.Estava encarnada em pele e osso, vestida sempre em seus vestidinhos esvoaçantes, de tecido fino. “Europeu!” – dizia ela.

    Aquele olhar, de quem vislumbrara todas as novidades vindas do Velho Mundo, era o retrato exato da fascinação.

    Ela olhava o mundo como se o tempo tivesse parado, como se ainda sonhasse em viajar num dirigível, como se causasse o mesmo furor de seus 15 anos de idade, com suas canelas finas à mostra – “Que abuso” – diziam quando ela passava.

    Era a fascinação. E a fascinação era abusada!

    A menina de cabelos curtos e ondas na franja, por algum motivo, havia parado no tempo.

    Aos 85 anos de idade, ainda era a menina das canelas de fora, das ondas no cabelo, do rouge europeu e do pó de arroz, cheirando a talco e alfazema.

    Aos 85 anos de idade, Dona Amábile não sabia em que ano estávamos, nem percebera a mudança do mundo que avistava do seu quarto, por entre os balaústres de sua varanda.

    Aos 85 anos de idade, ela tinha o olhar mais doce e fascinante do meu mundo. Envolto em pregas de pele flácida, fina, porém sem manchas senis.

    E eu? Eu me perdia em pensamentos só de olhá-la. Ali. Parada. Parada como se emoldurada pelo madeiramento velho das portas de duas folhas que davam praquela varanda.

    Portas altas, estreitas, com vidros decorados e coloridos.

    Minha mãe dizia que, se eu não me casasse quando crescesse, iria terminar como Amábile… Sozinha. Vendo a vida passar pela janela.

    E eu?

    Eu achava que terminar como Amábile era melhor do que terminar como minha mãe, que vivia vendo a vida passar pela televisão.

    Amábile passava os dias escrevendo, contando botões que guardava em potes de vidro, colando coisas em álbuns, costurando as bonecas de pano que pendurava nas árvores do jardim e que pereciam com a ação do tempo e das tempestades. As pessoas diziam que aquilo havia de ser bruxaria, e que as bonecas estavam enforcadas. Não, as pessoas não são capazes de entender pessoas como ela...

    Minha avó contava que Amábile nunca fora certa da cabeça, que queria comer o mundo com os olhos, estava sempre um passo à frente, sempre antenada com todas as novidades europeias, que tinha sempre os tecidos mais inusitados, que tinha sempre as bijuterias mais diferentes, que sempre dizia coisas sobre as coisas que lia, sobre os livros que recebia, os artistas e pensadores com quem se correspondia.Amábile fora uma intelectual precoce.Tocava piano, lia sobre psicanálise, amava aquela efervescência toda: cinema e rádio e carros e aviões e dirigíveis.

    O que haveria prendido ela em um porta-retrato?

    O que a teria feito parar no tempo?

    E em que tempo ela estava?

    Minha avó, com suas definições precisas, um dia disse que Amábile fora uma locomotiva a vapor que, repentinamente... saíra dos trilhos.

    O que haveria acontecido com Amábile?

    Eu nunca soube. Só sei dizer que, Amábile me despertou a fascinação.

    Me fez do outro lado da rua, parar o tempo para observá-la. Para observar, por entre os balaústres carcomidos, aquele doce intervalo de vida congelado no tempo, impresso naquela varanda de forma tão fascinante.

    Eu a observava. Descia duas quadras, atravessava duas ruas, torcendo para que Amábile estivesse na janela, só – para – poder – vê-la.

    Ainda que em pensamentos, eu gostava de falar com ela. E mesmo que ela nunca me respondesse e jamais me ouvisse, eu continuava falando e falando e falando.Ela me fascinava.E me fascinava pensar que ela podia estar esperando por mim.Imaginando o que aquela menina tanto fazia, sentada naquela bicicletinha vermelha, por tanto tempo do outro lado da rua, olhando para sua janela.Um dia Amábile me viu. Me viu e sorriu. Sorriu para mim. Fez um sinal com a mão. Eu deixei a bicicleta no chão, atravessei a rua e, debaixo da varanda, a imagem não era tão interessante.Às vezes a gente enxerga melhor de longe.De perto, não dava pra ver quase nada. Não dava pra ver a penteadeira, não dava pra ver os potes de botões, nem dava pra ver ela direito.

    Ela me deu algo que só depois de muito tempo fui capaz de compreender.

    Um bauzinho de lata, antigo, com umas coisas dentro. Uns papéis de carta, um caderno, uns envelopes, umas fotos e uma bússola.Uma bússola!Amábile me deu uma bússola.Uma bússola antiga, tão antiga quanto os sonhos de Amábile pareciam ser.

    Isto que estou contando estivera, até então, enterrado em algum lugar da minha mente. E quanto mais fundo você enterra, mais você preserva.Soterrado sob escombros de anos e anos de desgraças e desventuras, de alegrias e outras doçuras.

    Esteve o baú.

    Na minha última mudança, reencontrei.

    Abri… e entendi.

    Amábile estava perdida.

    Sua bússola estava quebrada.A menina que queria andar numa máquina voadora estava desnorteada.Entre os papéis, encontrei uma partitura, enfiada em um dos envelopes.Partitura antiga e carcomida, assim como a varanda e tudo que emoldurava aquela figura que me fascinava.Levei para um amigo tocar... para descobrir o que Amábile escutava.

    E ele disse: “É uma música linda, de amor.”

    Embora ele não tenha tocado no piano, mas em um teclado moderninho, deu pra entender.

    Há alguns anos, voltei à minha cidade natal e resolvi saber de Amábile.

    Depois do dia em que ela me deu o baú, acho que guardei os olhos com os quais a olhava em algum lugar protegido do mundo, do tempo, das pessoas.Nunca mais desci as duas quadras, nunca mais atravessei as duas ruas, nem fiquei horas e horas olhando para aquela varanda.Acho que guardei aqueles olhos até que me fosse seguro… usá-los novamente.

    Em minha busca por Amábile, esperava encontrar algum velhinho que morasse por perto, que contasse uma história emocionante sobre ela, que fosse me dizer que ela fora apaixonada por um oficial alemão, casado, com quem se correspondia mas nunca havia se encontrado, e que, vindo ao seu encontro, havia falecido naquela viagem do Hindenburg.Ou que talvez tivesse se apaixonado por um piloto de avião, ou por alguém que lhe dera a tal bússola e lhe enviara as tais cartas, das quais ela só guardara os envelopes, pois era algo tão secreto que tinha que ler e rasgar as cartas em seguida, para que ninguém descobrisse nada sobre seu amor proibido.Eu queria ouvir qualquer história mirabolante que me fizesse viajar no tempo e desvendar o segredo da fascinação.

    Mas só escutei uma história triste de como ela morreu sozinha,como um bebê, sem ninguém da família e abandonada num abrigo, usando fraldas e recebendo alimentação por uma sonda.

    Tudo em volta de onde a fascinação residiu um dia se tornou comércio.O sobradinho, que deve ter ficado de herança para algum sobrinho, fora invadido, depredado por moradores de rua e usuários de crack.E agora se encontra lacrado com tábuas.Os balaústres da varanda estão quebrados.Não apenas carcomidos… quebrados.E naquela porta que dava para a varanda – porta alta, estreita, com vidros decorados e coloridos – há uma placa de “Vende-se”.

    E eu gostaria de poder dizer que, se fechasse os olhos, ainda podia ver Amábile observando a rua.Fechei meus olhos, mas o barulho da rua, agora tão movimentada, quase me enlouqueceu.

    Amábile morreu.

    Eu não resido mais no mesmo lugar, mas continuo querendo desvendar os mistérios de Amábile.

    O segredo da fascinação.

    É… Talvez a beleza disto seja entender que algumas perguntas ficam mais bonitas sem respostas.É algo divino nas entrelinhas. Apenas o último observador sabe a verdade.E a minha verdade é esta:Tenho um baú, de lata, velho, com cartas, fotos, envelopes, papéis de carta e um caderninho….E uma bússola quebrada.

    O que faz de mim, também, uma desnorteada.E quer saber?... Eu vejo beleza nisto.

    A fascinação residia em sobradinho antigo, já com a pintura sofrida pelo efeito inevitável do tempo.Estava encarnada em pele e osso, vestida sempre em seus vestidinhos esvoaçantes.

    E agora… eu tenho que fechar a minha janela.

    Crônica publicada na edição comemorativa pelos 158 anos da cidade de Jahu. Gravada para o Festival Literário Hilda Hilst.Musicada por Renato Di Giorgio, para o projeto Cabrazen.



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    10 min
  • Beduínos - narração

    Sobre o que haveria de ser mesmo o amor, ele não tinha a mínima ideia.

    Sentado no banco detrás da própria vida, as coisas se conduziam da melhor forma, da forma como deveriam ser se assim não tivessem sido. Diziam que estava bem.

    No jogo da vida todos os espaços do carro estavam ocupados pelos seus respectivos pinos e o avançar das casas era dito, satisfatório.Então por que alguma coisa parecia estar, terrivelmente, fora do lugar?

    Era aquele vento quente que o incomodava.

    Sobre o que haveria de ser mesmo o amor, ele não tinha a mínima ideia.

    O café da manhã na mesa, as coisas todas organizadas e… funcionando. O trabalho era interrompido vez ou outra por questão doméstica, mas tudo bem, havia um avatar carregando o estandarte da válvula de escape em alguma plataforma de embarque.

    O trabalho, o mesmo trabalho. O caminho, o mesmo caminho para o mesmo trabalho. E estava tudo bem. Era sua função.

    Aventurando-se entre o tédio e a rotina, sua esposa também era funcional. Uma boa funcionária, podia ganhar o retrato de funcionária do mês em qualquer lugar que trabalhasse, mesmo que fosse na própria cozinha ou cortando a grama do quintal.

    Grama. Sabia que grama pode ser sinônimo de status em muitos lugares?A grama crescia rápido, tão rápido que dava pra ouvir.As crianças também crescem rápido e as vezes é necessário fazer mais crianças, pra que elas ocupem espaços vazios que costumam, nesses casos, crescer mais rápido que a grama, e que as crianças.

    Nesse caso, parece necessário, certo e corriqueiro que a vacuidade existencial seja ocupada por funcionalidades. Sadio talvez. Ou talvez apenas deva ser encarado dessa maneira. De fato, é um aparato que funciona.

    As pessoas passam a fazer da sua própria tragédia o seu orgulho. E quem haveria de dizer que não é assim? Eu não.

    Dizem que a felicidade reside em várias situações: família, relacionamentos, trabalho, saúde e por aí vai.Bobagem!Essas coisas formam um conjunto de pequenas alegrias. São coisas que, todos podem ou não ter, nessa ou naquela proporção, com essa ou aquela configuração, sem esquecer do viés cultural que - muda - todas - as- coisas

    Logo, alegria travestida de felicidade.A felicidade, é uma quarta camada de cor.

    …

    Nesse exato momento, existe um beduíno sentado sobre os próprios calcanhares ao pé de uma duna, uma entre tantas no seu caminho. O mesmo caminho para outros tantos caminhos. Sentado e preocupado com a direção do vento que sopra do oriente em direção ao Sinai. O vento quente trazendo tanta areia entre os dentes, não o incomoda, é a direção do vento que o preocupa.

    Sentado, o suor debaixo das vestes o refresca, seu cheio se confunde com o dos anos e enquanto um ou outro lagarto corre duas patas, uma fata morgana ao fundo compreende-se: ajustada.

    Sua mente se atém a uma única lembrança: A turista.

    A turista que o viu, o viu e sorriu, sorriu e partiu. partiu e nada mais.

    Enquanto montava sua tenda, no meio das areias do sempre, nunca pensou que uma coisa daquelas poderia lhe acontecer. Pensando de novo, naquela turista. Onde ela estaria? Com quem? Como? O que estaria vestindo? Qual seria seu cheiro? Nunca esqueceria o kajal sob os olhos, o lenço que escorregava mostrando cachos de um cabelo castanho, os dentes extremamente brancos, e unhas bem feitas mas sem esmalte.

    Ele sabia sobre a direção dos ventos, sobre todas as criaturas peçonhentas, conhecia a noite fria dos dias mais quentes, e enquanto desenrolava os tapetes dentro da tenda, lembrava do bordado alinhavado no sapato de couro cru da turista, enquanto ele a ajudava a subir no seu dromedário. O toque macio de suas mãos fora a coisa mais delicada que sentiu na vida, mais que o toque da seda mais pura, e ele não sabia nada sobre ela.

    Sobre o que haveria mesmo de ser o amor, ele era a mais pura das ideias encarnada.

    A felicidade residia na verdade do olhar mais singelo. Ela olhava como se tivesse algo que ninguém mais tem no mundo. E aquele beduíno que mal sabia escrever seu nome. Sabia que aquele era o tesouro mais valioso do deserto, embora não pertencesse a ele. O olhar de uma mulher que traz um amor impresso na alma.

    …

    Sobre a mesa, a ideia de se ter uma hipoteca para ampliar a casa parecia interessante. Um ou outro brinquedo no meio do caminho, a cama que só era arrumada em dias de visita, e as visitas que pareciam placebo. Mas tudo estava bem, estava como deveriam estar se assim não estivessem. Não estavam?

    As ladeiras da cidade soavam como metáforas a serem exploradas. Mas era no centro da cidade, onde havia uma pequena padaria chamada Pitchoun, que ele ia toda última quarta-feira do mês, ia se sentava sozinho, na última mesa, à esquerda, tomava um café, escolhia algo não tinha experimentado antes mesmo achando que não iria gostar, pra manter o hábito de se surpreender, em meio à tanta rotina, a sua rotina sagrada, e esperava, sentava e esperava, como vinha esperando há tanto tempo.

    Os anos haviam se passado desde o primeiro café. E aquilo era um ritual, não como um um ritual, um ritual!

    Entre tantos doces e novidades, ele sempre mantinha um sem experimentar, pois quando experimentasse tudo, ainda haveria guardada uma surpresa pro final. Sua pele havia mudado, traços iam se desenhando, expressões ficando marcadas, seus cabelos ganhando outros tons, outro corte, calvície, e acima de todas as mudanças, se mantendo etérea, uma substância não mudava, e o vento quente ainda o incomodava.

    Um dia, alguém se sentará à mesa, e conversarão longamente, como se os anos não tivessem passado. Falarão sobre os ventos do oriente que sopram em direção ao Sinai, o lenço dela irá cair e mostrar cachos de um cabelo que já foi castanho. Irá sorrir com seus dentes muito brancos, assim como sorriu quando lembrou dele longe em uma viagem, desejando que ele estivesse lá. E então ela vai sorrir, sorrir e partir, partir com seus sapatos de couro cru com bordados alinhavados, partir e nada mais.

    E então, sobre o que haveria de ser mesmo o amor, ele vai descobrir que sempre soube.

    Era quarta-feira, a última quarta feira de um mês qualquer.



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Onironauta procrastinadora, poeta de merda, artista plástica inútil, mãe de gato que se recusa a passar roupa e ama tomar sopa! Apenas uma pessoa falando sozinha.