O Brasil é o segundo país com maior taxa de cesariana em todo mundo 1. Nos últimos três anos, cerca de 54% das cesarianas brasileiras foram realizadas em gestantes de baixo risco, com forte indicação e segurança para parto normal 1.
A cesárea é uma intervenção cirúrgica que pode salvar vidas, materna e neonatal. Esse procedimento deve estar disponível na rede pública de saúde para qualquer futura mãe, desde que haja indicação específica ou quando surja sua necessidade.
Contudo, evitar cesarianas clinicamente desnecessárias é prudente. Isso porque a intervenção cirúrgica eleva o risco de desfechos clínicos negativos, a curto e longo prazo, para a mãe e para a criança 1-3. De maior prevalência em mortalidade e morbidade materna, o parto cesariano está associado a complicações em partos futuros como risco aumentado de ruptura uterina, placentação anormal, gravidez ectópica, natimortalidade e parto prematuro 1.
A composição da microbiota intestinal é influenciada pelo tipo do parto. Na cesariana, além do uso de antibióticos, um desequilíbrio microbiano pode ser desencadeado pela transferência insuficiente de bactérias da mãe para o neonato 2.
A exposição a determinadas espécies bacterianas do canal vaginal, como Lactobacilos e Bifidobactérias, é protetora ao recém-nascido. A maior colonização por Lactobacilos pode prevenir o desenvolvimento de doenças respiratórias, enquanto Bifidobactérias podem reduzir o risco de desordens autoimunes 3.
Em contrapartida, na cesárea existe maior risco de colonização por bactérias potencialmente patogênicas, como Staphylococcus, Klebsiella e Clostridium 4, que podem estar relacionadas ao desenvolvimento de dermatites atópicas na infância.
Bebês nascidos de cesariana também estão mais propensos a se tornarem obesos 3,5. Esse aumento na prevalência de obesidade na infância, adolescência e idade adulta, foi observado em diversos estudos clínicos de coorte, em todo o mundo 5. A proporção aumentada de S. Aureus e a diminuição de Bifidobacterias, na faixa etária entre 3 e 6 meses de idade, foi observada em crianças obesas e com sobrepeso 6.
O ambiente em que o neonato é concebido também pode influenciar a estrutura e diversidade microbiana. Estudo recente comparou o perfil microbiano de 35 bebês, nascidos por parto normal, sem uso de antibióticos, no hospital versus domicílio. A técnica 16S rRNA foi realizada em amostras fecais, nos períodos antes e ao nascer, e nos dias 1, 2, 7, 14, 21 e 28° pós-parto.
Ao nascimento, encontrou-se que bebês nascidos em hospitais, por parto normal, apresentaram menor abundância de espécies comensais (Bacteroides, Bifidobacterium, Streptococcus, Lactobacillus, Clostridium e Enterobacteriaceae).
No primeiro mês de idade, o grupo nascido no ambiente hospitalar apresentou maior expressão de genes pró-inflamatórios (Toll like receptors – TLR-4, interleucina 8 – IL-8 e fator de crescimento transformante – TGF-β) em células epiteliais do cólon, comparado aos bebês nascidos por parto humanizado 7. Esses resultados sugerem que a hospitalização pode afetar negativamente a colonização microbiana ao longo do trabalho de parto, com efeitos que podem persistir na microbiota intestinal dos lactentes até um mês após o nascimento 7.
Ainda há muitas questões não respondidas sobre os efeitos a longo prazo da configuração microbioma intestinal e suas influências na saúde. Existem diversos fatores que influenciam o surgimento de doenças, além do microbioma. Contudo, a possibilidade de otimizar a formação do microbioma intestinal do recém-nascido, ao optar pela indicação mais adequada do tipo de parto, pode ser uma escolha potencialmente benéfica para diminuir a incidência de doenças imunológicas e metabólicas em nosso país.