Astor Piazzolla caracterizou sua arte como “música de câmara popular que vem do tango”. A peça que vamos ouvir demonstra claramente esta indefinível fusão realizada pelo compositor: danças como tango, milonga, habanera, valsa, polca estão estruturadas dentro de modelos clássicos como fuga, sonata, tema com variações. Árias, recitativos, leitmotiv, coros e duetos ao estilo operístico despontam no palco com ritmo milongueiro e sotaque tangueiro. Complementando a hibridização mestiça do estilo, Piazzola tempera a harmonia tonal com algum vanguardismo.
A operita Maria de Buenos Aires encena alegoricamente a morte do velho tango para dar lugar ao tango nuevo de Piazzola. E o faz narrando a vida, morte e ressurreição de Maria, figura que abarca todas as mulheres e que, ao mesmo tempo, funciona como símbolo da cidade de Buenos Aires e metáfora do tango. Identifica o nascimento do tango à vida de Maria, o declínio do gênero à morte da personagem e errância de sua alma, e a ressurreição do tango ao nascimento de uma nova Maria como resultado da união de sua sombra com um espírito, o poeta e narrador da história –O Duende.
O próprio autor do libreto, Horacio Ferrer, afirmou ter escrito não para ser entendido, mas para criar uma emoção e uma atmosfera poética, e para isso inclui personagens extravagantes, elementos oníricos, grotescos e fantasmagóricos.
Na operita, a personagem Maria é a encarnação do Tango. Piazzolla e Ferrer são o resumo do passado e o futuro do estilo.
O campo semântico religioso encontra-se em toda a obra, desde a personagem título até alguns movimentos como tangus dei, anunciacion.
Maria de Buenos Aires não profrana nem subverte o evangelho - evangeliza e sacraliza o tango.