Resenha do livro As Boas Mulheres da China, de Xinran, publicado pela Companhia das Letras no Brasil.
Link para a dissertação de Isabela Maia Costa (UFRN)
Transcrição do áudio: Por que os homens odeiam tantos as mulheres? Foi a pergunta que fiz repetidas vezes a eu mesma enquanto lia As Boas Mulheres da China.
As Boas Mulheres da China é um livro escrito pela escritora sino-britânica Xinran. Lançado em 2002 no Reino Unido, foi publicado aqui no Brasil pela Companhia das Letras em 2003. Inclusive, a versão que eu li é a de 2003, mas eu sei que exite uma edição da Companhia de Bolso mais recente. A Xinran é uma jornalista e professora universitária de 68 anos, nascida na China (cidade de Pequim). Resolveu emigrar por sentir seu trabalho enquanto jornalista sendo sufocado e até censurado no país de origem. Trabalhava numa rádio local, tinha um programa noturno muito importante, o qual apresentava grande público feminino. É importante notar que, assim como outras rádios, ela era de contexto estatal, controlada pelo Partido Comunista Chinês, com linha editorial bastante estrita. Após receber alguns contatos por carta, Xinran decidiu tratar de questões de feminilidade e da experiência de ser mulher na China, aproximando-se de seu público. Assim ela passou a se envolver mais de perto com as vidas privadas das mulheres chinesas, a autora começou a perceber que a rádio estatal na qual trabalhava era incapaz de oferecer a liberdade necessária para tratar desses assuntos, segundo ela. Para ela, esse livro seria censurado por seus superiores e pelo Partido Comunista Chinês, se tentasse lançá-lo na China. Considerando o livro a obra de uma vida, ela decide emigrar.
Quando ela emigra da China, não leva anotações específicas consigo, e resolve recontar esses relatos mediados por sua memória, conforme ela própria relata. Todas elas são estórias devastadoras, revelando uma fragilidade gigantesca nas relações entre homens e mulheres, e até entre mulheres, geracionalmente falando. Por exemplo, uma das primeiras histórias relatadas é a de uma adolescente resgatada de um casamento com um homem muito mais velho no interior da China. Esse é, temporalmente, um dos primeiros casos acompanhados por perto pela escritora nesse processo de entender a realidade das mulheres chinesas (será que é realmente possível?) Outra história, mais para frente, relata o casamento forçado de uma militante do Partido Comunista de criação ocidental com um figurão do partido, sua missão, determinada pelo próprio partido, sendo transformar-se numa esposa.
A primeira impressão, óbvio, é o horror da misoginia. A pergunta mais cara eu já fiz no começo: por que homens odeiam tanto mulheres? Nas histórias atravessadas entre realidades sociais diferentes, a misoginia repete-se incessantemente. Muitas vezes, precisei parar e sentir o desespero a me tomar ao final de cada capítulo. Mesmo assim, entendo que o livro fala por si só nesse quesito. Não entrarei em muitos detalhes sobre os textos específicos do livro, e suas temáticas e histórias e roteiros, porque acredito que valha uma leitura. Talvez interesse trazer outros aspectos da obra.
Um aspecto interessante desse livro trata-se de entender qual seria a visão de mulher construída pela autora. Percebe-se ao longo do livro que a escrita de Xinran é marcada por tradicionalismos da visão do ser mulher. Em certos momentos, principalmente naqueles em que ela entrevista mulheres mais jovens com estudo universitário, há grandes embates geracionais. Entretanto, ela é relativamente comprometida em subverter essa violência com a qual as mulheres são tratadas, não posso negar, independentemente de qual seja seu contexto político. Isabela Maia Costa, pesquisadora com a qual cruzei com seu trabalho na confecção desse pseudopodcast, é mestre em Estudos Literários pela UFRN, e explora em sua dissertação sobre As Boas Mulheres da China um pouco sobre a cultura do país e sua alta influência pelas contribuições de Confúcio e seus posteriores seguidores. O Confúcio, no caso, foi um filósofo muito importante na China. Eu não entendo nada dele, para ser sincera, portanto vou deixar a dissertação da Isabela falar por si própria. De qualquer forma, o ser uma mulher virtuosa é central no ideário popular chinês. Xinran não é afastada disso.
É importante ressaltar que a autora é alimentada por suas próprias experiências como mãe solteira no período de "reabertura" da China, o período pós-Mao, em que Deng Xiaoping assume o poder e promove, por meio do Partido Comunista, uma série de reformas econômicas na China, que levam o país a rumos muito diferentes da Revolução Cultural, acontecida de meados de 1960 a meados de 1970. O país passou por um momento histórico muito conturbado no século passado. Em 1949, aconteceu a revolução comunista, na qual o Partido Comunista Chinês tomou o poder da China continental, e o partido anterior foi encurralado em direção a Taiwan, onde continua até hoje. Há alguns altos e baixos nessa experiência, o que escapa ao escopo deste texto.
Trata-se, estilisticamente, dum livro apresentando mistura de autobiografia, com relato jornalístico, com ensaio. Isabela Costa nomeia essa mistura de narrativa híbrida, não sendo possível classificá-la em apenas um gênero literário. A escolha pela autobiografia como fio narrativo relaciona-se com o público inicial do livro, centralizado no Ocidente. Inclusive, a primeira língua de publicação dele foi justamente o inglês, apesar do livro ter sido escrito inicialmente em chinês, e ter havido um pouco de dificuldade na tradução exatamente do jeito que a autora gostaria.
A autobiografia ser escolhida faz o leitor ficar muito em dúvida em relação a quais seriam os limites entre ficção e realidade. A gente é induzido a tomar as histórias como realidade, porque aqui entra o tom profissional jornalístico. Mas é fato: as histórias provavelmente foram alteradas pela própria memória da autora, seja esse um passo mal intencionado ou não. Os riscos estão na autopercepção da autora sobre suas próprias memórias e suas interpretações dos fatos. Aliás, quem é o centro dessa narrativa? São as mulheres que têm suas histórias narradas, ou seria Xinran?
Xinran foi de uma família relativamente abastada. Apesar dos pais dela terem dedicado a sua vida à Revolução Comunista desde o começo, eles também foram parte dos alvos da Revolução Cultural por serem de família pequeno-burguesa. Ela também foi muito humilhada nos contextos em que ela viveu, escola e abrigo, por ser uma pessoa do grupo execrado, e tem muita bronca da Revolução Cultural por causa disso. Não me sinto à vontade de julgar as percepções dela em relação a isso, mas é um fator que o leitor precisa tomar cuidado, porque com certeza essa percepção impacta o julgamento que ela própria faz das situações que as outras mulheres viveram e relataram a ela.
Será que a percepção que as mulheres tinham ali era da Revolução Cultural e da China comunista como um todo coincidia com a opinião e a história de Xinran? Ou, mais ainda, a percepção das mulheres sobre a misoginia que sofriam era restrita ao tempo do comunismo, ou era da história da China como um todo? Quando a autora se propõe a colocar uma narrativa autobiográfica, fica a impressão de que ela desloca as histórias da mulher para ela própria, como se fosse uma porta-voz das histórias das mulheres para o Ocidente ver o quanto a China era ruim. Isso é uma coisa que incomoda no livro. Dizer que após sua mudança para Inglaterra, ela estaria livre, numa imprensa livre, que ela poderia realmente contar as histórias, ao contrário da China, uma prisão. Não concordo com essas leituras dicotômicas. Na minha percepção, a mídia na Inglaterra pode ser tão castrada quanto a mídia na China. É claro que em percepções diferentes.
Conheço a misoginia e também certos círculos maoístas de perto. Frequentemente, uma marca presente nessas pessoas era as visões muito masculinizantes da existência. Portanto, acredito, sim, no cerne e na veracidade de boa parte das narrativas. Entretanto, não permitindo espaço ao contraditório e à nuance, na tentativa de trazer essas vozes ocultas, talvez ela oculte as vozes das mulheres que jurou amplificar!
Também está presente na dissertação da Isabela uma crítica a essas percepções dicotômicas, preto no branco, da Revolução Cultural. Todos os processos históricos eles contam com contradições extremamente importantes, e a gente precisa lidar com essas contradições para fazer uma análise histórica correta. É um fato que durante o período da Revolução Cultural houve certa reabilitação do papel da mulher. A questão é que muitas vezes a reabilitação era mais no sentido de eliminar o gênero da mulher do que de fato torná-la igual ao homem. Mas aí essa discussão não se encaixa nessa resenha.
Se apresentar essa obra para pessoas comunistas, elas provavelmente darão risada e apontarão ser propaganda anti-comunista. E é um pouco sim, não nego. Mas, ao mesmo tempo, entendo que ele tem seu valor para os processos de autocrítica do processo revolucionário. As mulheres têm que buscar essa voz para trazer cada vez mais as suas mágoas intergeracionais e de gênero. Porque eu acredito que a situação da mulher na China é depreciada, mas isso acontece em vários lugares do mundo, não apenas naquele país. E, sinceramente, a maior decepção é quando a gente confia no processo comunista para conseguir tornar as coisas mais justas e ele acaba violentando as mulheres do mesmo jeito. Eu acho que é isso que ficou para mim do livro.