Escuta, empatia , arte, polémica e comunicação
Porque é que ouvir se tornou tão difícil? No Pergunta Simples, a conversa com Rui Melo cruza teatro, polémica e criação artística para refletir sobre escuta, mudança de opinião e o lugar da arte na discussão pública.
No mais recente episódio do Pergunta Simples, Rui Melo passou pelos principais temas do seu trabalho artístico e pelas ideias que têm marcado a sua reflexão pública sobre comunicação, escuta e o papel da arte na sociedade contemporânea.
Ator, encenador, músico e argumentista, Rui Melo está atualmente em cena com a peça “Arte”, de Yasmina Reza, um texto centrado na amizade, no desacordo e na dificuldade de aceitar o ponto de vista do outro. A peça serviu como ponto de partida para uma conversa mais ampla sobre a forma como lidamos com opiniões divergentes, tanto no espaço público como nas relações pessoais.
Logo no início da conversa, Rui Melo afirmou que um dos maiores problemas do nosso tempo é a perda da capacidade de ouvir. Para o ator, ouvir não é apenas escutar palavras, mas estar genuinamente disponível para mudar de opinião quando confrontado com novos argumentos ou factos. Essa disponibilidade, defende, tornou-se rara numa sociedade cada vez mais rígida e polarizada.
A conversa passou depois para a forma como o debate público se transformou nos últimos anos. Rui Melo criticou a ideia de que todas as opiniões têm o mesmo peso, independentemente do conhecimento ou da experiência de quem as emite, e sublinhou que a proliferação dessa lógica dificulta o diálogo e a aprendizagem. As redes sociais, acrescentou, não criaram este fenómeno, mas amplificaram-no, dando visibilidade a discursos que antes ficavam circunscritos a espaços mais limitados.
No plano artístico, Rui Melo defendeu uma visão da arte como espaço de provocação e fricção. Para si, a função da arte não é confortar nem agradar, mas provocar um efeito emocional e intelectual, mesmo que isso implique desconforto ou polémica. É nesse enquadramento que surge a sua participação em projetos que suscitaram debate público.
Ao falar do trabalho em “O Arquiteto”, Rui Melo fez questão de sublinhar que se trata de uma obra de ficção e não de um documentário. O objetivo, explicou, nunca foi oferecer respostas fechadas, mas levantar questões e incentivar a discussão sobre temas sensíveis, como o abuso de poder, o assédio ou o silêncio coletivo em torno de determinados assuntos. As reações opostas ao projeto — críticas por ir longe demais e por não ir suficientemente longe — foram, para si, um sinal de que a discussão estava a acontecer.
A conversa abordou também os limites da escuta. Rui Melo reconheceu que nem todas as opiniões merecem diálogo e que existem fronteiras pessoais que não está disposto a ultrapassar, sobretudo quando o discurso do outro não procura diálogo ou aprendizagem, mas apenas provocação. Ainda assim, distinguiu essas situações do debate genuíno, que pressupõe escuta mútua e abertura.
No contexto profissional, o ator descreveu o trabalho artístico como um processo de afinação constante: de ritmo, de tom e de relação com o outro. A chamada “química” entre pessoas, afirmou, não é um dado fixo, mas algo que se constrói através da escuta, da atenção e da disponibilidade para ajustar.
Ao longo do episódio, Rui Melo regressou várias vezes à ideia de maturidade e dúvida. Citando uma canção que o marcou, afirmou sentir-se numa fase da vida em que as certezas caducam — não como sinal de fragilidade, mas como consequência natural de quem continua disponível para aprender.
A conversa terminou sem conclusões fechadas, mas com uma ideia transversal a todos os temas abordados: comunicar bem exige tempo, escuta e a capacidade de aceitar que o outro pode ter razão. Num contexto marcado por respostas rápidas e posições rígidas, essa atitude surge como um exercício cada vez mais raro – e cada vez mais necessário.
Uma conversa para ouvir devagar.
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0:00
A Incapacidade de Ouvir e Mudar de Opinião
Ultimamente ando muito aborrecido com a incapacidade das pessoas serem empáticas e tolerantes.
E mais uma coisa, um bocadinho mais mais complicada, que é a capacidade que as pessoas deixaram de ter para ouvir.
0:18
E quando eu digo ouvir, é no sentido de ter uma predisposição para mudar de opinião se for preciso.
Não é ouvir, é isso.
0:38
Pessoa 2
Vivemos num tempo em que toda a gente fala, mas pouca gente escuta.
Um tempo em que as opiniões chegam antes das perguntas e em que mudar de ideias passou a ser visto como uma fraqueza.
Hoje me pergunta simples.
Partimos do teatro para falar de comunicação.
0:55
O nosso convidado é Rui Melo, ator, encenador, músico e argumentista.
Está atualmente em cena com a peça Arte 1 texto sobre a amizade, desacordo e dificuldade, tantas vezes dolorosa de aceitar o ponto da vista do outro.
Uma peça onde um simples quadro branco desencadeia uma discussão profunda sobre o gosto, sobre a identidade e sobre a relação.
1:18
É também.
A partir daqui que começa esta conversa, ao longo do episódio, falamos de escuta, da Liberdade, de humor, de arte como provocação.
E falamos de teatro, de televisão, de projetos como o pôr do sol, o taskmaster, Oo arquiteto, a série.
1:34
Mas, sobretudo, falamos daquilo que parece estar a faltar mais nas conversas de hoje, a capacidade de ouvir sem reagir de imediato e de mudar de opinião, se for caso disso.
Esta não é uma entrevista de respostas rápidas, é uma conversa lenta, é uma conversa com o tempo, porque comunicar bem começa quase sempre por saber ouvir, e isso implica tempo.
1:58
Eu sou o Jorge Correia, isto é o pergunta simples, vamos à conversa?
2:05
Por Que as Certezas Caducam e a Flexibilidade Importa
Muito.
2:10
Pessoa 1
Gira a caneca, pá.
2:11
Pessoa 2
Pá, eu decidi fazer o meu ato de propaganda.
Pensei assim, se eu fizer 111 caneca a dizer perguntas simples, isso pelo menos vai inspirar a Malta a fazer perguntas simples, que são as mais difíceis, não é?
É sempre a.
É sempre a.
2:27
Pessoa 1
Não sei muito bem o que é que são perguntas simples, mas.
2:30
Pessoa 2
Não é as das crianças são as perguntas mais simples do mundo.
Às vezes não, não, ainda não estou a dizer as respostas.
Depois a gente fica à rasca, mas mas eles.
Objetividade não é.
Eles sabem fazer a pergunta, EEE não é.
Não é só objetividade, é.
As crianças têm uma capacidade e um despodor de fazer a pergunta certa.
2:50
Olham e dizem, mas porque é que isto é assim?
E a gente dizia, é pá.
É porque sim, porque sim, não é resposta, não é.
Quer dizer, EE, essa e essa coisa e a gente perde isso, que é uma coisa para para mim, que é assustadora, porque porque é que a gente perde?
Porque é que nós perdemos a capacidade de fazer perguntas?
3:07
Pessoa 1
Pois.
3:07
Pessoa 2
É uma boa pergunta, não é porque é que a gente perde?
É uma, é sempre uma, é sempre uma cena, um bocado pá.
Quer dizer, eu não consigo.
É difícil perceber, porque é que a gente perde a capacidade de fazer perguntas viva.
3:20
Pessoa 1
Olá.
3:20
Pessoa 2
Rui Melo ator, encenador, argumentista, apresentas te como quando vais lá às como o Rui?
Rui, Rui, Rui, olá, eu sou o Rui, olá, sou o Rui, sou Rui.
Olha OOO, Rui quando não está a interpretar ninguém é o quê?
3:35
Pessoa 1
Depende da da circunstância.
Quando sou em casa, sou um chato.
3:39
Pessoa 2
Então, aborreço quem?
3:41
Pessoa 1
Aborreço me a mim e aborreço me os que estão comigo, não eu.
Eu acho que nós estamos sempre, de alguma forma, a representar.
Não é nem que seja porque queremos ser boas pessoas, ou simpáticos, ou.
E há dias em que às vezes não estamos nem nem simpáticos, nem boa, nem boas pessoas.
3:58
Mas AA educação não é obriga nos entre aspas.
Pelo menos tentar a.
4:04
Pessoa 2
Comportar nos.
4:05
Pessoa 1
Sim.
Pelo menos tentar sim.
4:07
Pessoa 2
Então, EE, naqueles dias de neuro, como é que como é que tu fazes poupas os dias, os outros desapareces do mapa o.
4:12
Pessoa 1
Que é que?
O que é que te faço?
Sempre que possível?
Sim, sim.
Aqueles dias, como diz a canção do do Rui, não é hoje não me reconheço.
Há dias assim, EE faço os possíveis para para não me misturar o.
4:26
Pessoa 2
Que é que te aborrece verdadeiramente?
4:29
Pessoa 1
Aborrece?
É.
Há muita coisa que me aborrece ultimamente.
Ando muito aborrecido com a incapacidade das pessoas serem empáticas e tolerantes.
E mais uma coisa, um bocadinho mais mais complicada, que é a capacidade que as pessoas deixaram de ter para ouvir.
4:51
E quando eu digo ouvir, é no sentido de ter uma predisposição para mudar de opinião se for preciso.
Não é ouvir, é isso?
4:58
Pessoa 2
Não é só estar lá e fingir que estamos a ouvir o outro.
5:00
Pessoa 1
Hoje em dia não há essa disponibilidade, as pessoas têm as suas opiniões formadas e mesmo que alguém apresente um facto novo ou um dado novo, ou mesmo que alguém desconstrua por inteiro a opinião que essa pessoa tem, é muito difícil haver uma mudança.
5:17
Pessoa 2
Ficamos.
5:18
Pessoa 1
Rijos, estamos cada vez mais rijos sim, rígidos, rígidos No No sentido de.
Pouco flexíveis à à mudança de opinião.
5:28
Pessoa 2
Alguém inventou agora a minha verdade e a tua verdade, que é que é uma coisa absolutamente extraordinária que é.
Mas é isso, essa.
Essa ideia de que, por um lado, 11 maior egocentrismo somos nós.
É as nossas ideias, a nossa ideia sobre as coisas.
5:45
Mas isso depois está numa.
Terrível incapacidade de aprender, de ouvir o outro.
5:50
Pessoa 1
Mas é, é exatamente é exatamente disso que eu me queixo.
É quanto muito.
Nós temos um ponto de vista, o que não significa que o nosso ponto de vista seja a verdade absoluta.
Eu, eu e à medida que vou ficando mais velho, isto vai se acentuando mais eu.
Eu não tenho problemas nenhuns em em mudar de opinião.
6:07
Acho que é se me tivesse, se eu tivesse num concurso de Miss Universo, me perguntar, qual é a tua maior virtude?
É essa?
6:14
Pessoa 2
Mudar a opinião?
Sim.
6:15
Pessoa 1
Eu, eu não, eu não.
Eu tenho muito poucas certezas.
Há uma canção que eu gosto muito do George Drexler, que é um que é um canta autor uruguaio, que ele diz exatamente isto.
Eu já cheguei àquela idade em que as certezas caducam e eu acho uma frase que adotei como como lema, como mote, acho que uma frase extraordinária, porque é isso mesmo, é, é, nada é tão definitivo.
6:43
EEE eu acho que o que é bom nesta coisa de confessar é é é perceber outros pontos de vista e alterar o nosso forcaso disso.
6:51
Pessoa 2
Quando, habitualmente, até cada vez me apercebo mais de que as pessoas estão.
Quanto mais são desafiadas, no seu ponto de vista, parece que mais colocam uma estaca mais Funda para que não se consiga mexer dali.
7:02
Pessoa 1
Hoje em dia o que eu sinto pode ser só uma perceção minha e entramos aqui No No campo das perceções que tem também.
É muito complicado.
Hoje em dia, a sensação que eu tenho é que levam isso como uma ofensa, e não é.
7:15
Pessoa 2
E, portanto, a discussão pode tornar, se assim, uma coisa profundamente.
7:17
Pessoa 1
Tóxica não é uma discussão.
7:18
Pessoa 2
Não estamos a aprender nada.
7:19
Pessoa 1
Não é uma discussão, uma discussão pressupõe escuta.
7:21
Pessoa 2
Olha, como é que?
Como é que tu vês?
E isso é sempre muito engraçado que é.
Todos hoje sabemos tudo sobre todas as coisas e às tantas temos não médicos a falar de medicina, não engenheiros a falar de engenharia não.
Toda a gente tem uma opinião que parece tão válida como aquele que que passou dezenas de anos a estudar sobre aquela matéria.
7:40
O Estúpido nas Redes Sociais e a Arte como Provocação
Pois mas não é a minha questão é só essa.
A minha questão é essa mesmo.
Não é não, não é.
Eu não posso.
Pedir a um, a um, sei lá, a um, a um matemático?
Se calhar o matemático não é, não é melhor não é o melhor exemplo porque, porque, enfim, porque o conhecimento de matemática implica muita coisa.
8:02
Eu não posso pedir a um mecânico que me que que vá fazer uma cirurgia de.
Cérebro.
8:13
Pessoa 2
Aberto, espero bem que não.
8:14
Pessoa 1
A Maria não é.
Ou seja, a questão é essa, é a quantidade de pessoas que emitem opiniões para já não solicitadas, que é isto o fenómeno das redes sociais?
É uma coisa extraordinária.
Toda a gente acha que tem direito a ter uma opinião.
Aliás, toda a gente tem direito a ter uma opinião, mas toda a gente acha que a sua opinião é válida.
8:30
Pessoa 2
A rede, as redes sociais libertaram o estúpido cá dentro de nós.
Ou de eu ou de eu, lhes visível eu gosto.
8:36
Pessoa 1
De pensar que não tenho estúpido dentro de mim, porque eu também não dou tanta importância assim não só às minhas redes sociais como às redes sociais dos outros, mas sim, deu voz a muito estúpido.
8:46
Pessoa 2
E isso é essa.
8:47
Pessoa 1
Estou a entrar mesmo com os pés juntos, não é?
Estou a.
8:50
Pessoa 2
AI EEEE ficas preocupado com o que é que os outros pensam sobre?
8:54
Pessoa 1
Isso sim.
Claro que fico.
Não fico.
Ficamos sempre preocupados, nem que seja porque isso pode ter.
Bom resultados.
Menos menos, menos bons, menos agradáveis do ponto de vista profissional, por exemplo, Hum.
9:07
Pessoa 2
Pode haver essa?
9:08
Pessoa 1
Reuniões polémicas são sempre nós.
Nós temos de ter, temos de ter cuidado.
Não é o.
9:12
Pessoa 2
Politicamente correto tomou conta da nossa vida?
Isto é, agora Oo nós não querermos, depende o que?
9:19
Pessoa 1
É que significa Oo politicamente correto.
9:21
Pessoa 2
Porque a tua vida, no fundo, é sarapantar as pessoas.
Quer dizer, é criar objetos criativos.
Que é para que é para nós?
Dizermos assim, o que é que está aqui?
O que é que está aqui a acontecer?
O que é que é?
9:30
Pessoa 1
Função da arte não é.
Acho eu que a função da arte deve ser essa.
A sarapantar é uma.
É uma palavra extraordinária.
Adoro é.
É provocar um efeito qualquer.
Seja na representação, seja na pintura, seja na dança, seja na música, é é provocar um resultado, nem que seja de emoção, de raiva, de profundo e profundador.
9:52
Essa é a função da da da arte.
E quem está ligado à arte de alguma forma, como como eu estou?
Esse, esse é esse é é o meu objetivo maior.
10:04
Pessoa 2
Mas não cuidas só daquilo que são os afetos positivos, dessa ideia de que quando estás num palco, te amam profundamente.
Não, não.
Mas que há momentos em que tu podes exercer essa capacidade de do mosquito na sala, que é que dá?
Dá lá umas picadas.
10:20
Pessoa 1
Quando eu estou no palco, não sou eu.
És outro.
Sou normalmente nos espetáculos de teatro que eu faço.
Não sou eu, não sou eu que estou ali.
10:29
Pessoa 2
Como é que se faz?
10:31
Pessoa 1
Esta é a função do ator.
É pegar numa, num texto EE, interpretar o que lá está escrito em função de uma visão de um encenador.
Dando vida.
Eu não gosto muito desta palavra, mas dando vida.
10:47
Àquilo que a personagem pede.
10:48
Pessoa 2
Ajuda me a ajuda me a perceber como é que.
Como é que se constrói isso?
Tu tens um tens um texto?
Inicialmente, imagino que a primeira leitura seja uma leitura.
10:56
Pessoa 1
Mais branca assim?
10:56
Pessoa 2
Neutra para perceber o que é que lá está escrito EEE.
Depois como é que como é que é o processo o.
11:02
Pessoa 1
Processo é, é.
É um processo exaustivo.
É de leitura, de compreensão, de interpretação, de diálogo, muitas vezes de diálogo.
Por exemplo, eu estou em cena com um espetáculo no teatro Mari Matos que se chama arte.
Somos só 3 atores, sou eu, o Cristóvão Campos e o Nuno Lopes, dirigido pelo pelo António pires, no teatro do bairro EOO processo de ensaios foi muito, muito intenso, porque aquele texto da Yasmin na reza é um texto sobre sobre a amizade, sobre os efeitos que a amizade tem ao longo de 20 anos.
11:42
EEEE, aquilo não é muito claro do ponto de vista de uma primeira leitura.
O que é que cada uma personagem sente?
É, é.
É muito mais sobre o que eles sentem do que o que eles dizem.
E esse e esse trabalho de de descoberta do texto é uma coisa dificílima, mas muito interessante do ponto de vista.
12:03
Pessoa 2
Então, mas como é que eu vou saber o que é que tu sentes, o que é que tu sentes em relação a outra personagem se tu não me disseres?
12:07
Pessoa 1
Muitas vezes pelas reações.
Verbais da outra personagem.
12:13
Pessoa 2
Há ali uma sempre um despique entre entre personagens.
12:16
Pessoa 1
AA história é muito simples.
A premissa é muito simples.
Há um tipo, um dos 3 amigos que são amigos há 20 anos compra um quadro absolutamente branco, completamente branco, por 120000 EUR.
12:26
Pessoa 2
Mas isso não é arte?
12:27
Pessoa 1
Essa é a discussão.
12:29
Pessoa 2
Isso é um ponto.
12:30
Pessoa 1
É arte ou não é arte?
O que é que é arte?
O que é que é arte?
E depois isso leva nos para.
OA aceitação ou não da opinião do outro e voltamos também vemos aqui 11 pescadinha de rabo na boca.
Voltamos à conversa do início.
12:41
Pessoa 2
A.
12:41
Pessoa 1
Capacidade de tolerar uma opinião diferente da nossa.
E o espetáculo é por isso é que está sempre esgotado, desde que nós estreamos.
12:49
Pessoa 2
Hum, olha, tu fizeste um personagem que eu.
Antecipo, como tem sido polémico, mas quero ver a tua perspetiva.
A personagem que eu estou a falar é o arquiteto, Hum Hum no fundo o arquiteto, tu me a Serpa Hum Hum baseado numa história verdadeira de um arquiteto, em várias histórias, várias histórias verdadeiras.
13:07
Como é que foi a reação das pessoas contigo?
Tu, tu, uma alusão da história no fundo.
13:12
Pessoa 1
No início, antes da série estrear, não foram as melhores, não foram as melhores porque as pessoas lá está.
13:18
Pessoa 2
Havia um preconceito logo?
13:19
Pessoa 1
Apressaram se AAA tomar um AA formar opiniões sobre assuntos que desconheciam, não?
13:24
Pessoa 2
É, mas, enfim, mas o é.
Todos temos uma opinião daquilo que aconteceu em particular na história principal que nós todos.
Mas a.
13:31
Pessoa 1
História não é a mesma, é outra.
13:32
Pessoa 2
História é outra história, há uma recriação.
13:34
Pessoa 1
Há uma é uma, isto é uma obra de ficção, e o que é que?
13:37
Pessoa 2
E o que é que te diziam a ti para arquiteto?
Malvado, que fazia isto àquelas pessoas e àquelas raparigas.
13:43
Pessoa 1
E eu eu recebi muitas mensagens de de polos opostos.
Curiosamente, uns que que achavam que não se devia tocar no assunto, porque é um assunto que já tinha passado e estava enterrado.
EE isso IA reavivar as memórias de muita gente.
14:02
O.
14:02
Pessoa 2
Nacional de portuguesismo.
14:03
Pessoa 1
Não sei como me apelidar isso, mas mas houve muitas, muitas mensagens nesse sentido e também houve outras.
Já a vaticinar que não iríamos fundo o suficiente é muito curioso.
14:15
Pessoa 2
Queriam que fosses mais fundo.
14:16
Pessoa 1
Sim, houve muita gente EE isso até depois.
Ah, porque aquilo é uma coisa meio soft.
EE, teria sido.
O que eu respondo sempre é aquilo é uma obra de ficção, é uma obra de ficção.
Não é suposto ser uma série documental.
14:33
Pessoa 2
Que é diferente?
14:34
Pessoa 1
Completamente diferente.
Um documentário é um documentário.
14:36
Pessoa 2
Porque aí as pessoas, provavelmente num num exercício de documentários, teriam perguntas que não tinham resposta ainda, que estavam à procura das suas respostas, coisas que não sabem, coisas daquela ideia, daquele preconceito, daquela ideia mitológica.
E eu fico sempre a pensar que um dos papéis principais da arte é criar uma mitologia da nossa maneira, com o conseguirmos ver de uma maneira completamente diferente o papel da arte.
14:58
De ‘Arte’ a ‘O Arquiteto’: A Arte Fomenta a Discussão
Isto, mais uma vez, é sempre uma opinião, mas é é fomentar a discussão.
É fomentar a discussão para mim Oo que me interessa.
O que me interessou ao fazer este papel específico é que se levante.
AA questão é, existe em Portugal assédio sexual profissional nas escolas, nos anos, universidades?
15:18
Pessoa 2
Resposta, sim, sim, sim, claro.
Onde é que ele está?
E Quem É Aquele estás com não estou a afirmar, claro que sim.
15:24
Pessoa 1
Pronto.
A mim, o que me interessa é essa discussão.
É porque haverá sempre quem diga.
Sim, e haverá sempre quem diga não é como a história do racismo não é?
Portugal é um país racista ou não.
15:34
Pessoa 2
Também é um sim claro.
15:36
Pessoa 1
Claramente um sim.
Mas a mim, o que me interessa mais do que estar a estar AA impor a minha opinião é, OK, vamos levantar aqui esta Pedra.
Bora conversar sobre?
15:44
Pessoa 2
Isto, nestas, nestes temas mais delicados, tu achas que é uma espécie de conluio nacional para o não dito?
15:53
Pessoa 1
Não sei se há um conluio nacional.
15:54
Pessoa 2
Implícito, quer dizer, não estou a dizer que nós todos convidamos.
15:57
Pessoa 1
Isto dos meios.
15:58
Pessoa 2
Quando eu estou, quer dizer estou.
Nós estamos a pensar nos grandes temas, mas as as famílias também têm pequenos temas, não é?
Precisamente.
16:04
Pessoa 1
Espera aí, EE?
16:06
Pessoa 2
Não fales disso, porque toda a gente sabe que o tio, o que a tia, o que a avó, o que o avô, ninguém, ninguém toca.
Muitas vezes determinadas feridas.
16:15
Pessoa 1
Sim, por isso é que eu digo.
16:16
Pessoa 2
Vais dar cabo do Natal?
16:17
Pessoa 1
Sim, depende dos núcleos, depende das da nós.
Vivemos fechados como as bolhas, não é?
Estamos fechados nas nossas bolhas.
Depois temos 11 portinha e saímos para a.
Palha do lado e vamos saltando de banho em bolha a todos nós.
Mas, por exemplo, no meu, no meu meio profissional, não há nada que ou há muito pouca coisa que que seja não dita.
16:38
Disto tudo.
É uma coisa que eu gosto muito.
16:41
Pessoa 2
Então a Malta não se zanga.
Estou a pensar aqui no universo.
16:47
Pessoa 1
Estou a estou a tentar que zanga, claro, claro.
16:50
Pessoa 2
Porque é o universo de pessoas que trabalham com emoções, de pessoas que trabalham com comunicação.
16:54
Pessoa 1
Sim, mas deixa, me deixa, me sim, as pessoas zangam, se zangam se.
Mas eu, eu pelo menos gosto de pensar que as que as pelo menos as que me são mais próximas têm essa, a tal tolerância de que AA tal elasticidade que de que falava no início.
17:12
Gosto eu de pensar.
17:13
Pessoa 2
De que conseguem absorver, de que conseguem?
17:15
Pessoa 1
Reagir.
Conseguem ouvir a escuta, a escuta é uma coisa muito importante.
17:20
Pessoa 2
Qual?
Qual é?
Qual é o teu truque para ouvir alguém que não é, que pensa de uma forma diametralmente oposta à tua?
É que sente e que no fim da mãe, vá, vamos lá diretos ao assunto.
Como é que?
Como é que nós conseguimos treinarmo nos para ouvir alguém que pensa alguma coisa que para nós é inaceitável?
17:39
Pessoa 1
Não vamos esclarecer uma coisa.
Há opiniões que eu não quero ouvir.
17:45
Pessoa 2
Há Fronteiras.
17:47
Pessoa 1
Cada um tem a sua.
É o mesmo que os limites de humor, não é?
Existe o limite para o humor, não, eu tenho os meus limites eu não, eu não há coisas que eu não com as quais eu não quero brincar porque mas sou eu não não levo nada a mal que há brinque nada.
No entanto, há há se alguém me me diz que que sei lá se alguém.
18:06
Estou me a lembrar bem, me imediatamente à à cabeça, um representante ou vários representantes de um partido que está em grande força na no nosso, no nosso parlamento, na nossa assembleia e que diz alarvidades alarvidades.
Eu não.
Eu não entro em diálogo com esse tipo de pessoas, mas porque não quero?
18:22
Essas pessoas não têm nada para me ensinar e.
18:25
Pessoa 2
Portanto, tu não as ouves mudas de passeio ou não queres saber?
18:28
Pessoa 1
Não, não quero saber da existência delas sequer porque porque alguém que defende.
Que o que era bom para Portugal era um Salazar.
Eu não, não, não, não há possibilidade de escuta, porque isso isso não é EE.
18:44
São muito mais provocações do que do que propriamente opiniões.
Aquilo é para é para chocar.
E eu isso a mim não me e.
18:50
Pessoa 2
Foi feito para isso, obviamente.
18:52
Pessoa 1
Sim, só para isso é o populismo no seu estado mais puro.
E não, isso não me interessa.
18:57
Pessoa 2
Todavia, isso ressoa Na Na, na, no coração e na e nas pessoas que é, porque é que um conjunto de ideias?
Tão radicais que que não que não fazem sentido em princípio reçoam porque estamos zangados com alguma coisa que acontece e portanto, vemos que que canalizamos a nossa raiva através de através de desse dito.
19:19
Estou a pensar nisso.
Estou como estou a pensar num jogo de futebol, por exemplo, quando só é um jogo de futebol, as coisas que se ouvem num jogo de.
19:23
Pessoa 1
Futebol eu não.
Eu não sei apontar a causa não é.
Não sei qual é a causa.
Sim.
As pessoas estão zangadas, sim, as pessoas querem melhores condições de vida.
19:33
Pessoa 2
E sentem se frustradas.
19:34
Pessoa 1
Sim, EE sentem que nos últimos anos os votos não não correspondem à às expetativas, não é e.
19:45
Pessoa 2
Portanto, sentem se frustradas.
19:46
Pessoa 1
Sim, EE, depois tendem, tendem AA querer terraplanar que é um erro, não é, é um erro.
19:52
A Diversão Inesperada e o Timing Cómico no Taskmaster
Que ficam cansadas?
Olha, já falamos do teatro, obviamente, já falamos do arquiteto.
Há uma experiência.
Que eu adorei.
Eu adoro o programa, que é o taskmaster, que é humor sem guião aquilo não tem guião, certo?
Aquilo, para quem não viu para aí uma pessoa ou 2, se calhar provavelmente é é ir fazer as tarefas mais bizarras e extraordinárias em em Câmara.
20:18
Depois aquilo tem obviamente uma montagem, tem uma edição para aqui, para para, para colocar mais cores naquilo, com o palmarinho e com e com o markl.
Um abraço para o markl, que agora está já em plena, em plena recuperação.
Então, como é que foi fazer o taskmaster?
Olha.
20:33
Pessoa 1
Foi foi das coisas mais divertidas que me cairam na sopa, porque eu não estava nada à espera.
Eu, eu via o programa, mas nunca pensei que me que pudesse para para já ser convidado e depois que quisesse aceitar tinhas dúvidas.
Tinha, tinha, tinha imensas dúvidas, mas depois, quando me ligaram EE, depois ainda percebi quem era o elenco, não é?
20:53
São pessoas que me são muito próximas.
À exceção do.
20:57
Pessoa 2
Que quem é que era o teu elenco era AA?
20:58
Pessoa 1
Gabriela Barros, OA Madalena Almeida e o Cândido do Cândido ainda não conhecia e fiquei absolutamente apaixonado por ele Oo.
21:05
Pessoa 2
Cândido é um ator, não é?
21:07
Pessoa 1
O Cândido é das pessoas que têm maior, melhor tempo de comédia que eu conheço, e aquilo é do é do coração, quer?
21:15
Pessoa 2
Dizer aquilo não é uma técnica, aquilo, aquilo, ela ela está ali.
21:17
Pessoa 1
Uma técnica é só que ele já nasceu com ela.
Aquilo é, é.
É impressionante.
Oo timing de comédia do Cândido é uma coisa.
Que eu, que eu não, não identifiquei muita gente, como é impressionante.
21:28
Pessoa 2
Como é que ele faz aquilo?
Só vende, não é?
21:31
Pessoa 1
Só vende aquilo.
É ele na sua essência.
Eu estou farto de lhe dizer Cândido, tu tens que fazer um espetáculo ao vivo?
Tens que tens que fazer um?
21:39
Pessoa 2
Achas que o vais convencer?
21:40
Pessoa 1
Não sei.
Ele diz que é uma coisa é dizer aqui umas coisas, outra coisa é para um palco e tem pá e ter que cumprir um guião e tal.
21:47
Pessoa 2
Achas que ele tem medo disso?
Quer dizer, eu estou a pensar que eu, eu?
21:49
Pessoa 1
Sei se tem medo, mas mas que o assusta, sim.
21:52
Pessoa 2
Quer dizer, a ideia, a ideia de quando ele conta as histórias com com o Jesus, com esse personagem que a gente não sabe sequer se é mesmo assim ou se está na cabeça dele e que ele projeta como sendo, como sendo alguém que, que que, que que que no fundo é um é um contra, é um contraponto dele.
22:10
É uma coisa absolutamente extraordinária.
22:12
Pessoa 1
Mas é é esse timing cómico que o Cândido tem que o que é?
Quando digo que que não, não conheça muita gente, não conhece muita gente que tem esse timing coming.
É verdade, é.
É extraordinário, é incrível.
22:25
Pessoa 2
Olha, fala me, da tua experiência, quem é que te ligou da produção?
22:28
Pessoa 1
Da.
22:29
Pessoa 2
Produção, e tu pensaste?
22:30
Pessoa 1
Temos aqui.
22:32
Pessoa 2
Um desafio?
22:32
Pessoa 1
Gostávamos que que fizesses parte da próxima temporada.
Eu já tinha ido como convidado e tinha me divertido muito.
Mas aquilo é exigente, aquilo é muito exigente.
22:41
Pessoa 2
Fisicamente.
22:42
Pessoa 1
Não mentalmente é.
É preciso estar muito presente e estar muito disponível para para tentar ser criativo de alguma forma na naqueles desafios.
22:52
Pessoa 2
Portanto, não é só resolver a tarefa, é torná la apetecível para nós que estamos a vê la.
22:58
Pessoa 1
Sim, claro, mas mas na proposta já está isso já está implícito que a coisa tem que ser apetecível, não é?
23:04
Pessoa 2
Tu sabes o que é que o que é, que são as tarefas, não?
23:06
Pessoa 1
Não, não, não sabemos de todo.
Nós Lemos os envelopes naquele momento e agora safa.
23:10
Pessoa 2
Aquele é um momento em que estás ali a filmar, em que abra se e, portanto, aquilo pode tudo acontecer.
23:14
Pessoa 1
É tudo, tudo, tudo.
E às vezes acontece e às vezes não corre tão bem, mas pronto.
Mas isso depois também tem.
Tem a sua graça, o.
23:20
Pessoa 2
Que é que são boas tarefas?
O que é que o que?
Quais foram aquelas que te que te deram gozo ou aquelas que te desassossegaram e tu ficaste a pensar?
23:27
Pessoa 1
Que diabo.
Olha a que eu menos gostei de todas.
Foi uma do último programa que e foi a última tarefa que eu gravei de todos todos os programas.
Foi a última foi foi.
Tenta fazer rir estas 3 adolescentes e eu.
23:46
Pessoa 2
No Jardim, eu lembro me dessa tarefa, elas estão lá sentadas.
23:49
Pessoa 1
EE eu olho para elas e estão 3 miúdas, que são umas queridas, são umas queridas, não estavam assim.
23:54
Pessoa 2
Estavam bucólicas, estavam a dizer agora vou dar, vou te cá dar cabo da pronto.
23:58
Pessoa 1
Estavam a estavam a fazer muito bem o seu, o seu trabalho.
Mas eu ainda por cima, eu eu escolhi a pior de todas que é, eu resolvi cantar uma canção que elas nem sequer conhecem.
Enfim, foi tudo errado.
24:09
Pessoa 2
Portanto, não houve comunicação.
24:10
Pessoa 1
Não houve.
Eu pensei, são 6 da tarde, eu vou perder esta prova.
Não desisti, desisti.
Não gostei nada dessa prova por acaso.
24:19
Pessoa 2
Porque é preciso sempre alguma ligação com o outro para para conseguir fazê lo.
Fazê lo soltar essa emoção?
24:27
Pessoa 1
Depende do outro.
24:28
Pessoa 2
Se outro não quiser.
24:30
Pessoa 1
Não há nada a fazer, não é?
Eu tive uma tarefa que que achei muita graça e é faz rir o markl No No menor, No No tempo mais curto possível.
24:39
Pessoa 2
Mas esse é um cliente mais fácil ou não?
24:41
Pessoa 1
Pois é, o é o interlocutor, não é?
24:43
Pessoa 2
Porque ele próprio, ele próprio se está disponível para se rir, não é?
E foi muito.
24:50
Pessoa 1
Divertido essa essa prova foi mesmo muito divertida.
24:53
Pessoa 2
Lá está nós dependemos sempre muito dos nossos contrapontos, de escolher bem quem é que está ali daquele lado para poder ter uma.
24:59
Pessoa 1
Dúvida?
25:00
A Química no Palco: Construção e Exigência Profissional
Sem dúvida, dependemos sempre muito, seja na no trabalho, seja na vida.
25:05
Pessoa 2
E podemos escolher sempre aquilo que.
25:08
Pessoa 1
Que nem sempre, nem sempre.
Não é na vida pessoal?
Sim, devemos.
Não é na profissional, nem sempre.
25:17
Pessoa 2
Quando tu quando tu tens que contracenar com pessoas que te são mais neutras ou que enfim, cujas as emoções não são tão tão positivas, como é que como é que tu fazes?
25:27
Pessoa 1
Faço como faço com as outras.
A única coisa que eu exijo e que espero que exijam de mim é profissionalismo.
EE tentar sempre fazer o melhor a mim.
O que me chateia na minha profissão é, está bom assim?
É pá.
Está bem AA quantidade de vezes que eu quando faço a novela, a quantidade de vezes que eu já ouvi.
25:47
Está bem para aí?
A novela está bom?
Está benzinho?
Está.
O benzinho para mim é uma coisa.
Isso é uma coisa muito portuguesa, não é?
Está.
25:53
Pessoa 2
Está bem OK, isto também.
25:55
Pessoa 1
Olha, não é preciso.
Não, não.
Eu gosto de quando quando faço uma canção, por exemplo, eu atiro vim de versões para o lixo, não é?
A canção pode não ser boa.
Mas eu tenho a certeza que é é o melhor que eu consegui fazer.
26:10
Pessoa 2
Portanto, vai sempre tentativa e erro, sempre melhorando o processo.
26:12
Pessoa 1
Pode pode sair bem à primeira, não é?
Pode sair bem uma cena contracenada pode sair bem na primeira leitura, mas se não sair, e os e os 2 profissionais, mesmo que não tenham a tal química que as pessoas gostam muito de falar?
AA química é uma coisa que se trabalha, não é afina, se é AA química é é é estar na mesma vibração, não é?
26:33
Se imaginemos que temos aqui 2 pessoas, estou a fazer assim para a Câmara para apanhar.
Uma vibra mais rápido e uma vibra mais lento, não é, é?
26:40
Pessoa 2
Acertar o ritmo.
26:40
Pessoa 1
É, é isto, é OKOK já está e às vezes é mais rápido, outras vezes é mais lento, mas a química é isso.
26:47
Pessoa 2
Olha, esteve aí sentado no teu lugar, a Gabriela Barros, que tu conheces bem, EEAEA Gabriela.
Senta, OCIE, aos 10 segundos da nossa conversa, tomou conta disto?
Lá está.
É uma questão de não só de vibração, mas de de achar que se quer tomar conta disto e de ter uma energia que quer tomar conta desta conversa.
27:04
Há pessoas assim.
27:05
Pessoa 1
Ah, Ah.
E também depende dos dias.
Eu conheço muito bem a Gabriela e ela de facto, tem essa.
Tem uma.
Ela tem uma luz.
Ela tem uma luz que eu, que eu o identifico há muitos anos, é uma.
27:18
Pessoa 2
E quando ela brilha, tu também brilhas que estás lá à frente.
Quer dizer, quer tu queira, quer tu não queres.
Aquilo é um efeito de contágio.
27:24
Pessoa 1
Fazes os outros brilhar, sem dúvida, sem dúvida nenhuma.
27:27
Pessoa 2
E essas pessoas é que são extraordinários.
Olha, eu fui apanhado na curva.
27:31
A Criação de ‘Pôr do Sol’: Humor Irresponsável e Tabus
A ver o teu personagem na realidade, haver uma estou a falar da estava a falar da Gabriela, que é o pôr do sol, que é eu.
Durante as primeiras 3 ou 4 cenas pensei assim, mas estes tipos insaneceram de vez, porque esta telenovela é completamente louca.
A telenovela é o pôr do sol do qual tu foste coautor inicial da da, da, da, de onde é que aparece esta esta bizarríssima e maravilhosa ideia de telenovela.
27:57
Que não é bem uma telenovela, ou é?
27:59
Pessoa 1
Não tem a linguagem de telenovela, mas é é uma.
Eu gosto de pensar naquilo como uma série, portanto, nem que seja pela curta duração.
A primeira temporada teve 16 episódios, mas agora.
28:09
Pessoa 2
Porque é que aquilo acabou quando estava no auge do seu sucesso?
28:12
Pessoa 1
Porque, como diz o Seinfeld, muito bem a frase não é minha, mas se tu comes 11 fatia do bolo de chocolate mais maravilhoso do mundo é ótimo.
Se comes 7, é enjoativo.
28:23
Pessoa 2
E foi.
E essa foi a razão pela qual aquilo aquilo é assim, tão curto, tão curto no sentido, quer dizer.
28:28
Pessoa 1
Foram 2 temporadas, uma de 16, outra de 21.
Filme está ótimo.
28:33
Pessoa 2
E acabou e acabou.
Olha, e de onde é que te vem a ideia daquilo?
28:37
Pessoa 1
Até que nos vem a ideia.
Então, o Manuel, o Manuel de pureza, que é o realizador, e o Henrique Cardoso dias, que é o que é o argumentista, são meus amigos há muito tempo e não se conheciam.
E nós tínhamos feito para ARTP.
Uma série que se chamava desliga a televisão.
28:55
Pessoa 2
Parece um Belo mote.
28:56
Pessoa 1
É 11.
28:57
Pessoa 2
Vender à televisão uma série que é, desliga a.
28:59
Pessoa 1
Televisão a série era a premissa, está na RTP play, é, é uma coisa que tem muita, as pessoas veem muito ainda e eu gosto muito da série.
É a premissa é simples, é estares em casa, com um comando e Veres 30 segundos de de cada programa.
Portanto, tens um reality show, um programa de informação, uma telenovela.
29:16
Pessoa 2
Estás a fazer um zapping, é?
29:17
Pessoa 1
Um zapping exatamente.
A experiência correu muito bem.
Acontece a pandemia o Manuel pureza tinha acabado de filmar Oo até que a morte nos separe e liga me passados 2 ou 3 dias de ter acabado de de filmar e diz me assim, pá, vamos fazer qualquer coisa e eu disse, me Manuel, descansa, eu acho que se filmar há 3 dias, relaxa, não pá.
29:43
Tenho que uma ideia, o que é que, o que é que achas?
Podemos fazer qualquer coisa, não sei quê.
Olha, há aqui uma ideia que a minha e do Henrique dias.
Nós, minha salvo, seja, nós falámos disso em muitos jantares que era.
Então, e porque é que não fazemos 11 espécie de uma sátira às novelas?
30:01
11 novela exagerada com com com um plot muito absurdo, porque nós que fazemos novelas, não é?
Eu faço novelas.
O manel realizou muitas novelas.
Não houve momento nenhum em que às vezes nos chegasse um texto e pensar, pá, isto é uma coisa muito absurda de se dizer, então porque é que não?
30:20
Porque é que não pegamos nessa ideia EE, construímos toda uma narrativa.
30:23
Pessoa 2
Carregar nas tintas, carregar.
30:24
Pessoa 1
Na farinheira.
E foi isso que fizemos.
Basicamente foi isso, marcámos 11 reunião por zoom na altura, estávamos fechados em casa e começámos a desenvolver a ideia do que do que viria a ser o pôr do sol.
Sim.
30:35
Pessoa 2
EE depois desenhas, depois, como é que é?
Tu tens argumentistas para para escrever a.
30:39
Pessoa 1
História Oo argumento é sempre escrito pelo Henrique dias e depois ele ele chama mais 2 ou 3 pessoas, nomeadamente Oo Roberto Pereira, que.
Escreve muito com com o Henrique e escreveu AA primeira e segunda temporada do pôr do sol com ele.
30:56
Mas nós, ainda antes de passar aos argumentistas, desenvolvemos aquilo que é a história, não é, ou seja, no caso do pôr do sol, então esta história vai falar de quem vai falar de uma família, uma família que tem que ter uma empresa ou não.
Vão ser agricultores e vão e vão produzir o quê?
31:14
Cerejas.
E onde é que é?
É em Santarém.
E é uma mansão, mas tem que ter um vilão, um vilão que é mau, porquê?
Porque é só mau, é mau é só porque é mau.
Ah, mas era fixe que tivesse também as gémeas, Ah pá, é giro era, era dar, ter cavalos também, tem que ter cavalos, giro, giro era um cavalo correr para trás, pronto e a coisa vai.
31:31
Ah, mas depois também temos de ter 11 núcleo popular, pobrezinho, como todas as novelas que é, vamos levar, vamos.
31:37
Pessoa 2
Ajudar os pobrezinhos.
31:38
Pessoa 1
Na mouraria e pronto.
E de repente a coisa vai crescendo assim é pá.
É giro.
Giro era ter 11 banda que que toca canções.
Como?
Como ouvem tantas novelas?
Ah, bom, porreiro, vamos criar o Jesus Cristo pronto.
E foi assim, e.
31:52
Pessoa 2
Depois, como é que é?
Como é que é essa?
Como é que se cria essa tensão narrativa?
E esse é o.
31:56
Pessoa 1
Trabalho dos argumentistas aí eu já largo, aí já não.
32:00
Pessoa 2
Eles é que o fazem.
32:01
Pessoa 1
Sim, é o trabalho do argumentista.
32:02
Pessoa 2
Sim, se é uma gémea, são 2 gémeas, se quem é que se zanga com quem?
32:05
Pessoa 1
As as sim.
Quem é que se zanga?
Com quem é trabalho do do argumentista, se há uma gémea ou se há 2 é trabalho dos dos criadores.
32:13
Pessoa 2
E, portanto, tu podes colocar lá as coisas mais absurdas do mundo.
E esperar que depois haja um texto que cumpra esse desígnio e o trabalho dos atores?
Tu fazes o Simão?
Bourbon de linhaça.
32:28
Pessoa 1
Doutor Simão, o vilão, o vilão.
32:30
Pessoa 2
Nasceu assim, ou tu desenvolveste este, este, esta.
32:33
Pessoa 1
Personagem a personagem nasceu assim, é curioso porque a personagem não era para mim.
A personagem não era para.
32:40
Pessoa 2
Mim, então quem é que decidiu?
32:41
Pessoa 1
Isso eu mentira não fui, eu não fui.
32:43
Pessoa 2
Eu saiu lá, casa?
32:44
Pessoa 1
Mas eu.
Mas eu eu comecei a apaixonar me pela aquela personagem à medida que as coisas iam sendo escritas.
EE, às tantas, virei me para eles, os 2 para o rico e para ir para o Manuel e disse, é pá.
Eu gostava de fazer este, este vilão e fiz um bocadinho para eles verem o que é que eu o.
32:59
Pessoa 2
Que é que eu tinhas imaginado o que eu tinha, é.
33:00
Pessoa 1
Pá, este gajo era giro se estivesse sempre com um copo de whisky e falasse sempre assim.
Com este nome?
33:06
Pessoa 2
Estou otimista.
33:07
Pessoa 1
E baixar sempre assim, um bocadinho o queixo para falar e eles acharam muita graça e deixaram me fazer.
33:13
Pessoa 2
Deixa se de fazer o vilão porque é é mais é tu gostas mais de fazer Oo vilão ou o herói?
33:19
Pessoa 1
Depende, eu, eu gosto de fazer tudo, desde que seja bem escrito.
33:22
Pessoa 2
É, é EE.
Depois a relação com os outros, porque aquilo depois naquele elenco, claro que o texto é ótimo e que a filma a gente também.
Mas depois há ali um como é que foi filmar aquilo?
33:33
Pessoa 1
Foi difícil Oo mais difícil de tudo no pôr do sol foi que todos entendessem a linguagem, o tipo de humor, porque é muito fácil em Portugal, o humor.
Isto pode soar um bocadinho pretensioso, mas não é a minha intenção.
É muito fácil o humor entrar no.
33:51
Uma espécie de de abandalhamento eu o humor com o qual eu eu me identifico não é esse.
33:56
Pessoa 2
É humor inteligente?
33:57
Pessoa 1
Não sei se é inteligente para mim.
AA definição perfeita de humor e também não é minha.
É o humor.
Só é humor para quem o vê, para quem o faz.
Não tem de ser.
34:06
Pessoa 2
Portanto, para ti é um trabalho, depois o que interessa é o é o efeito.
34:09
Pessoa 1
Se o texto for bem escrito e for bem interpretado, quem vê é que tem que se rir.
Não sou eu, eu não tenho que fazer.
É uma isso para mim não tem graça.
O que?
34:17
Pessoa 2
É que te faz rir a ti.
34:19
Pessoa 1
Faz me rir.
Por exemplo, 111 frase do do no pôr do sol, quando o Marco delgado Oo Eduardo diz me muito preocupado que pagou 7000 milhões de euros por um cavalo que só corre para trás.
34:36
Isso para ele é um drama.
Isso para ele é um drama.
Isso se não for um drama, não tem graça para mim.
34:43
Pessoa 2
EE é e é isso que que que faz, onde, onde é que onde é que está à força o risco de de uma de uma piada.
34:52
Pessoa 1
Qual é o limite?
34:53
Pessoa 2
Qual é o limite?
Porque No No fundo é isso.
Quer dizer, quando tu estás a desenhar um determinado produto, tu tens que falar para determinadas pessoas e imagino que fazer uma série documental para o YouTube em que possas ter um humor mais radical do mundo.
É diferente de fazer uma, mas.
35:07
Pessoa 1
Nós não tivemos essa preocupação.
Felizmente, AARTP dá nos essa sempre nos deu essa, essa Liberdade.
35:13
Pessoa 2
Foi um ato irresponsável.
35:15
Pessoa 1
Foi um ato irresponsável nesse sentido.
Sim, foi o que é que nos faz a nós rir?
É isto, então de certeza que haverá alguém que se identifique com isto.
35:23
Pessoa 2
Mas, mas, mas se, mas isto podia fazer com que algum tipo de discurso ou de palavras, ou.
De algum personagem que pudesse sair da daquilo que é a possibilidade, isto é alguma coisa com isso, que vocês não controlassem, que vocês não controlassem o seu efeito, porque o que tu me estás a dizer é que o que me interessa é que alguém ria.
35:45
Se essa pessoa que riu, que é o destinatário, funciona, até ótimo.
Mas isso também significa que é correr um determinado risco de que alguém não goste definitivamente daquilo.
Mas.
35:53
Pessoa 1
Isso é a vida, não é?
35:54
Pessoa 2
E que possa protestar?
35:55
Pessoa 1
Mas isso está e estou no seu direito.
Mas aí entra a questão dos limites de humor.
36:01
Pessoa 2
Para ti, existem esses limites do.
36:02
Pessoa 1
Não, não existem.
Não existem limites do humor.
Oo limite do humor que existe é o meu limite.
Então porque é que nós?
36:08
Pessoa 2
Estamos sempre.
Os humoristas estão sempre a alimentar essa conversa, não?
36:12
Pessoa 1
Eu acho, acho o contrário, acho que os o qualquer humorista que se preze não alimente essa questão.
36:17
Pessoa 2
Que apetece que deve acarrecar no pedal para ver até onde é que, onde é que aquilo?
36:21
Pessoa 1
Cada um faz aquilo, desde desde que não ofendas.
Não é OOO.
Difícil é é estipular o que é que é uma ofensa ou não.
Mas é uma piada, pelo amor de Deus.
É uma piada, é uma graça o.
36:32
Pessoa 2
Ponto é que o humor tem essa capacidade das facas de cortar no sítio, certo?
36:36
Pessoa 1
O bom humor, sim, e esse é que é o.
36:38
Pessoa 2
Problema não é o.
36:38
Pessoa 1
Bom humor gera, gera, porque senão é uma coisa estéril, não é?
36:42
Pessoa 2
É uma piadinha, é uma.
36:43
Pessoa 1
Piadola de salão.
E isso a mim não me interessa.
Um exemplo também ainda do pôr do sol, quando nós decidimos fazer uma personagem que é a ceguinha, que é a que é a terceira gémea.
Que é Salomé, que é muito ceguinha, muito ceguinha e que está sempre a dizer que é muito ceguinha e não vê isso pode.
37:02
Só pode ser visto como uma ofensa para os invisuais.
Não é nenhum.
37:07
Pessoa 2
Nenhum.
37:08
Pessoa 1
Protestor pelo contrário, nós recebemos muita mensagem de associações, de de pessoas invisuais a elogiar a forma jocosa como nós brincamos com a situação, porque o que eles sentem é.
37:23
Nas novelas ditas convencionais, há uma espécie de um pudor de brincar com isso, não.
Bora brincar, Bora desmistificar isto, há um véu.
Isto não é isto não é um drama, não é um drama.
As pessoas têm o têm a vidas, têm, têm a sua vida não.
37:40
Oo facto de se brincar com uma ceguinha porque não vê e porque está tudo bem, pode se brincar com isso.
37:45
Pessoa 2
Olha, eu posso ir ao teu, à tua costela de músico?
37:50
A Música nas Palavras: Encenar e Inspirar Atores
Podes.
37:52
Pessoa 2
AA música e o som têm um papel também fundamental na contar a maneira como nós contamos as histórias.
Oo esse ritmo, essa, essa musicalidade, esse som, essa permanência, como é que se consegue criar esse ambiente?
38:07
Lá está sonoro, musical, para que tudo possa fazer sentido.
Porque muitas vezes nós nem sequer nos apercebemos de que quando estamos a ver um filme ou uma série, que há ali uma música, que há ali um som que há ali um ritmo que é marcado muito pela música.
Tu tens esse coração de de de de música.
38:25
O que é que tu levas contigo?
Quando, quando tens que que que atuar?
38:30
Pessoa 1
Eu é muito curioso que eu essa pergunta.
Essa não é uma pergunta nada simples, é.
Mas é uma ótima pergunta.
Eu eu penso em função de música.
É muito curioso isso.
38:39
Pessoa 2
Pensas no ritmo.
38:41
Pessoa 1
Eu acho que a as as palavras dou te um exemplo até mais concreto nas encenações que eu faço.
Eu acho que o texto é 11 espécie de uma partitura, é uma aquilo, tem uma musicalidade, tem um.
Aqui é para acelerar, aqui é para ficar mais lento, aqui é para respirar, aqui é para isso.
38:59
Pessoa 2
Está nas palavras, isto está nas palavras.
39:02
Pessoa 1
Do meu ponto de vista?
39:03
Pessoa 2
Eu estou a pensar, eu, a minha experiência como leitor, às vezes é isso, é que eu estou AA ler determinados livros e acho que aquilo tem um ritmo tão.
39:10
Pessoa 1
Lento é uma musicalidade.
39:11
Pessoa 2
Que me aborrece.
E tem momentos em que aquilo é musicalidade.
Este capítulo estou cheio de sono, mas eu preciso de acabar este capítulo porque ele está aqui com uma com uma tensão muito grande.
Olha EE, encenar tu tu?
Nos primeiros anos, encenaste espetáculos com musicais.
39:26
Pessoa 1
Eu ainda enceno o último espetáculo que eu encenei foi um musical.
39:29
Pessoa 2
Sim, como é que é isso?
39:32
Pessoa 1
É ótimo porque eu tenho essa Valência.
Não sei se é.
É a melhor palavra.
Mas eu, eu sendo músico, torna se mais fácil a comunicação com quem toca o instrumento que com com o diretor musical, com o com quem canta as canções.
39:51
Tenho como tenho a Valência da música.
39:52
Pessoa 2
Como é que é esse trabalho?
O que é que o que, o que é que tu fazes?
39:55
Pessoa 1
Na encenação.
Então, o encenador é o é o que diz, é uma espécie de é uma espécie, não é o é o equivalente a um realizador no cinema, é é quem quem define a estética, quem dá o ponto de vista.
Porque eu acho que 11 encenação é uma questão do ponto de vista, porque há o mesmo texto, pode ter vários pontos de vista, consoante.
40:17
Pessoa 2
É, são os atores não são livres para seguirem o seu percurso.
40:20
Pessoa 1
Os atores são livres para interpretar as personagens, conforme achem.
Que devem interpretar, mas sempre sobre 11 ponto de vista do do encenador.
40:33
Pessoa 2
Antecipa aí uma tensãozinha ou não.
40:35
Pessoa 1
Às vezes, às vezes sim, mas mas é muito importante o papel do do encenador, por isso mesmo, porque se cada ator imagina uma peça que tem 10 atores.
Se cada ator tiver um ponto de vista diferente sobre aquele texto, aquilo não se percebe nada.
40:52
Pessoa 2
É uma orquestra desafinada.
40:53
Pessoa 1
Completamente é a função do maestro.
40:56
Pessoa 2
Tu vais juntar aquelas peças todas, tu vais.
40:58
Pessoa 1
Toca mais baixo aí.
40:59
Pessoa 2
Aproveitar o que é que o que tu estás?
41:01
Pessoa 1
A fazer é bom, mas toca mais baixo, é só isso?
41:04
Pessoa 2
Portanto, a dinâmica do tal ritmo também se consegue através da desta polifonia.
Agora falas, tu agora falo eu agora mais alto, agora mais?
41:12
Pessoa 1
Baixo tem de ser assim para que o conjunto soa uma Harmonia.
41:17
Pessoa 2
OOO, que é o que é para mim, extraordinário.
Quer dizer, esse, esse teu, essa tua ideia musical é para mim muito, muito interessante, porque porque há 11 outra coisa que os atores fazem e que tu também já já fizeste, que é a voz off de enfim, de filmes dobragens e enfim.
41:35
Pessoa 1
Não fiz muitas dobragens, não fiz muitas, mas mas sim, já fiz algumas.
41:38
Pessoa 2
É como é que é a experiência de de ter só voz para contar uma determinada coisa, para aproveitar esse personagem ou para o contar?
41:45
Pessoa 1
É, é como nas canções, acho eu, é mais uma vez, tu, eu.
41:48
Pessoa 2
Tens que interpretar outra vez é é e dar força aqui e não dar força aqui, tirar de acolá.
Sim, há uma técnica específica para, para, para o fazer.
41:56
Pessoa 1
Provavelmente eu é.
Como não?
Não faço muitas dobragens, faço muito mais locuções do que dobragens.
Mas mesmo nas locuções, aquilo tem que ter um, tem que ter 11.
Interpretação não é?
Tem que ter uma não.
Não pode ser uma leitura neutra.
Isso tem a ver com as marcas e tem a ver com os clientes e tem a ver com está.
42:12
Pessoa 2
Se a falar da publicidade, por exemplo.
42:13
Pessoa 1
A publicidade sim, as locuções tem tem muito a ver com a publicidade EE.
Muitas vezes tem a ver com com a com o tom que o cliente, no caso a marca ou o próprio criativo, a pessoa que escreveu o spot ou o anúncio, o tom que quer para para anunciar esse seu produto.
42:33
Pessoa 2
Porque a imagem, a imagem no fundo, tem que responder à ideia de vender um produto, mas, por outro lado, não pode sair.
Daquilo que é AA métrica e a maneira como aquela marca se se.
42:45
Pessoa 1
Posiciona, sim, e há.
E há há diferentes, muito diferentes posicionamentos de de marcas.
42:52
Pessoa 2
Não é?
Como é que isso se faz?
Mas está, está lá, o cliente também que está.
Tu estás a dizer as coisas.
42:58
Pessoa 1
Normalmente, sim, sim.
42:59
Pessoa 2
Que está a dizer, olha, vai mais devagar, olha mais não sei quê aquela.
43:01
Pessoa 1
Frase ali aquela palavra, se calhar era, era mais importante dar mais ênfase que a palavra à marca EE.
Eu às vezes digo muito bem, posso fazer isso, mas olhe, e depois?
Isto perde a intenção, perde a naturalidade, tem a certeza que quer.
E eles às vezes concordam comigo.
Outra vez dizem, não, não, não, mas.
43:17
Pessoa 2
Eu prefiro assim, é um diálogo.
43:20
Pessoa 1
Mais uma vez, tem de ser um diálogo.
43:21
Pessoa 2
O que é que eu quero?
O que é que?
Qual é a perceção?
43:23
Pessoa 1
Qual é o meu ponto de vista?
É este, mas, em última análise, o realizador ou o encenador é quem está do lado, do lado da cabine.
43:30
Pessoa 2
Sim, mas às vezes, nem sempre os clientes sabem bem o que é que querem, não é?
Imagino eu.
43:34
Pessoa 1
Nós estamos cá para fazer propostas.
Essa é a função do do do ator em relação ao encenador.
43:39
Pessoa 2
Olha isto para funcionar assim.
43:40
Pessoa 1
Olha, eu vejo a coisa assim e às vezes, eu que estava a ver a coisa de uma forma, de repente um ator propõe me uma coisa de outra, e eu?
Isso é muito interessante.
43:48
Pessoa 2
Bem visto.
43:48
Pessoa 1
Isso é muito interessante.
Faz nunca mais faz ser diferente, que é uma frase que eu uso muito, nunca mais faz ser.
43:53
Pessoa 2
Diferente é isso.
Acabou mesmo, está fixado, está encontrado, há uma, há uma epifania e é depois este.
43:58
Pessoa 1
Está muito, muito.
43:59
Pessoa 2
Mas eu agora não consigo repetir, ó diabo.
44:01
Pessoa 1
Tens que conseguir?
44:02
Pessoa 2
Vamos conseguir, vamos repetir?
44:04
Pessoa 1
Para criar as condições para que repitas.
44:05
Pessoa 2
Como é que tu és?
Já estamos, já falamos, há bocadinho do do do fator x?
Como é que tu és a fazer castings?
O que é que tu andas à procura?
44:15
Pessoa 1
Tu agora?
44:16
Pessoa 2
Estavas a falar da voz e faz isto é isso é mesmo essa que sim, não sais daí.
44:20
Pessoa 1
Eu, os castings são das coisas mais ingratas para quem os faz e também para quem escolhe.
Não é porque quem quem vai a uma audição, a um casting, tem normalmente 345 minutos no limite para fazer um para convencer alguém a contratá lo é.
44:38
Pessoa 2
Difícil, não é, é?
44:39
Pessoa 1
Muito difícil para já, porque temos de adivinhar o que é que a pessoa que nos.
Que nos está a fazer a audição quero e depois muitas vezes e já me aconteceu estar do outro lado não é ser eu a escolher as pessoas é tu gostavas de ter mais tempo para OKA tua opção não é aquilo que eu estou à procura.
44:59
A tua opção é boa, mas não é aquilo que eu estou à procura.
Mas como é que eu sei agora, se eu te contratar, que tu vais conseguir chegar à à à à opção que eu?
45:08
Pessoa 2
Arrisco ou não arrisco muitas.
45:09
Pessoa 1
Vezes é essa, muitas vezes não é sempre um risco.
É sempre um risco, porque.
45:14
Pessoa 2
Depois tens que fazer crescer aquele fermento, não é?
Tens que fazer crescer aquele bolo.
45:17
Pessoa 1
Porque é impossível alguém apresentar te trabalho pronto em 3 minutos.
45:22
Pessoa 2
Então, e o que é que EEE?
Os mágicos ou as mágicas, aqueles que aparecem e que tu aos 20 segundos?
45:29
Pessoa 1
AI isso também acontece muito.
45:30
Pessoa 2
Não consegues explicar, se calhar o quê?
45:31
Pessoa 1
Não se consegue.
Não se consegue explicar.
Há um fator x eu eu vi uma entrevista do Diogo aqui que te deu.
E ele, ele, sim, eu concordo.
Eu concordo com ele, é.
De repente, o Diogo, o Diogo Infante, para quem não percebeu.
45:46
Pessoa 2
Ele fala desse fator x ele fala das pessoas que que ele que ele é impressionante A Entrevista que vieram do do conservatório, que acabaram de.
45:53
Pessoa 1
Chegam a um palco EEE.
Parece que estiveram ali a vida toda.
E eu concordo com isso.
Não acontece tantas vezes assim, mas de vez em quando acontece.
De vez em quando acontece.
46:02
Pessoa 2
E esse é o momento em que tu sente se no fundo 11 correlação direta com aquela pessoa.
46:09
Pessoa 1
A correlação direta que eu sinto é, eu quero trabalhar com esta pessoa.
Eu quero que ela faça parte deste espetáculo.
46:15
Pessoa 2
EEE, depois se se EE aqueles que têm esse fator XE, depois não trabalham aquilo que que tu.
46:24
Pessoa 1
O fator x não é tudo.
46:26
Pessoa 2
Há depois muito trabalho por trás, não é?
46:28
Pessoa 1
Têm de haver, porque senão não tem interesse.
46:31
Pessoa 2
Porque tu não vibra, não faz, não faz crescer, não faz não.
46:34
Pessoa 1
Passa daquele, é, é, é.
Voltamos à questão do início, é o está bom?
Assim não funciona para mim.
Se tu és um extraordinário futebolista.
46:45
Pessoa 2
Tens que ir mais alto?
46:47
Pessoa 1
Então tens que ser extraordinário, embora ser extraordinário, tens que trabalhar.
46:50
Pessoa 2
Para isso, o ponto é que lá está quem, quem nasceu para uma determinada coisa, depois, às certas, até pode facilitar.
É isso?
46:56
Pessoa 1
Acontece muito, deixa facilitismo, está bom?
46:59
Pessoa 2
Já bom, já chega.
47:00
Pessoa 1
Eu sei o que é que é eficaz, mas isso a mim não me, a mim não me.
47:05
Pessoa 2
Tens que fazer não me satisfaz.
Tens que fazer vibrar, tens que tens que ir.
Como é que tu inspiras essas pessoas?
Como é que tu vais esse essa tua costela de encenador?
Como é que tu vais transformar aquele que é extraordinário naquele que é extraordinário e que pôs ainda mais trabalho em cima?
47:21
Bom.
47:22
Pessoa 1
Há há várias formas de de dirigir.
A minha preferida, a que eu gosto de mais, é é dar.
Ferramentas ao ator para crescer por si próprio.
47:35
Pessoa 2
Isso é o quê?
47:36
Pessoa 1
Dou te um exemplo, ele tem que dizer esta frase zangado, não mexas aí.
E o ator gritor não mexas aí disse, olha eu, eu gostava que tu pensasses, que quando tu dizes não mexas aí é porque já disseste 20 vezes.
47:55
Tens que ter essa bagagem em cima.
Já é a 20ª vez que tu estás a dizer, não me mexas aí.
48:00
Pessoa 2
Já estás farto?
48:01
Pessoa 1
Pode ser farto, depois vamos aos adjetivos, não é?
Podemos adjetivar o que nós, o que nós quisermos.
Pode ser uma coisa meio mas, mas deixa me voltar.
Eu, eu gostava que quando dissesse essa frase tivesse já esse peso.
48:19
E normalmente, quando o ator vai vai experimentar isso, já lhe sou a diferente, já me sou a diferente.
E é esse e esse processo é o que eu acho, é o que eu acho mais.
48:28
Pessoa 2
Tens que pôr uma carga lá que depois represente aquilo sim, que aquilo seja já um esgar seja uma.
48:34
Pessoa 1
E depois é uma questão de fine twoing.
Não é 11 afinação precisa, é um bocadinho, mais um bocadinho está aí, é, é esse tom, é esse tom nunca mais fáceis, de diferente.
48:43
Pessoa 2
E depois, como é que se como é que se consegue isso, o nunca mais faças diferente, como é que se plaste?
48:48
Pessoa 1
Isso cada cada ator sabe de si, não é eu, eu?
Eu, enquanto ator, fixo isso pela musicalidade muitas vezes.
48:55
Pessoa 2
Ah, ouves a música.
48:55
Pessoa 1
É EEE.
Depois, o que é que essa música faz?
Vibrar cá dentro em termos emocionais e depois, OK, eu já sei emocionalmente onde é que eu tenho de chegar para dizer aquela frase?
49:06
Pessoa 2
Portanto, não é um processo de racionalização, não é um processo, também é, é, é um.
49:10
Pessoa 1
Processo de racionalização, claro que é.
49:12
Pessoa 2
Mas o teu disco rígido é musical e, portanto, tu captas a vibração.
49:17
Pessoa 1
Mas AA musicalidade não é só emocional.
A musicalidade é tem muito de racional, não é?
49:23
Pessoa 2
E juntas aquilo tudo tem que se juntar e vais à procura e remiscências da tua memória de quando é que sentiste aquela emoção para conseguir exprimi la.
49:30
O Que Falta Fazer e a Importância da Escuta no Fim
Essa é uma das formas, sim, sim, olha.
49:32
Pessoa 2
O que é que te falta fazer?
Vamos acabar?
Vamos.
49:33
Pessoa 1
Fechar esta conversa é falta me tanta coisa falta me.
49:36
Pessoa 2
Tens vontade de fazer o quê?
Qual é o próximo vaso que vais partir no fundo a isto?
49:42
Pessoa 1
Não sei, não sei, mas tenho, tenho, tenho.
Há muitos textos de teatro que eu ainda quero fazer, há muitos.
Há muitas pessoas de teatro com quem eu ainda não trabalhei.
Há muitos colegas jovens que estão a fazer trabalhos absolutamente extraordinários.
Com quem eu quero e.
49:57
Pessoa 2
Ficas com com inveja de dizer assim.
49:58
Pessoa 1
Inveja, não, inveja não.
50:00
Pessoa 2
Eu quero trabalhar com aquele a.
50:01
Pessoa 1
Profunda admiração é porque eu vejo, eu vejo as novas gerações do teatro.
Há há companhias novas, interessantíssimas, coisas interessantíssimas, e eu e eu, que já tenho 50, começo a pensar e pá.
Mas ele só costuma trabalhar com Malta assim, mais, mais novo, mais cada dia vou, vou chateá lo porque eu gostava.
50:21
Eu gosto mesmo da visão dele, das coisas, portanto, quero, quero trabalhar com ele.
Tenho muitos, muitos assim.
50:25
Pessoa 2
O rímel?
Muito obrigado, obrigado.
Eu?
E fica para uma outra conversa, saber o que é que é, se o quadro branco é arte ou não.
50:32
Pessoa 1
Vão ver o espetáculo no teatro Maria Matos.
50:34
Pessoa 2
Vai ficar, vai ficar até quando?
50:35
Pessoa 1
Até final de janeiro, em Lisboa, e depois vamos para o Porto em.
50:40
Pessoa 2
Fevereiro eu fico sempre frustrado que os grandes espetáculos ficam demasiado muito pouco tempo em em cena.
50:46
Pessoa 1
Este ficou 7 meses, portanto.
50:48
Pessoa 2
Estão a tocar, a esticar isso.
Muito obrigado, obrigado.
Ao longo desta conversa, falamos de teatro, de humor, de televisão e de personagens.
Mas, no fundo, falamos sempre da mesma coisa.
Falamos da dificuldade de ouvir, de aceitar que o outro pode pensar diferente e que isso não é uma ameaça.
51:04
Falamos de arte como o lugar de fricção, de perguntas que incomodam, de silêncios que obrigam a pensar.
Talvez por isso faça sentido terminar onde começamos.
No teatro, na peça arte, onde um simples quadro branco é suficiente para pôr em causa uma amizade inteira.
51:20
Não por causa do quadro, mas porque ninguém está disposto a ceder.
No seu ponto de vista, esta tensão atravessa também esta conversa e atravessa o tempo em que vivemos.
Com Rui Melo, percebemos que comunicar não é vencer as discussões nem ter sempre razão.
A todo o tempo é estar disponível para escutar e, se for preciso, mudar de opinião no mundo saturado de certezas rápidas.
51:43
Talvez isso seja o gesto mais radical.
Eu sou o Jorge Correia.
Isto?
Foi o pergunta simples.
Obrigado por ter ficado até ao fim e até para a semana.