Em tempos hipermodernos a praga chegou e relembrou o ser da sua condição, a humanidade.
A humanidade que sonhava com robôs, inteligências artificias, realidades aumentadas, viagens turísticas à lua e computadores quânticos, vê-se agora obrigada a ficar dentro de casa por tempo indeterminado. O vírus chegou, e com ele não se esfumou o futuro, reavivou-se antes a memória de um presente iludido: a condição da vida, é a morte.
Isto era verdade no outono de 1348 quando a peste negra chegou a Portugal, e é verdade nos dias de hoje. Por isso as consequências deste surto adquirem vultos familiares, hão de morrer como sempre, os mais velhos, os mais pobres e os mais incautos. Por razões distintas todos comungam a mesma fraqueza. A praga há de passar, e o abutre da crise económica comerá os restos, há de levar consigo, e novamente, os mais velhos, os mais pobres, e os mais incautos.
As diferenças entre a peste de 1348, e a peste da atualidade, existem, claro. Os modelos matemáticos permitem nos prever a dimensão da desgraça, mas não a evitam. A tecnologia permito-nos uma melhor gestão da crise de salubridade, mas não a resolve. Os fluxos de informação permitem uma maior consciencialização dos cidadãos, não fosse o diabo, viver do pormenor…
Façamos então juz ao nome deste episódio, e procuremos nas vidas dos nossos semelhantes do passado, algumas notas de esperança.
Era Leonardo Da´vinci um homem de 38 anos, quando em Milão a peste bubónica deixava sem vida, 1/3 da população da cidade. Impossível de trancar um cérebro tão ativo, Da vinci calcorreava as ruas de Milão, onde a morte habitava os cantos. O cheiro a podre invadia a cidade, e talvez tenha sido esse cheiro, que ao encontrar as narinas do artista, lhe trouxe á ideia, que a organização da cidade, era propícia à transmissão da praga.
Surgiram na mão de Leonardo os primeiros desenhos para o planeamento urbanístico de uma cidade. Leonardo Da´vinci criou a primeira rede de saneamento básico, para controlar um surto de peste.
A mesma peste que por 300 anos visitou Lisboa mais de vinte vezes, e Lisboa nunca deixou de ser um porto de mar. A Flandres da Península. Ainda bem! A peste foi, a peste veio, e Lisboa continuou a navegar. A ser cosmopolita, como qualquer grande cidade.
A varíola atormentou a humanidade por mais de 3 000 anos. Até figurões como o faraó egípcio Ramsés II, a rainha Maria II de Inglaterra e o rei Luís XV de França sofreram da temida “bixiga”. A vacina foi descoberta em 1796…
O tempo escolheu-nos a nós para sofrer e combater esta nova praga, e sim… fiquem seguros em casa, mas não se esqueçam, quanto mais trancada estiver a vida, maior é a vitória do bicho.
A especialidade da humanidade é resistir. Os homens morrem, a humanidade continua. Acumulando conhecimento entre gerações, e há de eterno, as perguntas serão sempre mais do que as respostas. E quase como por imposição divina, a vida humana continua. Prolonga-se como nenhuma outra no tempo. Esse é, foi, e será, o grande triunfo da humanidade...