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todos os dias, barcos compridos apinhados de turistas descem o rio Mekong de Huay Xai a Luang Prabang.
chama slowboat porque o barco não tem motor. os condutores empurram o leito do rio com uma vara comprida, uma grande gôndola descendo o décimo segundo rio mais longo do mundo.
o Mekong nasce da neve derretida nas montanhas do Tibet, desce pela China, cria a fronteira entre o Mianmar e o Laos, então a tríplice fronteira Mianmar-Laos-Tailândia onde pego o slowboat, entra no Laos serpenteando montanhas, faz uma curva para o sul em Luang Prabang e avança formando a fronteira entre a Tailândia e o Laos, volta pro Laos e se espalha, abre um arquipélago de quatro mil ilhas, volta a se ajuntar no Camboja, faz outra curva, desta vez para o oeste, e entra no Vietnã, onde finalmente deságua no Oceano Índico.
águas com cheiro de arroz.
a jornada da fronteira da Tailândia até Luang Prabang dura dois dias, com uma parada para pernoite em Pak Beng. Pak Beng são duas ruas de hotéis e restaurantes que enchem ao cair da noite e esvaziam no alvorecer.
foi difícil conseguir um hotel, tive que me contentar com um quarto com cama de casal, um basculante e paredes quase da largura da cama, que dividi com uma inglesa que conheci no barco. felizmente, Tracy é bem-humorada e organizada.
eu nunca tinha ouvido falar do Laos, país agrário espremido entre China, Tailândia, Camboja e Vietnã. sem saída pro mar. é o Mekong que manda, com suas cheias e baixas.
a paisagem varia pouco ao longo da travessia. descemos o rio largo quase em silêncio, um alívio depois de um três dias dentro de minivans, songthaews e tuktuks barulhentos. montanhas dos dois lados, plantações de arroz às margens, praias de areia, crianças, mulheres, homens e búfalos se banhando nas águas barrentas e tépidas, quase quentes neste março.
poderia ser um cruzeiro chic, mas as alfândegas que são só casinhas de madeira de cada lado do rio, o desconforto das cadeiras de ônibus velhas e mal parafusadas no barco, a ausência de serviço de bordo e o quarto de hotel do pernoite com apenas uma (1) mini janela nos lembram que pagamos muito barato - e que estamos adentrando um dos países mais pobres do leste asiático.
pobre em recur$o$ financeiro$, ressalto, mas riquíssimo em paisagens ribeirinhas tropicais, plantações de arroz e sorrisos, muitos sorrisos de seu povo acolhedor. crianças e adultos acenam para nosso barco, acenamos de volta.
a viagem termina em Luang Prabang.
do rio, primeiro vemos o monte Phou Si, verdejante com um templo encarapitado no topo, então despontam as pagodas douradas e templos de pedra da antiga capital do reino Laosiano. uma cidade-jardim.
seu centro histórico, tombado pela Unesco, tem 33 quarteirões de ruas estreitas e arborizadas. palácios, templos, mosteiros e seus pátios coexistem com casas tradicionais de madeira e casas coloniais de até 2 andares, do tempo de dominação francesa. as vielas estão repletas de orquídeas de diferentes cores e aromas.
penso na mamãe, que tanto aprecia orquídeas, imagino a gente caminhando juntas por essas ruas perfumadas.
por causa dos inúmeros templos, também são inúmeros os monges, quase onipresentes nas ruas com seus trajes e guarda-sóis laranjas. adoro vê-los fazendo coisas normais, como os dois monges crianças na beira do rio brincando com duas bóias de câmara de caminhão.
por causa dos antigos colonizadores, há boas padarias. inclusive uma que tem um excelente pain au chocolat.
mas o normal (e mais barato) é comer arroz soltinho, arroz grudento ou macarrão de arroz, com vegetais, frango, peixe fresco e muitos temperos.
ah, e frutas, muitas frutas. meu suco preferido até agora foi um de mamão, abacaxi, coco, castanha de cajú e muito gelo, porque o calor é menor entre as árvores, mas não dá trégua.
como o país não tem resorts, os turistas vêm pra cá em menor número que na Tailândia. e quem tá afim de festa se decepciona com o toque de recolher à meia noite, estabelecido pelo governo totalitário comunista.
por outro lado, a indústria do turismo resolveu esse “problema” se aproveitando da corrupção e leis menos severas para explorar um comércio de drogas como eu nunca tinha visto.
no bar de mochileiros que fica à beira do rio, com redes e cadeiras de praia muito convidativas, há, além do cardápio normal de bebidas e comidas, um de drogas que oferece ópio, cogumelos, maconha e o insano “disco bucket”, com tudo isso mais uísque e energético. me mantenho longe, porque não quero ficar doidona, nem ter problemas com autoridades por aqui e muito menos sofrer mais um acidente além do de moto, ainda fresco na memória e no joelho. engraçado que até as drogas ilegais aqui são naturais e relaxantes.
aliás, a dupla canadense Ojee e Jenny aportou por aqui dois dias depois de mim, pelo mesmo caminho rio abaixo. a cicatriz da Ojee é só um risquinho comparada com a minha, que ainda é uma ferida que eu tenho que cuidar.
felizmente, aqui é um lugar delicioso para descansar. passo os dias na beira dos rios. um mercado noturno movimentado tem comida boa, variada e barata, artistas tocando e dançando, muitas pessoas indo e vindo, mercadorias lindas e curiosas, mas eu não tenho dinheiro, sorry miss.
hoje eu observo com meu caderninho na mão.
no Laos o tempo passa devagar como o slowboat, bordeando as montanhas.
a cada curva, me apaixono mais.
By Livia Aguiartodos os dias, barcos compridos apinhados de turistas descem o rio Mekong de Huay Xai a Luang Prabang.
chama slowboat porque o barco não tem motor. os condutores empurram o leito do rio com uma vara comprida, uma grande gôndola descendo o décimo segundo rio mais longo do mundo.
o Mekong nasce da neve derretida nas montanhas do Tibet, desce pela China, cria a fronteira entre o Mianmar e o Laos, então a tríplice fronteira Mianmar-Laos-Tailândia onde pego o slowboat, entra no Laos serpenteando montanhas, faz uma curva para o sul em Luang Prabang e avança formando a fronteira entre a Tailândia e o Laos, volta pro Laos e se espalha, abre um arquipélago de quatro mil ilhas, volta a se ajuntar no Camboja, faz outra curva, desta vez para o oeste, e entra no Vietnã, onde finalmente deságua no Oceano Índico.
águas com cheiro de arroz.
a jornada da fronteira da Tailândia até Luang Prabang dura dois dias, com uma parada para pernoite em Pak Beng. Pak Beng são duas ruas de hotéis e restaurantes que enchem ao cair da noite e esvaziam no alvorecer.
foi difícil conseguir um hotel, tive que me contentar com um quarto com cama de casal, um basculante e paredes quase da largura da cama, que dividi com uma inglesa que conheci no barco. felizmente, Tracy é bem-humorada e organizada.
eu nunca tinha ouvido falar do Laos, país agrário espremido entre China, Tailândia, Camboja e Vietnã. sem saída pro mar. é o Mekong que manda, com suas cheias e baixas.
a paisagem varia pouco ao longo da travessia. descemos o rio largo quase em silêncio, um alívio depois de um três dias dentro de minivans, songthaews e tuktuks barulhentos. montanhas dos dois lados, plantações de arroz às margens, praias de areia, crianças, mulheres, homens e búfalos se banhando nas águas barrentas e tépidas, quase quentes neste março.
poderia ser um cruzeiro chic, mas as alfândegas que são só casinhas de madeira de cada lado do rio, o desconforto das cadeiras de ônibus velhas e mal parafusadas no barco, a ausência de serviço de bordo e o quarto de hotel do pernoite com apenas uma (1) mini janela nos lembram que pagamos muito barato - e que estamos adentrando um dos países mais pobres do leste asiático.
pobre em recur$o$ financeiro$, ressalto, mas riquíssimo em paisagens ribeirinhas tropicais, plantações de arroz e sorrisos, muitos sorrisos de seu povo acolhedor. crianças e adultos acenam para nosso barco, acenamos de volta.
a viagem termina em Luang Prabang.
do rio, primeiro vemos o monte Phou Si, verdejante com um templo encarapitado no topo, então despontam as pagodas douradas e templos de pedra da antiga capital do reino Laosiano. uma cidade-jardim.
seu centro histórico, tombado pela Unesco, tem 33 quarteirões de ruas estreitas e arborizadas. palácios, templos, mosteiros e seus pátios coexistem com casas tradicionais de madeira e casas coloniais de até 2 andares, do tempo de dominação francesa. as vielas estão repletas de orquídeas de diferentes cores e aromas.
penso na mamãe, que tanto aprecia orquídeas, imagino a gente caminhando juntas por essas ruas perfumadas.
por causa dos inúmeros templos, também são inúmeros os monges, quase onipresentes nas ruas com seus trajes e guarda-sóis laranjas. adoro vê-los fazendo coisas normais, como os dois monges crianças na beira do rio brincando com duas bóias de câmara de caminhão.
por causa dos antigos colonizadores, há boas padarias. inclusive uma que tem um excelente pain au chocolat.
mas o normal (e mais barato) é comer arroz soltinho, arroz grudento ou macarrão de arroz, com vegetais, frango, peixe fresco e muitos temperos.
ah, e frutas, muitas frutas. meu suco preferido até agora foi um de mamão, abacaxi, coco, castanha de cajú e muito gelo, porque o calor é menor entre as árvores, mas não dá trégua.
como o país não tem resorts, os turistas vêm pra cá em menor número que na Tailândia. e quem tá afim de festa se decepciona com o toque de recolher à meia noite, estabelecido pelo governo totalitário comunista.
por outro lado, a indústria do turismo resolveu esse “problema” se aproveitando da corrupção e leis menos severas para explorar um comércio de drogas como eu nunca tinha visto.
no bar de mochileiros que fica à beira do rio, com redes e cadeiras de praia muito convidativas, há, além do cardápio normal de bebidas e comidas, um de drogas que oferece ópio, cogumelos, maconha e o insano “disco bucket”, com tudo isso mais uísque e energético. me mantenho longe, porque não quero ficar doidona, nem ter problemas com autoridades por aqui e muito menos sofrer mais um acidente além do de moto, ainda fresco na memória e no joelho. engraçado que até as drogas ilegais aqui são naturais e relaxantes.
aliás, a dupla canadense Ojee e Jenny aportou por aqui dois dias depois de mim, pelo mesmo caminho rio abaixo. a cicatriz da Ojee é só um risquinho comparada com a minha, que ainda é uma ferida que eu tenho que cuidar.
felizmente, aqui é um lugar delicioso para descansar. passo os dias na beira dos rios. um mercado noturno movimentado tem comida boa, variada e barata, artistas tocando e dançando, muitas pessoas indo e vindo, mercadorias lindas e curiosas, mas eu não tenho dinheiro, sorry miss.
hoje eu observo com meu caderninho na mão.
no Laos o tempo passa devagar como o slowboat, bordeando as montanhas.
a cada curva, me apaixono mais.