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Depois de encerrar uma turnê europeia de 17 apresentações, o acordeonista cearense Nonato Lima faz um balanço de sua trajetória internacional e de sua missão de divulgar a música brasileira além das fronteiras. Entre os momentos mais marcantes está a amizade construída com o francês Richard Galliano, referência mundial do acordeão e um dos músicos que mais influenciaram sua formação artística.
Filho de sanfoneiro, Nonato Lima começou a tocar aos sete anos de idade e passou a se apresentar profissionalmente ao lado do pai ainda na infância. O que começou como uma brincadeira logo se transformou em profissão. "A sanfona virou amor à primeira vista. Nunca mais me separei dela. Ela já é um pedaço de mim", afirma.
Ao longo da carreira, o músico construiu um percurso que o levou a dividir palcos e estúdios com nomes como Dominguinhos, Fagner, Ivete Sangalo, Yamandu Costa e Hamilton de Holanda. A versatilidade que lhe permite transitar entre o forró, a música instrumental brasileira, o jazz e o repertório erudito tornou-se uma de suas marcas.
Essa abertura musical também explica a admiração antiga pelo acordeonista francês Richard Galliano. Nonato conta que descobriu sua obra aos 14 anos, por indicação do sanfoneiro cearense Zé do Norte. Fascinado pela sonoridade do músico francês, passou a estudar sua discografia e a incorporar referências de sua linguagem.
Parceria com Richard GallianoReferência internacional do acordeão, Richard Galliano construiu uma carreira marcada pelo diálogo entre o jazz, a música clássica e a tradição musical dos bailes populares franceses, conhecida como "musette". Incentivado por Astor Piazzolla, criou nos anos 1980 o movimento "New Musette", que modernizou esse repertório ao incorporar influências contemporâneas.
"Ele tem uma forma moderna do jeito francês de tocar. Isso me chamou muita atenção", lembra Nonato. A admiração de fã acabou evoluindo para uma amizade. Depois de anos acompanhando o trabalho do francês, os dois passaram a se comunicar pelas redes sociais, encontraram-se pessoalmente e chegaram a dividir o palco. Recentemente, também gravaram juntos a música "Fou Rire".
O primeiro encontro superou as expectativas do músico cearense. Além da emoção de finalmente conhecer uma de suas maiores referências artísticas, Nonato conta ter sido surpreendido pela acolhida do acordeonista francês.
"Você estar ao lado de mestres que sempre admirou é uma alegria sem fim. Foi a mesma emoção que senti quando toquei a primeira vez com Dominguinhos", afirma. Segundo ele, além do virtuosismo musical, Galliano o impressionou pela simplicidade e generosidade. "Ele me tratou como um filho."
Um instrumento sem fronteirasA convivência com músicos de diferentes países reforçou uma percepção que Nonato leva para os seus espetáculos: embora a sanfona seja associada no Brasil ao forró e à cultura nordestina, o acordeão é um instrumento profundamente enraizado em tradições musicais espalhadas pelo mundo.
"Em cada país existe uma linguagem própria para o acordeão. Na França, ele tem uma história muito ligada à música popular e também à música erudita. Quando apresento a música brasileira, as pessoas muitas vezes se surpreendem com as possibilidades do instrumento", explica.
Durante a turnê, Nonato alternou apresentações, workshops e encontros com músicos locais. Em muitas cidades, foi recebido por brasileiros que acompanham sua carreira há anos e por europeus interessados em descobrir os ritmos do Nordeste. Um sinal, segundo ele, de que a sanfona continua encontrando novos caminhos muito além de sua terra de origem.
A poucos dias do segundo turno da eleição presidencial, o Brasil chega às urnas em um ambiente de forte polarização política e de disputa intensa nas redes sociais. Para o historiador Rodrigo Nabuco de Araujo, professor de Estudos Brasileiros da Universidade Paris 1 Panthéon-Sorbonne, o cenário atual é resultado de transformações profundas ocorridas na última década.
A ascensão das direitas globais, a politização de uma geração formada nas mobilizações de 2013 e o papel crescente dos algoritmos na circulação da informação ajudam a explicar, segundo Rodrigo Nabuco de Araujo, a forte polarização que marca a política brasileira. Historiador e professor de Estudos Brasileiros da Universidade Paris 1 Panthéon-Sorbonne, especialista em história das direitas e da vida política brasileira contemporânea, ele analisa nesta entrevista as transformações que remodelaram o debate público e contribuíram para aprofundar as divisões do eleitorado.
RFI: O bolsonarismo de hoje está inserido em uma rede internacional de direitas?
Rodrigo Nabuco de Araujo: Sim, eu diria que com certeza o bolsonarismo de hoje está ligado a uma direita internacionalizada. Essa corrente está vinculada aos meios de produção, mas também aos meios de difusão e comunicação. Existem relações pessoais entre Bolsonaro e Trump, relações regionais entre candidatos brasileiros e Javier Milei, na Argentina, e várias outras conexões, inclusive com países europeus.
É uma direita muito integrada internacionalmente. Há projetos compartilhados, ideais compartilhados, de liberalização da economia por um lado e conservadorismo em pautas morais e sociais por outro. É uma direita que troca ideias, participa de congressos, debates e discussões. Os meios de comunicação são um elemento central, porque favorecem essa rapidez das trocas e a presença desses grupos em diversos países.
Mas a campanha não é a mesma. Entre o bolsonarismo de 2026 e o de 2018, o que evoluiu nesse movimento?
Talvez o principal elemento atual seja a ausência do componente militar. Jair Bolsonaro tinha uma forte nostalgia da ditadura militar e utilizava isso como argumento político. Flávio Bolsonaro não tem essa nostalgia, pelo menos não a instrumentaliza da mesma forma.
O público também está mudando. A Michelle Bolsonaro permitiu ao bolsonarismo estabelecer um diálogo com o eleitorado feminino, o que não acontecia com Jair Bolsonaro, que enfrentava uma rejeição muito maior entre as mulheres. Há também elementos de continuidade, principalmente no voto evangélico. Silas Malafaia, que já estava presente na campanha de Jair Bolsonaro, continua sendo uma referência importante, assim como outros pastores. Mas eu diria que Flávio Bolsonaro está se mostrando mais preparado do que o pai para enfrentar esta eleição. Isso já pode ser percebido em um discurso mais afiado e mais afinado.
Agora, o projeto de fundo é o mesmo: reduzir o tamanho do Estado, diminuir a independência entre os três poderes, ou seja, reverter parte das conquistas da redemocratização e da Constituição de 1988?
Sim, esse projeto não muda. Inclusive, o Flávio Bolsonaro fez uma declaração, alguns dias depois do primeiro turno, dizendo que uma das primeiras medidas que vai tomar será mudar a Constituição. Então ele tem esse projeto.
Para reduzir direitos e diminuir liberdades?
Isso. Acho que essa palavra, liberdade, tem várias interpretações. Quando falamos em reduzir liberdades, estamos falando de determinadas liberdades. Não da liberdade de empreendedorismo ou da liberdade econômica, mas de uma liberdade política, de uma liberdade social. É uma outra concepção de liberdade. Digamos que o Flávio Bolsonaro seria um libertário conservador, que defende realmente uma redução drástica da participação do Estado.
O presidente Lula perdeu parte do eleitorado jovem que o apoiou em eleições anteriores para esse discurso de Flávio Bolsonaro. O que mudou nessa nova geração de eleitores em comparação com as gerações anteriores, especialmente as que chegaram à vida adulta antes dos anos 2000?
Há uma grande mudança no eleitorado jovem. Eu diria que o principal fator é uma relação muito mais distante com o Estado. Talvez isso esteja ligado à própria profissionalização dessa geração. São profissões mais digitalizadas, menos próximas do que seria o funcionalismo público. Não existe mais aquele ideal dos anos 1970 e 1980 de se tornar funcionário público. Hoje em dia, o ideal é ser o seu próprio empreendedor, ser o seu próprio patrão. Ou seja, não ter relações empregatícias.
Isso representa uma mudança muito grande. E, eleitoralmente, tem impacto sobre a recepção das propostas do governo Lula, que são mais voltadas para grupos que têm vínculo empregatício e relações com o Estado. Assim, são jovens que tendem a buscar candidatos mais liberais, que defendem a liberalização da economia. Eles veem essas políticas sociais como políticas que desviam recursos, que poderiam ser usados para outras finalidades e não para ajudar grupos e classes sociais com os quais não se identificam. Por isso, eles não têm essa identificação com as políticas do governo nem com os projetos do governo.
Como o eleitorado está muito dividido, com algo em torno de 52% a 48%, independentemente de quem vença o segundo turno, podemos dizer que hoje existem dois Brasis dentro do Brasil?
Até muitos Brasis. Há divisões geracionais, territoriais, entre homens e mulheres. O eleitorado está muito dividido, muito polarizado. O Brasil está muito polarizado.
Foi dito muitas vezes que o eleitor do Lula é mais velho do que o eleitor do Flávio Bolsonaro, porque tem uma identificação com o Lula e com a Constituição de 1988 que é diferente da identificação dos mais jovens.
Há também um grau diferente de politização e de identificação de valores?
De identificação de valores, sim. Agora, de politização, de certa forma também, mas os jovens estão politizados. Há uma forma de politização característica do período iniciado em 2013, com as manifestações contra o aumento das tarifas de transporte, que depois deram lugar a movimentos como o Movimento Brasil Livre e o Vem Pra Rua.
Esses movimentos se desenvolveram fortemente na internet e nas redes sociais. Essa geração teve seu primeiro contato com a política nesse momento, nas mobilizações que culminaram nas manifestações pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff. É uma forma de politização, mas uma forma de politização à direita.
Talvez essa geração mais jovem tenha tido um contato maior com esse tipo de politização. Há também outro elemento: ela entra em contato com a política de maneira muito mais autônoma por meio das redes sociais e, muitas vezes, se radicaliza sem a mediação de um partido político, de um professor ou de alguém que possa explicar determinadas questões e promover uma forma de socialização política.
São jovens que têm menos espaços de socialização, outras experiências e outras ambições. Isso contribui para a divisão geracional e também para as divisões territoriais observadas no Brasil.
Você está descrevendo uma mudança profunda, porque novas gerações continuarão crescendo nesse mesmo ambiente.
Na verdade, é uma mudança que não tem volta. Vivemos em um mundo totalmente digitalizado e não há como retornar ao mundo anterior.
Mas os algoritmos têm influência nesse processo?
Totalmente.
Nos últimos dias, houve denúncias de favorecimento algorítmico por parte da Meta, a ponto de o Tribunal Superior Eleitoral intervir a favor da campanha do Partido dos Trabalhadores. Quais podem ser os impactos desse fenômeno no longo prazo?
Não sei quem vai ganhar esta eleição, mas há uma questão importante para o futuro. O Lula está aí para disputar esta eleição, mas daqui a quatro anos não estará necessariamente no mesmo cenário. Portanto, se coloca desde já a questão da renovação da liderança política.
Quanto aos algoritmos, eles são muito importantes. Você tem uma plataforma como a Meta favorecendo determinados conteúdos que chegam com mais facilidade a públicos próximos do Flávio Bolsonaro. Isso é determinante no acesso à informação e na maneira como essa informação circula. Existe uma interferência de uma empresa privada na esfera da comunicação, e isso tem impacto direto sobre uma eleição.
Houve também, por exemplo, o caso do canal Exército do Lula, que ficou impedido de operar por ordem do TSE durante um período e depois teve sua situação revertida.
Agora, falar em ingerência dos Estados Unidos por meio da Meta talvez seja mais delicado, porque a Meta é uma empresa privada e age segundo os seus próprios interesses, que são interesses conservadores. Mark Zuckerberg estava próximo de Donald Trump e tem esse viés conservador, que acaba sendo veiculado também por meio dos algoritmos.
Os algoritmos são um instrumento de direcionamento da informação. Talvez a palavra "manipulação" seja forte, mas eles funcionam como um mecanismo de filtro e moderação. É um instrumento que acaba tendo um viés político negativo para o governo Lula e para a candidatura de Lula.
E também para o eleitorado, porque ele passa a receber apenas parte das informações disponíveis.
Exatamente. O filtro impede que determinadas informações cheguem ao eleitorado. E a Meta controla plataformas como Instagram, WhatsApp e Facebook. Como uma parte enorme da circulação de informações passa por esses três canais, qualquer filtro aplicado ali terá um impacto muito grande.
Creio que o TSE está sendo obrigado a agir justamente para evitar que a disputa ocorra em condições tão desiguais.
Aos 76 anos, o violonista carioca Guinga faz uma nova turnê europeia, que passa por França, Bélgica e Inglaterra, e se encerra no final de outubro em Paris. Autor de uma obra reverenciada por músicos, críticos e intérpretes, Guinga evita falar de si como um mestre. Prefere falar dos encontros. "Eu acho que o palco é como a mesa. Você fazer uma refeição sozinho é bem menos marcante do que você fazer uma refeição com alguém que você ama", disse o artista, em entrevista à RFI.
A comparação surge quando comenta os concertos que divide nesta temporada com músicos como Yamandu Costa, Anna Paes e Débora Dienstmann. Embora cada parceiro traga sua personalidade artística, Guinga diz que suas apresentações não deixam espaço para o acaso. "Eu não improviso nada", afirma. A música, para ele, nasce do trabalho minucioso de composição e do diálogo entre intérpretes que compartilham uma mesma visão da obra.
Anna Paes, cantora e violonista que se dedica há mais de uma década ao seu repertório, tornou-se também parceira de composição do carioca. Já Débora Dienstmann, cantora brasileira radicada na Itália, vem se destacando como uma das intérpretes europeias mais próximas de sua música. Para Guinga, o palco é antes de tudo um espaço de convivência. "Na vida a gente tem que aprender a compartilhar", resume.
A frase ajuda a compreender a trajetória singular de um artista que nunca seguiu os caminhos convencionais da carreira musical. Embora tenha começado profissionalmente aos 16 anos, Guinga interrompeu a atividade artística para estudar odontologia. Trabalhou durante 32 anos como dentista e foi justamente essa estabilidade que lhe permitiu compor sem concessões.
"Eu pude investir na arte, então eu compus a maior parte da minha obra quando era dentista e grande parte dentro do consultório de dentista", recorda.
Daquele consultório saiu uma das obras mais originais da música brasileira contemporânea. Enquanto exercia a odontologia, Guinga compunha canções que mais tarde seriam gravadas por artistas como Elis Regina, Chico Buarque, Clara Nunes, Ivan Lins, Leila Pinheiro, Sérgio Mendes e Michel Legrand. Parceiro de letristas como Aldir Blanc, Paulo César Pinheiro, Nei Lopes e Chico Buarque, construiu um repertório cuja sofisticação nunca perdeu o vínculo com a tradição popular que o formou.
A admiração que desperta entre músicos é proporcional à singularidade de sua criação. Hermeto Pascoal resumiu esse sentimento numa frase que se tornou célebre: "Um cara como esse só aparece a cada cem anos".
Segunda turnê na FrançaA atual turnê europeia é produzida pela cantora, instrumentista e compositora Aurélie Tyszblat, que há anos se dedica à divulgação da obra de Guinga na França. Ela própria se diz surpreendida pelo fato de o compositor ter se apresentado tão pouco em Paris ao longo da carreira, apesar de passar regularmente por outros países europeus. "Eu não explico, mas eu lamento", afirma. Foi essa constatação que a levou a produzir seu primeiro concerto na capital francesa, em 2018. Para Tyszblat, a música de Guinga "ajuda a viver, ajuda a sentir a nossa humanidade" e merece ser transmitida a novas gerações de ouvintes e músicos.
Ao falar dos jovens músicos que encontra nas masterclasses promovidas durante a turnê, Guinga demonstra preocupação com as dificuldades enfrentadas pelas novas gerações para encontrar espaço. "Essa é a luta, é a pessoa se impor fazendo aquilo que ela acredita."
Sem condenar nenhum gênero musical, Guinga defende a liberdade criativa. Em uma de suas imagens mais inspiradas, lembra que até os erros podem abrir caminhos inesperados. "Às vezes você dá uma nota errada num acorde e descobre que ele fica mais bonito com a nota errada."
A reflexão o leva a uma conclusão que vale tanto para a música quanto para a vida: "Eu acho que a missão do ser humano é tentar melhorar nessa baldeação que ele faz aqui no planeta."
Primeiro disco tardioEssa visão humanista reaparece com força quando fala de Aldir Blanc, parceiro decisivo em sua trajetória. Guinga recorda que só lançou seu primeiro disco autoral aos 41 anos e atribui isso, em grande medida, à obstinação do letrista. "Meu primeiro disco foi gravado por uma verdadeira batalha que ele travou para que eu conseguisse fazer meu primeiro disco aos 41 anos."
Ao lembrar do amigo, a emoção ultrapassa o terreno artístico. Além de compartilharem a formação na área da saúde, Aldir Blanc como médico psiquiatra e Guinga como cirurgião-dentista, os dois carregavam experiências semelhantes da juventude sob a ditadura militar. Guinga recorda que ambos enfrentaram a censura ainda muito jovens e chegaram a ser presos antes mesmo de se conhecerem. Essa trajetória comum ajudaria a consolidar, décadas depois, a afinidade que ele descreve como uma verdadeira irmandade. "Ele me ajudou muito como ser humano também."
'Brasil regride' com a família BolsonaroQuestionado sobre o atual cenário político brasileiro, Guinga afirma que "detesta a família Bolsonaro" e acusa o ex-presidente Jair Bolsonaro e seu filho Flávio Bolsonaro, candidato do PL à Presidência, de desprezarem a cultura, privilegiando uma visão de sociedade baseada no armamento da população. Para Guinga, o Brasil frequentemente deixa de valorizar aquilo que considera essencial: a educação, a cultura e a preservação do meio ambiente. "O Brasil, cada vez mais, quanto mais o Brasil pode, mais ele regride e deixa de valorizar o que é realmente de valor", lamenta.
Para ilustrar seu pensamento, recorre a uma frase do antropólogo e educador Darcy Ribeiro, uma referência intelectual que considera mais atual do que nunca: "Muito melhor construir escolas, educar a criança, do que depois levantar muros e construir presídios."
Após um primeiro turno marcado pela vantagem de Flávio Bolsonaro sobre Luiz Inácio Lula da Silva, o cientista político Josué Medeiros avalia que a extrema direita brasileira entrou em fase de consolidação e segue demonstrando força mesmo fora do governo. Em entrevista à RFI, ele afirma que o bolsonarismo se enraizou como movimento social, aponta as mulheres como grupo decisivo da disputa e vê no segundo turno um cenário ainda aberto, apesar da liderança inicial do candidato do PL.
Márcia Bechara, enviada especial da RFI ao Rio de Janeiro
A liderança de Flávio Bolsonaro no primeiro turno recolocou no centro do debate uma questão que ultrapassa o resultado imediato das urnas. Para o cientista político Josué Medeiros, da UFRJ, a eleição de 2026 consolidou a transformação do bolsonarismo em uma força social duradoura, capaz de manter vigor eleitoral mesmo fora do Palácio do Planalto. O fenômeno ajuda a explicar a surpresa das pesquisas, o peso do voto feminino e as incertezas que ainda cercam o segundo turno.
Uma força que atravessa eleiçõesA vantagem de Flávio Bolsonaro no primeiro turno não surpreendeu Josué Medeiros. Para o cientista político e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, o desempenho do candidato do PL é mais um capítulo de uma trajetória iniciada há cerca de uma década e que atravessou mudanças de governo, derrotas, vitórias e sucessivas disputas eleitorais.
Na avaliação do pesquisador, a extrema direita brasileira alcançou um grau de estabilidade que já não permite tratá-la como fenômeno conjuntural. "A extrema direita no Brasil está consolidada", afirma. Segundo ele, esse processo começou a se organizar entre 2015 e 2016 e continuou crescendo nos anos seguintes.
Medeiros argumenta que parte da direita tradicional acreditou que seria capaz de canalizar esse sentimento político e mantê-lo sob controle. O resultado, porém, foi diferente. "A direita tradicional achou que poderia conter esse sentimento, poderia se aproveitar disso", observa. Desde então, acrescenta, o campo bolsonarista demonstrou força eleitoral nas eleições de 2018, 2020, 2022, 2024 e agora em 2026.
Há, segundo ele, um padrão recorrente nesse desempenho. "A gente brinca que o bolsonarismo é um time de chegada, é um time de reta final", diz. Trata-se, na sua leitura, de um eleitorado que costuma crescer nos momentos decisivos da campanha e que apresenta características sociais relativamente estáveis, com forte presença masculina e ligação expressiva com o agronegócio.
Mais que um partido, um movimentoPara Medeiros, compreender o bolsonarismo apenas como estrutura eleitoral ou partidária já não é suficiente para explicar sua permanência. Embora observe que esse campo político ainda não tenha criado uma legenda própria, ele enxerga um grau de enraizamento social e cultural que vai além das disputas institucionais. "Do ponto de vista cultural, do ponto de vista social, do enraizamento, é um movimento", afirma.
Essa característica ajuda a explicar por que parte significativa de seus apoiadores permanece fiel mesmo após anos de intensa polarização. Para os eleitores mais identificados com o movimento, diz o pesquisador, acontecimentos conjunturais tendem a ter pouca capacidade de alterar preferências.
Isso não significa, porém, que toda a disputa esteja cristalizada. Medeiros estima que exista uma parcela menor do eleitorado ainda sujeita a mudanças. "Você tem aí uns 10% do eleitorado que oscila", afirma. É nesse universo que, segundo ele, as campanhas concentram boa parte de seus esforços no segundo turno.
Questionado sobre análises segundo as quais Flávio Bolsonaro poderia explorar um discurso de ingovernabilidade caso Lula fosse reeleito, Medeiros demonstra ceticismo quanto ao potencial eleitoral dessa estratégia. Na sua avaliação, o argumento encontra mais ressonância em segmentos específicos do que entre os eleitores comuns. "Esse argumento é um argumento mais para o empresariado, para a elite jurídica", afirma. O eleitor médio, diz, dificilmente fará esse tipo de cálculo institucional ao decidir seu voto.
O cientista político enxerga inclusive uma possibilidade inversa. Segundo ele, a campanha petista pode transformar essa discussão em um ativo político ao destacar os possíveis efeitos de uma concentração de poder nas mãos do adversário. "Se o Flávio Bolsonaro ganhar, ele vai ter todos os instrumentos na mão para mudar as instituições brasileiras", argumenta.
Abstenção como 'nova normalidade'O elevado número de ausências registrado no primeiro turno foi apontado por parte dos analistas como um dos elementos mais relevantes da eleição. Medeiros, porém, prefere uma interpretação mais cautelosa. Para ele, os dados não indicam necessariamente uma grande desmobilização do eleitorado brasileiro. O pesquisador lembra que a diferença em relação ao último pleito presidencial foi relativamente pequena. Segundo os números citados por ele, a abstenção passou de 20,95% em 2022 para 21,5% em 2026.
Por isso, sua conclusão é menos dramática do que parte das análises difundidas após a votação. "É mais uma nova normalidade eleitoral", resume.
O peso das mulheresSe houve um grupo decisivo no primeiro turno, Medeiros acredita que ele já estava diante dos analistas desde a eleição anterior. "Quem foi decisivo para a eleição já tinha sido assim em 2022. São as mulheres", afirma.
Segundo ele, o recorte de gênero tornou-se uma das clivagens mais importantes para compreender o comportamento eleitoral contemporâneo, tanto no Brasil quanto em outras democracias. "As mulheres rejeitam mais a extrema direita, os homens aderem mais", resume. Na leitura do pesquisador, é justamente essa diferença que torna o eleitorado feminino particularmente relevante em disputas equilibradas. Mulheres seriam, segundo ele, mais pendulares e mais abertas a rever escolhas ao longo da campanha.
Ao tentar explicar a perda de aproximadamente 4 milhões de votos de Lula entre 2022 e 2026, Medeiros aponta essa hipótese como um caminho de investigação. Embora ressalte que os dados ainda precisarão ser consolidados pelo Tribunal Superior Eleitoral, ele considera possível que parte importante desse movimento tenha ocorrido justamente entre eleitoras. "Provavelmente a gente ainda vai ter que estudar os dados depois da eleição", ressalva. Ainda assim, afirma que as mulheres "podem ser um fio decisivo para o resultado do segundo turno".
Insatisfação com governo LulaA liderança obtida por Flávio Bolsonaro também provocou uma revisão de expectativas construídas durante a campanha. Para Medeiros, o choque não atingiu apenas partidos e militantes de esquerda. "Não foi só o campo progressista. Os institutos de pesquisa não viram", afirma.
Segundo ele, praticamente todas as pesquisas indicavam um cenário de vantagem para Lula às vésperas da votação. Quando o resultado das urnas apresentou direção oposta, o impacto foi generalizado. Uma das explicações, afirma, está no voto útil concentrado nos momentos finais da campanha. Mas essa não seria a única variável em jogo.
O cientista político acredita que também houve um grau de insatisfação com o governo Lula que escapou à mensuração dos levantamentos eleitorais. "Por que o presidente Lula perdeu quatro milhões de votos em quatro anos? Isso é mais difícil de entender", observa. Na sua avaliação, parte da resposta passa justamente por esse sentimento de descontentamento.
Quando imagina como a disputa de 2026 poderá ser estudada daqui a uma década, Medeiros evita previsões definitivas e lembra que o significado histórico da eleição dependerá também do resultado do segundo turno. Ainda assim, identifica desde já alguns elementos marcantes.
"É uma eleição que a extrema direita mostra força estando fora do governo", afirma.
Outro aspecto que considera fundamental é o caráter anti-sistema da disputa. "Acho que esse elemento é muito importante", diz, apontando esse traço como uma das possíveis marcas históricas do pleito.
A aposta numa viradaO professor arrisca uma previsão: uma virada de Lula. Sua expectativa tem uma dimensão política explícita, ligada à "defesa da democracia", mas também se apoia em um cálculo eleitoral. Flávio Bolsonaro, afirma, enfrenta uma rejeição elevada, que tende a se tornar mais visível numa disputa direta entre dois candidatos.
Medeiros associa essa dinâmica a um padrão internacional, segundo o qual um segundo governo de extrema direita costuma ser pior do que o primeiro. A avaliação reforça sua preferência por uma vitória de Lula, mas não é o único elemento de sua projeção. Para ele, a concentração dos votos no segundo turno pode ampliar o peso da rejeição ao candidato do PL.
“Eu brinco que é uma final de campeonato, uma final de Copa do Mundo, e aí quem está com a maior rejeição tende a sair prejudicado e hoje a rejeição do Flávio Bolsonaro é maior”, afirma.
Inspirada na histórica greve das mulheres na Islândia, em 1975, quando cerca de 90% delas interromperam suas atividades por um dia, a organização World with Women convoca uma mobilização internacional em 13 de outubro para chamar a atenção para as desigualdades de gênero ainda existentes no mundo. A iniciativa reúne mulheres em mais de 20 países e terá seu ato central em Paris, na Place de la Bataille de Stalingrad (19° distrito), às 12h.
Adriana Moysés, da RFI em Paris
Em entrevista à RFI, a coordenadora internacional da WwW, a brasileira Ligia Paraiso, explicou que a organização nasceu na França, no primeiro semestre de 2026, a partir de uma reflexão simples: "O que é esse mundo sem as mulheres?". A resposta remete diretamente à experiência islandesa, considerada um marco na luta pelos direitos femininos.
"Na Islândia, em 1975, 90% das mulheres pararam. Não foram trabalhar, não fizeram os serviços domésticos, não fizeram compras", recorda. Segundo Ligia, essa mobilização massiva causou uma verdadeira transformação social e mental. A principal proposta deste ato, concentrado em 24h, é justamente tornar visível um trabalho frequentemente invisibilizado.
"Nós iremos parar para que o invisível, ou seja, o trabalho da mulher, tenha mais visibilidade no mundo."
Embora seja uma organização recente, a WwW já ampliou sua presença internacional. De acordo com Ligia Paraiso, o movimento está ativo em mais de 20 países e reúne participantes em mais de 30 cidades francesas.
A iniciativa conta ainda com o apoio de personalidades de destaque na política e em organismos internacionais. Entre elas estão a ex-ministra francesa da Igualdade entre Mulheres e Homens, Élisabeth Moreno, a economista mexicana Gabriela Ramos, atualmente vice-diretora-geral da Unesco, e a ex-ministra tunisiana da Mulher, Família e Infância, Néziha Labidi.
Além da mobilização simbólica, o grupo pretende influenciar políticas públicas e práticas empresariais. Segundo Ligia, cerca de 250 organizações, associações e empresas já aderiram ao projeto. "Já estamos realmente com um apoio bem considerável", diz, citando entre os apoiadores entidades como a Climate House, a Orange Business e a Fondation des Femmes.
Dez medidas concretasA coordenadora afirma que a World with Women estruturou sua atuação em dez medidas concretas organizadas em cinco grandes compromissos: liberdade das mulheres, direitos das mulheres, melhor compartilhamento do poder, construção de um futuro mais justo e sustentável e promoção do interesse geral.
Para justificar a urgência da mobilização, ela cita dados das Nações Unidas. "Se continuarmos como estamos hoje, vamos levar 300 anos para alcançar a igualdade política e, em média, 134 anos para atingir a igualdade econômica", afirma. "Nós queremos mudar isso e acreditamos que a World with Women pode ser um catalisador para que não seja necessário esperar três séculos por essa igualdade."
Ato em ParisNo dia 13 de outubro, o movimento pretende reunir mulheres e homens em Paris e em diversas cidades ao redor do mundo. Na capital francesa, o ato está previsto às 12h, na Place de la Bataille de Stalingrad, no 19° distrito da capital. A orientação é que, sempre que possível, as mulheres interrompam suas atividades durante 24 horas. Para aquelas que não podem aderir à paralisação, a proposta é participar por meio das redes sociais.
"Mulheres que têm o privilégio de poder parar vão parar por aquelas que não podem", resume Ligia. Segundo ela, a mobilização também busca incluir mulheres que vivem em países onde manifestações desse tipo enfrentam restrições.
Ligia faz questão de destacar que o movimento não se posiciona contra os homens. Pelo contrário, aposta em uma atuação conjunta para acelerar mudanças sociais. "Homens também são super bem-vindos. Nós não estamos contra os homens. Queremos essa mistura, essa ação conjunta. São mulheres e homens juntos para mudar o curso do futuro da história", conclui.
Mais informações sobre a mobilização estão disponíveis no site da organização e em suas páginas nas redes sociais.
Apesar da crise da leitura e do fechamento de livrarias, a literatura brasileira continua despertando curiosidade e interesse na França, impulsionada por editoras especializadas, festivais literários, universidades e novos temas que dialogam com as preocupações da sociedade francesa. A avaliação é da professora emérita da Sorbonne Nouvelle, Jacqueline Penjon, uma das principais especialistas em literatura brasileira no país e responsável por traduzir para o francês obras fundamentais da cultura brasileira.
Em entrevista à RFI, Penjon afirma que o cenário atual é muito diferente daquele que ela conheceu no início da carreira. Segundo a professora e tradutora, a presença brasileira no mercado editorial francês se consolidou graças ao trabalho de agentes culturais que ajudaram a ampliar o acesso dos leitores à produção literária do país.
“Há uma diferença enorme entre os anos 1970 e hoje. Há uma série de editoras especializadas, livrarias especializadas e também eventos”, afirma. Ela destaca ainda que, assim como acontece com a música brasileira, a literatura continua atraindo um público jovem: “A literatura interessa muito um público jovem, o que é muito bom”.
Penjon atribui parte desse interesse aos intercâmbios literários entre os dois países. Ela lembra a primeira edição do festival Les Belles Étrangères, em 1987, quando o Brasil foi o país convidado e uma delegação de escritores percorreu a França, reunindo nomes como Jorge Amado, Lygia Fagundes Telles, Ferreira Gullar, Nélida Piñon, João Ubaldo Ribeiro, Rubem Fonseca e Raduan Nassar. “Uma dúzia de escritores brasileiros esteve presente e realmente foi uma grande descoberta para o público”, recorda.
Se durante décadas os nomes mais associados à literatura brasileira na França foram Jorge Amado, Clarice Lispector e Machado de Assis, o interesse dos leitores franceses se diversificou progressivamente.
A partir dos anos 1980 e 1990, autores contemporâneos e gêneros variados passaram a conquistar espaço na França. Além dos grandes clássicos, escritores como Milton Hatoum e Patrícia Melo ajudaram a ampliar o interesse do público francês pela produção brasileira contemporânea, incluindo a literatura policial e novas vozes da ficção nacional.
Nas universidades, os clássicos permanecem centrais nos cursos de português e estudos lusófonos. No entanto, Penjon observa uma mudança significativa entre os estudantes de pós-graduação, que têm demonstrado interesse crescente por temas ligados às transformações sociais do Brasil.
“Entre os estudos de mestrado, a gente vê muito esse tipo de escolha, que antes não tinha”, explica. Segundo ela, obras de autores indígenas, de mulheres negras e de escritores que abordam questões sociais contemporâneas encontram receptividade entre os jovens pesquisadores franceses. “Agora os jovens escolhem esses livros”, ressalta.
Mudança nos hábitos de leituraA professora reconhece, porém, que o hábito de leitura enfrenta desafios. Como em outros países, as redes sociais e o consumo digital reduziram o tempo dedicado aos livros. “Infelizmente está diminuindo, porque a internet e as redes sociais já ocupam o tempo todo”, lamenta. Ainda assim, ela acredita que a formação universitária e a existência de bibliotecas, sebos e livrarias especializadas ajudam a preservar o contato com a literatura.
Mesmo diante das mudanças no mercado editorial, Penjon vê razões para o otimismo. O surgimento de novas livrarias dedicadas à produção lusófona e o interesse contínuo por autores brasileiros indicam que o diálogo cultural entre os dois países permanece vivo.
Riqueza estilística é freio para IAA pesquisadora também acredita que a riqueza estilística da literatura brasileira representa um limite para o avanço da inteligência artificial no trabalho de tradução. “Guimarães Rosa, traduzido por uma inteligência artificial, não é possível, não é possível”, afirma, sorrindo diante do exemplo que considera uma demonstração dos limites da tecnologia na tradução literária.
Para a professora emérita da Sorbonne, embora ferramentas automatizadas possam servir para textos mais simples, a tradução literária continua exigindo a sensibilidade e a criatividade dos tradutores humanos.
Em um contexto de transformação dos hábitos de leitura, a literatura brasileira segue encontrando leitores na França. E, segundo Jacqueline Penjon, o interesse não se restringe aos grandes clássicos: ele se renova à medida que novos autores brasileiros chegam às livrarias francesas e dialogam com questões que mobilizam as novas gerações.
Cantora, compositora e instrumentista, Virginia Cambuci apresenta ao público o álbum “Après Tout” (“Depois de tudo”, em português), seu trabalho mais recente, coroando uma trajetória de 25 anos construída entre o Brasil e a Europa. Nascida no Tocantins, criada em Fortaleza e radicada na França desde 2011, ela leva sua mistura de música popular brasileira, jazz e ritmos afro-brasileiros contemporâneos a festivais e importantes palcos de jazz da capital francesa.
Virginia descobriu sua vocação artística na música gospel e deu os primeiros passos profissionais em Fortaleza antes de se mudar para a Europa. A experiência vivida entre a Espanha e a França ajudou a moldar uma obra aberta ao diálogo entre diferentes culturas e linguagens musicais.
“Foi aos 17 anos que eu comecei a trabalhar com a música no Brasil, já em Fortaleza. Viajei para a Espanha aos 22 anos e, desde então, faço essas viagens entre Espanha e França”, conta.
Essa experiência de deslocamento geográfico e cultural aparece de forma particularmente forte em “Tantas Histórias para Contar”, álbum lançado em 2015. O disco reúne influências diversas e inclui uma canção em francês, Le noir gris de Paris, inspirada pelos primeiros anos de adaptação à capital francesa.
“Foi um trabalho onde eu pude escrever as experiências que vivi desde a minha saída do Brasil. Os dois primeiros anos aqui foram difíceis”, relembra. Apesar da década transcorrida desde o lançamento, o álbum continua ocupando um lugar central em sua trajetória. “Até hoje eu faço festivais de música do mundo com esse álbum.”
O novo trabalho reflete algumas das transformações mais marcantes vividas pela artista nos últimos anos, entre elas a pandemia de Covid-19, uma separação e o nascimento do filho. Desse conjunto de experiências surgiu um repertório mais pessoal, que dialoga com o universo do jazz brasileiro.
“Depois de tudo isso, eu ainda consegui voltar a escrever, a compor e a fazer novas canções”, diz Cambuci. Artista independente, ela vê o disco como uma reafirmação de sua trajetória criativa. “Apesar de tudo, volto a atacar com outras composições.”
Do formato intimista às formações mais amplasAo longo da carreira, a cantora transitou entre diferentes formações e projetos, buscando músicos capazes de dialogar com universos específicos, da música afro-brasileira ao jazz, sem perder a conexão com as raízes brasileiras.
“Eu tenho a sorte de ter encontrado músicos extraordinários desde o começo da minha carreira”, afirma. “Para cada formação, preciso de pessoas que possam me dar o som que estou buscando.”
Essa abertura também foi ampliada pelo contato com músicos de diferentes nacionalidades. Segundo ela, a convivência artística na Europa permitiu expandir as possibilidades da música brasileira sem abrir mão de sua identidade.
“Eu pude abrir o leque de opções da música e do que eu posso fazer com a música brasileira. Outros artistas colocam outras cores. Por isso é tão prazeroso e tão rico.”
Parceria com RaíEssa capacidade de construir pontes entre universos distintos ficou evidente na recente parceria com o ex-jogador Raí na canção Subindo a Ladeira, lançada durante a Temporada Cultural Brasil-França, em 2025. A ideia nasceu depois que a cantora assistiu a uma apresentação informal do ex-capitão da Seleção Brasileira e do PSG.
“Eu pensei: ‘Espera, mas ele canta bem’”, diverte-se. O convite foi aceito de imediato e a gravação surpreendeu pela rapidez. “Ele gravou, cantou e ainda dançou.”
Paralelamente ao trabalho solo, Virginia também apresenta o grupo Cambuci, dedicado a uma sonoridade afro-brasileira contemporânea. O projeto estará em destaque nesta quinta-feira, 8 de outubro, no Café de la Danse, em Paris, onde a artista fará a primeira parte do show da cantora de jazz Manu Le Prince. O repertório reúne canções que abordam temas como a condição feminina, a natureza e o cotidiano, sempre sob o signo da positividade.
“A gente decidiu fazer letras que sejam positivas. Vamos falar sobre a luta da mulher, sobre a natureza, sobre o dia a dia, mas sempre com muita positividade.”
“Sou francesa, mas tenho o coração brasileiro”, resume a cantora e compositora Manu Le Prince, que há mais de três décadas mantém uma relação profunda com o Brasil. Esse vínculo está no centro de “Terra Canta”, seu novo álbum gravado entre Paris e o Rio de Janeiro, em que a artista aproxima jazz e música brasileira em um repertório que passa por nomes como Dorival Caymmi, Milton Nascimento, Hermeto Pascoal e Marcos Valle.
Recém-chegada do Brasil, Manu Le Prince descreveu com entusiasmo a recepção ao novo repertório. A cantora realizou apresentações ao lado de músicos ligados a algumas das maiores referências da música instrumental brasileira, experiência que definiu como um privilégio.
“Foi realmente muito lindo, com uma turma de músicos muito especiais”, contou. Entre eles estavam o baterista Márcio Bahia, colaborador histórico de Hermeto Pascoal, e o pianista Kiko Continentino, conhecido por sua proximidade artística com Milton Nascimento. “Foi um grande presente”, resumiu a cantora.
Em entrevista à RFI, Manu destacou a importância de Milton Nascimento em sua aproximação com a música brasileira. Segundo ela, o primeiro contato com a obra do compositor mineiro foi determinante para a escolha de cantar em português.
“O Milton foi realmente a razão que me fez cantar música brasileira”, afirmou. “Fiquei tão emocionada quando ouvi pela primeira vez que realmente me deu essa vontade de cantar música brasileira.”
A admiração se reflete também em sua discografia recente. Em um álbum anterior, dedicado ao saxofonista americano Wayne Shorter, Manu gravou canções de Milton Nascimento, entre elas “Tarde” e “Vera Cruz”, reafirmando o diálogo constante entre o jazz e a música popular brasileira em sua obra.
Os quatro elementos como fio condutorEm “Terra Canta”, a artista buscou reunir diferentes influências musicais e culturais a partir de um conceito inspirado nos elementos terra, água, fogo e ar. O projeto reúne composições brasileiras, standards do jazz e canções francesas em uma mesma narrativa poética.
“Eu quis fazer essa mistura de várias coisas diferentes”, explicou. Segundo ela, os quatro elementos funcionam como um eixo que permite aproximar repertórios de distintas origens. “Foi uma maneira de reunir essas coisas diferentes, de países diferentes”, disse.
O álbum inclui homenagens à natureza, referências à Amazônia e composições inéditas, como uma parceria com o músico Jorge Continentino, autor da música para a qual Manu escreveu a letra.
A descoberta de uma canção francesa pelo público brasileiroEntre os momentos marcantes da passagem pelo Brasil, Manu destacou a reação do público a uma obra pouco conhecida fora da França: “Les Fourmis Rouges”, do compositor e cantor Michel Jonasz.
A artista contou que a canção, apresentada durante os shows que antecederam o lançamento oficial do disco, despertou grande curiosidade entre os espectadores brasileiros. “Os brasileiros não conhecem, eles adoraram essa música quando nós fizemos lá”, relatou.
As apresentações serviram como uma espécie de pré-lançamento do álbum, que chegou às plataformas e lojas no final de agosto, após concertos realizados no Rio de Janeiro e em São Paulo.
O lançamento também recebeu elogios da imprensa especializada francesa. Em resenha publicada pelo portal Latins de Jazz, a jornalista Nicole Videmann descreveu “Terra Canta” como "uma viagem musical de rara intensidade poética" e destacou a criação de um "universo musical refinado e acolhedor, propício às emoções". A crítica ressaltou ainda a capacidade de Manu Le Prince de reunir jazz, música brasileira e canção francesa em uma obra concebida como uma ode à natureza.
Uma banda franco-brasileira para a turnê francesaA nova turnê pela França reflete a mesma ponte cultural que marca o álbum. No concerto programado para o Café de la Danse, em Paris, no dia 8 de outubro, Manu estará cercada por músicos dos dois países.
Do lado brasileiro, participam o saxofonista Raul Mascarenhas e o baixista Acelino de Paula. A formação também inclui o filho da cantora, Gaël Le Prince Caetano, herdeiro de uma dupla identidade franco-brasileira. Gaël é filho do baterista paulista Tatá de Paula, músico já falecido e figura importante na trajetória pessoal e artística da cantora.
Entre os músicos franceses estão o contrabaixista Philippe Bussonnet e o baterista Arnaud Dolmen, um dos nomes mais premiados do jazz francês contemporâneo. Manu também anunciou participações especiais, entre elas a trompetista Stéphane Belmondo e o pianista Léo Montana.
A vantagem de Flávio Bolsonaro (PL) no primeiro turno das eleições no Brasil pode ser explicada por dois fatores principais: as pesquisas voltaram a subestimar o eleitorado bolsonarista e a campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva interpretou de forma equivocada o desejo de mudança manifestado pelos eleitores, avalia o cientista político Gaspard Estrada, membro da unidade Sul Global da London School of Economics (LSE).
Adriana Moysés, da RFI em Paris
Para Estrada, o resultado confirmou uma tendência já observada nas disputas presidenciais de 2018 e 2022: as pesquisas têm dificuldade em captar o tamanho real do eleitorado bolsonarista nos últimos dias de campanha. Segundo ele, a votação de Lula ficou próxima das projeções dos institutos, enquanto Flávio Bolsonaro voltou a superar as expectativas. "Há muito claramente essa situação em que as pesquisas erram ao estimar o número de eleitores do bolsonarismo", afirmou.
O cientista político também identifica um erro de diagnóstico na campanha petista. Em sua avaliação, Lula disputou a eleição sob a premissa de que o eleitorado buscava a continuidade das políticas implementadas durante seu governo, quando os resultados das urnas apontam justamente para uma demanda por mudanças.
"O próprio slogan da campanha do presidente Lula, 'Brasil pronto para mais', sinaliza justamente uma vontade de continuidade com as políticas públicas atuais", observou. Para Estrada, a composição do futuro Congresso e o desempenho da direita nas urnas mostram que uma parcela significativa dos eleitores deseja uma mudança de rumo. "O que demonstra esta eleição, e em particular o Legislativo, é que há um grande sentimento de mudança", resumiu.
Embora a campanha petista tenha incorporado esse discurso nas semanas finais da corrida eleitoral, a correção de rota teria ocorrido tarde demais. "É evidente que isso hoje é insuficiente, sem uma chacoalhada geral e uma mudança de rota no discurso", avaliou.
O pesquisador afirma que o presidente precisará promover uma revisão profunda da estratégia para o segundo turno. Na sua análise, não bastará mobilizar a base tradicional do lulismo. Será necessário convencer os eleitores indecisos e aqueles que deixaram de comparecer às urnas de que um novo mandato pode produzir transformações concretas em suas vidas.
Estrada observa, porém, que ainda há fatores capazes de influenciar a mobilização do eleitorado na reta final da campanha. Entre eles está o pagamento do Bolsa Família com o reajuste de 15% anunciado por Lula em meados de setembro, previsto para 19 de outubro, na semana do segundo turno. Na avaliação do cientista político, a medida pode ter reflexos sobre a participação eleitoral e ajudar o presidente a recuperar parte da desvantagem registrada no primeiro turno.
Fortalecimento do bolsonarismo no CongressoEstrada considera especialmente relevante o fortalecimento institucional do bolsonarismo no Congresso Nacional. Segundo ele, a ampliação da bancada do PL no Senado terá consequências que ultrapassam a atual disputa presidencial.
"Esse resultado é muito significativo politicamente", afirmou. O cientista político lembra que os senadores exercem mandatos de oito anos e possuem prerrogativas decisivas em temas como a aprovação de autoridades, a composição do Supremo Tribunal Federal e eventuais processos de impeachment. "A consequência política disso vai além de um [eventual] mandato de Flávio Bolsonaro", destacou.
Na Câmara dos Deputados, ele vê outro dado histórico. Estrada observa que a reforma eleitoral aprovada para reduzir a fragmentação partidária está produzindo um Parlamento com menos legendas relevantes. O principal beneficiário desse processo, afirma, foi o bolsonarismo, que alcançou um resultado recorde de 121 deputados federais.
"Quem é o maior beneficiário político desta situação é o bolsonarismo", afirmou. Segundo o pesquisador, trata-se de um desempenho que não era registrado no país desde 1994.
Questionado sobre a reeleição de políticos envolvidos em denúncias de corrupção, desvio de recursos públicos e lavagem de dinheiro, como no caso Master, Estrada rejeita a ideia de que o tema tenha deixado de influenciar o comportamento dos eleitores. Para ele, a corrupção continua sendo um fator importante na política brasileira, mas sua capacidade de influenciar o voto varia de acordo com a identidade política do eleitor.
"Quando o escândalo de corrupção chega ao bolsonarismo, isso não tem uma variável realmente forte para explicar o voto", afirmou. Já quando as denúncias atingem adversários políticos, especialmente ligados ao PT, o impacto tende a ser maior. "Quando é na oposição ao Partido dos Trabalhadores, aí sim essa corrupção tem um resultado prático", concluiu.
Apesar da vantagem obtida por Flávio Bolsonaro no primeiro turno e do fortalecimento do bolsonarismo no Congresso, Estrada não considera a eleição decidida. Segundo ele, Lula ainda dispõe de reservas de votos entre os eleitores dos candidatos derrotados que não se identificam com a direita bolsonarista, além dos milhões de brasileiros que se abstiveram. Para o cientista político, a capacidade de mobilizar esse eleitorado será determinante para o resultado do segundo turno.
A produtora Mariana Genescá apresenta no Festival de Cinema Latino-Americano de Biarritz dois documentários com olhares distintos sobre o Brasil contemporâneo: Pau D'Arco, premiado em festivais brasileiros e dedicado à luta por justiça após um massacre de trabalhadores rurais no Pará, e A Fabulosa Máquina do Tempo, que acompanha crianças de uma pequena cidade do Piauí. Em entrevista à RFI, ela falou sobre a importância de levar essas histórias ao público internacional.
Maria Paula Carvalho, enviada especial da RFI a Biarritz
Enquanto um documentário revisita uma das mais violentas disputas fundiárias da história recente do Brasil, o outro mergulha no universo lúdico de crianças que descobrem o direito de imaginar o próprio futuro. Os dois longas documentários brasileiros em competição no Festival de Cinema Latino-Americano de Biarritz têm em comum a produtora Mariana Genescá, que vê nas obras uma reflexão sobre o impacto das políticas públicas.
"São dois filmes muito diferentes entre si, mas que falam de coisas muito caras para a gente", resume a produtora. "Um é muito duro, muito difícil. O outro traz esse frescor e essa esperança."
Justiça após o massacreExibido em Biarritz na segunda-feira (28), Pau D'Arco, da jornalista e diretora Ana Aranha, acompanha os sobreviventes da chacina ocorrida em 2017 na Fazenda Santa Lúcia, no Pará, quando uma operação policial terminou com a morte de dez trabalhadores rurais.
Segundo Mariana Genescá, o público francês demonstrou interesse tanto pela história quanto pelo contexto político brasileiro. O debate após a sessão permitiu discutir os desafios da reforma agrária, mas também avanços alcançados nos últimos anos.
Uma das principais conquistas destacadas pela produtora foi a regularização da terra ocupada pelas famílias que protagonizam o documentário. "O assentamento foi conquistado pelas famílias que ocuparam a terra. As famílias estão recebendo a posse da terra. Isso a gente considera uma importante vitória", comemora.
Além da questão fundiária, o filme acompanha a longa batalha judicial em torno do caso. Genescá destaca que a repercussão da obra contribuiu para manter o tema em evidência e ampliar a mobilização em torno do julgamento.
"Depois de oito anos parado, o julgamento foi agendado. Os policiais vão a júri popular e poderão finalmente ser julgados", afirma. Ela ressalta, porém, que ainda existem desafios importantes, entre eles a identificação e responsabilização dos mandantes do massacre.
Uma infância no sertãoO segundo documentário apresentado por ela em Biarritz, A Fabulosa Máquina do Tempo, da diretora Elisa Capai, troca o cenário dos conflitos agrários pelo cotidiano de crianças do município de Guaribas, no interior do Piauí.
Narrado por uma menina de dez anos, o filme acompanha a passagem da infância para a adolescência e nasceu de uma relação de longa duração entre a diretora e a comunidade. Guaribas ficou conhecida por ter sido a cidade-piloto do programa Bolsa Família.
Para Genescá, a obra oferece uma perspectiva otimista sobre o Brasil contemporâneo. "Esse filme é um sopro de esperança", define.
A partir do olhar infantil, o documentário aborda temas complexos como desigualdade social, machismo estrutural e alcoolismo. "A partir do olhar das crianças, de uma forma muito lúdica, a gente discute temas muito complexos e muito sérios", explica a produtora.
A história acompanha uma geração que cresceu com acesso a oportunidades antes inacessíveis para muitas famílias da região. "É uma geração de meninas que pela primeira vez tem o direito de sonhar, que tem comida na mesa, que pode frequentar a escola", destaca.
Da Berlinale para a FrançaDepois de estrear em fevereiro deste ano na mostra Generation do Festival de Berlim, na Alemanha, A Fabulosa Máquina do Tempo chega agora ao público francês.
A recepção na Berlinale, segundo a produtora, foi marcada por sessões lotadas e forte participação do público. A expectativa é que o interesse europeu pelo Brasil e pela América Latina contribua para ampliar o alcance da obra.
"Eu acho que eles vão aproveitar muito. Vão poder viajar com a gente nessa máquina do tempo", diz.
Cinema como transformação socialPara Mariana Genescá, a presença simultânea de dois documentários brasileiros na competição de Biarritz representa mais do que um reconhecimento profissional. É também uma oportunidade de mostrar como o audiovisual pode contribuir para o debate público.
"Eu acredito realmente no audiovisual como ferramenta de reflexão e de transformação social", afirma.
Em sua avaliação, Pau D'Arco e A Fabulosa Máquina do Tempo se complementam ao retratar duas faces do país: de um lado, a violência provocada pela ausência de direitos e políticas públicas; de outro, as possibilidades abertas quando essas políticas chegam à população.
"Que a gente possa usar os filmes como ferramentas de memória para não esquecer o que aconteceu", diz a produtora. "E que a gente possa também, com o audiovisual, sonhar futuros", conclui.
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