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Estamos indo pra Lan Kwai Fong tomar umas, alguém anima?
Tem dois lugares no carro.
a área comum do Hong Kong Hostel é uma sala comercial maiorzinha no terceiro andar de um arranha-céu na Paterson Street. há uma chaleira elétrica, um microondas, balcões pregados às paredes e bancos altos. não lembro de ver janelas. sim há luz, branca vinda do teto e amarela do microondas quando aquece um prato congelado ou faz pipoca.
eu tomava um chá de botões de rosa com a Angela* depois de um dia de muitas andanças quando um casal de ruivos altos fez o convite de passeio a todos que estivessem ali de bobeira.
Estamos indo pra Lan Kwai Fong tomar umas, alguém anima? Tem dois lugares no carro.
um menino de cabelos pretos e pele muito branca disse que topava. eu olhei pra Angela*, ela olhou pra mim como se dissesse Vai lá com os jovens e disse You go have fun, fui.
em Não brinque com fogo, de 1980, é na Lan Kwai Fong que a máfia honconguesa se reúne. a rua continua a mesma, ladeira estreita com portinhas abertas pra rua, de onde sai música pop e luz neon. talvez na época do filme do Tsui Hark fossem menos bares, mas a vibe, a vibe era a mesma. não vi nenhum mafioso, mas o primeiro drink de cada bar era grátis.
os ruivos eram irlandeses desses sem limites para o álcool. se juntaram a mais 3 cabeças-de-fogo e se revezavam pagando bebidas pra mim e pro Simon, o inglês que também não sabia como tinha parado nesse rolê.
saltando de bar em bar, lembro de um shot de gelatina de morango com vodka servido numa seringa gigante, de virar doses de tequila e de um mojito refrescante, finalmente alguma água, a água do gelo. lembro de dançar tecno farofa nas pistas minúsculas desses bares até que a hora avançou e a rua foi fechando pouco a pouco.
alguém sabia de uma boate que ficava aberta até tarde. subimos a rua até chegar numa trilha de terra, à esquerda um morro cheio de mato e uma cerca de arame farpado, à direita a cidade acesa, até que chegamos numa casa, uma casa! com jukebox e um bar aberto. eu e Simon nos revezamos na escolha do set de rock inglês: Smiths, Strokes, Rolling Stones. dançamos, ele um pouco desengonçado.
pensei Poderia me apaixonar.
a gente se seduzia e ria dos irlandeses virando mais doses de sei-lá-o-quê.
então a polícia chegou muito educadamente cortando a luz e entendemos que era hora de ir embora.
embora pra onde? ninguém queria dormir. tomamos um táxi até Wan Chai, disseram que lá a noite ainda existia. ao desembarcar, foi o tempo de darmos a volta no quarteirão pro Simon sacar dinheiro no ATM para os irlandeses desaparecerem.
achávamos que estavam dentro do bar, então entramos.
tinha que pagar, então pagamos já achando que não ia valer a pena.
Escape, no subsolo de um edifício comercial tão alto quanto a maioria na ilha, pouca iluminação. um bar com música ao vivo frequentado por prostitutas asiáticas e homens brancos de meia idade. mulher com mais de meio metro de pano no corpo, só eu, que nem sou recatada.
no palco ao lado da entrada, uma girl band tocou Avril Lavigne, depois Alanis Morissette e U2.
tentei filmar um trecho, mas o segurança disse bruscamente No Pictures e eu ficava cada vez menos à vontade. o Simon também, então decidimos ir embora e que se explodam os leprechauns que nos abandonaram no meio do caminho. vamos pra casa.
na estrada, sua casa é onde seu mochilão está.
na saída, Simon pediu um cigarro pra uma versão grega do Pepe Mujica que fumava ao lado da porta. ele perguntou se Simon queria algo mais com o tabaco e bolou pra ele um fumo com haxixe enquanto reclamava que as mulheres asiáticas eram todas interesseiras, menos a esposa chinesa dele, 25 anos mais nova.
agradecemos e Simon fumou o cigarro batizado enquanto caminhamos os 2 quilômetros que nos separavam do Hong Kong Hostel. eram 4 da manhã, a avenida Lockhart é larga, estava vazia e eu me sentia estranhamente segura. não havia ninguém morando na calçada.
Simon já tinha trabalhado em uma locadora e conversamos tanto sobre filmes, livros, música, sobre tudo, que o caminho foi curto pra tanto papo. hoje me pergunto se ele já tinha visto o filme do Tsui Hark**, acho que não, eu só vi depois.
o passeio terminou conosco no elevador. eu doida pra tascar um beijo naquele inglesinho tímido e inteligente, de lábios carnudos e olhos de raposa que ficam ainda menores quando sorriem. combinamos de nos encontrar na recepção do hostel na manhã seguinte, quem sabe tomar um café juntos antes que ele fosse pro aeroporto. o voo dele pra Taiwan era às 4 da tarde.
eu acordei às 9h e me plantei na recepção com meu chá e biscoitos. fiquei ali até as 2 da tarde escrevendo no meu diário, com alguma esperança de revê-lo.
mas nos desencontramos, talvez.
não nos vimos mais.
é em New Territories que fica Ping Shan, uma das vilas antigas que sobraram em Hong Kong. ali era remoto o suficiente pra sobreviver à modernização da cidade-estado. uma comunidade tradicional à beira do rio com seu templo-torre de três andares, casas, pátios, prensa de tofu, escola.
em 1987, ano que nasci e data da foto exibida no alto da pagoda em homenagem ao deus Hung Shing, ainda havia um rio, uma curva de rio caudaloso. hoje um pântano tomado de plantas aquáticas filtrando a sujeira e rodeado por promessas de condomínios espelhados, ainda esqueletos. aqui também é assim.
as casas-museus fecham para visitação às 5 da tarde, não faça como eu e Angela*, que chegamos às 4h30, ou melhor, ou melhor, faça.
porque foi depois que as portas se fecharam que perambulamos pelas ruelinhas admirando apenas as fachadas com muito interesse, tentando fazer a viagem até New Territories valer a pena, e um senhor de cabelos prateados e óculos de aro fino abriu as portas da escola para nós.
Venham, disse com as mãos, e entramos no edifício de 142 anos construído pelo trisavô desse senhor sem usar nem um pedaço de metal. paredes, colunas e dois andares de uma escola laica com salões e salinhas de tijolinhos de cerâmica escuros e detalhes em madeira pintada de vermelho, azul, ocre e verde. de pé graças a encaixes de madeira inteligentemente engenhosos.
com ele ultrapassamos a placa Não Ultrapasse até o gabinete dos professores e chegamos ao terraço de onde um dia as pessoas viam o rio e ainda dá pra ver os telhados repletos de detalhes dos casarões da vila.
os limites físicos de gerações de memória.
na despedida, este senhor salvador, guia de poucas, mas certeiras palavras, virou pra mim e disse
You are brazilian
Como ele soube?, perguntei e ele respondeu
You smile a lot
e o meu sorriso que já estava aberto rasgou o rosto de orelha a orelha.
A viagem continua!
Beijinhos e até a próxima,Lívia
*Angela: canadense muito amável, 28 anos mais velha que eu, que mora em Chengdu ensinando inglês pra crianças. com ela dividi as aventuras do Ano Novo Chinês e graças ao seu mandarim nível básico me ajudou a decifrar alguns dos mistérios dos cardápios dos restaurantes
**Tsui Hark: agradeço ao Cineclube Comum, que em 2015 exibiu “Não brinque com fogo” (1980) no Sesc Palladium, Belo Horizonte
***se você reconhece o Simon de algum lugar, conta pra ele que eu fiquei esperando durante cinco horas naquela recepção sem janelas? e passa meu email, please.
By Livia AguiarEstamos indo pra Lan Kwai Fong tomar umas, alguém anima?
Tem dois lugares no carro.
a área comum do Hong Kong Hostel é uma sala comercial maiorzinha no terceiro andar de um arranha-céu na Paterson Street. há uma chaleira elétrica, um microondas, balcões pregados às paredes e bancos altos. não lembro de ver janelas. sim há luz, branca vinda do teto e amarela do microondas quando aquece um prato congelado ou faz pipoca.
eu tomava um chá de botões de rosa com a Angela* depois de um dia de muitas andanças quando um casal de ruivos altos fez o convite de passeio a todos que estivessem ali de bobeira.
Estamos indo pra Lan Kwai Fong tomar umas, alguém anima? Tem dois lugares no carro.
um menino de cabelos pretos e pele muito branca disse que topava. eu olhei pra Angela*, ela olhou pra mim como se dissesse Vai lá com os jovens e disse You go have fun, fui.
em Não brinque com fogo, de 1980, é na Lan Kwai Fong que a máfia honconguesa se reúne. a rua continua a mesma, ladeira estreita com portinhas abertas pra rua, de onde sai música pop e luz neon. talvez na época do filme do Tsui Hark fossem menos bares, mas a vibe, a vibe era a mesma. não vi nenhum mafioso, mas o primeiro drink de cada bar era grátis.
os ruivos eram irlandeses desses sem limites para o álcool. se juntaram a mais 3 cabeças-de-fogo e se revezavam pagando bebidas pra mim e pro Simon, o inglês que também não sabia como tinha parado nesse rolê.
saltando de bar em bar, lembro de um shot de gelatina de morango com vodka servido numa seringa gigante, de virar doses de tequila e de um mojito refrescante, finalmente alguma água, a água do gelo. lembro de dançar tecno farofa nas pistas minúsculas desses bares até que a hora avançou e a rua foi fechando pouco a pouco.
alguém sabia de uma boate que ficava aberta até tarde. subimos a rua até chegar numa trilha de terra, à esquerda um morro cheio de mato e uma cerca de arame farpado, à direita a cidade acesa, até que chegamos numa casa, uma casa! com jukebox e um bar aberto. eu e Simon nos revezamos na escolha do set de rock inglês: Smiths, Strokes, Rolling Stones. dançamos, ele um pouco desengonçado.
pensei Poderia me apaixonar.
a gente se seduzia e ria dos irlandeses virando mais doses de sei-lá-o-quê.
então a polícia chegou muito educadamente cortando a luz e entendemos que era hora de ir embora.
embora pra onde? ninguém queria dormir. tomamos um táxi até Wan Chai, disseram que lá a noite ainda existia. ao desembarcar, foi o tempo de darmos a volta no quarteirão pro Simon sacar dinheiro no ATM para os irlandeses desaparecerem.
achávamos que estavam dentro do bar, então entramos.
tinha que pagar, então pagamos já achando que não ia valer a pena.
Escape, no subsolo de um edifício comercial tão alto quanto a maioria na ilha, pouca iluminação. um bar com música ao vivo frequentado por prostitutas asiáticas e homens brancos de meia idade. mulher com mais de meio metro de pano no corpo, só eu, que nem sou recatada.
no palco ao lado da entrada, uma girl band tocou Avril Lavigne, depois Alanis Morissette e U2.
tentei filmar um trecho, mas o segurança disse bruscamente No Pictures e eu ficava cada vez menos à vontade. o Simon também, então decidimos ir embora e que se explodam os leprechauns que nos abandonaram no meio do caminho. vamos pra casa.
na estrada, sua casa é onde seu mochilão está.
na saída, Simon pediu um cigarro pra uma versão grega do Pepe Mujica que fumava ao lado da porta. ele perguntou se Simon queria algo mais com o tabaco e bolou pra ele um fumo com haxixe enquanto reclamava que as mulheres asiáticas eram todas interesseiras, menos a esposa chinesa dele, 25 anos mais nova.
agradecemos e Simon fumou o cigarro batizado enquanto caminhamos os 2 quilômetros que nos separavam do Hong Kong Hostel. eram 4 da manhã, a avenida Lockhart é larga, estava vazia e eu me sentia estranhamente segura. não havia ninguém morando na calçada.
Simon já tinha trabalhado em uma locadora e conversamos tanto sobre filmes, livros, música, sobre tudo, que o caminho foi curto pra tanto papo. hoje me pergunto se ele já tinha visto o filme do Tsui Hark**, acho que não, eu só vi depois.
o passeio terminou conosco no elevador. eu doida pra tascar um beijo naquele inglesinho tímido e inteligente, de lábios carnudos e olhos de raposa que ficam ainda menores quando sorriem. combinamos de nos encontrar na recepção do hostel na manhã seguinte, quem sabe tomar um café juntos antes que ele fosse pro aeroporto. o voo dele pra Taiwan era às 4 da tarde.
eu acordei às 9h e me plantei na recepção com meu chá e biscoitos. fiquei ali até as 2 da tarde escrevendo no meu diário, com alguma esperança de revê-lo.
mas nos desencontramos, talvez.
não nos vimos mais.
é em New Territories que fica Ping Shan, uma das vilas antigas que sobraram em Hong Kong. ali era remoto o suficiente pra sobreviver à modernização da cidade-estado. uma comunidade tradicional à beira do rio com seu templo-torre de três andares, casas, pátios, prensa de tofu, escola.
em 1987, ano que nasci e data da foto exibida no alto da pagoda em homenagem ao deus Hung Shing, ainda havia um rio, uma curva de rio caudaloso. hoje um pântano tomado de plantas aquáticas filtrando a sujeira e rodeado por promessas de condomínios espelhados, ainda esqueletos. aqui também é assim.
as casas-museus fecham para visitação às 5 da tarde, não faça como eu e Angela*, que chegamos às 4h30, ou melhor, ou melhor, faça.
porque foi depois que as portas se fecharam que perambulamos pelas ruelinhas admirando apenas as fachadas com muito interesse, tentando fazer a viagem até New Territories valer a pena, e um senhor de cabelos prateados e óculos de aro fino abriu as portas da escola para nós.
Venham, disse com as mãos, e entramos no edifício de 142 anos construído pelo trisavô desse senhor sem usar nem um pedaço de metal. paredes, colunas e dois andares de uma escola laica com salões e salinhas de tijolinhos de cerâmica escuros e detalhes em madeira pintada de vermelho, azul, ocre e verde. de pé graças a encaixes de madeira inteligentemente engenhosos.
com ele ultrapassamos a placa Não Ultrapasse até o gabinete dos professores e chegamos ao terraço de onde um dia as pessoas viam o rio e ainda dá pra ver os telhados repletos de detalhes dos casarões da vila.
os limites físicos de gerações de memória.
na despedida, este senhor salvador, guia de poucas, mas certeiras palavras, virou pra mim e disse
You are brazilian
Como ele soube?, perguntei e ele respondeu
You smile a lot
e o meu sorriso que já estava aberto rasgou o rosto de orelha a orelha.
A viagem continua!
Beijinhos e até a próxima,Lívia
*Angela: canadense muito amável, 28 anos mais velha que eu, que mora em Chengdu ensinando inglês pra crianças. com ela dividi as aventuras do Ano Novo Chinês e graças ao seu mandarim nível básico me ajudou a decifrar alguns dos mistérios dos cardápios dos restaurantes
**Tsui Hark: agradeço ao Cineclube Comum, que em 2015 exibiu “Não brinque com fogo” (1980) no Sesc Palladium, Belo Horizonte
***se você reconhece o Simon de algum lugar, conta pra ele que eu fiquei esperando durante cinco horas naquela recepção sem janelas? e passa meu email, please.