Sabe praga de mãe? Daqueles tipos de aviso que mais parece uma profecia sobre algo que acaba acontecendo. Não? Então me deixe tentar explicar melhor, pois para o começo dessa história é importante que você compreenda esse conceito. Quando eu era garoto, toda vez que a dona Kelli, vulgo minha mãe, não queria que eu fizesse algo, ela dizia “Olha, cuidado para não acontecer tal coisa...”. E não é que essa “tal coisa” sempre acontecia?
Pois bem, quando eu tinha por volta de 16 anos, já não morava com meus pais, mas naquele mês de julho eu estava passando férias na casa deles e foi, também, o período de maior calor daquele ano. Eram dias em que eu pensava que iria derreter por completo de tanto que eu suava, mesmo sem fazer nada, dentro de casa.
Certo dia um amigo passou lá em casa e me falou que estava indo para um churrasco na casa de uma amiga e que eu deveria acompanha-lo. Pensei por um instante, não, minto, acho que não pensei nem por meio. Peguei minha bicicleta e parti para a rua. O problema foi àquela praga que só mãe consegue jogar! No meu caso, a dona Kelli estava na sala quando me ouviu passar pela garagem. Quando eu disse aonde iria, ela pressagiou: - Meu filho cuidado! Essa é uma área onde está ocorrendo muito casos de dengue. Se eu fosse você não iria!
E mesmo que eu acreditasse nesse tipo de augúrio, vindo de alguma intuição divina da maternidade, a sentença passou quase despercebida aos ouvidos adolescentes daquela época. Eu não sabia, mas as palavras da dona Kelli anteviram toda a sorte e destino da minha vida pelos próximos dias.
Fui no churrasco. Não vou mentir, foi bom demais! Pessoal bacana, comida boa e música nada convencional para a ocasião: rock.
Cerca de dois dias depois, acordei com o corpo doendo como se tive pulado de um avião sem paraquedas. Meus músculos padeciam de dores, enquanto as mãos e pés estavam inchados e revelavam manchas avermelhadas. Os braços e pernas estavam me deixando louco de tanta coceira e a cabeça latejava tanto que me impedia de pensar. Em algumas horas eu tremia incontrolavelmente de frio mesmo sabendo que meu corpo parecia pegar fogo ao toque.
O diagnóstico do médico local, acostumado com casos de dengue, foi claro: repouso absoluto e muita água. Não há tratamento para curar a dengue, apenas para aliviar os sintomas – que são terríveis, como pude atestar! Desde então aprendi duas coisas: Como a minha sorte poderia ter sido diferente se as pessoas daquela região estivessem mais comprometidas com o combate às larvas do Aedes! Coisas simples como evitar acumular água parada em garrafas, pneus, vasos de plantas... e a segunda coisa era que não posso brincar com as premonições que minha mãe faz!