Ter vivido com você me deu uma compreensão de mundo que eu jamais teria, não aprenderia em nenhuma escola, nenhum doutorado, nenhuma religião, nenhum livro de psicologia, psicanálise, filosofia, em nenhum tratamento psicanalítico em parte alguma alcançaria a compreensão de mundo que alcancei vivendo e confiando na sua pessoa, ‘nunca confiei em ninguém, nem em irmãos, amigos, menos ainda em estranhos, desconfiei de todo mundo, menos de você’, te falei isso um dia na cozinha, e me escutando te falar isso você ria um riso malicioso, que marcou, tanto que estou lembrando, mesmo assim, perdoei, a malícia faz parte do relacionamento, ser malicioso com quem se convive também é necessário, a pessoa não pode ser uma completa ingênua, inocente, deve se preservar, se precaver, cuidar do seu lado, como você cuidou muito bem do seu lado vivendo comigo, assim como eu cuidei do meu lado vivendo com você, jamais eu teria a compreensão de mundo que tenho agora, nunca leria a obra de Freud e a falha dele com o Narcisismo se não tivesse convivido com o seu Narcisismo, foi o Narcisismo de Jung – o interesse dele por ele mesmo e tirando informações de Freud para enriquecer a Psicologia e o oculto, primeiro livro dele de 1902 – que Freud veio a se dar conta que o Narcisismo pode ser destrutivo quando usado interesseiramente na convivência onde se espera fidelidade, reciprocidade, reconhecimento, não tendo isso por parte de Jung, então, Freud passou por uma reviravolta na psicanálise, e descobriu que é impossível analisar o outro, porque o outro esconde, omite, ‘em 1984 fui a primeira engenheira a entrar na Vale’, a sociedade acreditou nisso durante quarenta anos, a frase omitia ‘na mesma gerência onde trabalhava meu marido’, essa parte ficou omitida, diante da sociedade, era uma engenheira competente, autônoma, não sabiam que tinha sido demitida em 2005, que o marido conversando com um diretor a integrou de volta, foi preciso ler Talleyrand, “a palavra foi criada para encobrir o pensamento e não para manifestá-lo”, a pessoa fala para encobrir, em Fausse Reconnaissance (1914), concomitante à descoberta do Narcisismo com Jung, sobre o Déjà-Vu, escreveu “Grasset, em 1904, forneceu uma explicação do déjà vu que é preciso ser computada no grupo dos que ‘acreditam’ [gläubigen]”, refere-se à falha por ter acreditado em Jung, a pessoa segue adiante acreditando em uma verdade que pode se revelar falsa, e vir o delírio, “a verdade ignota aos homens é o delírio de quem a anuncia”, escreveu Machado, anunciar a verdade que se descobre ser falsa pode levar ao delírio, à morte, ao crime, à loucura, ao feminicídio, a palavra pode ser usada para encobrir os pensamentos, Machado, pela Petalogia, estava alerta, “Cautella e caldo de gallinha nunca fizerão mal a doente, sobretudo de credulidade, que é moléstia grave”, credulidade é causa de moléstia grave, fazer acreditar no falso pode ser perigosíssimo, Freud descobriu que é impossível analisar o ser humano devido ao Narcisismo do outro, o outro esconde, omite, faz escondido, por trás, pelo verso, manobra segundo seus interesses, ter convivido com você me permitiu vir a compreender essa falha em Freud, e a mesma falha se repetiu em mim quando confiei em você, o ser humano não é confiável, em tempos de feminismo