Talvez seja remédio da dor, o esquecimento. Talvez por isso, a estória de dor do Portugal contemporâneo tenha sido varrida da nossa memória coletiva. Encostada um canto, como uma memória cinzenta. O único problema da nossa então curta memória, é adivinhar um pequeno futuro.
Em 1938, António Mano Fernandes, estudante da Universidade de Coimbra, morre no Forte de Peniche, por lhe ter sido recusada assistência médica; sofria de uma doença cardíaca prolongada. Rui Ricardo da Silva operário do Arsenal, morre no Aljube devido uma tuberculose contraída, em consequência do espancamento levado a cabo por seis agentes da Pide durante oito horas. Um dia de trabalho, para os agentes.
Manuel Salgueiro Valente, tenente-coronel, morre em condições suspeitas no forte de Caxias; Augusto Costa, operário da Marinha Grande, Rafael Tobias Pinto da Silva, de Lisboa, preso por na rua da escola politécnica dar gritos subversivos, Francisco Domingues Quintas, de Gaia, Francisco Manuel Pereira, marinheiro de Lisboa, Pedro Matos Filipe, de Almada e Cândido Alves Barja, marinheiro de Castro Verde, morrem, no espaço de quatro dias no Tarrafal, vítimas da febre e dos maus tratos; Augusto Almeida Martins, operário, é assassinado na sede da PIDE durante uma sessão de tortura…
Estes são os nomes e as histórias, de apenas alguns dos crimes, da ditadura Portuguesa durante um ano. Repito, estes são apenas alguns dos assassinatos, cometidos pelo Estado Novo durante apenas um ano. Muitos ficaram por contar, nos longos quarenta e um anos de regime, rostos sem nome e nomes sem rostos, corpos em valetas com duas balas nas costas, uma na nuca, e um país aterrorizado para a posteridade.
Se a estória de Portugal fosse contada em 24 horas, isto acabou de acontecer á duas horas atrás. Enterrar esta memória não é solução, pois ela é parte íntima do nosso povo. É preciso encará-la, e num esforço coletivo superar o medo. É preciso ensinar que isto aconteceu, aqui, em Portugal.
A inevitável pergunta a fazer, é a que tipo de sistema foi este, que transformou portugueses em torturadores e portugueses em torturados. Afinal este é o nosso passado mais próximo, enquanto sociedade, e era já tempo, de termos encontrado algumas respostas de forma a clarear essa memória mais cinzenta e oprimida, do que foi, a mais recente e profunda estória de dor, de Portugal.