Poesia & Simetria

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Poesia & Simetria episodes

  • Vem sentar-te comigo, Lídia

    Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.

    Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
    Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
    (Enlacemos as mãos).
    Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
    Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
    Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,
    Mais longe que os deuses.
    Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
    Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.
    Mais vale saber passar silenciosamente
    E sem desassossegos grandes.
    Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz,
    Nem invejas que dão movimento demais aos olhos,
    Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria,
    E sempre iria ter ao mar.
    Amemo-nos tranquilamente, pensando que podíamos,
    Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e caricias,
    Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro
    Ouvindo correr o rio e vendo-o.
    Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as
    No colo, e que o seu perfume suavize o momento —
    Este momento em que sossegadamente não cremos em nada,
    Pagãos inocentes da decadência.
    Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-ás de mim depois
    Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova,
    Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos
    Nem fomos mais do que crianças.
    E se antes do que eu levares o óbolo ao barqueiro sombrio,
    Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.
    Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim — à beira-rio,
    Pagã triste e com flores no regaço.



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    5 min

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