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No pico do Último Máximo Glaciar, há cerca de 23 mil anos,grupos de caçadores-recolectores do período Solutrense ocupavam uma gruta no vale do rio Nabão, no centro de Portugal. A Gruta do Caldeirão é um sítio arqueológico conhecido há décadas, mas um novo estudo da equipa do Projecto Palaeo.West.Iberia, publicado na revista Archaeological and Anthropological Sciences, traz novos dados sobre como estas comunidades viviam, caçavam eprocessavam os seus alimentos. A análise dos restos de animais mostra que veados, cabras-montesas e cavalos eram caçados de forma selectiva, transportados inteiros para a gruta e aproveitados até ao tutano. Mas há também restos de carnívoros — lobos e leopardos– que sugerem que estas comunidades caçavam também os grandes predadores, não para comer, mas pelas suas peles. Por necessidade, dado o clima glaciar, mas talvez também por prestígio. Este episódio é também uma reflexão sobre a capacidade humana de adaptação ao clima.
Fontes:
Nabais, M., Brilhante, L., Gomes, L. et al. Faunal resource use in the Solutrean of Western-Central Iberia: the case of Gruta do Caldeirão (Tomar, Portugal). Archaeol Anthropol Sci 18, 138 (2026). https://doi.org/10.1007/s12520-026-02503-8
Zilhão, J. (2023). Portugal na Idade do Gelo: Território e habitantes. Fundação Francisco Manuel dos Santos.
Zilhão J, Angelucci DE, Arnold LJ, d’Errico F, Dayet L, Demuro M, et al. (2021) Revisiting the Middle and Upper Palaeolithic archaeology of Gruta do Caldeirão (Tomar, Portugal). PLoS ONE 16(10): e0259089. https://doi.org/10.1371/journal. pone.0259089
Neste episódio do Palaeoflash, o investigador AlexandreVaranda, membro da UNIARQ e doutorando do projeto PALEO.WEST.IBERIA, apresenta o seu trabalho sobre o Acheulense — uma das mais antigas indústrias líticas dahumanidade, surgida em África há cerca de 1,7 milhões de anos. O Acheulense é reconhecido sobretudo pela produção de bifaces, ferramentas de pedra com uma morfologia simétrica que permitiam uma grande versatilidade de funções, desde corte de carne, desmembramento de carcaças, talhe de madeira ou quebrar ossos e associadas a espécies como o Homo erectus e o Homo heidelbergensis. Na Península Ibérica, estas populações chegaram há cerca de 500 000 anos, deixando vestígios em Portugal em sítios como a Gruta da Aroeira, a Brecha das Lascas e a Entrada do Vale da Serra no sistema cársico do Almonda. Alexandre explica como, ao longo de mais de um milhão de anos, esta tecnologia não esteve estagnada, mas foi evoluindo em resposta às mudanças ambientais e às matérias-primas disponíveis. Para estudar essas transformações, combina análises tecno-tipológicas com digitalização 3D e morfometria estatística dos bifaces.
Neste episódio do Palaeoflash, Filipa Rodrigues — arqueóloga do Município de Torres Novas e investigadora da UNIARQ — apresenta o seu trabalho no projeto Palaeo.West. Iberia, focado nas primeiras comunidades neolíticas que chegaram ao território português há cerca de 7500 anos, introduzindo a agricultura e a pastorícia. O centro da sua investigação é a Lapa da Bugalheira, uma gruta no Arrife do Almonda (Torres Novas), com uma longa história de utilização que remonta ao Neolítico Antigo. As escavações recentes, iniciadas em 2019, revelaram uma necrópole inesperadamente antiga e datada do Cardial clássico, entre 5500 e 5200 a.C. — alterando profundamente o que se sabia sobre o sítio. Com base em 11 datações absolutas, foi possível identificar quatro fases de uso funerário da gruta, separadas por um hiato de quase um milénio, sugerindo uma relação não contínua entre as comunidades pré-históricas e este espaço. O episódio termina com uma reflexão sobre o que a arqueologia nos pode dizer acerca da relação entre os vivos, os mortos e a paisagem ao longo de milénios.
Luís Gomes é investigador da UNIARQ e membro do projetoPALEO.WEST.IBERIA, financiado pela FCT. A sua investigação centra-se nas primeiras comunidades de Humanos Anatomicamente Modernos no ocidente peninsular,especificamente nas fases iniciais do Paleolítico Superior, período em que estas populações terão chegado ao sul da Península assimilando os Neandertais pré-existentes. No episódio, Luís Gomes aborda o desafio que representa aescassez e fragmentação do registo arqueológico desta época e explica como o projeto procura colmatar essa lacuna através da escavação de novas jazidas em gruta e em abrigos. Descreve ainda o seu trabalho de laboratório centrado na tecnologia lítica — o estudo de como a pedra era talhada e como os vestígios se distribuem espacialmente — utilizando metodologias como remontagens líticas eanálises tecnológicas para reconstruir o comportamento das populações pré-históricas.
Este episódio explora a ideia de que a evolução da linguagem humana pode ter sido influenciada pela alimentação, através de mudanças na dentição.
Com base num estudo publicado na revista Science, discute-se como a transição para a agricultura e pastorícia levou ao consumo de alimentos mais macios e isso pode ter favorecido a sobremordida, facilitando o usos de sons como “f” e “v”.
D. E. Blasi et al. ,Human sound systems are shaped by post-Neolithic changes in bite configuration.Science363,eaav3218(2019).DOI:10.1126/science.aav3218
Sabemos há algum tempo que os humanos modernos carregam cerca de 2% de ADN Neandertal, mas essa herança não está distribuída uniformemente pelo genoma. O cromossoma X apresenta muito menos ADN Neandertaldo que seria esperado. Um novo estudo publicado na Science aponta para que a explicação seja o facto de os cruzamentos entre as duas espécies terem ocorrido sobretudo entre homens neandertais e mulheres anatomicamente modernas, revelando que a genética pode guardar pistas não só sobre quem se cruzou, mas também sobre como esses encontros poderão ter acontecido.
Alexander Platt et al. ,Interbreeding between Neanderthals and modern humans was strongly sex biased.Science391,922 925(2026).DOI:10.1126/science.aea6774
Maria Melo, investigadora da UNIARQ e bolseira dedoutoramento financiada pela FCT fala-nos da sua investigação sobre os conjuntos de artefactos em quartzo da Gruta da Figueira Brava, Gruta da Oliveira e Gruta do Caldeirão. A Maria é membro integrante da associaçãoPALEOALMONDA - Associação de Estudos Científicos - e do projeto PALEO.WEST.IBERIA.
Equipa de investigação estuda, através da arqueologia experimental, a forma como eram processados tartarugas e cágados para alimentação no Paleolítico. Trabalho publicado na Nature Scientific Reports.
Nabais, M., Blasco, R., Boneta, I. et al. Experimental analysis of roasted and raw turtle butchery and implications for early human cognition and behaviour. Sci Rep 16, 1913 (2026). https://doi.org/10.1038/s41598-025-31738-zhttps://www.nature.com/articles/s41598-025-31738-z
Na UNIARQ (Centro de Arqueologia da Universidade de Lisboa) Mariana Nabais é investigadora responsável do projeto Palaeo.West.Iberia que procura estudar e compreender os modos de vida, as dietas e as estratégias de adaptação de Humanos Anatomicamente Modernos, Neandertais e Pré-Neandertais em Portugal.
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