Cândido dos Reis, ou Almirante Cândido dos Reis, nome de muitas ruas e avenidas espalhadas por este país, foi um dos principais mentores da revolução republicana. Suicidou-se na alvorada da manhã, em que da varanda da câmara municipal de Lisboa se proclamou a República. Suicidara-se umas horas antes, do começo ou do fim, da maior empreitada da sua vida. A República constrói-se á cem anos, e o Almirante, sofrendo por antecipação, nunca lhe pôde assentar uma pedra.
Pouco se sabe, e pouco se estuda, a fundação da República Portuguesa. Na sua história, a névoa e as esquinas, as caves e os cafés, a clandestinidade e o secretismo, foram os atores principais, da sua preparação.
Acontece então, que na ansiosa madrugada de 4 de outubro, o célebre Almirante Reis aguardava os navios republicanos que haveria de comandar. Tudo estava previamente combinado, e o Almirante, cigarro atrás de cigarro, esperava impaciente os três navios.
À hora marcada só lá estava o almirante, e no chão, as beatas de meio pacote de tabaco, recordavam-lhe a espera. Fumou o pacote inteiro, e nenhum barco chegou.
Já em desespero, bateu com a porta do automóvel e percorreu Lisboa. E Lisboa dormia, sossegada, monótona, numa paz digna do descanso de El-Rei. Exasperado, furioso com a derrota, com o falhanço, talvez a traição, pensava, já sem tabaco, ´´quem foi o filho da puta? Quem foi? ´´. Enquanto conduzia compulsivamente, por uma Lisboa deserta.
Eram por volta das duas da manhã quando num choro profundo, bateu à porta da sua irmã, implorando que o recebesse. A Irmã acordada de surpresa, preparou-lhe uma cama lavada e mandou-o deitar-se, a esse homem solteiro de 58 anos, provavelmente maçon, e a que muitas ruas doou o nome.
O Almirante entrou no quarto, abriu as janelas para ouvir Lisboa, e Lisboa dormia. O silêncio da cidade, ensurdecia o Almirante. Se a República morre, morrerei com ela.
Talvez esta estória, tão escondida na nossa história, seja mais do que um momento, talvez seja, quem sabe?! parte da proclamação da República: e para sempre, ao povo e à República Portuguesa, sofrer, por antecipação
A República foi proclamada às 9 da manhã, e o que é certo, é que o Almirante, nunca teve o poder de a testemunhar. Assim, à sua imagem, tão sofredora.