à toa pelo mundo

romance descalço no Camboja


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pai, mãe e demais leitores des-insteressados na minha vida sexual, neste episódio TEM (finalmente!)

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suíço, 2,10m de altura, olhos azuis, músculos fortes, voz grave e melodiosa, pés descalços. conheci o Joel saindo de Don Det a caminho da rodoviária de Nakong (quer dizer, no ponto de ônibus na calçada da estrada que termina em Nakong). a gente era vizinho de cabana na Rua do Nascer do Sol.

Don Det, oásis tranquilo na fronteira entre Laos e Camboja que também é um dos últimos lares do boto do sudeste asiático. desfrutei do paraíso deitada na rede observando o nascer e o pôr do sol, reencontrando amigos que conheci nas estradas tailandesas e laosianas, escrevendo e nadando no rio. 

mas meu visto pro Laos estava expirando e os amigos espanhóis Claudia e Javier estavam pedalando no Camboja a caminho do Laos. eu queria encontrá-los em Siem Reap, onde ficam as ruínas da antiga cidade de Angkor. era hora de seguir viagem.

eu só tinha trocado saudações à distância com o Joel antes da nossa partida pro Camboja. esperando o barco que ia nos tirar da ilha, puxei conversa perguntando Are you traveling barefoot?

ele explicou que tinha perdido seu par de chinelos nalguma noite muito chapada no Reggae Bar e não encontrou nenhum outro que coubesse nos seus pés-lancha tamanho 52. ficou por isso mesmo. seus dedos e solas calejados por escaladas em rochas nos Alpes não precisam de sapatos numa ilha de trilhas de terra. seguia viagem sem eles.

Joel trabalha como pedreiro-demolidor em Zurique durante metade do ano e viaja para paraísos de mochileiros maconheiros na outra metade, gastando as economias até precisar ganhar mais francos suíços. seu sonho é largar a Suíça de vez e abrir um hostel no sudeste asiático, provavelmente no Laos, plantar a própria maconha e viver uma vida de boas.

ele estava há 50 dias em Don Det e teria ficado mais, mas a erva tinha acabado e ele resolveu comprar só quando chegasse no país vizinho. o plano era ir direto para a Lazy Beach, em Koh Rong, ilha ao sul do Camboja, como tinha feito nas duas outras viagens pra região. eu fiquei indignada que, por duas vezes, ele tinha passado reto por Angkor, um dos poucos pedaços de história cambojana que o Khmer Rouge não tinha apagado.

puxei papo pra ser simpática, mas descobrimos que gostávamos da companhia um do outro, mesmo que tivéssemos prioridades diferentes.

o ônibus estava atrasado, sem nenhuma previsão de chegada, então comprei um baralho na lojinha ali perto, dessas típicas de beira de estrada no Laos que vendem o essencial para viajantes: comida, água, badulaques, dramin e valium (sim, valium, no balcão, sem receita. no, thank you). ele nunca tinha jogado cartas na vida (!), então eu ensinei alguns jogos simples e passamos as 3 horas de atraso no meio-fio da “rodoviária” envolvidos no carteado e batendo papo, formando laços.

sentamos juntos no ônibus e seguimos trocando experiências de viagem, anseios, sonhos pro futuro. em algum momento passamos a trocar também olhares, carinhos e beijos tímidos. nossas realidades tão diferentes cruzadas na estrada.

na minha vida não tem lugar pra esse homem bonito, grande e doce, mas sem sapatos nem ambição. exceto aqui, chacoalhando num ônibus Laos abaixo e Camboja adentro, mãos se cruzando, se esbarrando, se entrelaçando, jogando cartas.

dos dois lados da estrada, muitas terras abandonadas, cercadas com arame farpado e, em alguns trechos, fios elétricos, com o aviso escrito em inglês e cambojano do not cross, landmine field. armas da guerra contra os Estados Unidos ainda estão ali, desmembrando pessoas e famílias há mais de 50 anos. ao chegar em Siem Reap, não me surpreendi, mas me entristeci com a quantidade de pessoas mutiladas pedindo dinheiro nas ruas.

à meia noite, chegamos na parada de ônibus em que nossos destinos se dividiriam. eu seguiria para o oeste e ele para o sul, pra capital Phnom Penh e de lá pro litoral. Joel perguntou o que eu achava se ele mudasse de roteiro e fosse comigo pra Siem Reap. e se eu gostaria de dividir um quarto com ele lá. respondi com um sorriso safado, deslizando minha mão pela parte interna de sua coxa.

nossos beijos ficaram mais intensos madrugada adentro num ônibus voador, que avançava rompendo todos os limites de velocidade numa estrada poeirenta e esburacada. quando chegamos, lá pras 3 da manhã, meu corpo formigava de tesão.

meus amigos espanhóis estavam no Garden Village e fomos pra lá também. é o hostel mais barato e roots que já me hospedei na vida. um colchão no chão com mosquiteiro, no pátio, sem paredes em volta custa 1 dólar por noite. no calor cambojano, até que faz sentido. mas por 3 dólares, a gente podia ter um quarto com teto, piso e paredes de bambu. melhor.

o chão se curvou sob nosso peso e balanço, mas não tivemos acidentes. Joel se mostrou um amante generoso, carinhoso e cheio de energia. de vez em quando eu até tinha que pedir uma pausa para me recuperar! que delícia encontrar um homem desses! especialmente depois de dois meses recusando investidas de gringos que achavam que eu transava com qualquer um, só por ser brasileira.

passamos a primeira manhã dormindo e transando. então, nos sentimos na obrigação de procurar meus amigos. por sorte, os dois estavam na recepção do hostel e fomos almoçar os quatro no restaurante ao lado do mercado público ali perto.

Joel nem olhou pra barraca que vendia chinelo, mesmo estando agora numa cidade movimentada, com ruas de asfalto quente. quando uma criança veio pedir dinheiro na nossa mesa, ele respondeu no money, no shoes, apontando pros próprios pés empoeirados. ela ficou horrorizada, como eu também ficaria se já não tivesse me acostumado. acho que ele decidiu ver até quando conseguiria viajar descalço.

Javi e Clau são enfermeiros e tiraram dois anos de licença do trabalho pra viajar. pegaram o trem que atravessa a Sibéria, foram voluntários numa escola no Nepal e estão viajando de bicicleta desde a Tailândia. nós nos conhecemos em Bangkok pouco antes da partida deles pro Mianmar, graças ao Ramon, um espanhol-português simpatiquíssimo que ia com eles e que eu conheci na embaixada, tirando visto. é pro Mianmar que eu vou depois do Camboja. foi o Javi que me ensinou a limpar e trocar o curativo do joelho depois do acidente de moto, já falei dele, e ficou bem feliz com o estado da cicatriz um mês e meio depois. Ramon já voltou pra Europa, mas os dois planejam pedalar o máximo que puderem até chegar na Espanha. dá pra entender porque admiro eles, né?

tinham pensado em ir embora de Siem Reap no dia seguinte, mas adiaram a partida para passear comigo (Joe a tiracolo). para acompanhar Javi e Clau em um passeio pro lago Tonle Sap, imenso, a sul de Siem Reap, eu e ele alugamos bicicletas, 1 dólar por dia. sim, o Camboja é dolarizado e ridiculamente barato.

no caminho, a cidade dá lugar a casas precárias de madeira, construídas sobre palafitas. muitas crianças brincando. atendendo a pedidos, Joe e Javi desceram das bicis para jogar futebol com elas por um tempo. eu e Clau ficamos observando. a maioria das casas tem uma placa com o nome de algum gringo que doou o material e o dinheiro pra construí-la.

o Camboja parece ser ainda mais pobre que o Laos. o país viveu um século inteiro de devastação. primeiro a guerra de independência da França, então a guerra da Guerra Fria (a Guerra do Vietnã, que aconteceu também no Laos, no Camboja e indiretamente na Tailândia, que não viveu a guerra em si, mas hospedou os soldados americanos), aí entrou no poder o terrível Khmer Rouge (Khmêr Krâhâm), governo genocida que matou 2 milhões de pessoas (25% da população) em quatro anos. como se não bastasse, depois ainda se desenrolaram várias guerras civis, que só acabaram em 1998.

um país de órfãos que ainda sofre com as minas terrestres ativas e o turismo sexual infantil. há cartazes contra pedofilia espalhados em todas as áreas turísticas. penso na quantidade de terras interditadas pela presença de minas terrestres que vimos no caminho pra cá. lugares que antes deviam ser campos de arroz férteis e cheios de vida. a guerra ainda não acabou.

paramos em frente a uma área do lago cheia de lótus. as folhas redondas cobrem uma parte do lago e sobre elas flutuam as delicadas flores rosas de miolo amarelo que eu só tinha visto em alto-relevos em templos antigos e em tatuagens de jovens místicos.

depois de observar o movimento das flores na água, tomamos uma cerveja em um dos bares na beira do lago antes de voltar.

seguindo a dica dos espanhóis, que já conheciam tudo por ali, eu e Joe seguimos pedalando pro complexo arqueológico de Angkor, pra comprar nossas entradas. em 20 minutos, chegamos no guichê que dava acesso ao que restou da maior cidade pré-industrial do mundo.

dá pra comprar ingressos pra 1 dia, 3 dias ou 5 dias de visitação, que não precisam ser consecutivos. escolhemos o de 3 dias e ganhamos uma visita extra para ver o pôr do sol, que estava pra acontecer. entramos a tempo de uma pedalada rápida por alguns templos e vimos o entardecer sentados numa ponte com várias esculturas de soldados, um em cada pilar que mergulha no rio. parecem brincar de cabo de guerra.

aqui, cada pôr do sol é um espetáculo de cores quentes e mutantes. o Sudeste Asiático os produz como nenhum outro lugar.

depois de dois dias de passeios conosco, Javi e Clau seguiram para o Laos. Clau me passou um roteiro completo pro Mianmar, recomendando que eu puxasse conversa com as pessoas e andasse de bicicleta sempre que pudesse. eu dei alguns milhares de kip laosianos que ainda tinha na bolsa, recomendei que parassem em Don Det e fizessem a volta do Bolaven Plateau, que não consegui visitar.

meu romance com Joel durou os sete dias que estive no Camboja. com curiosidade, exploramos ruínas centenárias cobertas pela floresta em Angkor e nossos corpos, alternando dias do lado de fora e do lado de dentro da cabana de bambu.

em alguns momentos, fiquei preocupada que ele estivesse se apaixonando por mim (eu não estava), mas a iminência da nossa separação me tranquilizou. aproveitamos tudo que a gente tinha de bom sem preocupar com futuros. meu voo pro Mianmar, partindo de Bangkok, é dia 4 de abril. e ele tem os amigos doidões para encontrar na Lazy Beach.

na nossa última noite, um cara que estava indo pro Laos deu um saco enorme de flores pro Joel, que não tinha fumado desde que nos conhecemos. ele disse que nem procurou e não sentia falta, que eu era inebriante o suficiente. por causa desse presente, descobri que existem lugares no mundo que sempre tem maconha grátis pra quem souber procurar. geralmente hostels liberais onde fumadores deixam o que têm pra não cruzar fronteiras carregando substâncias ilegais. ser pêgo sai bem mais caro do que comprar maconha fresca do outro lado. ou ganhar de alguém.

nossa despedida foi carinhosa, como todos os momentos com ele. dei uma choradinha durante o último beijo. mas foi só entrar na van lotada em direção à Tailândia que voltei a sentir aquele frio na barriga, querido amigo, que aparece quando estou prestes a começar uma nova aventura.

mando notícias de lá.

até breve,

Lívia

Este é um episódio de à toa pelo mundo, livro em processo de escrita graças a apoiadores do projeto.

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à toa pelo mundoBy Livia Aguiar