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Or


Eu pronuncio teu nome
nas noites escuras,
quando vêm os astros
beber na lua
e dormem nas ramagens
das frondes ocultas.
E eu me sinto oco
de paixão e de música.
Louco relógio que canta
mortas horas antigas.
Eu pronuncio teu nome,
nesta noite escura,
e teu nome me soa
mais distante que nunca.
Mais distante que todas as estrelas
e mais dolente que a mansa chuva.
Amar-te-ei como então
alguma vez? Que culpa
tem meu coração?
Se a névoa se esfuma,
que outra paixão me espera?
Será tranqüila e pura?
Se meus dedos pudessem
desfolhar a lua!!
"arre, estou farto de semideuses!
onde é que há gente no mundo?"
É lindo o modo
Como te vejo passar
Voar, andar, dançar por ai
Sendo alguém que nao é mais meu
Meu sem o sentido de posse que ha nessa sociedade capitalista, me entenda bem
É lindo te ver florescer antes mesmo da primavera chegar
E ouvir teu riso, mesmo que nao mais endereçado à mim
É lindo te ver sendo
Existindo e amando
Ainda que nao à mim
É graciosa a curvatura da tua clavícula
E eu consigo enxergar muito bem daqui de onde estou
A cem metros de distancia
Porque ela ja foi tatuada em minha mente
É lindo te notar em destaque no meio de uma multidao sem sentir aquela dorzinha no pé do coração por nao compartilhamos mais o mundo juntos
É lindo te ver, assim, linda que és,
Pássaro de canto doce
A voar e ganhar o céu
Num voo solo ou acompanhado por um alguem, que nao eu.
escrevo teu canto
teu corpo
tua voz
teu cheiro
teu silêncio ensurdecedor nas tardes de domingo
a tua voz, branda, ao amanhecer
escrevo teu peito, que nele, cabia todo o mundo
escrevo tuas mãos, pequenas
a mexer nas plantas e na areia
escrevo tua boca, macia
que por vezes dela saiam palavras tão duras que me faziam estremecer
hoje,
de saudade.
SOBRE OS DESMANCHES
Volto de você como estivesse voltando de uma guerra:
A cabeça em fogo, o peito rodeado de gelo,
e o cabelo muito desmatado para olhar o rosto da família e do mundo
Há dias encaro os naufrágios de muçulmanos
e o aço avançando sobre uma cidade inteira do ocidente
mas não me comovo
à noite retorno à casa para mais um desmanche:
Desde que você se foi eu abro os aparelhos, olho-os por dentro
e esgoto a possibilidade do pasmo nos encontros.
Desarticulo por exemplo as peças de um secador
e crio com ele uma outra intimidade
Hoje já não o confundo mais com a lembrança do pântano
em que a agua transformava o seu cabelo antes do vapor
hoje o conheço pelo carvão e pelas ventoinhas
e pela pequenina resistência laranja ao lado do motor
Os parentes me visitam para saber notícias suas
e eu os ameaço
Perguntam se eu ainda conseguirei tocá-la antes que as pedras do dique
se arrebentem em minha cabeça e eu os expulso
mas a pergunta impregna como um cheiro mau nas paredes dessa casa
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