à toa pelo mundo

o passeio pelo rio que tinha tudo pra dar errado


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é engraçado como os turistas percorrem os mesmos caminhos. estou sempre reencontrando amizades feitas em cidades anteriores, nos hostels, restaurantes, mercados e passeios. gente chata também reaparece, mas essas eu ignoro.

Ojee e Jenny, aliás, chegaram aqui em Vang Vieng um dia depois de mim. agora elas estão viajando com dois ingleses gatos, Josh e Chris. os quatro dividem um bangalô num descampado do outro lado do rio. eu continuo dividindo quarto com a Tracy, que conheci no barco da Tailândia pro Laos.

ontem fomos a uma festa num bar que a pista de dança fica numa plataforma em cima do rio. como em muitos bares no Laos, havia um menu de drogas. mas (eu acho que) meu grupo ficou no álcool mesmo, servido em baldinhos de praia.

pessoas que conheci em Bangkok, Koh Phangan, Chiang Mai, Pai e Luang Prabang dançam juntas em Vang Vieng a “212” da Azaelia Banks e “We found love” da Rihanna. então tocou “Ai se eu te pego”, hit mundial do Michel Teló, e eu morri de rir com os gringos cantando em português.

dançamos muito e à 1h da manhã voltei pra casa, não sem antes cometer uma panqueca de banana com nutella e pasta de amendoim, feita com massa de trigo finíssima e elástica, esticada sobre uma chapa quente.

chamam essa rota de turismo mochileiro aqui no sudeste asiático de Banana Pancake Trail. e é verdade que encontro dessa panqueca em todas as paradas turísticas.

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tubing é como chamam o passeio de bóia de caminhão que desce o rio. em Vang Vieng, ele começou pras pessoas apreciarem a paisagem belíssima dos arredores: montanhas escarpadas, cobertas de mata em diferentes tons de verde, delinadas pelo rio Nam Song, que corre sinuoso e devagar sobre um leito de pedras amarelas.

é preciso alugar uma bóia e subir uns três quilômetros de carro, então descer lentamente pela correnteza até o centro da cidade. alugar a boia custa 50 mil kip e a agência retém 60 mil de garantia pro caso da bóia estourar ou se perder (110 mil kip = 11 euros).

Tracy, Joan e os irmãos alemães Fritz e Franz alugaram boias, mas achei caro e decidi economizar, descer o rio nadando e boiando sem bóia.

não sei se sempre houveram bares por ali, mas hoje são milhões à vista, em ambas as margens, disputando a atenção dos turistas com música alta, shots de álcool duvidoso, escorregadores, tirolesas, vôlei na lama, placas com piadinhas chamando as pessoas descendo o rio, que não era tão pequeno como imaginei quando me contaram sobre o tubing.

muitas das ofertas parecem ser boas ideias só na cabeça de gente bêbada e chapada. no primeiro bar que paramos já nos receberam com um shot grátis de vodka com sei-lá-o-quê vermelho e amarelo e apresentaram o “menu especial” com ópio, maconha, cogumelo, todas péssimas companheiras para viajar descendo um rio, que ainda que seja calmo é também selvagem e imprevisível.

paramos em outros dois bares (no alcohol, thank you, fiquei na rede escrevendo, lendo e cochilando), daí passamos reto pela placa do “The Last Bar” e seguimos boiando (eu nadando) pelas águas escuras e frescas do Nam Song.

depois de uma curva, encontramos uma parte bem rasa. lutei um pouco para nadar entre as pedras até o leito ficar fundo de novo. no segundo ponto mais raso do passeio, Franz me ofereceu carona em sua bóia. no terceiro, estava tão raso que, quando subi na bóia do Franz, atolamos na correnteza. deixei ele ir e fui caminhando pela margem pedregosa até onde deu pra voltar pra água. no quarto, a margem estava cercada de arame farpado e não tinha como continuar.

enquanto eu estava de pé no rio pensando no que faria, em uma curva que se abria para campos cultivados de um lado e morros pontudos de rocha cinza e mata fechada do outro, nenhuma construção humana à vista, passaram dois instrutores de caiaque em um caiaque de três lugares.

where is your tube?

I don’t have one

do you want a ride?

yes! thank you!

me acomodei entre eles.

passamos pelos meus amigos em suas boias e os deixamos para trás, cortando o rio enquanto eu e os guias esgotamos nosso vocabulário em comum. o instrutor da frente é fã do Ronaldinho e também admira Pelé e Romário.

então, eles começaram a cantar. laosiano é uma língua melodiosa e ali ela fez todo sentido.

passamos por crianças brincando na margem, saltando das pedras. depois por um grupo de búfalos, se refrescando mais adiante. um deles olhou pra mim com seus chifres imensos e olhos sonolentos, balançou a cabeça salpicando água enquanto passamos.

apesar da minha decisão burra de não alugar uma bóia, e por causa dela, ganhei esse presente do universo. agradeço!

chegando na cidade, ainda com os dedos enrugados, comi uma panqueca de banana com nutella numa barraca de rua plantada bem na frente da saída do rio, exatamente para pessoas como eu. estava fumegante, cremosa e deliciosa.

beijinhos e até a próxima,

Lívia



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à toa pelo mundoBy Livia Aguiar