Saúde sem complicações - USP

Saúde Sem Complicações #3: A descoberta de uma garota trans, empoderada e querida


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No Saúde sem Complicações desta semana, a entrevistada é a professora  Gabrielle Weber, da Escola de Engenharia de Lorena (EEL) da USP, que recentemente se declarou transgênero. No programa, a professora traz sua experiência de vida, de uma pessoa trans que está vencendo barreiras e preconceitos. Gabrielle é formada em Ciências Moleculares pela USP, onde também fez doutorado e pós-doutorado; atua na área de física das partículas elementares e campos com ênfase em integrabilidade. 
Gabrielle nasceu em Petrópolis, no Rio de Janeiro, mas se considera paulistana de coração já que mora na cidade desde os três anos de idade. Tem outros dois irmãos, um com 32 anos e outro com 23. Atualmente, Gabrielle tem 35 anos e, desde os 10, percebeu que não se identificava com sua sexualidade de origem e também sentia-se diferente em suas características de gênero. Isso, diz, aconteceu ao ver uma reportagem na TV sobre mulheres trans e travestis. “Até então, não fazia ideia que existia essa possibilidade; a partir daí, comecei a entender situações que havia vivido até aquele momento, como usar cabelos longos, furar as orelhas e usar sapatos da minha mãe e outras inúmeras coisas que eu, como criança, vivia e não entendia. Essas coisas começaram a fazer sentido.” 
A professora conta que foi um período complicado e sofrido, pois teve que vestir uma máscara. Se sentia como um personagem de RPG, com aquele defeito: o “segredo sombrio”. Relata que precisou guardar seu segredo a todo custo, pois, se alguém descobrisse, sua vida acabaria. Lembra-se que a mesma reportagem que possibilitou sua descoberta, como uma garota trans, logo em seguida abordou temas de prostituição e marginalidade. “Me lembro dos comentários, razoavelmente transfóbicos, não só na reportagem, mas também dos meus pais. Aí, percebi que fazer a transição não era uma opção naquele momento.” 
Assim, Gabrielle começou a forçar algumas características mais masculinas, fingir ser um homem e não ser percebida como mulher para não sofrer preconceito. “Tudo para não ter a minha masculinidade questionada; com isso acabei virando um estereótipo do que consideram hoje masculinidade tóxica, exatamente para me miscigenar no meio masculino.” 
Segundo Gabrielle, durante a adolescência teve crises de disforia, que vieram em ondas, o que considera ter sido uma época difícil e que a levou a algumas ideações suicidas. Sobre essas crises disfóricas, diz ter sido em períodos que sentia sua inadequação com o corpo. Além da ideação suicida, chegou a desejar a morte dos pais, para que pudesse transicionar em paz e não ser uma vergonha para eles. “Mas a crise derradeira foi em maio de 2018, quando cheguei a tentar o suicídio, um chamado para que algo fosse feito”, afirma.
Gabrielle Weber – Arte sobre foto/Arquivo pessoal
Esse período, que ela chama de período de agonia, perdurou aproximadamente 24 anos. No ano passado, após a crise mais derradeira, Gabrielle decidiu, de fato, realizar a transição, mesmo sem o apoio de familiares, pois percebeu que estava vivendo “sem perspectivas”. “Eu tinha duas opções, o plano A, que era o suicídio, e o plano B, que era tentar  a transição. Eu sabia que não conseguiria continuar vivendo fingindo ser homem e, eventualmente, tentando me matar. Então não custaria nada tentar o plano B.” 
Diz ser uma pessoa privilegiada, pois passou por pouquíssimas situações de transfobia ou homofobia, porque também é lésbica. Uma delas, conta, foi logo no início da transição social. Em reunião de departamento, um colega disse que ela não precisava ficar pregando a sua transexualidade, enfatizando: “Ninguém precisa saber disso.” Algo que ela considera uma coisa ruim que se transformou em boa, pois os demais colegas rechaçaram o transfóbico. “Eu me senti empoderada e querida.”  De resto, diz sentir alguns olhares tortos na rua, pessoas tentando enquadrá-la ou não  sabendo como classificá-la. “O que mais me dói ultimamente é quando as pessoas que estão “interlocutando” com um
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Saúde sem complicações - USPBy Jornal da USP