Desde os cinco anos merecera eu a alcunha de ‘menino diabo’; e verdadeiramente não era outra coisa; fui dos mais malignos do meu tempo, arguto, indiscreto, traquinas e voluntarioso. Por exemplo, um dia quebrei a cabeça de uma escrava, porque me negara uma colher do doce de coco que estava fazendo, e, não contente com o malefício, deitei um punhado de cinza ao tacho, e, não satisfeito da travessura, fui dizer à minha mãe que a escrava é que estragara o doce ‘por pirraça’; e eu tinha apenas seis anos.
Desde esse tempo, não consegui mais parar de fazer traquinagens.
Neste livro, por exemplo, mostro como Virgília trai seu marido, Lobo Neves, e tem um caso com seu melhor amigo, Brás Cubas.
Desde a juventude vim fazendo traquinagens.
Em “Os imortais”, aos vinte anos, escrevi que imortais são escritores de livros, que os deuses foram autores da bíblia, e que o céu é uma obra literária para onde vão seus autores venerados como deuses.
Tentei alguns tratamentos para me corrigir, mas nunca consegui deixar de fazer traquinagens.
Tive até uma crise em que fui passar alguns meses em Friburgo para me restabelecer.
Nunca consegui deixar de ser o menino diabo, vim a descobrir que o menino é pai do homem, que no homem continua o menino travesso da infância.
Ou seja, não tem cura.
Vocês não sabem como é difícil conviver com essa doença.
No meu tempo ainda não existia tratamento psicanalítico.
Se tivesse nascido depois de Freud é bem possível que eu viesse a compreender porque eu fazia aquelas loucuras.
Escrevia para incomodar, perturbar, deixar o leitor apavorado, ele ficava em pânico, não podia ser verdade o que ele lia.
-Como alguém escreve uma loucura dessas?
De tanta sem-vergonhice que escrevi, me elegeram presidente da ABL.
Nunca entendi aquilo.
Quem sofre dessa perturbação mental que eu sofri, poderia escrever, ajuda muito.