Boletim Parnaso

O velho Emílio | Poema


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O velho Emílio

Anderson C. Sandes

In memoriam de Emílio Cordeiro de Lima


Jaz a lua minguante

Sobre a serena garoa

Que pega fúria

Horas depois da viração

Emílio levanta clamando por Maria

— Ali outra goteira, traz o balde

Sinto o cheiro de querosene

Queimando no candeeiro

Oh! que agradável, ah!

Dane-se a minguada lua

A miserável e tímida

Obscurecida agora pelo toró

Que faz pingar o telhado

O velho raspa o fumo co’a

Navalha, repousa-o na seda

Fita um lugar p’ra cuspir

Antes do trago

Em julho as pernas doem mais

A coluna entreva

Mas deixa estar

Balança a garrafa

Em busca de café

— Maria, Maria

Alumia a rede

Onde finge dormir o neto

Que a tudo observa

A meia luz e meio olhar

Escondendo o sorriso

O velho, por sua vez

Não disfarça a graça

— Deixa eu deitar aí

— Venha, vô

Digo não mais ocultando o riso

— Tenha medo não

Diz, referindo-se às trevas

Entrego a rede como oferenda

E a passos largos

Vou ao pote de barro buscar água

Um trovão bambeai-me as pernas

E penso em voltar

— Tenha medo não

Brada a voz pelas sombras

Pura carícia

Levo o caneco direto

À boca, sem despejar em outro

Ninguém está vendo

Volto tateando, veloz

Destreza de frouxos

— Tenha medo não

Três ou quatro baldes

De goteira engrossam

A noturna sinfonia

Perfeita para o repouso

Vem Maria do leito

Perplexa e supersticiosa:

— Ouviram? A rasga mortalha

— Misericórdia

O silêncio reinou

(...)

Ainda sinto o cheiro do querosene

Do candeeiro de vovô

Aquela rasga mortalha

Vez ou outra passa por cima

De meu telhado

Aprendi a amar seu canto

Recorda-me tudo

Cada luar

Cada pingo

Cada cuspida antes do trago

O velho pote d'água

O caneco amassado

Tudo permanece aqui dentro

Por causa do velho

Emílio

Que descansa em paz

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Boletim ParnasoBy Anderson C. Sandes