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aportei em Macau de ferry, com o bilhete da volta pro mesmo dia. esperava encontrar uma cidade como a que tinha acabado de deixar e já não aguentava mais:
prédios altos espelhados, movimento frenético, talvez indícios portugueses num edifício ou outro… e os cassinos que trazem milhões de chineses à península todo ano.
ainda no barco descobri que os cassinos estão concentrados em uma ilha mais afastada, tipo uma disneylândia do dinheiro. não tenho interesse na tal ilha das apostas onde The Venetian construiu canais navegados por gôndolas. prefiro gastar meu dia e minhas poucas patacas na cidade velha.
no restaurante do porto, peço uma sopa de pé de galinha. café da manhã que é iguaria, disseram. discordo. pé de galinha é só pele e ossos articulados, como que eu mastigo isso? mas o caldo estava bom.
então, vou atrás das ladeiras estreitas serpenteantes com suas igrejas imponentes e edifícios coloniais incrustados em templos taoístas, banquinhas de amuletos da sorte, reverências, nihao, xie xie.
cidade estranhamente familiar. haja saudade pros portugueses reconstruírem seu Portugal onde quer que fossem. Macau é tipo Diamantina, tipo Ouro Preto. tipo Olinda ou Parati, com o mar logo ali na beira.
Macau é a Lisboa que a China permitiu ter. a Lisboa que os portugueses conseguiram construir na China.
por causa da ocupação por 486 anos, as placas nas ruas macaenses estão em chinês e português. mas não são traduções. em chinês, o nome pode ser uma tentativa fonética do lusitano. ou não. tipo a Avenida de Almeida Ribeiro que é “San Mar Lo”. nova rua para cavalos. rua para cavalos é avenida, herança do tempo das carruagens.
perambulo sem mapa pelas ruazinhas estreitas calçadas de pedra. ares mediterrâneos, não fosse o cheiro do peixe seco exposto nos armazéns.
entrelugar.
aqui, como em Hong Kong, as celebrações do ano novo tomam as ruas neste começo de fevereiro. lanternas coloridas enfeitam calçadas, os templos estão cheios de fiéis e seus incensos, fogos de artifício explodem em frente a casas e lojas para afastar os maus espíritos.
é fácil encontrar o Grand Lisboa na paisagem. o primeiro cassino de Macau e um dos poucos na cidade velha. edifício arredondado coberto de painéis de led, com torres altas que vão se abrindo em leque lá no alto. não tem janelas. não me interessa.
já o templo de Matsu, de pé antes muito antes dos tugas aportarem e confundirem tudo, tem free wifi. pessoas rezam e fazem pedidos em frente a estátuas coloridas enquanto turistas tiram selfies com as enormes espirais de incenso penduradas no teto. elas queimam sem parar durante os 15 dias de ano novo. crianças brincam na A-Ma Gao e seus pais tentam evitar que entrem na água, um casal namora no banco ao lado enquanto eu atualizo o facebook com os pés descalços e vista pro mar.
sigo caminhando nas ruas simpáticas salpicadas de faixas vermelhas e douradas que desejam feliz ano novo aos passantes, em português e chinês. admiro as ruínas da Catedral da Igreja Madre de Deus e do Colégio de São Paulo. uma escadaria larga e interminável termina numa imensa fachada de pedra. o que restou do último incêndio domina a paisagem. imagino como seria o edifício inteiro. imponente, com certeza.
pastelarias de um lado e do outro da ladeira oferecem não o nosso pastel de feira e sim pastéis de nata. pastel de Belém. de Macau. restaurante perto de atração turística raramente é bom. como um pastelzinho pra ter certeza de que aquele não é uma exceção. seco e doce demais.
pro almoço sei que mereço uma pratada de sopa de fitas. fitas? fitas. macarrão é palavra de outro continente.
um pequeno estabelecimento de comidas na Travessa do Pagode parece convidativo. as paredes cravejadas de recortes de jornal em português de Macau informam que a sopa de fitas é especialidade na casa, Com cogumelos, por favor. digo, mas ninguém entende. Mushrooms, então me indicam uma mesa e preparam meu prato, este sim totalmente delicioso.
sem mapa, me perco pelas ruas que parecem paralelas, mas não são. estreitas, os edifícios chegando até a borda da calçada, muitas varandas e aparelhos de ar condicionado e a aguinha que chove deles. as vielas de pedra têm placas que parecem feitas pelo google translator: “Sala de explicações”, “Escola de condução”, “Estabelecimento de comidas”, “Companhia de construção e cimento”, “Estacionamento de motociclos”, “Passagem para peões”.
eu sou um peão. e rodopio. me esbaldo!
a tarde vai se estendendo. ouço um ritmo, um chiado, um jeito de falar entre dentes que não é nada asiático. os amigos, ou seriam amantes?, conversavam alto na Praça do Lilau. não resisti e puxei assunto usando o nosso idioma.
felizmente, os dois gostaram de mim de cara: Uma brasileira, quem diria! Que alegria! e trocamos histórias de vida. ela jornalista portuguesa radicada em Macau, ele macaense de ascendência portuguesa, tem uma empresa de transportes de luxo.
dizem que viver em Macau é bem melhor do que lutar pelas poucas oportunidades em Portugal. seu lugar é na Ásia.
será que eu tenho um lugar?
por agora prefiro seguir à toa pelo mundo, à deriva, flutuando nas correntes do acaso. foi assim que cheguei até aqui. e encontrei essas pessoas amáveis.
por meia hora, a gente poderia estar tagarelando em Tiradentes, Salvador ou no Porto. os casarões de dois andares, a calçada de pedras portuguesas desenhando ondas, um quiosque de ferro, três árvores frondosas e um chafariz. água jorrando da boca de um anjinho gordo.
me convidam a jantar com eles, beber um vinho, passar a noite, nem pense em hotel. mas recuso com aperto no coração. meu ferry de volta a Hong Kong sai em uma hora e minha passagem para Bangkok é amanhã.
neguei com muito desejo de aceitar.
Quem beber da água do Lilau, nunca esquecerá Macau*, recitou então a jornalista cujo nome esqueci. ela me olha e olha pro anjo de bochechas inchadas.
abraço os dois e bebo três goles fartos de água fresca.
então, preciso correr. a caminho do ferry, com pressa para não perder minha passagem, a noite chega e todas as lâmpadas neon do cassino Gran Lisboa iluminam o lago Nam Vam. lembro do seu apelido, que aprendi no Lilau: Grand Abacaxi.
só não combina mais porque abacaxis não brilham no escuro.
beijinhos,
Lívia
*em patois: quim bebê agua do Lilau, nádi esquecê Macau
By Livia Aguiaraportei em Macau de ferry, com o bilhete da volta pro mesmo dia. esperava encontrar uma cidade como a que tinha acabado de deixar e já não aguentava mais:
prédios altos espelhados, movimento frenético, talvez indícios portugueses num edifício ou outro… e os cassinos que trazem milhões de chineses à península todo ano.
ainda no barco descobri que os cassinos estão concentrados em uma ilha mais afastada, tipo uma disneylândia do dinheiro. não tenho interesse na tal ilha das apostas onde The Venetian construiu canais navegados por gôndolas. prefiro gastar meu dia e minhas poucas patacas na cidade velha.
no restaurante do porto, peço uma sopa de pé de galinha. café da manhã que é iguaria, disseram. discordo. pé de galinha é só pele e ossos articulados, como que eu mastigo isso? mas o caldo estava bom.
então, vou atrás das ladeiras estreitas serpenteantes com suas igrejas imponentes e edifícios coloniais incrustados em templos taoístas, banquinhas de amuletos da sorte, reverências, nihao, xie xie.
cidade estranhamente familiar. haja saudade pros portugueses reconstruírem seu Portugal onde quer que fossem. Macau é tipo Diamantina, tipo Ouro Preto. tipo Olinda ou Parati, com o mar logo ali na beira.
Macau é a Lisboa que a China permitiu ter. a Lisboa que os portugueses conseguiram construir na China.
por causa da ocupação por 486 anos, as placas nas ruas macaenses estão em chinês e português. mas não são traduções. em chinês, o nome pode ser uma tentativa fonética do lusitano. ou não. tipo a Avenida de Almeida Ribeiro que é “San Mar Lo”. nova rua para cavalos. rua para cavalos é avenida, herança do tempo das carruagens.
perambulo sem mapa pelas ruazinhas estreitas calçadas de pedra. ares mediterrâneos, não fosse o cheiro do peixe seco exposto nos armazéns.
entrelugar.
aqui, como em Hong Kong, as celebrações do ano novo tomam as ruas neste começo de fevereiro. lanternas coloridas enfeitam calçadas, os templos estão cheios de fiéis e seus incensos, fogos de artifício explodem em frente a casas e lojas para afastar os maus espíritos.
é fácil encontrar o Grand Lisboa na paisagem. o primeiro cassino de Macau e um dos poucos na cidade velha. edifício arredondado coberto de painéis de led, com torres altas que vão se abrindo em leque lá no alto. não tem janelas. não me interessa.
já o templo de Matsu, de pé antes muito antes dos tugas aportarem e confundirem tudo, tem free wifi. pessoas rezam e fazem pedidos em frente a estátuas coloridas enquanto turistas tiram selfies com as enormes espirais de incenso penduradas no teto. elas queimam sem parar durante os 15 dias de ano novo. crianças brincam na A-Ma Gao e seus pais tentam evitar que entrem na água, um casal namora no banco ao lado enquanto eu atualizo o facebook com os pés descalços e vista pro mar.
sigo caminhando nas ruas simpáticas salpicadas de faixas vermelhas e douradas que desejam feliz ano novo aos passantes, em português e chinês. admiro as ruínas da Catedral da Igreja Madre de Deus e do Colégio de São Paulo. uma escadaria larga e interminável termina numa imensa fachada de pedra. o que restou do último incêndio domina a paisagem. imagino como seria o edifício inteiro. imponente, com certeza.
pastelarias de um lado e do outro da ladeira oferecem não o nosso pastel de feira e sim pastéis de nata. pastel de Belém. de Macau. restaurante perto de atração turística raramente é bom. como um pastelzinho pra ter certeza de que aquele não é uma exceção. seco e doce demais.
pro almoço sei que mereço uma pratada de sopa de fitas. fitas? fitas. macarrão é palavra de outro continente.
um pequeno estabelecimento de comidas na Travessa do Pagode parece convidativo. as paredes cravejadas de recortes de jornal em português de Macau informam que a sopa de fitas é especialidade na casa, Com cogumelos, por favor. digo, mas ninguém entende. Mushrooms, então me indicam uma mesa e preparam meu prato, este sim totalmente delicioso.
sem mapa, me perco pelas ruas que parecem paralelas, mas não são. estreitas, os edifícios chegando até a borda da calçada, muitas varandas e aparelhos de ar condicionado e a aguinha que chove deles. as vielas de pedra têm placas que parecem feitas pelo google translator: “Sala de explicações”, “Escola de condução”, “Estabelecimento de comidas”, “Companhia de construção e cimento”, “Estacionamento de motociclos”, “Passagem para peões”.
eu sou um peão. e rodopio. me esbaldo!
a tarde vai se estendendo. ouço um ritmo, um chiado, um jeito de falar entre dentes que não é nada asiático. os amigos, ou seriam amantes?, conversavam alto na Praça do Lilau. não resisti e puxei assunto usando o nosso idioma.
felizmente, os dois gostaram de mim de cara: Uma brasileira, quem diria! Que alegria! e trocamos histórias de vida. ela jornalista portuguesa radicada em Macau, ele macaense de ascendência portuguesa, tem uma empresa de transportes de luxo.
dizem que viver em Macau é bem melhor do que lutar pelas poucas oportunidades em Portugal. seu lugar é na Ásia.
será que eu tenho um lugar?
por agora prefiro seguir à toa pelo mundo, à deriva, flutuando nas correntes do acaso. foi assim que cheguei até aqui. e encontrei essas pessoas amáveis.
por meia hora, a gente poderia estar tagarelando em Tiradentes, Salvador ou no Porto. os casarões de dois andares, a calçada de pedras portuguesas desenhando ondas, um quiosque de ferro, três árvores frondosas e um chafariz. água jorrando da boca de um anjinho gordo.
me convidam a jantar com eles, beber um vinho, passar a noite, nem pense em hotel. mas recuso com aperto no coração. meu ferry de volta a Hong Kong sai em uma hora e minha passagem para Bangkok é amanhã.
neguei com muito desejo de aceitar.
Quem beber da água do Lilau, nunca esquecerá Macau*, recitou então a jornalista cujo nome esqueci. ela me olha e olha pro anjo de bochechas inchadas.
abraço os dois e bebo três goles fartos de água fresca.
então, preciso correr. a caminho do ferry, com pressa para não perder minha passagem, a noite chega e todas as lâmpadas neon do cassino Gran Lisboa iluminam o lago Nam Vam. lembro do seu apelido, que aprendi no Lilau: Grand Abacaxi.
só não combina mais porque abacaxis não brilham no escuro.
beijinhos,
Lívia
*em patois: quim bebê agua do Lilau, nádi esquecê Macau